terça-feira, junho 28, 2011

um diálogo de hoje












Por mais voltas que o mundo dê, por mais anos que passem, por mais que se pense e diga e escreva, há coisas que nunca mudam, como a cobiça de muitos, a exploração de outros, o abuso do poder sobre os que o não têm.
Vem isto a propósito de um diálogo entre
Jean-Baptiste Colbert, ministro de Estado e da Economia do rei Luís XIV e o Cardeal Giulio Raimondo Mazzarino, italiano radicado em França, sucessor do Cardeal Richelieu e Primeiro Ministro de França quase 20 anos, que me parece confirmar o que atrás escrevi. Leiam e confirmem.

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

a propósito de metáforas

O filme "Being there" (1979), traduzido entre nós por "Bem-Vindo Mr. Chance", baseado numa novela de Jerzy Kosinski conta-nos a história de um jardineiro que até à morte de seu patrão apenas conhecia o seu pequeno mundo limitado ao jardim da mansão, de onde nunca saíu. Só se afasta do seu trabalho e conhece a realidade quando é posto na rua após a morte do seu patrão. Tudo que conhecia até então era o que via e ouvia na televisão. Sucedeu então que após um pequeno acidente é levado para casa de um importante lobbista político (Melvin Douglas) pela sua mulher, responsável pelo acidente (Shirley MacLaine). A partir daí tudo que ele dizia, embora realmente fosse de um vazio total, dito de forma tão desgarrada, parecia a outros corresponder a uma grande capacidade de raciocínio, a um pensamento filosófico e cultural espantosos e de uma grande profundidade. Daí até presidente dos EUA foi um pulo. Peter Sellers, Shirley MacLaine e Melvin Douglas assinaram grandes interpretações e contribuíram muito para o êxito do filme de Hal Ashby. Em 1994, Robert Zemeckis realizou Forrest Gump, com uma brilhante interpretação de Tom Hanks que nos mostra um personagem que apesar das diferenças nos faz lembrar Mr. Chance.
Mas, por estranho que pareça, não estou a escrever sobre cinema e muito menos sobre estes filmes em especial. Estou a fazê-lo porque a crónica escrita por António Guerreiro na sua coluna «Aopédaletra» no Atual (Expresso de 18 de Junho) me trouxe à memória esse filme de Ashby que me fez rir com gosto no final da década de 70. Mas, a crónica era tudo quanto aqui queria deixar.

«Uma metáfora da doença marcou este ano o discurso do Presidente da República, no 10 de junho, quando disse que acreditava que os portugueses queriam ser curados da doença que afeta Portugal. As suas palavras inscrevem-se numa história das metáforas de má memória. A um Presidente da República não se exige conhecimentos de metaforologia, ainda que neste caso bastasse a intuição para perceber que estava a entrar num terreno perigoso. Mas essa metáfora joga com outra dimensão semântica: ela atribui a Portugal qualidade de um ser biológico. Se quiséssemos procurar um antepassado ilustre para este pensamento (chamemos-lhe assim), poderíamos citar Oswald Spengler, que em 1918 publicou "O Declínio do Ocidente", onde defendia que a civilização ocidental, na sua história, cumpria um ciclo semelhante ao de um organismo: um ciclo "natural" de nascimento, crescimento e morte. Spengler imaginava-se assim a fazer um diagnóstico da civilização ocidental e a detetar os sintomas da sua decrepitude. Semelhante tropismo biológico está presente na metáfora do Presidente. Vendo o país como um organismo vivo, Cavaco Silva vai ao encontro do pensamento mais reacionário do século XX (não apenas representado por Spengler). Faz mais do que isso: imagina-se como um pastor cheio de solicitude e preocupação pelo seu rebanho, vê o exercício da presidência como uma pastorícia e os seus discursos como pastorais. Ele quer a saúde e a salvação do rebanho, quer que a criação do parque aceite voluntariamente tratar-se. A isto poderia chamar-se "biopolítica" em estado bucólico. Mas talvez lhe possamos chamar a "síndrome de Mr. Chance", em homenagem à personagem do filme de Hal Ashby, que chegou a Presidente dos Estados Unidos por fazer metáforas que ninguém entendia».

segunda-feira, junho 27, 2011

é tudo um teatro

Na sua coluna no Expresso último, sob o título Cinismo e Piqueniques, publicou Daniel de Oliveira uma crónica em que desmascara o enorme teatro da mentira e do marketing. Sob a pseudo-capa de actos louváveis, genuinamente patriotas, ditados pelos melhores sentimentos de amor à Pátria e aos portugueses, numa ajuda solidária, como seria de esperar de tão honestas empresas e fundações, monta-se um teatro, cozinha-se uma peça à medida, enche-se uma plateia imensa de espectadores, fazem-se uns truques de ilusionismo, cria-se uma aura de ajuda voluntária, oferecem-se bens que não são deles mas dos produtores e no fim da festa, por favor, não se esqueçam de ter para comnosco, vossos benfeitores, a delicadeza de frequentar os nossos estabelecimentos e depositarem nas nossas caixas quanto puderem e não puderem. O que é que ainda hoje não nos revolta? Haverá alguma coisa? Valerá a pena eu estar para aqui a escrever, agitar ideias, lançar dúvidas, espicaçar as consciências? E saberei eu fazer tão nobre acção? Penso que não. Se quiserem saltem o meu texto e leiam apenas a crónica que vos deixo a seguir.


