quinta-feira, outubro 22, 2009

siga o exemplo

Penso que uma das melhores frases publicitárias que alguma vez li, dizia assim - «compre terra, já não se fabrica mais». Hoje foi a ocasião em que vi um dos mais eficazes e bonitos vídeos em defesa desse bem escasso que é a água. Não hesitei em colocá-lo aqui para todos vós. E poupem água, por favor. Pensem nos que ainda não nasceram.

domingo, outubro 18, 2009

com tudo se faz música quando está dentro de nós

Recebi hoje este magnífico vídeo que quero partilhar. Gravado em 10 de Junho 2007 no Auditório Nacional de Música, em Madrid, durante o Concerto Vozes para a Paz. Dirigiu a orquestra Enrique García Asensio. Ouçam «La boda de Luís Alonso». de J. Gimenez e prestem especial atenção a essa grande artista das castanholas, chamada Lucero Tena. Atentem na qualidade, musicalidade, postura, na paixão, na idade.

sábado, outubro 17, 2009

a conquista dos paraísos

Evangelos Odyssey Papathanassiou, mais conhecido como Vangelis, musicou prodigiosamente o significado profundo que representou para a Humanidade a descoberta de outros mundos, pelos navegadores de Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda que juntos tomaram conta do mundo então desconhecido - África, Ásia e América.

Em 12 de Outubro de 1492, Cristóvão Colombo chegou a uma pequena ilha do Caribe pensando que tinha chegado à Índia. Era a América. Em 20 de Maio de 1498, seria Vasco da Gama a chegar a Calecute, por uma rota muito diferente - pelo Atlântico e o Índico.

VANGELIS no seu álbum "A conquista do Paraiso" 1492, faz referência a esta descoberta casual da América. Tendo em conta a data de hoje e a qualidade da música, aqui vos deixo este magnífico vídeo, no meu regresso a Portugal.


segunda-feira, outubro 05, 2009

eu pergunto o mesmo


Mais uma vez interrompo os posts de minha autoria, para colocar aqui um texto de Miguel Sousa Tavares, publicado no Expresso de ontem, que merece ser lido por todos que não o puderam ler. Aqui vai -

Pus-me a pensar o que poderia Cavaco Silva dizer na sua "comunicação à imprensa" (em que à imprensa não eram admitidas perguntas) que pudesse justificar a surpresa de ter visto um Presidente envolver-se numa campanha eleitoral e contra o partido do Governo. Não apenas pelo caso das escutas, mas também pelo seu comentário, cirúrgico e cínico, à suspensão do Jornal de Sexta, da TVI.
Pus-me a pensar e não vi grande saída presidencial, na matéria das escutas. Porque os factos, já provados ou não desmentidos, falavam por si: primeiro, há um ano e meio atrás, e depois, a um mês e meio das eleições, o assessor de confiança de Cavaco, dizendo falar em seu nome, foi transmitir ao jornal "Público" que a Presidência suspeitava estar a ser escutada e espiada pelo Governo. Isto, na exacta altura em que a campanha do PSD só tinha um tema: a "asfixia" das liberdades e da sociedade pelo Governo controleiro do PS. Que nem sopa no mel! E mudo e quedo, sem desmentir as suspeitas assim lançadas pública e escandalosamente, ficou o Presidente, lá, na sua casa do Algarve, entretido a ver diplomas. E assim ficaria, não tivesse o "Diário de Notícias" desvendado os contornos da trama e obrigado Cavaco ao gesto dúbio de "fazer alterações na sua Casa Civil". Foi então que o PSD se pôs a gritar em surdina que o PR estava a lançar sinais equívocos que poderiam, afinal, beneficiar o PS em vez de prejudicá-lo, e que o melhor era dizer logo tudo, antes mesmo que o povo fosse às umas. Mas, justamente, aí é que estava o problema, como bem se percebeu pela sua comunicação ao país: o que tinha ele para dizer? Nada.
Assim, e excluindo desde logo a hipótese de ver o Presidente pedir desculpas pelo sarilho que engendrara ou consentira planeadamente, só vi uma maneira de ele se pôr a salvo: sacrificar em praça pública o amigo Fernando Lima (e é isso que se espera dos amigos dos príncipes, nas horas de aperto). Mas não: talvez tolhido pelo pudor e enraivecido pelo descalabro da sua conduta, vimos um Presidente fora de si, com cara de ódio e pose de majestade ofendida, a quem tinham ousado incomodar ("na minha casa no Algarve, quando dedicava boa parte do meu tempo a ver diplomas ... exigindo que interrompesse as férias .. .). E, de suspeito, Sua Excelência passou a acusador, com uma leviandade que, vinda de um Presidente da República, arrepia. Sim ele é que desconfia que "altos dirigentes do partido do Governo" se interroguem sobre o facto (aliás público e não desmentido) de membros do seu stafe participarem na elaboração do programa eleitoral do PSD; ele é que desconfia do timing da notícia do "Diário de Notícias", e não da do "Público", saída um mês antes e que deu início a toda a história; ele é que não percebe que alguém possa pôr em causa o legítimo direito de um seu assessor acusar o Governo de espiar o Presidente, sem ter de o provar; ele é que julga que o quiseram empurrar para a campanha eleitoral, e não que se empurrou a si mesmo; ele é que desconfia da veracidade do mail trocado entre dois jornalistas do "Público", apenas com a autoridade que lhe dá o facto de ser quem é; e, enfim, num despropósito final e patético, ele é que se lembrou, no próprio dia em que se ia explicar ao país, de subitamente desconfiar da vulnerabilidade do seu computador pessoal, para assim justificar as "questões de segurança" sobre as quais tinham anunciado que iria falar. Enfim, para tudo resumir, não fossem "os superiores interesses nacionais", que, por vezes, obrigam um Presidente da República a "ser capaz de resistir a graves manipulações", que ultrapassam "os limites do tolerável e da decência", e Sua Ofendida Excelência diria aos portugueses, olhos nos olhos, o que verdadeiramente lhe vai na alma: que eles acabaram de reconduzir um governo de bandidos, que lhe interrompem as férias, espiam as comunicações, controlam a liberdade de opinião dos seus assessores e que ele, a bem da nação, terá de suportar enquanto não vir saída. Como comentava um amigo meu, todavia longe do universo PS, "será que ele nos toma a todos por mentecaptos?".
Quando Cavaco Silva foi eleito; eu escrevi aqui que nunca tinha sido devoto do culto. Nunca lhe reconheci crédito de estadista nem mérito como governante. Nunca lhe conheci um pensamento político que não fosse estratégico apenas para si próprio nem agenda política que não fosse a do seu interesse pessoal. Nunca o vi gostar de correr riscos nem ter coragem nos momentos difíceis - quer em relação ao país quer em relação ao próprio PSD, que, em grande parte, ainda vive na ilusão de que Cavaco pertence à sua família política, como se ele tivesse alguma família política que não a sua própria. Mas escrevi também que, uma vez eleito, ele passava a ser o Presidente de todos os portugueses e também o meu.
Isso acabou terça-feira passada. O homem que se dirigiu ao país como Presidente de todos os portugueses já não o é mais. Colocou-se a si mesmo como Presidente de uma facção – dos devotos que lhe restam ou da maioria silenciosa e ignorante que não segue ou não entende a gravidade do que se passou. Por decisão própria, o Presidente da República tornou-se neste momento o principal factor de instabilidade, o principal obstáculo ao regular funcionamento das instituições democráticas que jurou defender. Nada mais será como dantes. E não apenas entre o Presidente e o futuro governo: entre o Presidente e o país.

