terça-feira, junho 09, 2009

quando a genialidade é divertimento

Habitualmente nestas situações, dispenso as palavras. Deixo aos leitores a fruição do momento. Deliciem-se com Maya Tamir, com oito anos de idade, a tocar em Março de 2009 o Concerto para piano e orquestra em D Maior de Haydn, acompanhada pela Orquestra Filarmónica de Israel. Reparem na leveza, na segurança, no divertimento. E reparem também como parte de um público menos formado ou mais apressado nas palmas, nos priva de alguns segundos de prazer.

quinta-feira, abril 23, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 23


Todos os pássaros, todos os pássaros
Asas abriam, erguiam cantos,
De Amor cantavam.
Todos os homens, todos os homens,
De almas abertas, de olhos erguidos,
De Amor cantavam.

José Gomes Ferreira


Assim foi, de facto, nesse dia.

Nesse e nos muitos que se lhe seguiram.

De almas abertas para todos quantos viam, para o vizinho para que nunca tinham olhado, para o empregado que os servia, para o patrão que já antes odiavam.

De olhos erguidos para a luz, para o sol da liberdade, depois dos anos chumbo da ditadura.

Mais do que a 25 de Abril, a catarse total de 1 de Maio. Na verdade todos de amor cantavam. Menos aqueles que apenas cantavam para não se ver o medo interior do acertar de contas possível. Quantos seriam ninguém sabe. A Revolução foi generosa e não houve acerto de contas.

Quem dera que ainda hoje cantássemos com o mesmo amor e de olhos erguidos.

Que saudades tenho de te ver, Zé Gomes, quase todos os fins de tarde a conversar com o Carlos de Oliveira no passeio da Praia da Vitória, frente à casa onde morava o Carlos.

Passado todo este tempo sobre aquele dia e sobre o vosso desaparecimento, acabados muito ideais, emboçados muitos sentimentos, vem-me à cabeça aquele teu verso ímpar – ah, se eu pudesse suicidar-me por seis meses -, que funcionaria como um despertar da esperança, de ao acordar tudo estar diferente.

E se estivesse, como olharíamos para nós por nada termos feito todo esse tempo?

CVR


sábado, abril 18, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 22


"Tenho pensamentos,
que se pudesse revelá-los
e fazê-los viver,
acrescentariam nova
luminosidade às estrelas,
nova beleza ao mundo
e maior amor ao
coração dos homens."

Fernando Pessoa


Tive tantos pensamentos ao longo da minha vida, e tão continuadamente constantes, que de tanto me parecerem fantásticos e singulares, nunca me permitiram exteriorizá-los e fazê-los viver, por receio do eco que me viria de quem os ficasse a conhecer.

Também por preguiça, é certo. Aquela preguiça que muitas vezes me faz pensar na má distribuição das coisas, das qualidades e defeitos que nos foram atribuídas.

Sei que alguns pensamentos, muitas ideias, me pareceram verdadeiramente boas e capazes, não de mudar o mundo, mas de mudar qualquer coisa nele. Como sei também que o trabalho que comportava pô-las em prática não foi compatível com a minha inércia ou preguiça para a sua concretização.

Vejo-me capaz de criar e incapaz de realizar. Mas sei que posso realizar e com esforço e continuidade, se não houver em jogo uma ideia secreta, ainda não provada.

