terça-feira, março 31, 2015

herberto helder, o poeta



Paulo Tunhas escreveu, dia 27 de Março, no Observador, estas palavras sobre Herberto Hélder. Gostava de as ter escrito eu que tive o privilégio de o conhecer e conversar não poucas vezes, mas sempre poucas, como gostaria. As minhas palavras ficarão para depois, quando eu for capaz.
 
Herberto Hélder, O Poeta
A poesia não deixa as palavras intactas, ou quando as deixa é má poesia ou poesia nenhuma. E certamente que a poesia de Herberto Helder, sendo grande poesia, nada deixa intacto. Tópicos herberto helder memória poesia
 
No meio das desgraças e venturas do mundo, e das várias amostras de loucura que os dias trazem, há certas coisas que se constroem e são feitas para durar, servindo para nos dar prazer e para, na medida do possível, nos proteger daquela parte da banalidade que ofende e agride. A poesia de Herberto Helder é uma dessas coisas. A poesia não deixa as palavras intactas, ou quando as deixa é má poesia ou poesia nenhuma. E certamente que a poesia de Herberto Helder, sendo grande poesia, nada deixa intacto. Desorganiza, porque o caos é necessário para a criação, e a partir dessa desorganização surge um organismo composto por sentidos transformados e como que magicamente coerentes entre si, onde, no entanto, se encontra sempre, presente e não recalcado, o caos inicial, espécie de advertência da vida. A grande poesia não se pode dar ao luxo da gentileza, e a poesia de Herberto Helder é tudo menos uma poesia da gentileza, exceptuando aquela gentileza feroz que olha de frente a vida do enigma e procura – e consegue – dar forma a um espanto informe. Em Cobra:
Não ames roupas, azáleas, água
cortada, louça,
― a leveza. Ama ― digo ―
o que é carregado: as frutas, ou a noite
e o calor, e os negros laços atados
dos animais.
Há uma coisa em Herberto Helder que é comum a toda a grande poesia. É a criação apresentar uma espécie de necessidade própria onde o lugar para o arbitrário é mínimo. O que se chama “estilo” é um bom bocado isso: uma organização não redundante do aleatório, como lembrou um filósofo. E uma organização que, no caso da poesia, se faz através de uma série de operações sobre o sentido comum das palavras da tribo. Se a expressão “trabalho poético” pode ser utilizada é exactamente por relação a isto, por relação ao modo como se procede à transformação do sentido das palavras. Se lermos um poema onde a palavra “mar” nada significar senão a costumeira ideia de mar, podemos ter a certeza de que é um mau poema. Em Herberto Helder isso nunca acontece. Há sempre operações sobre as palavras. A palavra ”casa”, por exemplo, logo no primeiro poema do seu primeiro livro, A colher na boca.
Falemos de casas, do sagaz exercício
de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que
vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à
lama,
de doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas
chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito
de durar contra
a boca subtil, rodeada em cima pela
treva das palavras.
Perceber a poesia de um poeta é, pelo menos idealmente, capturar as operações que ele executa sobre o sentido comum. Nos maus poetas, isso é relativamente fácil. Elas estão, por assim dizer, à vista. Por isso, a imitação faz-se sem problemas. Nos grandes poetas, ela tende para o impossível, ou então é insuportavelmente trôpega. Um caso paradigmático é Emily Dickinson. Não há andaimes que nos ajudem a perceber como aquilo se faz, ou se os há eles são apenas aparentes, pertencendo realmente à forma interna daquela poesia, e o trambolhão é fatal. Essa impossibilidade de imitar valiosamente aquilo que mais apeteceria imitar é quase um sinal indubitável da soberana realidade de uma poesia. Caem-nos os braços. “Como é possível fazer isto?” Há muitos bons poemas escritos em português depois de Pessoa. Há um de que me lembrarei sempre, “O ciclópico acto”, de Luiza Neto Jorge, o maior poema erótico (se é que a expressão faz sentido) da poesia portuguesa da segunda metade do século XX: Inicia-se, portanto, o cicló- pico acto. Mas há, obviamente, vária outra muito boa poesia. O’Neill vem logo ao espírito. O que faz a singularidade de Herberto Helder é o ele ter praticamente publicado só grande poesia. O que isso revela sobre o seu acerto crítico, resultado sem dúvida do profundo conhecimento que ele tinha das operações poéticas que tinha inventado, é enorme. Não há um só poema dele que nos permita uma ocasional distracção. Nisso só houve, no século XX português, alguém de comparável: Pessoa, é claro. Também a poesia de Pessoa é inteiramente construida por operações sobre o sentido primeiro das palavras, que as transformam e as tornam num objecto de contemplação novo e inesperado. Logo desde as primeiras linhas da Ode à noite, por exemplo, a palavra “noite” já não é a noite do sentido comum. Pessoa, é claro, através dos heterónimos, produziu diferentes tipos de transformações: as de Caeiro não são as de Campos, nem as de Campos as de Ricardo Reis, ou estas as do próprio Pessoa. E também Pessoa, como Herberto Helder, era dotado de um juízo crítico perfeitamente acertado sobre o valor daquilo que escrevia. Prova-o o que publicou em vida. Numa coisa, é certo, Herberto Helder terá mais sorte do que Pessoa. Não verá a sua obra ganhar maior celebridade através de algo menor, como aconteceu a Pessoa com o Livro do desassossego, de Bernardo Soares, que é quase um epígono que Pessoa ele próprio criou para si mesmo (o exacto contrário, portanto, de um heterónimo). Dado o gosto generalizado pelo epigonal, não admira o sucesso obtido junto do público, à cata de consolos poéticos em prosa que o façam sentir-se inteligente. A Herberto Helder, queira Deus, isso nunca acontecerá.