sexta-feira, outubro 02, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 24


85.

Reparando, às vezes, no trabalho literário abundante ou, pelo menos, feito de coisas extensas e completas de tantas criaturas que ou conheço ou de quem sei, sinto em mim uma inveja incerta, uma admiração desprezante, um misto incoerente de sentimentos mistos.
Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou má – e, se nunca é inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má -, sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. É como um filho: é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os filhos são.
E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também. Mais valera, pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se reconhece incapaz de agir.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego



Sem ter pensado alguma vez nisso, dei comigo nos últimos anos a fazer obra completa ou a tentar fazê-la. Desviei-me do caminho que estava a percorrer, no que respeita à escrita, e atirei-me, é o termo justo, à obra, melhor dizendo – às obras completas. Imaginei-as, preparei-as, investigando e escrevi-as o que melhor que sabia ou pude. Estão feitas e publicadas. E, agora? Que penso eu delas? São o que queria? São completas? Posso orgulhar-me delas? Sei que não são inteiramente boas, mas também sei que, realmente, não são inteiramente más. Mas para que serve uma obra que não é inteiramente má? A quem, se nem a mim? O que poderia ter feito de bom com o tempo, o esforço que nelas investi? Teria conseguido outra coisa completa? Inteiramente boa? Não o problema não está no tamanho do que se faz, no tipo de coisa que se faz. O problema está na verdade, na autenticidade com que se faz, na autenticidade do que se faz. Não, também não seria pelo silêncio que eu iria ou poderia ir. Porque não tendo como tu, Bernardo, um sentido crítico que me deixe ver apenas os defeitos, as falhas, dou comigo a achar, vezes de mais, que o que escrevo, breve ou extenso, ligeiro ou profundo, não só não é inteiramente mau, como, por vezes me parece quase bom, com a lucidez suficiente para saber que bom, com a força dessas três letras, não o é. Raras vezes o é, mesmo quando a escrita é de outros. Costumo pensar que a leviandade com que às vezes escrevo é fruto da imperiosa necessidade de o fazer. Como então respeitar o silêncio inteiro da alma, para que apontas?

CVR
Justificar completamente

sexta-feira, setembro 04, 2009

lengalonga

Numa breve consulta no YouTube encontrei esta surpreendente Lengalonga, com letra de Regina Guimarães e voz de Ana Deus, que nos transmite uma visão ou um retrato bem cinzento deste Portugal em que vivemos. Penso que esta Lengalonga merece ser escutada, concorde-se ou não com ela. Prevejo que haja quem se arrepie e possa não chegar ao fim. Também prevejo que haja quem a ouça mais do que uma vez. Por isso a coloco aqui. Nada mais salutar do que reflectir sobre as coisas, entender os vários sentidos, estar atento a tudo. São palavras, texto e forma de o apresentar, a que não se pode ficar indiferente. Eu, gostei muito.

valter hugo mãe

Ouvi há dias uma entrevista no Rádio Clube, com Valter Hugo Mãe. Sabia-o escritor de mérito reconhecido, vencedor do Prémio José Saramago, com o romance «O Apocalipse dos Trabalhadores».
Não sabia, contudo, que acumulava a escrita com a música. Ouvi-o contar com grande modéstia e aparente verdade a forma como entrara no mundo da música, como vocalista da nova banda Governo. Ele acha que não tem voz. Mas a mãe pensava o contrário. Foi necessário que um dos elementos dos Mão Morta tivesse a mesma opinião da mãe para ele se aventurar, com timidez e alguma vergonha, a dar o salto definitivo para esta nova existência cultural.
Confesso que ainda não tive ocasião de ler o Apocalipse, mas já ouvi várias vezes «Meio Bicho e Fogo».
Se resolvi deixar aqui este apontamento foi porque gostei do que ouvi e por isso o quero partilhar. O mesmo espero fazer quando ler o Apocalipse.

quinta-feira, setembro 03, 2009

ainda reggiani

Foram duas canções muito importantes para mim, há mais de 40 anos. Sobretudo Ma Liberté que cantei centenas de vezes e que, por estranho que pareça, cheguei a pensar que a cantava como se tivesse voz para o fazer. Não teria voz, mas tinha alma.




quarta-feira, setembro 02, 2009

a idade não perdoa

Estive hoje a rever vários vídeos de cantores que me fizeram vibrar há algumas décadas. Era minha intenção mostrá-los a cantar enquanto novos e depois já perto do fim. Embora me comovessem e ainda mostrassem o seu talento, definitivamente, não eram os mesmos.
Não consigo fazer-lhes a maldade de aqui os expor quando perderam qualidade. Quero sim, homenageá-los tal como os conheci, tal como os conservo na minha memória.
Convosco, Juliette Greco cantando Feuilles Mortes e Serge Reggiani cantando Le petit garçon.




