sexta-feira, outubro 01, 2010

a sensualidade e o erotismo nas doses certas

Chegado hoje da Polónia fui encontrar entre o correio recebido este magnífico vídeo, em que o chamado Duo MainTenanT, constituído por Nicolas Besnard e Ludivine Furnon, artistas do Cirque du Soleil, apresentam o seu número circense envolvido numa sensualidade e num erotismo fora do comum nestas exibições. Ludivine Furnon recebeu em Paris a medalha de prata conquistada no 31.º Festival Mundial do Cirque de Demain. Este vídeo foi gravado numa apresentação deste Duo no "Benissimo" Live TV show 2010. Vejam com atenção e não se arrependerão.


segunda-feira, setembro 20, 2010

até outubro

Durante uns dias vou estar longe deste blog e deste país. Em Outubro estarei de volta. Deixo-vos com uma imagem da catedral da cidade polaca que me acolherá. Dela e desses dias falarei no meu regresso e também do tema em discussão - a ética e a moral, hoje.

terça-feira, setembro 14, 2010

adeus ângelo



Só agora soube que morreste, uma coisa quase improvável em ti. Quem passou pelo Porto e por Coimbra, quem depois conviveu contigo anos e anos em Lisboa, ficou sempre com a ideia que os dias não passavam por ti e o calendário se esquecia de te marcar a passagem inexorável do tempo, como faz com todos nós, aqueles de quem ninguém duvida que um dia desaparecerão. Mas contigo não era assim. Cada encontro te mostravas igual, talvez melhor. Sempre com o teu sorriso, sempre com a piada pronta, a observação certeira, o chiste rápido, e sempre o inseparável papel no bolso, que retiravas e nos mostravas, dando-nos algo de ti - um poema, uma crítica feroz, um baú de humor.
Só agora soube que no passado dia 30 de Julho tinhas resolvido deixar-nos e decidiras levar para o além o teu espírito inquieto, a tua juventude de 90 anos e a ideia que só a ti lembraria de pores os anjos a cantar o fado de Coimbra, não só os muitos que escreveste e musicaste, mas o de todos aqueles que o trouxeram até hoje.
Partiste sem me avisar e em falta comigo, se bem te lembras. Pedi-te uma informação e nunca me telefonaste a dar-ma. Quando depois disso te encontrei, perguntei-te porque nada me disseras. A resposta veio pronta - tens razão, Carlos, nem sei como me esqueci, logo agora que eu me lembro todos os dias que me esqueço de tudo!! Sempre tu.
O vídeo seguinte mostra algumas cenas do filme Capas Negras em que se pode ouvir o primeiro fado da autoria de Ângelo Araújo - Feiticeira.



Da Biografia escrita por José Niza publico algumas notas sobre ti, que não respeitam à nossa amizade, mas à tua circunstância. Aqui ficam para quem não saiba nada de ti.

«Ângelo Vieira de Araújo nasceu em S. João da Madeira, a 1 de Janeiro de 1920. Completou o curso dos liceus no Porto e, em 1936, matriculou-se na Faculdade de Medicina desta cidade. Nos seus tempos de caloiro foi membro da Tuna Universitária do Porto, como solista de banjolim; foi também 2.° tenor do Orfeon Universitário do Porto.
Em 1937 transferiu-se para Coimbra, onde se licenciou em Medicina (1947), depois de ter cumprido o serviço militar. Foi membro da Real República do Kalifado.
Nos seus tempos de Coimbra foi 1.º violino da Tuna Académica e músico da sua Orquestra Havaiana. Pertenceu ainda ao Fado Académico e integrou o TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, fundado em 1938), organismo cuja fundação se deve à iniciativa de Jorge Moraes (Xabregas), guitarrista que marcou a geração de 1940.
Ângelo de Araújo, para além de poeta e compositor, tocava também diversos instrumentos (violino, banjolim, guitarra e viola).
Mas foi sobretudo como compositor e poeta que se notabilizou, sendo autor de cerca de duas dezenas de fados e baladas, dos quais se destacam a célebre Feiticeira, o primeiro que compôs. Esta canção foi estreada e divulgada por Manuel Julião, cantor dos anos 40 e, posteriormente, interpretada por Alberto Ribeiro, no filme Capas Negras, em que este cantor contracenou com Amália Rodrigues. Neste filme há outra canção de Ângelo de Araújo, interpretada pelo tenor Domingues Marques.
Outros fados, como Suspiros que Nascem na Alma, Contos Velhinhos, Minha Capa já Velhinha, Carta (Soneto), Balada do Crepúsculo, Coimbra dos Meus Encantos, Santa Clara, Amor e mais Nada e Maria se Fores ao Baile, têm também a marca da sua criatividade».