E como eu gostava de levar mais amor ao coração dos homens …

CVR


sexta-feira, abril 10, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 21


Se

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Por isso me interrogo – se tanto me dói que as coisas passem, deveria ser porque cada instante em mim foi vivo.
Mas verifico honestamente que não. Qualquer pré-filtro, qualquer pré-julgamento, faz com que em mim as coisas sejam já avaliadas antes de serem coisas perante mim, quero dizer perante o “mim” interior. Coisas e sensações entram-me pelos olhos, pelos ouvidos, pelos cheiros, pelo gosto, pela pele, mas é no interior de mim, na central processadora de dados da mente que se faz a verdadeira avaliação, aquela que vai determinar da permanência delas dentro de mim, enquanto lembranças, enquanto memória, apenas despida ou recheada de informação complementar.
Eu sei que este mim, está sempre aberto às coisas e sensações vivas, mas sei também que nem todas se eternizam.
Digamos que tenho memórias vivas de muitas coisas que não consigo reconstruir, o que deveria significar que elas não foram verdadeiramente vivas. Mas foram. Sei que foram. Tão intensamente vivas que apesar da rapidez do processamento ainda deixaram vestígios que, pelos vistos, se mostram indestrutíveis.
Quem me dera que quando o desejasse, pudesse chamar a mim a totalidade dessas vivências, eternizadas, e pudesse voltar a senti-las da mesma forma, com a mesma intensidade, com o mesmo tempo. Seria talvez a melhor forma de me manter vivo.
CVR

sexta-feira, março 27, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 20



Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

Fernando Pessoa

Quando repararei eu no essencial e esquecerei o supérfluo?
Só então poderei dizer que eu sou apenas eu e o que outros vêem em mim é apenas o que os outros em mim vêem.
Mas sinto que há uma grande contradição naquilo que julgo. Pois tenho tido sempre para mim que o que vejo das coisas e das pessoas é sempre o essencial e provavelmente apenas tenho visto o que dispensaria ser visto.
Mas será que eu me tenho enganado tanto?
Quando digo que olho para uma pessoa e lhe tiro logo o retrato a cores, será que apenas fotografo o que podia dispensar?
Eu sou realmente eu ou apenas o que aparento ser? O que outros vêem em mim?
Eu sou o todo de mim – o que sou, mais o que aparento.
E provavelmente o que sou é o que aparento.
Ou aparento exactamente o que sou?

CVR

quinta-feira, março 19, 2009

parabéns, pai



Hoje é o teu dia, pai.
Continuo a dizer o que sempre disse - só tiveste um defeito. Morreste cedo de mais.
Aqui fica o meu obrigado e a minha homenagem.