terça-feira, setembro 01, 2009

prevenção rodoviária

Penso que um blog também deve ter preocupações educativas. Este vídeo da Polícia de Gales, com as suas chocantes imagens, parece ser um bom exemplo de prevenção rodoviária, já que pode levar a pensar todos aqueles que não respeitam as regras da condução segura e pensam que os acidentes só acontecem aos outros.

segunda-feira, agosto 31, 2009

a ganância mata

A ganância mata, mesmo que demore a matar. Umas vezes de forma fulminante, outras progressivamente, outras de forma tão lenta que o ganancioso não se apercebe para onde caminha. O ganancioso é diferente do ambicioso. Este último, embora por vezes criticável, tem na maioria das vezes mérito e qualidades pessoais. O ganancioso é apenas um ganancioso. Merece ser engolido pela sua ganância. Será que o vídeo é crítica ou apenas diversão?

sexta-feira, agosto 21, 2009

para quem gosta de chagall

Um gravíssimo ataque viral impossibilitou-me de durante sete dias colocar novos posts neste meu blog. Felizmente quem sofreu este ataque não fui eu, mas o meu computador que se encontra permanentemente sujeito a ataques, uma vez que todos os dias são fabricados 35.000 novos virus ou maliciosos que se estão nas tintas para a bateria de antivirus que normalmente os esperam.
Não quero deixar de retomar já hoje a respiração normal deste blog que se faz de vida e não de silêncios. Mas hoje só aqui colocarei um vídeo de que gostei muito, de origem russa, uma animação sobre desenhos e sonhos de Marc Chagall.
Quis contudo deixar antes desse vídeo, um slideshow sobre a obra deste magnífico pintor, para que quem não conheça a sua pintura, possa entender melhor a animação.


quarta-feira, agosto 12, 2009

casta diva

Vi há dois dias um filme sobre a vida de Maria Callas. Sempre tive uma paixão por ela, pela sua voz, pelo seu temperamento, pelo vulcão das suas emoções. Sempre me entristeceu a forma como se subjugou ao amor sem sentido que a levou não à felicidade que alvejava e merecia, mas à sua destruição. Há puristas que dizem que a sua voz não era perfeita. É por isso que gosto de não ser purista e apreciar as coisas pelo que elas me fazem sentir e vibrar. Digam o que disserem, Callas foi única. Para mim, que gostava também da Joan Sutterland, da Renata Tebaldi, como gosto agora da Anna Netrebko, todas cantaram a Norma e todas foram (e esta última ainda é), divinas.
Mas hoje desencantei no YouTube esta preciosidade gravada há décadas pela RAI - que apesar da falta de meios da altura ainda hoje nos permite vibrar com esta voz e com a música de Vincenzo Bellini - e não quis deixar de a partilhar convosco.

terça-feira, agosto 11, 2009

uma dupla improvável

Este vídeo é um verdadeiro achado. Filmado há décadas, na televisão brasileira, com um cenário e orquestra condizentes com a época e com uma dupla que para mim era completamente improvável. Apenas ignorância e preconceito meu. Afinal maneiras de ser, preferências políticas, gostos musicais diferentes não impediram que a dupla se entendesse. Duas grandes vozes para dois públicos aparentemente diferentes. No fundo, a vitória da música.

segunda-feira, agosto 10, 2009

in memoriam de raul solnado

Raul Solnado morreu, mas eu não sou obrigado a acreditar. Eu sei que ouvi as notícias, vi as reportagens e o crematório. Mas também ouvi as pessoas - os amigos, os que disseram sê-lo, os admiradores, a gente humilde que lidou com ele, e reparei que nenhum deles acreditou que Raul Solnado tivesse morrido. Mudou apenas de residência. A memória da sua arte, a sua maneira de ser, a generosidade de que todos falaram, essa permanece e nem sequer mudou de residência. Devo-lhe o ter-me ajudado a passar muito tempo feliz, da gargalhada à lágrima sensível. Por tudo isso, obrigado Raul e até sempre. E tem a certeza de que farei por ser feliz, já que assim queres...

domingo, agosto 09, 2009

cantiga dos ais

Num Portugal de ais, de cada vez mais ais, justifica-se que junte aqui a Cantiga dos Ais de Armindo Mendes de Carvalho, na voz do talentoso Mário Viegas que tão cedo nos deixou.

sexta-feira, agosto 07, 2009

evolução das espécies, segundo os simpsons

Cercado por netos e amor há quase um mês, não me tem sobrado tempo para nada além deles, muito menos ir escrevendo no blog. Aproveito para postar alguns vídeos que se vêem com agrado, fazem pensar ou rir ou ambas as coisas e me roubam pouco tempo. Desculpem qualquer coisinha ...

quinta-feira, julho 30, 2009

de como o que se diz se transforma naquilo que nunca se pensou, nem disse

Hoje em dia dar uma entrevista para um jornal, revista ou televisão, é acto de grande risco. Nunca se sabe no que vai dar. O melhor que pode suceder é que a entrevista não chegue a ser publicada, porque se o for e mesmo que se tenha exigido ou manifestado o desejo de ler antecipadamente aquilo que vai aparecer estampado em letra de imprensa,corre-se um risco sério de que aquilo que se vai ler, não corresponda minimamente àquilo que se disse e muito menos à forma como se disse.
Porque Luís Fernando Veríssimo escreveu numa das suas últimas crónicas no Actual uma magnífica sátira sobre este novo risco, achei importante trazê-la ao conhecimento de quem não lê aquele suplemento do Expresso.
Leiam, divirtam-se e sintam-se felizes por não correrem tais riscos.

a gaveta dos manguitos


A qualidade da vida faz-se de coisas essenciais e de pequenos truques e estratagemas que, de uma forma simples e por vezes inocente, nos permitem libertar do peso dos dias, do magma negro da vida citadina.

Isto faz-me lembrar a sabedoria popular, os gestos e atitudes simples, de gente também simples que aposta na simplicidade o pleno do seu dia a dia. Mas também as atitudes mais elaboradas, de gente mais esclarecida, que aproveita a inteligência e o humor como escudo protector contra os misseis homem-homem que o fluir dos dias contra eles insistentemente disparam.