sábado, setembro 11, 2010

às vezes não é só fumaça


Recomendo a leitura deste texto de Mia Couto sobre os recentes acontecimentos em Maputo após o anúncio governamental do aumento de preço do pão e outros bens. O que se passou foi lá, já está aparentemente saneado com a cedência do Governo, mas pode acontecer em qualquer lado onde o autismo do Governo não leve em conta a opinião pública e considere mais a publicada.

A pobreza sai muito caro

Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.
E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo actuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, excepto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.
A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este parodoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.
Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.
Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutores e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direcção política do país. Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.
Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a “quem de direito”. Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam “uma resposta”. Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expectativa.
Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.
As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.
Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os “não eventos” da nossa história recente. Um deles é a chamada “guerra civil”. O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio. Entre esquecimentos e distorções, o fenómeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.
Vvemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos “bandos armados” esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas. Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os “maravilhosos” avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjectivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é “maravilhoso”, que o nosso país é “belo”. Mas todos os povos do mundo são “maravilhosos”, todos os países são “belos”. A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza.

Mia Couto, O País

quinta-feira, setembro 02, 2010

seja cientista amador ou ajude quem o é

A um dos seus mais recentes 'Passeios aleatórios', que Nuno Crato escreve e assina no Expresso, intitulou-o de 'cientistas cidadãos'. Nele explica como é possível a cidadãos comuns participarem em investigações em curso a nível mundial e fazê-lo de uma forma passiva ou activa, consoante a preparação, a disponibilidade e o interesse. Mesmo quando passiva essa participação será sempre útil, pois permitir acelerar a investigação, aproveitar a capacidade dos verdadeiros investigadores, deixando-os libertos de pesquisas que lhes roubavam tempo, para o poderem aplicar em investigação que só eles poderão fazer. Considero esta possibilidade interessantíssima e não quero deixar de a dar a conhecer a mais algumas pessoas. Esta informação vinda de quem vem, é segura, é real e merece ser apoiada. Leiam o que Nuno Crato lhes quis dizer para que o soubessem e reajam activamente. Sintam isto como uma nova pulsão e vão atrás dos pulsares que por aí andarão à espera de quem os descubra.

a arte de fazer a corte ou canto dos bons malandros

Na água, em terra ou no ar, é sempre preciso uma boa 'cantada', como exemplificam as várias imagens com que vos deixo. Aprende-se a cantar e dançar assim, no livro da vida ou no livro de instruções que já vem no ADN?

quinta-feira, agosto 26, 2010

inteligência animal

Qualquer lisboeta gostará de ver os dois vídeos que vos deixo, porque são corvos os animais escolhidos para demonstrarem a inteligência animal, fazendo-o de tal maneira que raciocínio e inteligência se afirmam como coisas naturais.
No primeiro vídeo o corvo descobre a maneira mais fácil de quebrar a noz, depois de uma tentativa que se mostrou falhada, embora o raciocínio tivesse sido correcto. Reparem que o corvo espera o sinal ficar vermelho para os carros e só então desce em segurança para pegar os pedaços da noz no asfalto; ao contrário de muitos humanos que se esquecem desse pequeno detalhe de respeitar o semáforo.
No segundo vídeo o raciocínio é ainda mais elaborado nas suas soluções. Só vendo. Não deixem de o fazer, pois é bom ser surpreendido.



terça-feira, agosto 24, 2010

consegue assobiar assim?

Em Abril passado deixei aqui um vídeo com uma magnífica interpretação da Orquestra Sinfónica de Kiel das Czardas de Monti, com solo em assobio de Geert Chatrou. Poderia pensar-se que não voltaria ao assobio, esse magnífico instrumento com que todos fomos dotados e alguns executam bem, mas pensando melhor vou deixar um pequeno vídeo com outro genial intérprete de assobio, Roger Wittaker.
O assobio é um magnífico tratamento para o stress, mas não deve ser usado para assobiar para ao lado...