sexta-feira, março 27, 2015

sem esforço

Nunca vi melhor trabalho de 'gatas'...

quinta-feira, março 26, 2015

o desconcerto do mundo



Transcrevo a crónica 'Fraco consolo' da Revista do Expresso desta semana, intitulada «Desconcerto do mundo», da autoria de Pedro Mexia.

PERCEBI QUE NÃO HAVIA OUTRO TEMA E PORVENTURA OUTRO POETA NA NOSSA LÍNGUA, OUTRO QUE CONTASSE TANTO, E CONTASSE TUDO

«Lembro-me de ter estudado Camões, como toda a gente, “o épico e o lírico”, e gostei daquele portuguesismo interrogativo e inquieto, mais do que do esplendor de Portugal, que, confesso, nunca me tocou; mas muito mais vezes citava o poeta “neopetrarquista”, como classificavam os manuais, à época eu entendia sobretudo esse amor idealizante, depois vi claramente o Camões sensual e experimentado, tumultuoso, caótico até, com musas várias, de grandes e pequenos instintos, meninas e mulheres que aparecerem e desaparecem e que é preciso defender como um manuscrito, daqueles que salvamos a nado. Eu sou devedor em tudo ao soneto que começa “um mover de olhos, brando e piedoso”, não naquilo que escrevo, bem entendido, mas na minha vida, facto que tem sido notado, com insistente escárnio. Mais tarde, cheguei aos poemas ditos “do desconcerto do mundo”. Quando os encontrei, era demasiado novo, conhecia alguns desconcertos, mas nunca me lembraria desse termo filosofante, que nem compreendia bem; e não saberia chamar à minha pequena vida ‘o mundo’ ou sequer parte do mundo, antes um istmo ou arquipélago, coisa contígua ao mundo, mas dele nunca fazendo parte por inteiro, maleita da qual nunca me livrei, o que tem sido notado, com escárnio insistente. Quando se me foi chegando a idade de meio caminho, esta de agora, mas à qual aportei antecipadamente, demasiado cedo, percebi que não havia outro tema e porventura outro poeta na nossa língua, outro que contasse tanto, e contasse tudo. Porque todos os nomes que ia dando à minha experiência negativa do mundo eram insuficientes. Havia frustração, desalento, incompreensão, incompletude, desânimo, desconformidade, mas soavam a queixumes, e queixumes meus, respeitantes a um ‘eu’ que era o meu e que, por esse facto, dificilmente interessavam a mais alguém, excepto a quatro ou cinco pessoas que por sangue ou afecto se importam. “Desconcerto”, pelo contrário, não era um termo psicologista nem sentimental. Desconcerto não era uma característica minha, ou de Camões, ou de quem fosse, mas um atributo do mundo. Era um estado em que o próprio mundo se encontrava, e que nós, ao considerá-lo, apenas verificávamos: um mundo confuso, absurdo, sem sentido, desacertado, desordenado, desvairado, dissonante, transtornado. Nem nos momentos mais felizes, fugazes ou não, acreditei que ‘o mundo’ fosse outra coisa que não isso. E isto tem, inevitavelmente, uma dimensão moral. Cito ‘Esparsa ao desconcerto do mundo’: “Os bons vi sempre passar/ no mundo graves tormentos;/ e, para mais m’espantar,/ os maus vi sempre nadar/ em mar de contentamentos”. Talvez nem todos os maus, ou aqueles que por facilidade assim considero, nadem num mar de contentamento; mas todas as pessoas que considerei até hoje verdadeiramente boas passaram graves tormentos, muitos dos quais devido à sua bondade, que eu defino de forma falível e discutível, mas veemente. Quando há dias me perguntaram: “De que vale a pena ser bom?”, não soube responder, ou não quis, porque daria uma resposta ética, desligada do sofrimento. E a ética pode destruir a esperança dos esperançosos. Até porque, mais tarde do que outros talvez, mas não com menos impiedade, também eu fui quebrado pelo desconcerto, por esse choque com o mundo que faz de nós pessoas más, porque ser bom nos deixa desarmados, nos atira aos leões. E aos poucos, e depois de súbito, aconteceu-me o mesmo que ao sujeito poético da ‘Esparsa’: “Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ fui mau, mas fui castigado:/ Assi que, só para mim/ anda o mundo concertado»
pedromexia@gmail.com Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia

segunda-feira, março 23, 2015

a ponte sobre o tejo

Um documentário histórico. Atravessei a ponte neste dia e regressei a Lisboa.


sábado, março 21, 2015

breve explicação do alzheimer

O saber não ocupa lugar, mas o Alzheimer vai ocupando todo o espaço...


quinta-feira, março 19, 2015

há jogar e jogar

Como eu gostava de ter jogado assim! Será que posso dizer que alguma vez joguei ou só brinquei?


isso, é que não

Para memória futura...



PRESIDENTE DA REPÚBLICA, NÃO!...
 
(glosa sobre o poema de Ary dos Santos intitulado “Poeta Castrado, Não!”)
Chamem-lhe o que quiserem,
por justiça ou rejeição:
cabeçudo, dromedário,
fantoche de eleição,
parvónio, salafrário,
mestre-escola aldrabão,
oportunista, falsário
malabarista, cabrão.
Chamem-lhe o que quiserem:
Presidente da República, não!...
Os que sabem, como ele,
as linhas com que se cose
vêem o interesse dele
em manter a sua pose:
egoísta, trambiqueiro
distorce a realidade,
ao escrever cada “Roteiro”,
para ter visibilidade!...
Os que sabem, como ele,
governar-se e encher a pança
aceitam que seja dele
tanta sede de vingança:
Político vingativo
e que, disso, não se cansa,
não quer saber do aflitivo
caos da actual governança!...
O tipo não faz história.
- Sua morte lenta é fatal!...
Irá ficar na memória
como um mesquinho banal!...
O seu fim poderá ser
uma penosa agonia!...
O Povo irá fazer
dele escárnio, em cada dia!...
Vai acabar por morrer,
ao parir a ninharia
só descrita, a bem dizer,
nos “Roteiros” da fantasia!...
Chamem-lhe o que quiserem,
por justiça ou rejeição:
Chamem-no até p’lo nome,
Cavaco, sem coração,
ao ver que se passa fome
e nada faz p’la Nação!...
Chamem-lhe o que quiserem,
por justiça ou rejeição:
Demagogo, mau profeta,
falso professor, ladrão,
um narcisista pateta,
quando calado ou não.
Será tudo o que disserem!...
 
PRESIDENTE DA REPÚBLICA É QUE NÃO!...
17/03/2015

terça-feira, março 17, 2015

sexta-feira, março 13, 2015

falando de res publica

Há muito tempo que não ouvia um discurso tão bem estruturado. Gloria Alvarez, sabe pensar e sabe o que diz e como dizê-lo. Inimiga do populismo, partidária da República, espero que siga no bom caminho e não caia nunca no populismo que combate, mas para onde com as suas qualidades pode um dia ser empurrada.


quinta-feira, março 12, 2015

da perfeição

Um pesado fardo. De quê? Cada um que responda.


já falta pouco tempo

Se não assistiu em directo, pode ver agora e tirar as suas conclusões.

sábado, março 07, 2015

a importância da música

Prestem atenção ao que os investigadores já confirmaram, sobre a importância da música no nosso cérebro, não só ouvindo-a, mas sobretudo tocando-a. Quem tem filhos jovens preste particular atenção.


quinta-feira, março 05, 2015

a carmen da crise

Uma Carmen para os tempos que correm...-


quarta-feira, março 04, 2015

macaco sacanita

Quando o gozo é superior ao risco...


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domingo, março 01, 2015

o milagre dos pães...

O milagre dos pães em versão oriental. Vídeo de má qualidade, mas de alta magia.


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