«A avenida da Liberdade fechou e o Continente fez a festa. O circo tinha uma benemérita função: alertar para a importância da produção nacional. Simpático, vindo da parte de uma grande distribuidora. Mas, já com o palco desmontado, seria bom começar uma conversa franca com estes senhores. O Pingo Doce teve em 2010, um aumento dos seus lucros em 40%. Depois de puxar as orelhas aos governantes, que "gostam de truques", Alexandre Soares dos Santos explicou que o segredo do seu sucesso "assenta em trabalho". Quais oráculos da nação, Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos explicam, aconselham, apoiam candidatos, debitam soluções.
Mas o 'trabalho' da Jerónimo Martins e da Sonae, que dominam cerca de metade do mercado de retalho alimentar (se juntarmos as restantes grandes distribuidoras, chega quase aos 90%) resume-se a isto: uma relação de abuso com quem produz. "Se tivermos de morrer, morremos hoje. Não vamos estar a sobreviver aos soluços". Foi assim que a gestora da Laticínios das Marinhas - empresa que produz a 13ª melhor manteiga do mundo - explicou o fim das relações comerciais com a Jerónimo Martins.
Sim, a culpa é dos políticos. Foram eles que permitiram que o território fosse coberto de grandes superfícies, deixando que estes eucaliptos comerciais destruíssem o comércio local e, mais grave, a agricultura. Foram eles que, depois de Maastricht, ancoraram o escudo ao marco, para cumprir as metas de inflação, e penalizaram de forma irreversível as empresas exportadoras, que migraram para os produtos não transacionáveis. A Sonae é um bom exemplo desta trágica migração empresarial: de líder mundial em contraplacados passou a líder nacional de distribuição. De exportador de sucesso, passou a importador que sufoca a produção nacional, tendo hoje a sua área de negócio original uma importância marginal. E assim se garantiu um crescimento económico à custa do défice externo. Estamos agora a pagar a fatura destas escolhas.
Cada vez mais portugueses estão preocupados com o facto de importarmos tanto e tentam comprar produtos nacionais. Sensíveis a estas preocupações, as grandes superfícies fazem campanhas e piqueniques patrióticos. O que é nacional é bom. A coisa deve provocar um sorriso amarelo nos produtores. Com que lata pode a Jerónimo Martins, o quinto maior importador nacional, dizer que ajuda a economia portuguesa? Com que lata pode o Continente, que baixa os preços aos pequenos fornecedores quando quer e fica com a parte de leão dos lucros, fazer campanhas pela produção nacional? É legítimo que os empresários procurem os negócios que lhes garantem maior rendibilidade. Só é bom percebermos que nem sempre os interesses de todos empresários são iguais aos interesses do país. Não se trata de decidir quem são os 'bons' e os 'maus'. Trata-se de saber se os negócios a que cada um se dedica são os que mais nos interessam a cada momento. Nas circunstâncias em que estamos, as grandes distribuidoras prejudicam a economia. Porque sufocam os produtores e aumentam as importações. É claro que vamos aos hipers para poupar. Mas não vale a penas pensar que, naqueles longos corredores, podemos ajudar o país. As campanhas pela produção nacional são apenas isso: campanhas. A realidade é, como sabem os produtores, bem diferente».

sábado, junho 25, 2011

nascer pintora

Não costumo «embarcar» nestes meninos prodígios que por aí vão abundando, a menos que tenha razões que me levem a acreditar ou a não duvidar da veracidade desses prodígios.
No que respeita à arte sou ainda mais resistente, sobretudo depois de ter sido presenteado com um magnífico vídeo que nos mostrava uma escola de ensino básico madrilena em que a professora colocara uma tela sobre a mesa e disse aos seus alunos para que usassem as mãos, os pincéis e todas as tintas que quisessem para fazer uma pintura naquela tela virgem. Pois bem, depois desta pronta, a professora conseguiu entrar na famosa ARCO de Madrid e dependurar num espaço livre a tela recém pintada. Até aqui tudo bem. O que pretendia a professora? Testar as opiniões dos eruditos frequentadores daquela famosa mostra de arte moderna. E a nossa surpresa atinge o quase impensável quando ouvimos tais mestres e amantes de arte, opinar sobre a qualidade e até o preço justo daquela obra exposta, para eles de autoria desconhecida. As palavras inflamadas de tais pseudo eruditos deixa-nos pasmados quando os ouvimos falar da força expressiva do pintor, da carga erótica do desenho, do sofrimento que transparece de tal obra. Só visto. Por isso, estou avisado e de pé atrás. Ainda mais de pé atrás quando ouvi e vi na televisão o pai de Aelita pronunciar-se sobre a arte da sua filha. Tudo aquilo sabia tanto a falso, a marketing, a embuste, que esqueci o prodígio da arte de Aelita Andre. Até que hoje, vendo um vídeo relativamente extenso em que a vemos a pintar e a criar, qual Pollock, tivemos que nos interrogar e deixar aqui as nossas inquietações. Não foi o vê-la pintar que me fez mudar de opinião, mas sim e apenas os seus olhos e a expressão deles em vários momentos da sua criação. Quem olha assim, quem regula o tempo entre o olhar, a meditação e o gesto pictoral não está a fazer de autómato ou a representar um papel. Está mesmo a criar seja o que isso seja para ela. Pouco me interessa que ela tenha a sua primeira exposição numa Galeria de Nova Iorque e muito menos que já tenha vendido todos os seus quadros. Apenas me interessou a beleza de algumas telas e o olhar de Aelita. Vamos ver no que isto dá.