segunda-feira, agosto 23, 2010

léo ferré ele próprio e revisitado

Aqueles que já contam mais de 50 anos, por certo apreciarão ouvir uma vez mais a poesia e a voz de Léo Ferré, esse magnífico escritor e cantor, nascido no Mónaco em 1916 e falecido em 1993. Todos os que então o ouviam, apreciavam garantidamente a beleza das palavras, a música que as acompanhava e ainda, ou sobretudo, a sensibilidade, a expressão, a emoção, que ele lhes imprimia. Poderia colocar aqui muitos dos seus sucessos. Escolhi colocar Thank You Satan, pela força da mensagem, pela modernidade com que construiu alguns efeitos musicais e, sobretudo, por poder deixar também aqui uma versão do mesmo poema interpretado por uma banda de rock ou art rock criada no mesmo ano em que Ferré morreu - os Dionysos. Banda de jovens liceais, residentes em Valence, no Drône, sudoeste de França. Vale a pena ouvir as duas versões. Vamos a Léo Ferré, o próprio:



Ouçamos agora os Dionysos - Mathias Malzieu, Éric Serra Tosio, Michaël Ponton, Guillaume Garidel, Élisabeth Maistre (Babet) e Stéphan Bertholio



Para aqueles que tenham perdido algumas das palavras do poema, deixo-vos uma tradução em português feita pelo brasileiro Paulo de Tharso

Thank You Satan, de Léo Ferré

Por essa chama que você acende

No vazio de uma cama pobre ou não
Pelo prazer que ela consome
Em panos de seda ou algodão
Pelas crianças que você cria
Nos dormitórios de querubins
Por suas pétalas esquecidas
Como a rosa da manhã

Thank you Satan

Pelo ladrão que você aquece
Com tua lã macia e berne
Por toda porta descerrada
Dos celeiros dos ricos empanturrados
Pelo condenado que você vela
Na abadia dos ministérios
Pelo rum barato e velho
E pela guimba que você lhe dá

Thank you Satan

Pelas estrelas que você semeia
No remorso de um matador
Pelo coração que bate igual
No peito das putas dos bataclãs
Pelas idéias maquiadas
Na mente de todo cidadão
Pela queda da Bastilha
Que nunca nos dará o pão

Thank you Satan

Pelo padre que se exaspera
Para encontrar o cordeiro de Deus
Pelo sangue vagabundo, elementar
Que ele bebe como Château Margoux
Pelo anarquista a quem você dá
As duas cores de teu país
O vermelho para nascer em Barcelona
E o negro para morrer em Paris

Thank you Satan

Pela sepultura anônima
Que você deu ao Monsieur Mozart
Sem cruz, sem nada, salvo a piada sem graça
De um cão surgido ao acaso
Pelos poetas que você escorrega
Nos travesseiros dos adolescentes
Quando eles crescem sob a sombra cúmplice
Das flores do mal dos dezessete

Thank you Satan

Pelo pecado que você faz nutrir
Nos seios das mais rígidas virtudes
E pelo tormento que irá surgir
No canto dos leitos onde você não mais está
Pelos imbecis que você ordena padre
No pasto como carneiros
Por teu orgulho de jamais aparecer
Na televisão

Thank you Satan

Por tudo, e mais ainda:
Pela solidão dos reis
E pelo riso na cara das caveiras dos mortos
O jeito de driblar a lei
E que não me ponham o dedo em riste
Pois eu canto por teu bem
Nesse mundo onde as focinheiras
Não são feitas só para os cães

Pela beleza destes dois vídeos poderei dizer - Thank You Satan

sexta-feira, agosto 20, 2010

ondas da política

Até nas pessoas, individualmente, existem diferenças e alterações, consoante a 'onda' em que se está. Por exemplo, eu posso não apreciar muito os editoriais de um jornalista do Expresso e posso, ao mesmo tempo, apreciar muito e, quase sempre, o que escreve no mesmo jornal (o mesmo jornalista) em nome do Comendador Marques de Correia. Deixo-vos com uma das suas últimas Cartas Abertas em que disserta sobre ondas e política. Penso que devem ler e pensar sobre isso.