E, de uma forma natural, vem-me ao pensamento a gaveta dos manguitos de Vasco Santana. Homem de humor e do humor, por excelência, beneficiando ainda da carga divertida de seu peso, de seus cento e cem quilos bem medidos, soube aprender por si, que só se pode ser e viver feliz, quando se está livre do efeito desgastante das conversas que se não desejam, das companhias que se não pretendem ou reclamam, das palavras que não afinam pelo diapasão da nossa maneira de ser.

Por isso, ele percebeu que tinha que inventar a sua gaveta dos manguitos. E que gaveta era essa? Apenas uma gaveta vazia da sua secretária atafulhada, mas organizada, no seu camarim de teatro. Era a superior esquerda. Para que servia e qual era o seu truque, o seu estratagema? Quando chegava ao camarim, abria a gaveta, fazia vários manguitos e deixava-os entrar para dentro da gaveta vazia. Depois, fechava-a.

Quando, após o espectáculo, começavam a chegar as pessoas incómodas que o vinham martelar com perguntas e questões idiotas, a que ele não podia escapar, ele fazia um sorriso de beatitude, abria ligeiramente a gaveta e, enquanto conversava afavelmente, olhava para a gaveta e libertava-se a ver saírem disciplinadamente os manguitos que lá metera.

Com este pequeno truque, Vasco Santana conseguia sobreviver às conversas desinteressantes a que era forçado e sentia-se liberto do stress, podendo manter um sorriso que doutro modo, mesmo sendo actor, lhe seria impossível.

Quantos de nós terão a sua gaveta dos manguitos e a usarão para a sua sobrevivência emocional e física? Quantos de nós terão a capacidade de intuir a sua necessidade?

Já um dia escrevi sobre as gavetas da nossa vida, as gavetas da nossa alma. Compartimentar conhecimentos e emoções, vivências e mortes, alegrias e tristezas, parece ser uma posição radical de estreiteza mental, de empobrecimento determinado, de um viver baço e frio. Parece ser. Disse bem. Mas, não é. Porque ter gavetas, não significa que estejam fechadas, com segurança e código. Ter gavetas, é apenas ter gavetas.

Depois, se dirá ou discutirá como elas devem ser. Invioláveis? Estanques? Incomunicáveis? Ou, pelo contrário, abertas, semiabertas, entreabertas ou escancaradas? Com capacidade definida ou expansíveis e de capacidade inesgotável? A gaveta das emoções, a gaveta das recordações, a gaveta da ciência, a gaveta do amor ou dos amores, a gaveta dos nossos manguitos, a gaveta da estratégia, a gaveta da nossa defesa ou das nossas defesas, a gaveta da amizade, a gaveta do ódio ou da sua ausência, um sem fim de gavetas, que fazem da nossa mente um verdadeiro contador, a que só o próprio tem acesso.

Onde vou meter o pôr do sol que acabo de ver? Que foi e já não é? Em que gaveta? Naquela em que já vários sóis se estão a pôr ou numa outra em que fica apenas este que agora vi e que tenho que guardar para que não se perca, porque o vi agora enquanto escrevia o que estou a escrever, enquanto abri e fechei gavetas à velocidade dos meus pensamentos e de seu registo em memória e suas ligações?

Contudo, pensar em tal não me equipa com o poder de criar a minha gaveta dos manguitos. Uma coisa é saber da sua necessidade e de a saber minha e outra bem diferente é a capacidade de a construir, como quem abre uma nova file no computador. Não se trata só de criar a gaveta, mas de saber o que lá meter e de qual será o seu efeito.

O que é que mais alivia o meu espírito? Seja o que for, será isso o manguito da minha gaveta. E para mim será sempre a gaveta dos manguitos, porque foi esta que deu a partida para as outras.

É complicada a vida.

É complicado viver.

Simplicidade. Precisa-se.

terça-feira, julho 14, 2009

quando a tempestade é arte e divertimento

As palavras estão dispensadas, por hoje. Para ver, ouvir e pensar. Em quê? Cada um saberá em quê.

domingo, julho 12, 2009

children see, children do

De pequenino se torce o pepino. Diz o provérbio antigo. Se já o esqueceu, fixe este - children see, children do. A outra face da moeda, a mesma finalidade.

sábado, julho 11, 2009

já é fim de semana .... finalmente ....


Estive fora esta semana. Tive vários contactos, em vários ambientes. Vi coisas novas e revi outras. Pensei na nossa situação de portugueses e nos nossos problemas. De regresso a casa e já fim de semana, pensei que devia publicar estas duas imagens que encerram em si um verdadeiro tratado de sabedoria. Saibamos todos dar um passo para que a nossa bandeira possa estar associada à sabedoria da primeira.

segunda-feira, julho 06, 2009

todos os cachorros são azuis

Morreu há dias, subitamente, com um enfarto do miocárdio, Rodrigo de Souza Leão, natural e residente no Rio de Janeiro. Tinha 44 anos e uma extensa obra literária, em prosa e poesia. O seu último livre, intitulado «Todos os cachorros são azuis» está em análise, entre 49 obras, pelo júri de um concurso literário português. Dizem os seus amigos, meus amigos brasileiros , que era um excelente amigo e uma personalidade ímpar. Grande escritor. Esquizofrénico.
Escreveu até morrer. Aqui deixo alguns poemas que retirei do seu blog Lowcura-

Cor azul

A mente esquizofrênica não funciona bem e boicota, sem os remédios, o tempo todo. Com remédios ficamos bem. Leves e tranqüilos para o mundo, que é muito bom. Fora as pessoas que não valem à pena, estas manter distância torna-se necessário. Positive Vibrations.

Thursday, June 25, 2009

TUDO É PEQUENO

Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hipnotizando a iguana

O que é grande
É a arte
Há vida em marte

Sem título

Entendi o funcionamento do cérebro humano.
Um duplo sem fim
Algo diz sim e algo diz não
E vence sempre o sim
Se a mente for um cetim


MELHORA

Tudo é uma criação da mente
Um poema ou um poente

Tudo tem um forte sentido
Quando não se oprime o indivíduo

Alguém soletra uma distância
A distância separa os fatos
A verdade não é tão necessária


LOUCO

Já fui gordo. Já fui magro.
Já fui ego. Já fui id.