sexta-feira, junho 24, 2011

o copianço dos juízes


Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, jornalista e crítico da realidade portuguesa, publicou recentemente sob o título «Honestidade dos Juízes», uma análise crítica e pormenorizada do caso do copianço no CEJ, das causas e efeitos que daí advêm. Penso que merece ser lido e tido em atenção. Sobretudo por aqueles que têm o poder de decisão nas áreas em análise.

O «caso do copianço» no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) ilustra, como poucos, uma das principais causas da degenerescência da Justiça portuguesa. Em vez de ser um verdadeiro centro de formação, o CEJ transformou-se numa espécie de universidade em que os formandos foram reduzidos ao estatuto de alunos e os formadores elevados à categoria de catedráticos. E, assim, em vez de efectiva preparação profissional, o CEJ ministra um ensino essencialmente teorético e laboratorial assente no paradigma professor/aluno, em que a cabeça dos formandos é atulhada com tecnicidade jurídica pelos seus omniscientes mestres. Não admira que, assim tratados, os chamados auditores de Justiça se comportem como alunos, para quem copiar nos exames sempre foi uma espécie de direito natural.
Só que esses alunos com 26, 27, 28 anos de idade serão, dentro de meses, magistrados que exercerão uma função soberana de forma totalmente irresponsável e independente. Sem qualquer experiência profissional, bom
senso ou capacidade de compreensão dos problemas concretos da vida, eles passam de alunos a titulares de poderes soberanos vitalícios, em cujo exercício vão continuar a reproduzir os mesmos métodos do CEJ, ou seja, a copiar uns pelos outros sentenças e despachos, às vezes com tal displicência que nem os nomes das partes corrigem. E, assim, com essa «mentalidade de copianço», eles vão, como magistrados, dedicar-se com inusitado zelo à cultura das «chocas» (cópias de decisões de outros casos, próprias ou de colegas) que diligentemente armazenam nos seus computadores. E depois, através da laboriosa actividade do copy/paste, «proferem» longuíssimos despachos, sentenças e acórdãos, sempre com a mesma prolixa fundamentação que, mecanicisticamente, vão transpondo de uns processos para os outros com soberana displicência. E, em vez de se esforçarem por resolver com sensatez e prudência os litígios da vida, eles continuarão a preocupar-se apenas com o «professor», que agora é o todo-poderoso inspector do Conselho Superior da Magistratura que os virá avaliar. E, assim, as suas decisões soberanas estarão mais voltadas para agradar ao inspector que temem do que para a questão concreta que deveriam resolver com justiça.
Infelizmente, o CEJ não forma magistrados, mas sim majestades. Os «alunos», em vez de serem preparados para prestar um serviço público à comunidade, são formatados para aceder a uma casta e defenderem à outrance um poder ilimitado e irresponsável, sem qualquer escrutínio democrático. O resultado está à vista!

Mas há um segundo aspecto que não é menos importante e que tem a ver com a honestidade. Quem utiliza métodos fraudulentos para chegar a magistrado não deixará de utilizar métodos fraudulentos no exercício dessas funções. Por isso devia haver um especial rigor na selecção das pessoas que pretendem aceder à magistratura, até porque, uma vez atingido esse estatuto, eles ficam totalmente fora de qualquer escrutínio.
Nunca vi um magistrado ser punido por desonestidade nas suas decisões e, no entanto, eles são tão (des)honestos como outros profissionais. Em todas as profissões e funções (advogados, médicos, engenheiros, professores, funcionários públicos, polícias, autarcas, deputados, governantes, etc.) há pessoas desonestas, mas quando chegamos aos magistrados eles são todos honestos. É falso. Eles não são feitos de uma massa diferente da do comum dos mortais. O problema é que eles julgam-se uns aos outros, protegem-se uns aos outros, exculpam-se uns outros, muitas vezes sem qualquer pudor. Algumas das piores desonestidades a que assisti em toda a minha vida foram praticadas em tribunal por magistrados, sobretudo juízes, sem quaisquer consequências porque a desonestidade deles é absorvida pelas sua independência e irresponsabilidade funcionais.
Existe na sociedade portuguesa uma ideia antiga, segundo a qual «se é juiz é honesto». Ora, isso não é verdadeiro. O princípio correcto devia ser: «se é honesto, então que seja juiz». Mas, como se vê com o «caso do copianço», a honestidade pessoal não é critério para a selecção dos magistrados.

para quem não entende de economia

O vídeo que hoje aqui vos deixo destina-se a todos aqueles, que como eu, pouco ou nada percebemos de economia ou dos malabarismos que alguns fazem com ela.
Esta magnífica lição do professor de economia da Universidade de Madrid, Julián Pávon, intitulada Morte e ressurreição de Keynes, explica-nos em termos simples como tudo se passa nos países do euro. Não ficaremos a saber economia, mas talvez fiquemos mais aptos a entendê-la.