crise. abençoada crise


Antes que alguém se escandalize com o título desta pequena crónica, aviso que, tal como em muitas outras coisas, o que parece não é.
Aliás, é disso que vos vou falar. Do que parece e não é. Refiro-me a este nosso País – Portugal.
Mesmo historicamente fomos sempre um arremedo de país, um parece mas não é. Mesmo na época áurea dos Descobrimentos, mesmo com Tordesilhas, parecíamos mas não éramos; parecia que dominávamos o mundo, mas, em boa verdade, só lá ficavam os padrões, os representantes reais e alguns senhores de escravos.
Tivemos recursos ilimitados à nossa disposição, materialmente de nossa posse, mas tal como agora, só alguns se aproveitavam, só alguns deles se apropriaram. O poder, esse, esbanjava.
Portugal foi ao mesmo tempo, berço de grandes homens, bem formados, sérios, íntegros, inteligentes, corajosos, patriotas, pouco parecidos com os demais. De alguns desses homens encarregou-se a Inquisição, seus laicos sucedâneos e os senhores de terras e de títulos.
Somos um país que parece uma coisa e é outra. Quem analisa apenas a nossa História
(e convém não esquecer que ela foi escrita por nós) ficará com a ideia que somos um país grandioso, com séculos de história, o mais velho país europeu com as mesmas fronteiras, que descobriu novos mundos em todos os continentes, metidos em cascas de noz, barricas de biscoitos e peixe seco.
Mas se formos nós a analisar-nos, com justeza, sem preconceitos ou clubismos, o que vemos? Como sai o nosso retrato?
Vemos um País com uma massa humana formidável, que quando se faz ao longe e ao fora, se mostra trabalhadora, inovadora, lutadora, esforçada, mas que quando regressa ou fica envolvida pelas nossas fronteiras, quando fica no redil, se transforma no seu contrário, no avesso daquilo que mostra e se faz rebanho.
De sérios passamos a trapaceiros, de rigorosos a facilitas, de trabalhadores a sornas, de íntegros a golpistas, de corajosos a cobardes e invejosos.
Comecei a escrever estas palavras, lembrando-me apenas da situação que estamos vivendo, desde que a crise mundial ou global se instalou.
Todos, penso que todos, saberão que a Crise é global, mas se nos ouvirmos, a crise é da responsabilidade do actual governo. Deste governo, ou simplificando, do Sócrates ou do Socras como muitos dizem.
Quer dizer que para nós, o responsável da Crise, é exactamente aquele que antes dela existir estava apostado em melhorar a situação de Portugal, reformando ou tentando reformar aquilo que precisava e continua precisando de reforma, recuperando e contendo o deficit e a inflação e o desemprego que governos anteriores não souberam combater, apesar de quase serem afogados pelo mar imenso dos euros de Bruxelas.
Não estou a defender este governo, nem a atacar os anteriores. Estou apenas a chamar os bois pelos seus nomes e a tentar analisar com clareza a situação actual.
À vossa possível pergunta – o Governo tem governado bem? – eu terei que responder – numas coisas sim, noutras não. Criticarei o pouco empenhamento em levar as reformas mais longe, em combater o fosso entre os escandalosamente ricos, a classe média e os pobres. Qual classe média? Ainda existe?
O governo tem feito muitas asneiras, tem sobretudo feito menos do que devia e se adivinhava que podia e queria.
E é aqui que está a diferença - pelo menos quiseram fazer, começaram a fazer, a enfrentar os poderosos, o corporativismo.
Começaram. É preciso que continuem e vão em frente.
Veio a crise, a tal que é global e os portugueses dizem que é culpa do governo.
Parem um pouco e pensem. Quantos de vós têm feito alguma coisa pelo País? Quantos de vós querem e exigem que seja o País a fazer tudo por vós?
Quantos de vós respeitam totalmente as vossas obrigações fiscais? Só não foge quem não pode. Quantos de vós não aplaudem a fraude, a cunha, a cópia fraudulenta, o excesso de velocidade, o desrespeito por leis, os subsídios da CEE desviados para outros fins? Quantos Audis em vez de tractores? Quantas piscinas em vez de bebedouros?
Por isso eu chamei a esta crónica “abençoada crise”. Porque sei que ela pode ser abençoada, se todos nós, face a ela, encararmos a nossa realidade, o nosso comportamento e passarmos a respeitar-nos uns aos outros, a ter consideração pelos melhores em vez de inveja, unirmos as mãos e os esforços para juntos levantarmos Portugal. Se todos entendermos de uma vez por todas que a arte do desenrascanço português é o nosso maior mal. Temos todos que passar a fazer o nosso melhor, pensando no bem de todos e não só no nosso.
Aproveitemos todos as lições da crise para aprender a sermos gente digna, merecedora de um País melhor.
Que nenhum de nós se queira rever nas figuras da crise, nos Maddoff’s e Costas vários e se sirva deles como exemplos do que não se deve ser, em vez de lá no fundo de cada um pensarmos que não nos importávamos de ter feito o mesmo, escapar a uma justiça que não funciona e vivermos o resto dos nossos dias à conta do que fraudulentamente adquirimos.
Que um dia possamos dizer – abençoada crise.
CVR

quinta-feira, março 05, 2009

as mil faces da mulher

Não sei que mais admirar - se a beleza das imagens, se a ciência de as ligar.
Todos os artistas que as pintaram felicitariam quem assim as aproveitou.
Vale a pena ver e rever.

domingo, fevereiro 22, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 19


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa


Guardo as pedras ou as dores que elas me causam?

Ou sempre guardei umas e outras?

Sempre as guardei ou só agora o faço

Quando a vida se aproxima do fim?

Questiono-me se vale ou valeu a pena guardar as pedras

Com que faria os castelos a que tantas vezes me propus.

Nunca me neguei a ouvir um não

E não considero coragem fazê-lo.

Ter uma vida fácil, como foi a minha, tudo nos rouba.

Embota-nos o pensamento e os sentimentos,

Não se dá real valor a nada ou quase nada.