«(…) As ondas do mar fazem-me lembrar a política. Para quem anda em cima da terra já há uns bons anos, como eu, vejo que, ao fim do dia, já com o Sol a mergulhar no mar, as ondas se confundem, como os governos se confundem. Quereis um exemplo: o condicionamento industrial foi de Salazar ou foi o que agora se utilizou para vender um ativo da PT e comprar outro? Já não sei, de tal modo tudo se torna semelhante. Por outro lado, a justiça popular foi própria do PREC, em 1975, ou é uma coisa que os procuradores fazem atualmente quando não conseguem reunir provas que sustentem a sua pré-formatada tese ou a sua teoria da conspiração? Os lugares do Estado eram reservados para os adeptos do regime no tempo de Marcello Caetano e no de Vasco Gonçalves ou é agora que os reservam? Os escalões intermédios dos partidos eram mais papistas do que o Papa no tempo de Cavaco à frente do PSD ou no tempo atual?
A cada onda sucede outra, que desmaia com mais ou menos a mesma intensidade e estrondo do que a anterior. A cada vaga parece que o mundo é alterado, mas o mundo fica na mesma - os homens sussurram, mas o barulho do mar, o estrondo das ondas abafa as palavras ...
Os privilégios dos grandes grupos económicos eram do tempo de Alfredo da Silva, quando fundou a CUF, ou dos tempos de agora, quando ganham mais-valias de muitos euromilhões graças à intervenção do Governo? As companhias majestáticas eram próprias dos séculos XVIII e XIX ou continuam presentes nas EDP, PT, GALP e outras, que se mantêm protegidas por um poder forte e centralizado que as promove contra concorrentes internos e estrangeiros?
As vagas sucedem-se e, de quando em vez, rebenta uma com estrondo que parece ter destruído a ordem anterior. Porém, passados poucos minutos, tudo volta ao normal, ainda que se proclame que a nova ordem triunfou. Já não há latifundiários, há grandes proprietários agrícolas; já não há patrões, há empresários; já não há especuladores, há investidores; já não há patos-bravos nem novos-ricos, há respeitáveis presidentes de construtoras e ex-ministros que são seus homens de mão. Era no tempo de Salazar que era muito lucrativo já ter sido membro do Governo ou é agora?
Mais uma onda, mais um pedaço moldado, enquanto de terra olhamos com indiferença essa sucessão de pequenos ajustes.
Nada é novo. E, como dizia Cícero, "nihil fit quod non necesse fuerit" - nada acontece que não tivesse mesmo de ser. A clareza que desejamos, as fronteiras que construímos na teoria falham ou não existem na realidade ... A seguir a uma onda vem outra onda igual e faz mais ou menos o mesmo daquela que a precedeu. Estas linhas são novas ou já foram escritas? São a brincar ou são a sério?
Em breve serão esquecidas ... vem outra onda».

terça-feira, agosto 17, 2010

o grau zero da confiança na justiça



No Expresso do passado dia 14 de Agosto de 2010, Daniel Oliveira escreveu na sua coluna habitual um artigo que intitulou «A Justiça dos Mortos-Vivos», em que de uma forma simples, clara, sintética, mostra alguns dos caminhos que conduziram à actual situação da Justiça e ao grau zero da confiança que os cidadãos nela depositam. Mostra ainda a acção perniciosa do clubismo partidário que conduz os cidadãos, supostamente seres pensantes, a não quererem avaliar por si as situações, mas a analisá-las sempre com a cor partidária. Mostra ainda o caldeirão imenso em que se cozinham as ementas ao gosto das conveniências partidárias.
Por tudo isto e porque me parece ser um artigo que pode ajudar muitos daqueles que parecem ter abdicado de pensar por si a recuperarem o seu juízo crítico, independentemente de torcerem por uns ou por outros, é que resolvi transcrever aqui o referido artigo, com os meus agradecimentos e felicitações ao autor.