o top ten no gelo

Não sei quem é (penso que é israelita), nem tão pouco sei onde se passa.
Sei apenas que dificilmente se verá patinar e dançar tão bem, com tanta técnica e capacidade interpretativa. Deliciem-se, apesar da imagem não ser famosa e o som ser bastante mau.

video

sábado, junho 18, 2011

o seu a seu dono


Sob o título «Cavaco & Barreto», escreveu hoje Fernando Madrinha estas justas e oportunas palavras nas suas crónicas habituais do Expresso. De facto, nunca se deve esquecer o passado e muito menos quando as pedras que se atiram podem atingir não só o telhado do vizinho, mas também o nosso próprio.
Por outro lado, há que ter cada vez mais cuidado com o ar que arvoramos de seres à parte, de méritos e comportamentos inatacáveis e acima de toda a suspeita, quando é cada vez mais estreito o orifício que nos separa dos demais e por consequência mais difícil de passar.
E no que respeita aos dois visados do título, se um, desde sempre, defende que nunca se engana e raramente tem dúvidas, o outro tem vindo a pouco e pouco a considerar-se um oráculo lusitano, um asceta e um despojado intelectual de interesses e honrarias, mas deixando antever ou suspeitar que o seu olhar e acção indicam o contrário. Talvez por isso esta crónica me tenha tocado e feito com que aqui a deixe para quem não teve a oportunidade de a ler antes.

«Nas cerimónias do Dia de Portugal, em Castelo Branco, o Presidente tinha um objetivo: "Trazer o interior do país para o centro da agenda nacional". Pois, o mais que conseguiu foi que lhe atirassem à cara as suas próprias responsabilidades pela situação a que o interior chegou, por força de decisões tomadas nos seus mandatos como chefe do Governo.
Por pouco não se apelou a que "o apuramento de responsabilidades" pedido por António Barreto se aplicasse não só aos recentes seis anos de José Sócrates, alvo aparente do orador, mas também aos 10 anos de Cavaco como chefe do Governo. Aliás, se a responsabilidade criminal- supondo-se que era a esta que Barreto se referia - fosse aplicada retroativamente aos agentes políticos, quem sabe se o próprio sairia imune, visto que também ele tomou decisões controversas, pelo menos aos olhos do PCP, enquanto ministro da Agricultura nos idos de 1976.
Não é fácil ser prior nesta freguesia e Cavaco paga o preço da sua longevidade política. Mas factos são factos. O abandono da agricultura a troco de uns milhões que se esfumaram rapidamente, boa parte deles nas mãos de uns poucos, foi uma opção fatal para o interior e para o país no seu conjunto. Muita gente o disse na altura e ao longo destes 20 anos. Não admira, pois, que um discurso certeiro e consistente, como o que Cavaco proferiu no 10 de junho, perca toda a sua eficácia. É difícil alguém passar a mensagem quando as preocupações enunciadas hoje não batem certo com decisões tomadas ontem».

a mestria de fred «às tiras»

Não sei porquê os «musicais» quase desapareceram do universo cinematográfico, depois de terem sido campeões de bilheteiras em todo o mundo.
Parece que começaram a ser vistos como cinema pimba. De facto, os Cahiers du Cinéma nunca aplaudiram estes filmes, tratando-os quase como subprodutos. O certo é que foram filmes de que todos gostámos e que hoje revemos através destes pequenos vídeos que, de quando em quando, nos chegam às mãos recuperados das arcas que, segundo alguns, escondem estes 'tesourinhos deprimentes'! Por mim, que era leitor dos Cahiers podem mandar-me mais, porque gosto de os ver. tanto que não resisto a deixá-los aqui. A arte de Fred Astaire, ou às tiras como então se dizia, é de tal modo perfeita que não é possível não gostar. Apreciem e recordem.

terça-feira, junho 14, 2011

ilhas diomedes


Há um lugar no mundo em que os territórios dos Estados Unidos e da Rússia e as suas ilhas Diomedes representam a passagem do Leste a Oeste, a curta distância entre si, mas com uma diferença horária de 24 horas.
Refiro-me ás quase desconhecidas e isoladas Ilhas Diomedes, no Estreito de Bering, região onde provavelmente atravessaram os primeiros habitantes da América para leste.
As duas Ilhas, conhecidas como Grande Diomedes (Rússia) e Pequena Diomedes (EUA) são separadas por uma faixa de água de apenas 4 km, que fica congelada durante boa parte do ano, permitindo, nessa altura, a passagem a pé entre elas.


Durante o período da Guerra Fria, os nativos que habitavam as ilhas antes da colonização russa ou americana não podiam circular entre as ilhas, nem trocar qualquer tipo de informação, na área que ficou conhecida como "Cortina de Gelo".

Após o final da 2a Guerra, todos os nativos da ilha russa de Grande Diomedes foram transferidos para o continente, e o arquipélago manteve um pequeno povoado apenas na ilha norte americana de Pequena Diomedes, que até hoje possui cerca de 170 habitantes, num dos locais mais isolados do planeta.

O que torna o lugar ainda mais curioso é que exatamente entre as duas ilhas passa a "Linha Internacional de Data", criando um fuso horário de nada menos que 24 horas numa distância que, de tão pequena, chega a ser visual.