Mas o pior, é chegar ao fim e perguntar – o que andei cá a fazer?

E, no entanto, fui muito feliz poucas vezes

Angustiado não sei quantas,

Salvei vidas, despertei amores, desamores,

Ódios, invejas, incompreensão

E sempre encontrei meus oásis.

Ou simplesmente, miragens?

CVR



sexta-feira, fevereiro 20, 2009

como se chegou à crise, assim dizendo ...

Foram muitos os caminhos que conduziram o mundo à crise em que a maioria do mundo se encontra, empurrados para ela por aqueles que, mesmo hoje, a não sentem.
Este vídeo que aqui vos deixo, mostra com humor, um desses caminhos ou o mais importante deles.
A ganância e a ingenuidade de muitos e o desprezo e exploração de uns poucos por todos, um liberalismo quase selvagem e a falta de valores, aqui nos conduziram.
Penso que nenhum de vós se arrependerá de ver o vídeo com que vos deixo.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

uma palestra fora do comum

Não percam esta palestra fora do comum, proferida por um homem também especial.
É seguramente uma lição de vida, como nenhum dos alunos da Universidade de Stanford terá tido durante o curso. E será talvez aquela que mais recordarão desde esse dia. Curiosamente proferida por um não universitário.
Vale a pena ouvir e pensar. (Vejam os dois vídeos, porque a palestra está dividida).


sexta-feira, janeiro 30, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 18


Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. É certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.
Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente - claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.
Fernando Pessoa


Será que só medito no intervalo do sentir ou também enquanto sinto? Mas não sinto eu tão intensamente que não resta espaço para meditar? Se medito não posso sentir tão intensamente como gosto de sentir, mas se não medito reduzo-me a simples terminais sensoriais. Terei conseguido explicar este raciocínio claramente? Seguramente que não, já que para poder escrever claro, teria que o pensar claro.
Gosto mais de sentir ou meditar? Será que o posso responder claramente? Sinto-me como um ser sensorial e sensível, que gosta de meditar, mas que o faz não com as regras do pensamento, mas com as regras com que escrevo – confusamente.
Certo é que quer sinta quer medite, o faço com as minhas regras, com a intensidade com que sei, com o abandono com que recebo e sinto – seja a sensação, seja o que medito.
CVR

quinta-feira, janeiro 29, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 17


Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.
Fernando Pessoa


Entre mim e a vida não há um vidro, mas um estado de alma, um escudo defensivo, quase sempre, ofensivo muitas vezes, que, embora me permita vê-la com nitidez e na sua quase totalidade, me impede compreendê-la a maioria das vezes e por mais que me esforce.
Há sempre um pequeno degrau a subir ou a descer, entre a vida real e o real que ela me transmite ou me permite prever.
É qualquer coisa de indefinível, qualquer coisa de faz de conta, que baralha a realidade, as realidades da realidade. Comigo, o que se passa é que nunca posso afirmar, ter a certeza de que a vida é isto ou aquilo, qualquer coisa definível, mas antes qualquer coisa de incerto, que me parece ser assim como a penso, mas se vem a verificar ser o seu contrário.
A vida é difícil de viver. Imagine-se como será por quem a vê assim ou por quem dela apenas esta visão lhe é consentida.
As voltas que eu lhe daria se pudesse deitar-lhe a mão!
CVR

quarta-feira, janeiro 28, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 16


É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

Fernando Pessoa


Com facilidade se confunde o que é necessário e o que é desejável. Tudo depende da força do desejo. Pode desejar-se tão intensamente, de uma forma tão constante e aparentemente real, que a dado momento não é desejo que se sente, mas a fome intensa e necessária, daquilo que o não é, nem nunca será. Tudo formas de sentir e intensidade de sentimentos. É precisar duma inutilidade, como de pão para a boca. É acreditar que se vai ter a lua, mesmo sabendo que aqueles que já a pisaram, só amostras trouxeram dela. E mesmo que essa realidade esteja presente, há alguma coisa melhor do que acreditar, não o fazendo, naquilo que sabemos inacessível, mas tão profundamente desejamos?
Toda a vida quis a lua e sempre me contentei em olhar para ela, esperar os seus ciclos, passear na lua cheia, sorrir para ela, confessar-lhe coisas secretas e acreditar que ela me ouve, me entende e vela por mim?
Há o necessário e há o desejável. Qual deles o mais necessário?

