Uma escrita feita em sobressaltos, feita à medida que me sento e tenho papel ou tecla para premir. Uma escrita que é feita de vivências, factos, interrogações, alegrias, dores, obrigações, prazer. Uma escrita de necessidade. Uma escrita para respirar.
Ouvi há dias uma entrevista no Rádio Clube, com Valter Hugo Mãe. Sabia-o escritor de mérito reconhecido, vencedor do Prémio José Saramago, com o romance «O Apocalipse dos Trabalhadores». Não sabia, contudo, que acumulava a escrita com a música. Ouvi-o contar com grande modéstia e aparente verdade a forma como entrara no mundo da música, como vocalista da nova banda Governo. Ele acha que não tem voz. Mas a mãe pensava o contrário. Foi necessário que um dos elementos dos Mão Morta tivesse a mesma opinião da mãe para ele se aventurar, com timidez e alguma vergonha, a dar o salto definitivo para esta nova existência cultural. Confesso que ainda não tive ocasião de ler o Apocalipse, mas já ouvi várias vezes «Meio Bicho e Fogo». Se resolvi deixar aqui este apontamento foi porque gostei do que ouvi e por isso o quero partilhar. O mesmo espero fazer quando ler o Apocalipse.
Foram duas canções muito importantes para mim, há mais de 40 anos. Sobretudo Ma Liberté que cantei centenas de vezes e que, por estranho que pareça, cheguei a pensar que a cantava como se tivesse voz para o fazer. Não teria voz, mas tinha alma.
Estive hoje a rever vários vídeos de cantores que me fizeram vibrar há algumas décadas. Era minha intenção mostrá-los a cantar enquanto novos e depois já perto do fim. Embora me comovessem e ainda mostrassem o seu talento, definitivamente, não eram os mesmos. Não consigo fazer-lhes a maldade de aqui os expor quando perderam qualidade. Quero sim, homenageá-los tal como os conheci, tal como os conservo na minha memória. Convosco, Juliette Greco cantando Feuilles Mortes e Serge Reggiani cantando Le petit garçon.
Penso que um blog também deve ter preocupações educativas. Este vídeo da Polícia de Gales, com as suas chocantes imagens, parece ser um bom exemplo de prevenção rodoviária, já que pode levar a pensar todos aqueles que não respeitam as regras da condução segura e pensam que os acidentes só acontecem aos outros.
A ganância mata, mesmo que demore a matar. Umas vezes de forma fulminante, outras progressivamente, outras de forma tão lenta que o ganancioso não se apercebe para onde caminha. O ganancioso é diferente do ambicioso. Este último, embora por vezes criticável, tem na maioria das vezes mérito e qualidades pessoais. O ganancioso é apenas um ganancioso. Merece ser engolido pela sua ganância. Será que o vídeo é crítica ou apenas diversão?
Um gravíssimo ataque viral impossibilitou-me de durante sete dias colocar novos posts neste meu blog. Felizmente quem sofreu este ataque não fui eu, mas o meu computador que se encontra permanentemente sujeito a ataques, uma vez que todos os dias são fabricados 35.000 novos virus ou maliciosos que se estão nas tintas para a bateria de antivirus que normalmente os esperam. Não quero deixar de retomar já hoje a respiração normal deste blog que se faz de vida e não de silêncios. Mas hoje só aqui colocarei um vídeo de que gostei muito, de origem russa, uma animação sobre desenhos e sonhos de Marc Chagall. Quis contudo deixar antes desse vídeo, um slideshow sobre a obra deste magnífico pintor, para que quem não conheça a sua pintura, possa entender melhor a animação.
Vi há dois dias um filme sobre a vida de Maria Callas. Sempre tive uma paixão por ela, pela sua voz, pelo seu temperamento, pelo vulcão das suas emoções. Sempre me entristeceu a forma como se subjugou ao amor sem sentido que a levou não à felicidade que alvejava e merecia, mas à sua destruição. Há puristas que dizem que a sua voz não era perfeita. É por isso que gosto de não ser purista e apreciar as coisas pelo que elas me fazem sentir e vibrar. Digam o que disserem, Callas foi única. Para mim, que gostava também da Joan Sutterland, da Renata Tebaldi, como gosto agora da Anna Netrebko, todas cantaram a Norma e todas foram (e esta última ainda é), divinas. Mas hoje desencantei no YouTube esta preciosidade gravada há décadas pela RAI - que apesar da falta de meios da altura ainda hoje nos permite vibrar com esta voz e com a música de Vincenzo Bellini - e não quis deixar de a partilhar convosco.
Este vídeo é um verdadeiro achado. Filmado há décadas, na televisão brasileira, com um cenário e orquestra condizentes com a época e com uma dupla que para mim era completamente improvável. Apenas ignorância e preconceito meu. Afinal maneiras de ser, preferências políticas, gostos musicais diferentes não impediram que a dupla se entendesse. Duas grandes vozes para dois públicos aparentemente diferentes. No fundo, a vitória da música.