Em 1987, a nadadora americana Lynne Cox atravessou os pouco mais de 3.700 metros que separam as ilhas irmãs, num gesto de aproximação entre as super potências e e que visava a paz entre as duas nações. Hoje existe um projecto de construção de uma ponte entre as duas ilhas e que se chamará Ponte da Memória.

Humberto Eco, no seu romance "A Ilha do dia anterior" aborda este tema da seguinte maneira


"Meia-noite de sexta-feira, aqui no navio, é meia-noite de quinta-feira na ilha. Se da América para a Ásia viajas, perdes um dia; se, no sentido contrário viajas, ganhas um dia: eis o motivo por que o [navio] Daphne percorreu o caminho da Ásia, e vós, estúpidos, o caminho da América. Tu és agora um dia mais velho do que eu! Não é engraçado?"

Texto composto a partir da net.

um boneco com talento

Estamos todos fartos de ver ventríloquos bons, maus e assim-assim. Talvez mais maus que bons. Mesmo nas companhias de bonecreiros há bons e maus. Que me lembre só tive grande admiração por eles quando assisti em Salzburgo a uma representação da Flauta Mágica no Teatro de Marionetes e quando era criança.
Pois bem, o vídeo que vos deixo aproxima-se muito da perfeição. Em meu entender. Talvez a vossa seja diferente, mas tenho, como provável, que seja coincidente.

nascer maestro

Quem veja este vídeo não deixará de pensar como isto é possível. Reencarnação? Ilusão criada por ensaios continuados, apoiados pelos pais? Brincadeira? O quê?
Mas, seguramente, depois de ver todo o vídeo com atenção, reparará também que nada disto pode ser forjado, já que uma criança de 3 anos jamais conseguiria decorar, com tal pormenor, tão prolongada encenação. E se pensarmos bem, repararemos que ele antecipa por segundos as mudanças de movimento, os instrumentos envolvidos, como o faria um verdadeiro maestro com a pauta na cabeça e anos de experiência. Mesmo quando é importunado pelos problemas no nariz, ele não desarma, não se desorienta e mantém a condução da música. Ele sabe o que está a fazer, porque o sente com todo o corpo. A sua idade só é aparente quando se solta a batuta e ele se desconcerta com o humor súbito.
Nascer maestro? Pode ser?

quinta-feira, junho 09, 2011

a magia da técnica

O melhor que vi até hoje. Ao ver-se esta maravilha da tecnologia, só me vem à cabeça uma pergunta - o que é que o futuro nos reservará mais? E toda esta tecnologia, todo este avanço imparável para tudo que parecia impossível, caminha em que sentido - o bem ou o mal? Imagino o mundo usando esta tecnologia ao serviço do Homem e da sua felicidade e bem estar. E, se pelo contrário, o homem ou alguns homens, se servem dela para a nossa submissão e destruição?
Vejam com atenção, usem o ecrã total e interroguem-se. Estamos a assistir a um espectáculo de encantamento e magia e a uma acção de marketing. Mas assistimos, sobretudo, ao avanço da ciência e do seu poder. Para já, é uma maravilha. Esperemos que continue a ser.

domingo, junho 05, 2011

às urnas, hoje


Não é a primeira vez que transcrevo aqui os certeiros, justos, inteligentes, bem informados e sempre bem humorados pensamentos do ilustre Comendador Marques de Correia, fazendo-lhe mais uma vez a vontade de não desvendar o seu real nome, continuando a respeitar o nome que para si tomou.
Hoje é dia de eleições e já nada mudará as decisões tomadas por cada um após o prolongado período de reflexão ... Não há pois qualquer inconveniente em aqui transcrever tão bem informado testemunho, publicado no Expresso de ontem, com o título «Às urnas, seus mortos (que velamos por vós)». Parece para rir, mas não é.

«Às vezes, rio-me da importância que a comunicação social e as pessoas vulgares dão às campanhas eleitorais. Em particular, a esta campanha. Quem, como eu, já sabe o resultado até às centésimas não pode deixar de rir com aqueles pândegos a ficarem roucos de tanto gritar.

Nem Sócrates nem Passos o sonham, e os outros muito menos, mas tudo foi combinado no hotel de Bilderberg, em Arnhem, Holanda, a instâncias de um misterioso senhor Coubert, ou Joubert ou Loubert (há dúvidas sobre a correta pronúncia do seu nome). Comigo, estiveram presentes dois portugueses cujo nome jurei não revelar, embora eles sejam tão importantes que vocês nem sabem quem são. Dos outros, lembro-me de Ariel Goldschmidt, que representa os interesses da banca judaica; Adrià La Fuente, uma estrela ascendente do Opus Dei; Rudolf Grimms, que faz a ponte entre a Grande Loja Suíça-Alpina (repleta de banqueiros) e a Grande Loja de Inglaterra, poderosas obediências maçónicas; Rober Vilain, um templário esotérico; o cardeal Esquemini da Cúria Romana, Rouskiev, um enviado dos interesses petrolíferos russos; Danny Husk, um agente importante da CIA na Europa; Poul Thomsen, do FMI, Gerard Steinberg, um alemão da Trilateral e um chinês de nome Bao.