CVR

sexta-feira, janeiro 23, 2009

ensino ou comunicação?



Penso que qualquer pessoa se emociona com a beleza do espectáculo que aqui vos deixo. Mete impressão ver até que ponto se pode levar a comunicação entre treinador e treinados. Até que ponto pode ir a liderança. Os cavalos fazem o que o treinador lhes manda ou comungam com ele do prazer do espectáculo? Tudo se passa na região da Camarga e apenas sei que o equitador se chama Lorenzo. Vejam e revejam as vezes que vos apetecer.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 15


De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Fernando Pessoa


De que me serve esta súbita cura da cegueira que foi minha vida? Acaso consigo fazer rewind e logo on, para uma nova vida emendada? Claro que não. E o que emendaria eu, se não sei sequer o que me levou a vivê-la assim e não da maneira que a minha actual não-cegueira aprovaria? Aprovaria, mesmo? É possível emendar-se uma vida quando se é geneticamente assim e não assado? Não me pergunto mais porque sinto eu este vazio que me desconforta e parece não ser meu, não ser em mim. Este não posso mais ignorá-lo, iludi-lo, fazer os gestos do actor que representa através de mim, usando meus gestos, usando-me, como todos fazem. E fazem-no de forma tão perfeita que quase me convenço que sou eu quem os está a usar. Puro engano. Vida de enganos. Poderia ser outra? Teria estado alguma vez nas minhas mão, a possibilidade de fazer da minha vida aquilo que sempre sonhei que ela fosse?
CVR

quarta-feira, janeiro 21, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 14


E, assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre nascente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. ….
Fernando Pessoa



Assim sou, realmente. Tudo me interessa e nada me prende. É tal a atenção, o estar disposto para o sonho e a novidade, que tudo atravessa meu pensamento, em movimento, sem um cristalizar de alma ou de emoção. De emoções, não, que essas são reais e traduzem-se em sentimentos rápidos e fugazes. Tenho a lágrima fácil, de tão rara ser. Quem me dera ser outro …
CVR

segunda-feira, janeiro 19, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 13


...Pertenço porém àquela espécie de homens
que estão sempre na margem daquilo a que
pertencem, nem vêem só a multidão de que
são, senão também os grandes espaços que há
ao lado.

Fernando Pessoa


Estou sempre por dentro de tudo e espantem-se senhores,
Por fora de tudo me encontro sempre.
Ninguém, como eu, assim o consegue.
Participante, por dentro e no dentro, de tanto facto, tanta ideia,
Que consiga estar tão historicamente fora, de tudo e de todos.
Incapacidade de líder, ou deste só a ideia e o arrancar da acção?
Aos outros, louros e proveitos e proventos.
Para mim, quanto muito a culpa, se a houver.
E o consolo de ver os grandes espaços ao lado
E, se possível, ver um pouco para além deles.

CVR

domingo, janeiro 18, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 12


Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.

Fernando Pessoa


Só as caras do povo me impressionam.
Só nelas rugas e marcas são marcas e rugas. E a dor é dor.
Cara do povo, cara de gente.
Gosto de caras, a preto e branco. Preto no branco.

CVR

sábado, janeiro 17, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 11



Todo o meu sangue raiva por asas!
Fernando Pessoa



Raiva de não ter raiva as vezes sem conta
em que é preciso ter raiva para ter asas.

CVR

sexta-feira, janeiro 16, 2009

mercado de escravos

http://www.dailymotion.com/video/x6y6ck_the-job_shortfilms

The job
Enviado por trescourt

É terrível este vídeo. Antecipação ou realidade?
Custa a acreditar que há menos de 40 anos ainda se fazia esta contratação de mão de obra diária, para estivadores, trabalhadores rurais e outras profissões menos diferenciadas e, por isso, mais exploradas.
Será que vai chegar mesmo o dia em que esta escravatura volta, mesmo para os mais diferenciados?
Não dá para sorrir, só dá para pensar.