Já fui o que quis e o que não quis.

Já fui muito. Já fui pouco.

Hoje tenho a sensação
que não passei de um louco.

Saturday, June 20, 2009


A gente aprende a ser bom
O mau nasce (Junho, 21)


VIDA

A mim foi negado tudo.
Até o absurdo.

Monday, June 22, 2009

domingo, julho 05, 2009

o boxe sempre foi leal ...


Há já algum tempo que é modalidade olímpica...

sexta-feira, julho 03, 2009

ouviram?

Posted by Picasa

Ouviram? Já vos disse que nós não vamos ser uma geração rasca! Ainda agora começámos e já temos quem fale assim como esta minha amiga americana que, ao contrário dos seus compatriotas ignorantes de hoje, sabe que se farta e sabe que há mais mundo para além da sua terra. Não precisamos de ser como ela - nem sei se será um bom exemplo - mas teremos que ser melhores que este entrevistador Jay Leno, considerado dos melhores e que termina a entrevista com a sentença mais parva que até hoje ouvi. E por falar em ouvir, sempre repito - ouviram?

quinta-feira, julho 02, 2009

para memória futura

A memória vai-se construindo dia a dia, ao longo da vida, até que em determinada altura dela se começa a perder ou a ser mais difícil chamá-la a nós. É normalmente a memória dos factos antigos aquela que mais persiste, tornando-se muitas vezes repetitiva e a memória recente aquela que nos traz mais problemas e complica a vida dos idosos. Em termos simples há quem explique isto como se a memória fosse uma sucessão de gotas que vão enchendo uma taça. Por isso, quando as novas gotas pingam na taça, acabam por sair fora e perderem-se. Seriam sempre as últimas a perderem-se e as do fundo da taça a manterem-se. Explicação rudimentar, mas ilustrativa. Tudo isto a propósito deste magnífico vídeo de origem grega, que nos fala de emoções, comportamentos, amor, paciência e também de memória.

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domingo, junho 28, 2009

viva a música

Após o post anterior em que recordei Michael Jackson no dia da sua morte, achei conveniente voltar a falar de música. Outra música e outro olhar. Poderei mesmo dizer um «certo olhar», já que esta música se engloba na chamada séria ou clássica. Classificações ... Música é música e há boa e má. Não vejo necessidade de a classificar de outro modo. Seguramente muitos do que venham a ler o que escrevi me irão chamar nomes, dos quais inculto será o menos grave. E se isso fizerem, isso ainda será menos do que chamam ao violinista e chefe de orquestra André Rieu, que chamem-lhe o que lhe chamarem, nunca deixará por isso de ser um dos melhores divulgadores da «boa» música. Em meu entender é um grande violinista que percebeu a tempo que fazer a escolha que fez, era a sensata. Investir menos na sua carreira de intérprete e mais na de grande divulgador.
Coloco deliberadamente dois vídeos, pois no primeiro em Itália, poderão ver gente de todas as classes sociais participar activamente no concerto e reparar que muitos deles conhecem bem o libretto e os textos operáticos. No segundo, um público talvez menos participativo, mas igualmente amante da música e conhecedor. O segundo vídeo foi filmado em Viena e vejam a beleza do enquadramento.
Ouçam, apreciem e não neguem que gostariam de ter estado em qualquer um destes concertos.
Há que investir na cultura.


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sexta-feira, junho 26, 2009

morreu michael jackson

Michael Jackson morreu hoje, de paragem cardio-respiratória, com 50 anos. Quase ao mesmo tempo, todas as estações de televisão, interromperam a emissão e fizeram um «Última Hora». Discordei, mas tenho que entender. O que ocasionou esta unanimidade foi o ninguém querer perder o comboio da notícia. Não discuto a qualidade do músico e bailarino que foi. Não discuto o papel ímpar que representou, o inovador que foi. o ícone da pop em que se transformou. Começou aos 5 anos e foi explorado pelo pai e não só. Nunca foi criança e nunca deixou de o ser. Sofreu, garantidamente. Teve defeitos como toda a gente e alguns que poucos têm e ninguém devia ter. Mas foi grande e merece que noticiem a sua morte e o recordem como alguém que foi diferente e fez feliz milhões de pessoas. O vídeo que aqui deixo teve mais de 100 milhões de visitas. Aqui fica o In Memoriam.

quarta-feira, junho 24, 2009

o humor e a crítica

O humor pode ser corrosivo para além de divertido. Pode esclarecer uma situação mais facilmente do que qualquer debate, conseguindo em segundos ou minutos o que duas mesas redondas por vezes não conseguem. O humor mostra o ridículo e a mentira das situações. O humor situa-se acima das ideologias, porque desmascara os seus bastidores. O humor quando é sério e analisa as situações friamente, sem partidarites ou clubismo, pode ser uma arma eficaz de esclarecimento. Parece-me que o vídeo que aqui coloco é um exemplo disso.

segunda-feira, junho 22, 2009

siga na faixa da direita

Observe o tráfego aéreo do nosso mundo visto do espaço, durante 24 horas. Cada segundo de filme, representa 20 minutos reais e cada ponto amarelo representa um voo com o mínimo de 250 passageiros. Não tenha medo. As rotas são bem definidas e voar continua a ser o meio mais seguro de viajar.
Mas, mais seguro mesmo, é viajar com a imaginação e as asas do pensamento, que como se sabe, não há machado que as corte. Nem a raiz...

domingo, junho 21, 2009

enquanto os robots não lêem

A tecnologia mais avançada chegou à Biblioteca de Eindhoven, Holanda. Concordo que é um sistema prático, eficiente, limpo, económico. Agradou-me que o leitor pudesse levar consigo o livro que deseja ler. Agradou-me a possibilidade de utilizar os robots com outros fins, como plateia para palestra ou concerto. Será que o robot ainda vai ler por nós e para nós, algum dia?
Gosto do progresso, da inovação. Mas olhando estes robots, veio-me à cabeça a sensação agradável que é esperar que os livros pedidos cheguem, enquanto vamos sendo envolvidos por aquele casulo meio uterino da sala de leitura e vamos aproveitando essa espera para pensar, escrever e, por fim, trocar algumas palavras ou dizer apenas obrigado a quem nos deposita os livros em cima da nossa mesa. Não há robot que nos dê esse prazer.