Estes eram apenas os mais importantes, havia outros, menos recordáveis, que se movimentavam com recados e intrigas sobre outras paragens. Como Bao deixou claro, Portugal é um pequeno problema, mas tem de ser resolvido por causa do euro, que por sua vez tem influência no dólar e no yuan. A fragilidade de um dos vértices deste triângulo afetaria terrivelmente a possibilidade de o capital financeiro continuar os seus negócios lucrativos - eis o que ali reunia tanta gente de tanta proveniência, para resolver o "pequeno problema português". Na verdade, as coisas ficaram rapidamente solucionadas. Quem ganha, por quanto ganha e quem perde e o que lhe acontece (está em aberto saber se é um lugar na Gazprom Renováveis ou ir dar aulas de política).
Jantámos bem e voltámos aos respetivos países.
Em Portugal começou a campanha com uma luta taco a taco. Essa é a maneira habitual, explicou Grimms, de levar mais gente a votar, instalando-se a ideia de que o povo decidiu o futuro do país. Vilain ainda tentou a piada de os deixar empatados - "só para nos divertirmos" - mas a ideia não pegou. De qualquer modo, Goldschmidt vincou o programa: No pain, no gain, como diz o provérbio! Ou seja, sem o sofrimento (dos tugas) não há ganho (nosso).
Até agora a campanha seguiu o guião.
Ninguém fala das medidas de Goldschmidt, autênticas imposições do grande (diria mesmo enorme) capital financeiro. Os pequenos incidentes, sem importância, como previu e preparou Rouskiev, tomaram conta do dia, a dia. As sondagens evoluíram de modo a que não se saiba quem será vencedor, dando a entender que a decisão cabe ao eleitorado, embora já desenhem os contornos da solução. Mas o importante é que os bancos voltem aos lucros e lá chegaram de Bruxelas os milhões.
Podem perguntar-me porque revelo, pela primeira vez, este tipo de informações. Ora, cinicamente, respondo: porque vós não acreditais! Ireis votar de qualquer modo, como zombies; mortos-vivos comandados por uma força superior. Como dizia La Fuente, "mandar os portugueses votar é como mandar mortos para às urnas. Quase me apetecia gritar: Às urnas, seus mortos!". E todos se riram, embora o russo e o chinês não tenham percebido a piada, pois nos seus países não metem cadáveres nas urnas, despacham-nos diretamente para a vala comum, acrescendo o facto de, na China, não terem, sequer, votos.
Poder-vos-ia dar já os resultados das eleições, mas os presentes na reunião fizeram um acordo com o Rui Oliveira e Costa, de modo a ser ele a dá-los às oito da noite de domingo, através de uma sondagem à boca das urnas que está numa gaveta lá de casa. Só por isso, não os partilho.
Porém, munido destes segredos, posso assegurar-vos: aconteça o que acontecer, os ricos vão continuar ricos, os pobres vão continuar pobres e o Tony Carreira vai continuar a encher concertos. Ou seja, no essencial a vida não muda, é previsível. E sabem porquê? Porque num hotel ao pé de Arnhem, o hotel de Bilderberg, alguns homens superiores tomam conta de vosso futuro. E do de Sócrates. E do de Passos».

sábado, junho 04, 2011

para memória futura


Peço a todos que aqui venham que não deixem de ler o artigo que Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso de ontem, dia 3 de Junho de 2011, sob o título «Já se disse tudo» e que de seguida transcrevo, na íntegra.
De enorme lucidez, engloba todos os pontos que não podem deixar de ser cumpridos, seja por quem for que nos venha a governar, para que Portugal se salve, mantenha a sua soberania e perdure em nós o orgulho de ser portugueses.


"Já se disse tudo, mas, como ninguém ouviu, vou dizer outra vez"