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 10


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantos mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa


Onde se chega sem sofrimento, sem dor?
O céu estará no fim duma prova de fogo de privações e dores?
Sim ou não, outros o saberão.
Mas, sempre há que passar além da dor
e todos temos nossos Bojadores a passar.
Para que seja nosso, nosso mar.
Aquele que queremos navegar, agora, hoje, depois.
Aquele em que queremos navegar hoje e sempre.
As lágrimas são o tempero das emoções.
Seu vinagre, seu sal. Por isso, meus olhos ardem...

CVR

quinta-feira, janeiro 15, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 9

Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai na minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo,
O mundo será diferente --
Haverá eu a menos --
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.

Fernando Pessoa


Quem sabe se nem ao fim destas linhas chegarei?
Insegurança do destino que me amachuca, me domina.
Porque não temos validade, como as coisas?
Como máquinas, temos peças e sistemas.
Somos pessoas, não coisas, eu sei.
Onde está a garantia de nossas peças e sistemas?
Porquê Deus, ao escrever Made in Hell, se esquece do principal?
Quem baliza nosso mal estar, nossa angústia?
Continuariam a marcar amargamente nossas vidas
se tivéssemos prazo de validade?
E se tivéssemos controle de qualidade?
Quantos de nós não viveriam?
Quantos seriam lançados em vidas de saldos?
Teria eu chegado ao fim destas linhas?

CVR

quarta-feira, janeiro 14, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 8


Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol, aos outros, que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros -- isso tenho eu em mim.

Fernando Pessoa


Névoas, chuvas, escuros, isso tudo tenho em mim.
E sol e trovoadas e aguaceiros e humidade agressiva
e chuva miudinha, de modorra, cansativa e chateante .
Um catavento e um arco-iris, tormentas e primaveras
tudo isso eu tenho em mim. E, o tempo? Que tem comigo?
Que transforma meu olhar em sol, minha boca em nascente,
minha palavra em leite?
Eu, ou tu -- outros?
E, quem faz de meus olhos víboras, de minha boca máscara,
de minhas palavras espadas --gumes?
Eu, ou tu -- outros?
Até a penumbra é linda, elegante, suportável.
Mas nada como a claridade que de nós se desprende,
quando se desprende...

CVR

segunda-feira, janeiro 12, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 7


Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Fernando Pessoa


Rio muitas vezes até às lágrimas.
O que nada tem a ver com rir como quem chora
Ou com o rir para não chorar.
Tudo coisas diferentes ou formas diferentes da mesma coisa.
Do que eu gostava mesmo era de rir por rir
Rir em estado puro, não contaminado.
Nem pelas adjacências de outros sentimentos.
Riso claro, espontâneo, verdadeiro, cristalino.
Quebrável...

CVR

domingo, janeiro 11, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 6

O diário de Amiel doeu-me sempre por minha causa.
Quando cheguei àquele ponto em que ele diz
que sobre ele desceu o fruto do espírito como
sendo a ''consciência da consciência '' (...) senti
uma referência directa à minha alma
.
Fernando Pessoa



Tenho muitas vezes consciência da minha consciência.

É o subconsciente quem mo diz.

Que inconsciente que isto parece.

Subconsciente. Matriz de tudo.

Código do ser e do estar na vida.

O que está lá, está lá. Acredite-se ou não em Freud.

Por mim tanto me faz, que Freud tenha ou não razão.

Agrada-me isso sim é saber, é sentir que

Tenho consciência mesmo quando sou inconsciente.

CVR

sábado, janeiro 10, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 5


Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.

Fernando Pessoa


Um segredo passa onde quisermos que passe

Onde fizermos que ele exista, se revele.

Não aos que o não vêem, mas a nós que para ele temos olhos.