sexta-feira, junho 19, 2009

recordando charlot

Para rever e admirar mais uma vez. Para os que nunca viram perceberem que embora não baste o génio, haverá sempre diferença entre os que o têm e aqueles que transpiram mais e imaginam menos.

fado

Do filme de Carlos Saura - Fado. Para aqueles que gostam e para aqueles que não são ouvintes frequentes. Uma vida de fado, nas vozes magníficas de D. Vicente da Câmara, Maria da Nazaré, Ana Sofia Varela, Carminho, Ricardo Ribeiro e Pedro Moutinho. Na guitarra, Pedro de Castro e José Luís Nobre da Costa e na viola, Jaime Santos e Joel Pina.

terça-feira, junho 16, 2009

ajuda e preconceito

Lutemos pelo fim dos preconceitos. Lutemos contra a estupidez que empobrece a mente e gela o coração.

sexta-feira, junho 12, 2009

nosotros, los mexicanos

Na continuação do que aqui escrevi em 19 de Março p.p., sob o título - Crise, abençoada crise - coloco hoje este vídeo «Nosotros los mexicanos» feito no México, sobre os mexicanos e os seus problemas, que pode traduzir-se com quase total verdade para «Nós, os portugueses».
Oiçam e escutem bem. Esta mensagem que aqui deixo deve ser ouvida continuadamente até ser subliminar.

quarta-feira, junho 10, 2009

struggle for life

Uma lição de sobrevivência.

terça-feira, junho 09, 2009

quando a genialidade é divertimento

Habitualmente nestas situações, dispenso as palavras. Deixo aos leitores a fruição do momento. Deliciem-se com Maya Tamir, com oito anos de idade, a tocar em Março de 2009 o Concerto para piano e orquestra em D Maior de Haydn, acompanhada pela Orquestra Filarmónica de Israel. Reparem na leveza, na segurança, no divertimento. E reparem também como parte de um público menos formado ou mais apressado nas palmas, nos priva de alguns segundos de prazer.

quinta-feira, abril 23, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 23


Todos os pássaros, todos os pássaros
Asas abriam, erguiam cantos,
De Amor cantavam.
Todos os homens, todos os homens,
De almas abertas, de olhos erguidos,
De Amor cantavam.

José Gomes Ferreira


Assim foi, de facto, nesse dia.

Nesse e nos muitos que se lhe seguiram.

De almas abertas para todos quantos viam, para o vizinho para que nunca tinham olhado, para o empregado que os servia, para o patrão que já antes odiavam.

De olhos erguidos para a luz, para o sol da liberdade, depois dos anos chumbo da ditadura.

Mais do que a 25 de Abril, a catarse total de 1 de Maio. Na verdade todos de amor cantavam. Menos aqueles que apenas cantavam para não se ver o medo interior do acertar de contas possível. Quantos seriam ninguém sabe. A Revolução foi generosa e não houve acerto de contas.

Quem dera que ainda hoje cantássemos com o mesmo amor e de olhos erguidos.

Que saudades tenho de te ver, Zé Gomes, quase todos os fins de tarde a conversar com o Carlos de Oliveira no passeio da Praia da Vitória, frente à casa onde morava o Carlos.

Passado todo este tempo sobre aquele dia e sobre o vosso desaparecimento, acabados muito ideais, emboçados muitos sentimentos, vem-me à cabeça aquele teu verso ímpar – ah, se eu pudesse suicidar-me por seis meses -, que funcionaria como um despertar da esperança, de ao acordar tudo estar diferente.

E se estivesse, como olharíamos para nós por nada termos feito todo esse tempo?

CVR


sábado, abril 18, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 22


"Tenho pensamentos,
que se pudesse revelá-los
e fazê-los viver,
acrescentariam nova
luminosidade às estrelas,
nova beleza ao mundo
e maior amor ao
coração dos homens."

Fernando Pessoa


Tive tantos pensamentos ao longo da minha vida, e tão continuadamente constantes, que de tanto me parecerem fantásticos e singulares, nunca me permitiram exteriorizá-los e fazê-los viver, por receio do eco que me viria de quem os ficasse a conhecer.

Também por preguiça, é certo. Aquela preguiça que muitas vezes me faz pensar na má distribuição das coisas, das qualidades e defeitos que nos foram atribuídas.

Sei que alguns pensamentos, muitas ideias, me pareceram verdadeiramente boas e capazes, não de mudar o mundo, mas de mudar qualquer coisa nele. Como sei também que o trabalho que comportava pô-las em prática não foi compatível com a minha inércia ou preguiça para a sua concretização.

Vejo-me capaz de criar e incapaz de realizar. Mas sei que posso realizar e com esforço e continuidade, se não houver em jogo uma ideia secreta, ainda não provada.

E como eu gostava de levar mais amor ao coração dos homens …

CVR


sexta-feira, abril 10, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 21


Se

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Por isso me interrogo – se tanto me dói que as coisas passem, deveria ser porque cada instante em mim foi vivo.
Mas verifico honestamente que não. Qualquer pré-filtro, qualquer pré-julgamento, faz com que em mim as coisas sejam já avaliadas antes de serem coisas perante mim, quero dizer perante o “mim” interior. Coisas e sensações entram-me pelos olhos, pelos ouvidos, pelos cheiros, pelo gosto, pela pele, mas é no interior de mim, na central processadora de dados da mente que se faz a verdadeira avaliação, aquela que vai determinar da permanência delas dentro de mim, enquanto lembranças, enquanto memória, apenas despida ou recheada de informação complementar.
Eu sei que este mim, está sempre aberto às coisas e sensações vivas, mas sei também que nem todas se eternizam.
Digamos que tenho memórias vivas de muitas coisas que não consigo reconstruir, o que deveria significar que elas não foram verdadeiramente vivas. Mas foram. Sei que foram. Tão intensamente vivas que apesar da rapidez do processamento ainda deixaram vestígios que, pelos vistos, se mostram indestrutíveis.
Quem me dera que quando o desejasse, pudesse chamar a mim a totalidade dessas vivências, eternizadas, e pudesse voltar a senti-las da mesma forma, com a mesma intensidade, com o mesmo tempo. Seria talvez a melhor forma de me manter vivo.
CVR