«1. Vamos aprender agora, de vez e dolorosamente, que nenhum país pode viver para sempre a crédito: chega o dia em que é preciso pagar a conta.
2. Apesar de todas as lamentações, é forçoso reconhecer que Portugal evoluiu de uma forma incrível nos últimos trinta anos: talvez tenha aumentado o fosso entre ricos e pobres, mas a percentagem de pobres é incomparavelmente menor do que era na geração anterior e infinitamente menor do que era há cinquenta anos.
3. Mas não somos um país rico - nem em território nem em riquezas naturais. Nestes trinta anos, fomos muito ajudados para sairmos da situação de subdesenvolvimento em que estávamos. Mas agora é connosco: há outros que precisam ou merecem mais do que nós. Agora, seremos o que conseguirmos fazer com o nosso trabalho, a nossa qualificação, a nossa imaginação e o nosso juízo.
4. Não podemos aceitar que a sobrevivência da economia e das empresas dependa do favor do Estado, do tráfico de influências político, dos baixos salários ou de uma mão-de-obra desqualificada.
5. Mas não podemos aceitar também que a lei proteja os preguiçosos, os trabalhadores das falsas "baixas", que proteja os que têm emprego garantido para a vida e em nada se esforçam contra os que querem um lugar no mercado de trabalho e não o encontram.
6. Não podemos aceitar nem uma juventude condenada ao desemprego ou à imigração nem uma juventude habituada à ociosidade, ao consumismo e à exigência de todas as facilidades.
7. Não podemos pactuar com uma sociedade onde todos reclamam direitos e quase nenhuns reconhecem deveres para com a comunidade. Não podemos pactuar com os maus cidadãos, com os que roubam na contratação com o Estado, que fogem ao fisco, que vivem em off-shores ou nos cafés e blogues a dizer mal de tudo e de todos.
8. Não podemos consentir os médicos que, no horário público, estão a atender clientes privados, que assinam as falsas baixas ou que receitam conforme as benesses dos laboratórios.
9, Não podemos tolerar que os professores que não prestam, emboscados atrás de sindicatos cujos dirigentes há muito não sabem o que é ser professor, queiram ter os mesmos direitos e regalias que aqueles que se esforçam, que têm orgulho em ensinar e que se preocupam com o futuro dos seus alunos.
10. Não podemos deixar que a escola pública e gratuita, sirva para substituir pais que não educam e aturar alunos que não estudam, meninos mimados e mal-educados a quem o sistema facilita a vida com exames de fantochada, em benefício das estatísticas.
11. Não podemos fechar mais os olhos ao papel funesto das sociedades de advocacia de tráfico de influências, que cativam a decisão política e ajudam os governos a assinar contratos ruinosos para os contribuintes.
12. Não podemos tolerar mais a promiscuidade de negócios entre o que é público e o que é privado, com os seus protagonistas variando de campo conforme as circunstâncias e as oportunidades.
13. Não podemos continuar a sustentar mais Fundações privadas com dinheiros e bens públicos, falsos mecenas do favor político.
14. Não podemos manter 800 institutos e empresas públicas e municipais, reproduzindo e multiplicando tarefas, lugares e despesas que cabem à Administração.
15. Não temos de sustentar todos e cada um dos "agentes culturais" ou autodesignados como tais, que se acham no sagrado direito de verem sempre pago pelos contribuintes o seu imenso talento.
16. Não podemos pagar mais rotundas e chafarizes e ornamentos municipais inúteis para aos senhores autarcas mostrarem obra e ganharem eleições.
17. Não podemos deixar que as autarquias se sustentem através dos impostos imobiliários, premiando quem mais constrói e quem mais destrói.
18. Não podemos tolerar mais essa coisa infame que é o despesismo irresponsável do governo da Madeira: se querem ser independentes, que o sejam a sério!
19. Não podemos continuar a sacrificar todo o país, a sua paisagem, a sua sustentabilidade, ao lóbi da construção e do turismo massificado, que já só é rentável com os projectos PIN e a destruição do que resta de zonas protegidas.
20. Não podemos continuar a apostar na construção civil e nas obras públicas como fonte privilegiada de desenvolvimento económico, quando já somos o país da Europa com maior índice de habitação própria e maior número de quilómetros de auto-estrada por habitante.
21. Não podemos continuar a pagar para abandonar a agricultura, a desertificar o interior, a concentrar a população em megacentros urbanos invivíveis, que são território privilegiado para o crime, o abandono escolar, a miséria e a desumanização.
22. Não podemos entregar os melhores terrenos agrícolas à construção, ao turismo, aos eucaliptos e aos golfes, e depois irmos aos supermercados comprar fruta de Israel, legumes de Espanha e carne da Argentina. Em trinta anos, e com todas as ajudas comunitárias, o nosso défice alimentar aumentou 30%. Agora, pagamos.
23. Não podemos sustentar umas Forças Armadas que querem sempre os últimos gritos da tecnologia militar (opinião dos americanos), mas que têm mais almirantes e generais por marinheiros e soldados do que qualquer força militar comparável.
24. Não podemos pagar um Serviço Nacional de Saúde que se presta a toda a espécie de abusos de profissionais, de fornecedores e também de utentes. "Tendencialmente gratuito" não pode ser sinónimo de usar e abusar, como se, no fim, não houvesse alguém a ter de pagar.
25. Não podemos, financeiramente, ter um país com 70% de assistidos com dinheiros públicos.
26. Temos de ter o "Estado social" que podemos sustentar e não aquele que uns exigem e outros prometem, sem pensar nas gerações que se seguem. Devemos ajudar, não todos os que reclamam, mas os que não têm defesa, não têm alternativas e não têm oportunidades.
27. Não podemos consentir mais Parcerias Público Privadas que são contratos leoninos à custa do Estado, e temos de rever, se necessário unilateralmente, as existentes.
28. Não podemos continuar a permitir que o Estado continue cativo do poder dos lóbis e temos de fazer legislação para que eles não continuem a condicionar todas as mudanças e reformas recorrendo ao expediente das providências cautelares.
29. Não podemos mais tolerar uma Justiça que há muito esqueceu que está ao serviço dos cidadãos e não de si própria. Temos de simplificar, desformalizar e dessacralizar a Justiça, torná-la acessível, razoável em tudo e inteligível.
30. Temos de terminar com a independência e irresponsabilidade funcional do Ministério Público e colocá-lo ao serviço do país, através da política de Justiça do governo eleito e sob supervisão da Assembleia da República.
31. Na ditadura do Estado Novo, o regime criou as corporações para melhor as controlar. Na democracia, são as corporações que dominam e trazem cativo o Estado. Não são os magistrados que devem determinar a política de Justiça, ou os médicos a de Saúde, ou os professores a de Educação: são os governos eleitos, que respondem pelas políticas adoptadas.
32. Temos de ter leis que criminalizem e ponham fim à partidarização do aparelho do Estado e que impeçam a confusão entre o desempenho de funções políticas e o serviço de interesses privados.
33. Mas não podemos exigir qualidade na política se aceitamos pagar a um deputado ou a um ministro um terço ou metade do que ganha um gestor público, um general ou um juiz do Supremo.
34. Temos de aceitar em tudo uma política que privilegie o trabalho e o esforço contra a preguiça e a batota; o risco e a inovação contra a segurança e a protecção dos dinheiros públicos; o mérito contra a mediocridade; a independência contra a "cunha" e o favor; a poupança contra a ostentação; a luta por um futuro melhor contra a comodidade dos "direitos adquiridos".
Este é o programa de governo que eu desejo para 6 de Junho.»