Raul Solnado morreu, mas eu não sou obrigado a acreditar. Eu sei que ouvi as notícias, vi as reportagens e o crematório. Mas também ouvi as pessoas - os amigos, os que disseram sê-lo, os admiradores, a gente humilde que lidou com ele, e reparei que nenhum deles acreditou que Raul Solnado tivesse morrido. Mudou apenas de residência. A memória da sua arte, a sua maneira de ser, a generosidade de que todos falaram, essa permanece e nem sequer mudou de residência. Devo-lhe o ter-me ajudado a passar muito tempo feliz, da gargalhada à lágrima sensível. Por tudo isso, obrigado Raul e até sempre. E tem a certeza de que farei por ser feliz, já que assim queres...
Num Portugal de ais, de cada vez mais ais, justifica-se que junte aqui a Cantiga dos Ais de Armindo Mendes de Carvalho, na voz do talentoso Mário Viegas que tão cedo nos deixou.
Cercado por netos e amor há quase um mês, não me tem sobrado tempo para nada além deles, muito menos ir escrevendo no blog. Aproveito para postar alguns vídeos que se vêem com agrado, fazem pensar ou rir ou ambas as coisas e me roubam pouco tempo. Desculpem qualquer coisinha ...
Hoje em dia dar uma entrevista para um jornal, revista ou televisão, é acto de grande risco. Nunca se sabe no que vai dar. O melhor que pode suceder é que a entrevista não chegue a ser publicada, porque se o for e mesmo que se tenha exigido ou manifestado o desejo de ler antecipadamente aquilo que vai aparecer estampado em letra de imprensa,corre-se um risco sério de que aquilo que se vai ler, não corresponda minimamente àquilo que se disse e muito menos à forma como se disse. Porque Luís Fernando Veríssimo escreveu numa das suas últimas crónicas no Actual uma magnífica sátira sobre este novo risco, achei importante trazê-la ao conhecimento de quem não lê aquele suplemento do Expresso. Leiam, divirtam-se e sintam-se felizes por não correrem tais riscos.
A qualidade da vida faz-se de coisas essenciais e de pequenos truques e estratagemas que, de uma forma simples e por vezes inocente, nos permitem libertar do peso dos dias, do magma negro da vida citadina.
Isto faz-me lembrar a sabedoria popular, os gestos e atitudes simples, de gente também simples que aposta na simplicidade o pleno do seu dia a dia. Mas também as atitudes mais elaboradas, de gente mais esclarecida, que aproveita a inteligência e o humor como escudo protector contra os misseis homem-homem que o fluir dos dias contra eles insistentemente disparam.
E, de uma forma natural, vem-me ao pensamento a gaveta dos manguitos de Vasco Santana. Homem de humor e do humor, por excelência, beneficiando ainda da carga divertida de seu peso, de seus cento e cem quilos bem medidos, soube aprender por si, que só se pode ser e viver feliz, quando se está livre do efeito desgastante das conversas que se não desejam, das companhias que se não pretendem ou reclamam, das palavras que não afinam pelo diapasão da nossa maneira de ser.
Por isso, ele percebeu que tinha que inventar a sua gaveta dos manguitos. E que gaveta era essa? Apenas uma gaveta vazia da sua secretária atafulhada, mas organizada, no seu camarim de teatro. Era a superior esquerda. Para que servia e qual era o seu truque, o seu estratagema? Quando chegava ao camarim, abria a gaveta, fazia vários manguitos e deixava-os entrar para dentro da gaveta vazia. Depois, fechava-a.
Quando, após o espectáculo, começavam a chegar as pessoas incómodas que o vinham martelar com perguntas e questões idiotas, a que ele não podia escapar, ele fazia um sorriso de beatitude, abria ligeiramente a gaveta e, enquanto conversava afavelmente, olhava para a gaveta e libertava-se a ver saírem disciplinadamente os manguitos que lá metera.
Com este pequeno truque, Vasco Santana conseguia sobreviver às conversas desinteressantes a que era forçado e sentia-se liberto do stress, podendo manter um sorriso que doutro modo, mesmo sendo actor, lhe seria impossível.
Quantos de nós terão a sua gaveta dos manguitos e a usarão para a sua sobrevivência emocional e física? Quantos de nós terão a capacidade de intuir a sua necessidade?
Já um dia escrevi sobre as gavetas da nossa vida, as gavetas da nossa alma. Compartimentar conhecimentos e emoções, vivências e mortes, alegrias e tristezas, parece ser uma posição radical de estreiteza mental, de empobrecimento determinado, de um viver baço e frio. Parece ser. Disse bem. Mas, não é. Porque ter gavetas, não significa que estejam fechadas, com segurança e código. Ter gavetas, é apenas ter gavetas.