sexta-feira, março 27, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 20



Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

Fernando Pessoa

Quando repararei eu no essencial e esquecerei o supérfluo?
Só então poderei dizer que eu sou apenas eu e o que outros vêem em mim é apenas o que os outros em mim vêem.
Mas sinto que há uma grande contradição naquilo que julgo. Pois tenho tido sempre para mim que o que vejo das coisas e das pessoas é sempre o essencial e provavelmente apenas tenho visto o que dispensaria ser visto.
Mas será que eu me tenho enganado tanto?
Quando digo que olho para uma pessoa e lhe tiro logo o retrato a cores, será que apenas fotografo o que podia dispensar?
Eu sou realmente eu ou apenas o que aparento ser? O que outros vêem em mim?
Eu sou o todo de mim – o que sou, mais o que aparento.
E provavelmente o que sou é o que aparento.
Ou aparento exactamente o que sou?

CVR

quinta-feira, março 19, 2009

parabéns, pai



Hoje é o teu dia, pai.
Continuo a dizer o que sempre disse - só tiveste um defeito. Morreste cedo de mais.
Aqui fica o meu obrigado e a minha homenagem.

crise. abençoada crise


Antes que alguém se escandalize com o título desta pequena crónica, aviso que, tal como em muitas outras coisas, o que parece não é.
Aliás, é disso que vos vou falar. Do que parece e não é. Refiro-me a este nosso País – Portugal.
Mesmo historicamente fomos sempre um arremedo de país, um parece mas não é. Mesmo na época áurea dos Descobrimentos, mesmo com Tordesilhas, parecíamos mas não éramos; parecia que dominávamos o mundo, mas, em boa verdade, só lá ficavam os padrões, os representantes reais e alguns senhores de escravos.
Tivemos recursos ilimitados à nossa disposição, materialmente de nossa posse, mas tal como agora, só alguns se aproveitavam, só alguns deles se apropriaram. O poder, esse, esbanjava.
Portugal foi ao mesmo tempo, berço de grandes homens, bem formados, sérios, íntegros, inteligentes, corajosos, patriotas, pouco parecidos com os demais. De alguns desses homens encarregou-se a Inquisição, seus laicos sucedâneos e os senhores de terras e de títulos.
Somos um país que parece uma coisa e é outra. Quem analisa apenas a nossa História
(e convém não esquecer que ela foi escrita por nós) ficará com a ideia que somos um país grandioso, com séculos de história, o mais velho país europeu com as mesmas fronteiras, que descobriu novos mundos em todos os continentes, metidos em cascas de noz, barricas de biscoitos e peixe seco.
Mas se formos nós a analisar-nos, com justeza, sem preconceitos ou clubismos, o que vemos? Como sai o nosso retrato?
Vemos um País com uma massa humana formidável, que quando se faz ao longe e ao fora, se mostra trabalhadora, inovadora, lutadora, esforçada, mas que quando regressa ou fica envolvida pelas nossas fronteiras, quando fica no redil, se transforma no seu contrário, no avesso daquilo que mostra e se faz rebanho.
De sérios passamos a trapaceiros, de rigorosos a facilitas, de trabalhadores a sornas, de íntegros a golpistas, de corajosos a cobardes e invejosos.
Comecei a escrever estas palavras, lembrando-me apenas da situação que estamos vivendo, desde que a crise mundial ou global se instalou.
Todos, penso que todos, saberão que a Crise é global, mas se nos ouvirmos, a crise é da responsabilidade do actual governo. Deste governo, ou simplificando, do Sócrates ou do Socras como muitos dizem.
Quer dizer que para nós, o responsável da Crise, é exactamente aquele que antes dela existir estava apostado em melhorar a situação de Portugal, reformando ou tentando reformar aquilo que precisava e continua precisando de reforma, recuperando e contendo o deficit e a inflação e o desemprego que governos anteriores não souberam combater, apesar de quase serem afogados pelo mar imenso dos euros de Bruxelas.
Não estou a defender este governo, nem a atacar os anteriores. Estou apenas a chamar os bois pelos seus nomes e a tentar analisar com clareza a situação actual.
À vossa possível pergunta – o Governo tem governado bem? – eu terei que responder – numas coisas sim, noutras não. Criticarei o pouco empenhamento em levar as reformas mais longe, em combater o fosso entre os escandalosamente ricos, a classe média e os pobres. Qual classe média? Ainda existe?
O governo tem feito muitas asneiras, tem sobretudo feito menos do que devia e se adivinhava que podia e queria.
E é aqui que está a diferença - pelo menos quiseram fazer, começaram a fazer, a enfrentar os poderosos, o corporativismo.
Começaram. É preciso que continuem e vão em frente.
Veio a crise, a tal que é global e os portugueses dizem que é culpa do governo.
Parem um pouco e pensem. Quantos de vós têm feito alguma coisa pelo País? Quantos de vós querem e exigem que seja o País a fazer tudo por vós?
Quantos de vós respeitam totalmente as vossas obrigações fiscais? Só não foge quem não pode. Quantos de vós não aplaudem a fraude, a cunha, a cópia fraudulenta, o excesso de velocidade, o desrespeito por leis, os subsídios da CEE desviados para outros fins? Quantos Audis em vez de tractores? Quantas piscinas em vez de bebedouros?
Por isso eu chamei a esta crónica “abençoada crise”. Porque sei que ela pode ser abençoada, se todos nós, face a ela, encararmos a nossa realidade, o nosso comportamento e passarmos a respeitar-nos uns aos outros, a ter consideração pelos melhores em vez de inveja, unirmos as mãos e os esforços para juntos levantarmos Portugal. Se todos entendermos de uma vez por todas que a arte do desenrascanço português é o nosso maior mal. Temos todos que passar a fazer o nosso melhor, pensando no bem de todos e não só no nosso.
Aproveitemos todos as lições da crise para aprender a sermos gente digna, merecedora de um País melhor.
Que nenhum de nós se queira rever nas figuras da crise, nos Maddoff’s e Costas vários e se sirva deles como exemplos do que não se deve ser, em vez de lá no fundo de cada um pensarmos que não nos importávamos de ter feito o mesmo, escapar a uma justiça que não funciona e vivermos o resto dos nossos dias à conta do que fraudulentamente adquirimos.
Que um dia possamos dizer – abençoada crise.
CVR

quinta-feira, março 05, 2009

as mil faces da mulher

Não sei que mais admirar - se a beleza das imagens, se a ciência de as ligar.
Todos os artistas que as pintaram felicitariam quem assim as aproveitou.
Vale a pena ver e rever.

domingo, fevereiro 22, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 19


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa


Guardo as pedras ou as dores que elas me causam?