E EU TAMBÉM

quinta-feira, junho 02, 2011

politiquinha

Tem sucedido com alguma frequência deparar-me com textos escritos e assinados por cronistas com quem estou em desacordo, normalmente, mas que uma vez ou outra me surpreendem pela lucidez de chamarem os bois pelos nomes e defenderem opiniões ao arrepio da massa pouco crítica que pensa exactamente o contrário do que eles escreveram. Porque considero esses casos excepções em relação àquilo que normalmente defendem, poderia quase abusivamente chamar-lhes cronistas bissextos, como chamava Manuel Bandeira aos escritores que poucas vezes ou uma só vez tinham escrito algo que fazia deles, realmente, escritores.
Vem isto a propósito da crónica de Henrique Raposo no Expresso de 28 de Maio passado que intitulou politiquinha. Embora a maior parte das vezes discorde das suas opiniões, não deixo, contudo, de ser seu habitual leitor. E, como sempre, seja com quem for, seja sobre o que for, ou gosto ou não gosto. Não sou propriamente de clubes, mas de quem me parece ter razão e fazer bem o que faz. São estas as razões que me levam a deixar aqui essa crónica, pois pode suceder que alguém que a não leu a possa ler agora.


«A culpa não é só dos políticos. A culpa não é só de Sócrates. A culpa também é da elite que filtra o ar mediático. A culpa também é dos Marcelos desta terra. Os Marcelos Rebelos de Sousa têm sido os guardiães do statu quo que nos conduziu à bancarrota. Se Sócrates é culpado pela ação, Marcelo Rebelo de Sousa é culpado pela inação. Porquê? Porque o senhor-professor-doutor-marcelo-rebelo-de-sousa é o máximo representante de uma forma tipicamente portuguesa de estar na política, a saber: o tuga consegue falar de política de forma apolítica. Sim, digo bem, apolítica. Marcelo não defende valores ou causas políticas. E, quando defende, é tão vago e impreciso como a licenciatura domingueira de Sócrates. É por isso que, após décadas de comentários, uma pergunta fica sem resposta: Marcelo acredita em quê? Marcelo representa o quê? Quando fizerem a história desta III República, os historiadores não vão encontrar nada de substancial nos milhões de minutos que Marcelo já gravou. Este homem falou, falou e falou, mas não disse nada, não gravou nada na pedra. Alguém se lembra de uma convicção profunda de Marcelo?
Ora, quem não tem uma visão normativa acaba por reduzir a política à politiquinha dos truques e tricas. E Marcelo é isso mesmo. Marcelo é o homem dos esquemas (ele diz que são "cenários"). É o Gabriel Alves da politiquice, sempre entretido num treco-lareco tático que transforma a política num jogo de futebol, onde só existem erros táticos, e não erros de substância. E o pior é que este vazio marcelista é o espelho da cultura (a)política que domina a pátria. Marcelo é a norma, e não a exceção. Em Portugal, a política é transformada - de forma marcelista - num constante joguinho futeboleiro entre partidos. Há a liga de futebol de Rui Santos e depois há a liga politiqueira de Marcelo Rebelo de Sousa. E, atenção, as semanas políticas são mesmo vistas como jornadas. Cada semana é uma entidade separada da anterior, porque as notas da semana x, ora essa, não podem ser iguais às notas da semana y. O país é assim cortado em 52 pedacinhos sem ligação entre si. Como é óbvio, no meio deste carrossel, os problemas estruturais não são analisados. Alguém se lembra de ver Marcelo a assumir um compromisso claro com um conjunto de reformas para o país? Eu não. Marcelo nunca se comprometeu a fundo com projetos ideológicos e políticos (o que é grave para um pensador. .. político). E, nas poucas vezes em que se distraiu e começou a falar mesmo de política, Marcelo criticou sempre as mudanças "neoliberais", as tais que a troika acabou por impor. Agora, ouvimos muita gente dizer "ai, foi preciso um estrangeiro para colocar os portugueses a falar do que interessa". Pois, o debate sobre as reformas foi sempre bloqueado por Marcelo & Cia. A nossa massa crítica de topo, liderada por Marcelo, quis ser uma mera gestora do pântano situacionista, e desistiu de pensar a mudança. Alguém se recorda de uma convicção profunda de Marcelo?

O prof. Marcelo, preclaro oráculo da nação, não tem as mãos sujas como Sócrates, mas esta crise também tem a sua assinatura. Na última década, o nosso espaço público não discutiu ideias. Discutiu táticas e timings. A culpa disto não é do povo, é dos Marcelos Rebelos de Sousa. Alguém se lembra de uma convicção profunda de Marcelo?»