Depois, se dirá ou discutirá como elas devem ser. Invioláveis? Estanques? Incomunicáveis? Ou, pelo contrário, abertas, semiabertas, entreabertas ou escancaradas? Com capacidade definida ou expansíveis e de capacidade inesgotável? A gaveta das emoções, a gaveta das recordações, a gaveta da ciência, a gaveta do amor ou dos amores, a gaveta dos nossos manguitos, a gaveta da estratégia, a gaveta da nossa defesa ou das nossas defesas, a gaveta da amizade, a gaveta do ódio ou da sua ausência, um sem fim de gavetas, que fazem da nossa mente um verdadeiro contador, a que só o próprio tem acesso.
Onde vou meter o pôr do sol que acabo de ver? Que foi e já não é? Em que gaveta? Naquela em que já vários sóis se estão a pôr ou numa outra em que fica apenas este que agora vi e que tenho que guardar para que não se perca, porque o vi agora enquanto escrevia o que estou a escrever, enquanto abri e fechei gavetas à velocidade dos meus pensamentos e de seu registo em memória e suas ligações?
Contudo, pensar em tal não me equipa com o poder de criar a minha gaveta dos manguitos. Uma coisa é saber da sua necessidade e de a saber minha e outra bem diferente é a capacidade de a construir, como quem abre uma nova file no computador. Não se trata só de criar a gaveta, mas de saber o que lá meter e de qual será o seu efeito.
O que é que mais alivia o meu espírito? Seja o que for, será isso o manguito da minha gaveta. E para mim será sempre a gaveta dos manguitos, porque foi esta que deu a partida para as outras.
De pequenino se torce o pepino. Diz o provérbio antigo. Se já o esqueceu, fixe este - children see, children do. A outra face da moeda, a mesma finalidade.
Estive fora esta semana. Tive vários contactos, em vários ambientes. Vi coisas novas e revi outras. Pensei na nossa situação de portugueses e nos nossos problemas. De regresso a casa e já fim de semana, pensei que devia publicar estas duas imagens que encerram em si um verdadeiro tratado de sabedoria. Saibamos todos dar um passo para que a nossa bandeira possa estar associada à sabedoria da primeira.
Morreu há dias, subitamente, com um enfarto do miocárdio, Rodrigo de Souza Leão, natural e residente no Rio de Janeiro. Tinha 44 anos e uma extensa obra literária, em prosa e poesia. O seu último livre, intitulado «Todos os cachorros são azuis» está em análise, entre 49 obras, pelo júri de um concurso literário português. Dizem os seus amigos, meus amigos brasileiros , que era um excelente amigo e uma personalidade ímpar. Grande escritor. Esquizofrénico.
Escreveu até morrer. Aqui deixo alguns poemas que retirei do seu blog Lowcura-
Cor azul
A mente esquizofrênica não funciona bem e boicota, sem os remédios, o tempo todo. Com remédios ficamos bem. Leves e tranqüilos para o mundo, que é muito bom. Fora as pessoas que não valem à pena, estas manter distância torna-se necessário. Positive Vibrations.
Thursday, June 25, 2009
TUDO É PEQUENO
Tudo é pequeno A fama A lama O lince hipnotizando a iguana
O que é grande É a arte Há vida em marte
Sem título
Entendi o funcionamento do cérebro humano. Um duplo sem fim Algo diz sim e algo diz não E vence sempre o sim Se a mente for um cetim
MELHORA
Tudo é uma criação da mente Um poema ou um poente
Tudo tem um forte sentido Quando não se oprime o indivíduo
Alguém soletra uma distância A distância separa os fatos A verdade não é tão necessária
LOUCO
Já fui gordo. Já fui magro. Já fui ego. Já fui id.
Ouviram? Já vos disse que nós não vamos ser uma geração rasca! Ainda agora começámos e já temos quem fale assim como esta minha amiga americana que, ao contrário dos seus compatriotas ignorantes de hoje, sabe que se farta e sabe que há mais mundo para além da sua terra. Não precisamos de ser como ela - nem sei se será um bom exemplo - mas teremos que ser melhores que este entrevistador Jay Leno, considerado dos melhores e que termina a entrevista com a sentença mais parva que até hoje ouvi. E por falar em ouvir, sempre repito - ouviram?
A memória vai-se construindo dia a dia, ao longo da vida, até que em determinada altura dela se começa a perder ou a ser mais difícil chamá-la a nós. É normalmente a memória dos factos antigos aquela que mais persiste, tornando-se muitas vezes repetitiva e a memória recente aquela que nos traz mais problemas e complica a vida dos idosos. Em termos simples há quem explique isto como se a memória fosse uma sucessão de gotas que vão enchendo uma taça. Por isso, quando as novas gotas pingam na taça, acabam por sair fora e perderem-se. Seriam sempre as últimas a perderem-se e as do fundo da taça a manterem-se. Explicação rudimentar, mas ilustrativa. Tudo isto a propósito deste magnífico vídeo de origem grega, que nos fala de emoções, comportamentos, amor, paciência e também de memória.