Ou sempre guardei umas e outras?

Sempre as guardei ou só agora o faço

Quando a vida se aproxima do fim?

Questiono-me se vale ou valeu a pena guardar as pedras

Com que faria os castelos a que tantas vezes me propus.

Nunca me neguei a ouvir um não

E não considero coragem fazê-lo.

Ter uma vida fácil, como foi a minha, tudo nos rouba.

Embota-nos o pensamento e os sentimentos,

Não se dá real valor a nada ou quase nada.

Mas o pior, é chegar ao fim e perguntar – o que andei cá a fazer?

E, no entanto, fui muito feliz poucas vezes

Angustiado não sei quantas,

Salvei vidas, despertei amores, desamores,

Ódios, invejas, incompreensão

E sempre encontrei meus oásis.

Ou simplesmente, miragens?

CVR



sexta-feira, fevereiro 20, 2009

como se chegou à crise, assim dizendo ...

Foram muitos os caminhos que conduziram o mundo à crise em que a maioria do mundo se encontra, empurrados para ela por aqueles que, mesmo hoje, a não sentem.
Este vídeo que aqui vos deixo, mostra com humor, um desses caminhos ou o mais importante deles.
A ganância e a ingenuidade de muitos e o desprezo e exploração de uns poucos por todos, um liberalismo quase selvagem e a falta de valores, aqui nos conduziram.
Penso que nenhum de vós se arrependerá de ver o vídeo com que vos deixo.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

uma palestra fora do comum

Não percam esta palestra fora do comum, proferida por um homem também especial.
É seguramente uma lição de vida, como nenhum dos alunos da Universidade de Stanford terá tido durante o curso. E será talvez aquela que mais recordarão desde esse dia. Curiosamente proferida por um não universitário.
Vale a pena ouvir e pensar. (Vejam os dois vídeos, porque a palestra está dividida).


sexta-feira, janeiro 30, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 18


Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. É certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.
Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente - claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.
Fernando Pessoa


Será que só medito no intervalo do sentir ou também enquanto sinto? Mas não sinto eu tão intensamente que não resta espaço para meditar? Se medito não posso sentir tão intensamente como gosto de sentir, mas se não medito reduzo-me a simples terminais sensoriais. Terei conseguido explicar este raciocínio claramente? Seguramente que não, já que para poder escrever claro, teria que o pensar claro.
Gosto mais de sentir ou meditar? Será que o posso responder claramente? Sinto-me como um ser sensorial e sensível, que gosta de meditar, mas que o faz não com as regras do pensamento, mas com as regras com que escrevo – confusamente.
Certo é que quer sinta quer medite, o faço com as minhas regras, com a intensidade com que sei, com o abandono com que recebo e sinto – seja a sensação, seja o que medito.
CVR

quinta-feira, janeiro 29, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 17


Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.
Fernando Pessoa


Entre mim e a vida não há um vidro, mas um estado de alma, um escudo defensivo, quase sempre, ofensivo muitas vezes, que, embora me permita vê-la com nitidez e na sua quase totalidade, me impede compreendê-la a maioria das vezes e por mais que me esforce.
Há sempre um pequeno degrau a subir ou a descer, entre a vida real e o real que ela me transmite ou me permite prever.
É qualquer coisa de indefinível, qualquer coisa de faz de conta, que baralha a realidade, as realidades da realidade. Comigo, o que se passa é que nunca posso afirmar, ter a certeza de que a vida é isto ou aquilo, qualquer coisa definível, mas antes qualquer coisa de incerto, que me parece ser assim como a penso, mas se vem a verificar ser o seu contrário.
A vida é difícil de viver. Imagine-se como será por quem a vê assim ou por quem dela apenas esta visão lhe é consentida.
As voltas que eu lhe daria se pudesse deitar-lhe a mão!
CVR

quarta-feira, janeiro 28, 2009

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 16


É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

Fernando Pessoa


Com facilidade se confunde o que é necessário e o que é desejável. Tudo depende da força do desejo. Pode desejar-se tão intensamente, de uma forma tão constante e aparentemente real, que a dado momento não é desejo que se sente, mas a fome intensa e necessária, daquilo que o não é, nem nunca será. Tudo formas de sentir e intensidade de sentimentos. É precisar duma inutilidade, como de pão para a boca. É acreditar que se vai ter a lua, mesmo sabendo que aqueles que já a pisaram, só amostras trouxeram dela. E mesmo que essa realidade esteja presente, há alguma coisa melhor do que acreditar, não o fazendo, naquilo que sabemos inacessível, mas tão profundamente desejamos?
Toda a vida quis a lua e sempre me contentei em olhar para ela, esperar os seus ciclos, passear na lua cheia, sorrir para ela, confessar-lhe coisas secretas e acreditar que ela me ouve, me entende e vela por mim?
Há o necessário e há o desejável. Qual deles o mais necessário?

CVR

sexta-feira, janeiro 23, 2009

ensino ou comunicação?



Penso que qualquer pessoa se emociona com a beleza do espectáculo que aqui vos deixo. Mete impressão ver até que ponto se pode levar a comunicação entre treinador e treinados. Até que ponto pode ir a liderança. Os cavalos fazem o que o treinador lhes manda ou comungam com ele do prazer do espectáculo? Tudo se passa na região da Camarga e apenas sei que o equitador se chama Lorenzo. Vejam e revejam as vezes que vos apetecer.