Os atentos à vida e ao seu respirar

em cada canto encontram segredos.

O melhor que a inteligência tem, se os sentidos acompanham,

é a capacidade de inventar maravilhas, de desdobrar o real.

De se maravilhar com o comum e com o inhabitual.

O melhor da inteligência é ser o contrário da estupidez.

CVR


quinta-feira, dezembro 25, 2008

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 4


Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Fernando Pessoa


A que género pertenço eu?

À daqueles que podiam ter descoberto a Índia

e mais outras mil Índias que continuam por descobrir.

E nada, nada descobriram, nem sequer que o podiam fazer.

Sinto que podia ter descoberto o mundo e que o podia transformar.

Mas, faltou-me a vontade e a força para o fazer.

Não sou um descobridor, mas um ser preguiçoso e mole

em quem Deus desperdiçou capacidades.

Melhor Teria feito se as tivesse dado a activos empreendedores,

ainda que estúpidos.

CVR


domingo, dezembro 21, 2008

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 3


O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado

Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Fernando Pessoa



Longo tempo, longos anos carreguei meu fato imposto.

Com violência reagi. Para lá do que devia. Talvez.

Pago agora os dois preços. Do fato que carreguei e da libertação dele.

Qual deles, o maior? Mas,


''Meu pensamento é como o vento ''

''Ninguém o pode agarrar ''????

CVR

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 2


Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares.

Parecem ter medo da polícia...

Mas tão boas que florescem do mesmo modo

e têm o mesmo sorriso antigo

Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem

Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente

Para ver se elas falavam...

Fernando Pessoa



Jardins regulares. Trazem à memória meu Pai.

As flores bem alinhadas naquele jardim de Chaves.

Jardins regulares. Flores alinhadas, intocáveis,

bem comportadas, fazendo de seu furto, pecado.

Elas que são livres de nascer e que dizem, corta-me ...

Porquê impôr-lhes regras e fazê-las regulares?

O meu Pai não era regular.

Era muito grande o meu Pai.

Grande como a sua inteligência, a sua bondade e a sua fraqueza.


Teve um só defeito.

Partiu cedo de mais.

CVR

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 1


A beleza é nome de qualquer coisa que não existe

Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas:são belas?

Fernando Pessoa



De boa vontade, de todas as coisas eu diria -- são belas.
E nada impede que o faça.
Já que não tem a ver com a realidade, mas com o que eu faço dela.
Bom seria que coisas e pessoas fossem belas sem que eu tivesse
necessidade de fazer delas o que elas não são -- belas.
Se tudo fosse belo, talvez eu fosse belo...
''Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz...''

CVR

quinta-feira, dezembro 18, 2008

poetas do mundo

Em 14 de Outubro de 2005, Luis Arias Manso, poeta chileno, fundou o movimento Poetas del Mundo com a finalidade de usar a força das palavras e a sensibilidade dos poetas, como movimento, palavra-arma, a favor da salvação do nosso planeta, ameaçado de morte a curto prazo.
É preferível, contudo, que seja o próprio fundador a explicar-vos - aos que nisso estejam interessados - quais as razões da criação do movimento e quais as formas como cada um deve actuar. A palavra a Luis Arias Manso.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

sociedade portuguesa de história dos hospitais


Poucos terão conhecimento da existência da Sociedade Portuguesa de História dos Hospitais e poucos terão uma noção correcta da sua necessidade.
Só mesmo aqueles que têm amor à História e sabem como ela deve ser preservada para bem do presente e do futuro, compreenderão bem a existência e a necessidade dela existir.

Para aqueles que se interessam por estes assuntos e eventualmente não tenham recebido convite e para aqueles que possam vir a interessar-se, deixo aqui esta notícia da realização da III Conferência desta Sociedade, no próximo dia 11 de Dezembro, no Salão Nobre da Escola Nacional de Saúde Pública.
A entrada é livre.


quinta-feira, novembro 27, 2008

quem sou eu para ficar triste?

Que faço eu pelos outros? Pergunta que devemos fazer todos os dias.