«Para quem esteja, como está a esmagadora maioria dos portugueses, distraído em relação às minudências do 'caso Freeport' há pelo menos uma coisa evidente: que o Ministério Público tem sido palco de confrontos políticos onde cada investigação que envolva pessoas com responsabilidades públicas é um novo round. E neste confronto a independência dos vários procuradores é tudo menos um dado seguro.
Uma parte do país está convencida de que José Sócrates é culpado. Não interessa culpado de quê. Acha que o homem não é sério e, por isso, qualquer acusação que lhe seja feita está provada à partida. Outra parte do país está convencida de que José Sócrates é inocente. Não interessa inocente de quê. Acha que o homem é líder do PS e, por isso, qualquer acusação que lhe seja feita não passa de uma cabala. E a maioria do país não faz a menor ideia de que estamos todos a falar. Perdeu-se há muito no labirinto da justiça portuguesa e tem, por agora, coisas mais importantes com que se preocupar.
Acontece que não é a primeira vez que cai sobre o Ministério Público a suspeita de manipulação política dos seus poderes de investigação. Quem esteve atento ao 'caso Casa Pia' percebeu que muito se jogava ali além da investigação de violações de menores. Nem os casos são semelhantes nem o desastre daquela investigação impede que outras se façam com eficácia. Mas o que ficámos a saber é que os poderes judiciários são terrivelmente permeáveis ao contexto político em que se movem.
Não é coisa de hoje. Na
Procuradoria sempre houve coutadas políticas. A diferença é que, no tempo de Cunha Rodrigues, a comunicação social era menos afoita e estes debates não se faziam à luz do dia. Agora fazem-se. A porcaria corre a céu aberto e não é bonita de se ver. E como tudo acontece aos olhos de todos, as investigações passaram a ter repercussões políticas desconhecidas até ao 'caso Casa Pia'. Como se viu, é possível usar a justiça para decapitar a liderança de um partido sem sequer ter de a levar até ao banco dos réus. E mesmo depois de se pôr de lado o envolvimento de alguém num crime, a suspeita anda por aí como um zombie, a atormentar para sempre aqueles com quem se cruzou em vida. Por isso, escaldados que estamos, não duvidamos de que é possível manipular a justiça para matar ou salvar um governante. E enquanto suspeitarmos de tal possibilidade teremos uma democracia coxa.
As minhas convicções sobre o 'caso Freeport' são poucas: que a aprovação daquele empreendimento tem contornos administrativos pouco claros; que não tenho nenhum facto indesmentível que me leve a pensar que a responsabilidade de Sócrates é mais do que política; que durante muito tempo a direita, como acusadora ad hoc, e Sócrates, como vítima empenhada, usaram o caso para não ter de discutir a situação do país; que não falta quem queira que as sentenças se lavrem nos jornais; e que os agentes de justiça foram incapazes de dar aos cidadãos qualquer sinal de confiança de que a verdade se viria a saber.
O 'caso Freeport' morreu como tantos outros: sem que a justiça conseguisse enterrar o corpo da suspeita. E mais uma vez a sua alma penada andará por aí, durante anos, mostrando que quando um processo judicial tem utilidade política ninguém tem o poder, a autoridade e a credibilidade para declarar o óbito. E é esta justiça de processos mortos-vivos que põe em perigo a democracia».

segunda-feira, agosto 16, 2010

assim vai o mundo - sobre a lapidação


Publicado no livro Vestígios (Ed. Rocco) de Affonso Romano Sant'anna sob um caso de lapidação na Nigéria.

Lapidar uma Mulher

Há quem tente lapidar
uma mulher
como se lapida
jóia rara
e pedra bruta.

Com escalpelo
cinzel
buril
inscrevem nela uma figura, depois
a expõem nos salões
revistas e altares
apregoando quantos camelos
quantos colares
vale o dote
-da criatura.

Na Nigéria também
lapida-se mulher
mas de forma
inda mais dura.

Não bastassem
os muros em que viva
vive emparedada
é sob pedras
que a mulher viva
é pétrea e friamente
sepultada
quando não se conforma
com a forma
como desde sempre
é deformada.

Assim a mulher
que se nega a ser
por eles esculpida
deve morrer como viveu:
-petrificada.

Atiram-lhe
tantas pedras
até que não se veja
a forma e o sangue
da apedrejada,
até que a mulher-alvo
alvejada
desapareça numa maré de pedras
coaguladas.

Desta feita os escultores
foram mais perfeccionistas
deixaram a mãe
amamentar o filho
antes que o leite no seio
se petrificasse.

Assim o filho na fonte beberia
o pétreo ensinamento
antes
que a fonte secasse.

Ao amante não lapidaram.

Ali o homem já nasce feito
é obra de arte que dispensa
qualquer lapidação.
A mulher, sim, carece
de acabamento
posto que imperfeita figura
na ordem da criação.

Affonso Romano Sant’anna

Infelizmente a lapidação não é exclusiva da Nigéria e ocorre noutros países. Porque neste momento está em causa a punição do caso de adultério de Sakineh Mohammadi Ashtiani, em que as entidades responsáveis do Irão, querendo mostrar bom coração e clemência (!), se propõem transformar a pena de lapidação em enforcamento, penso ser minha obrigação relembrar a todos que isto existe e dar-lhes a conhecer o poema que aqui deixo.

domingo, agosto 15, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 10

Termino esta série de migalhas de sabedoria com mais um provérbio árabe. Penso que com este todos estarão de acordo. Segui-lo é que nem todos o farão. Mas como diz o velho provérbio português «água mole em pedra dura tanto bate até que fura».

bom para a vista e para o humor

Hoje em dia já é raro ver-se ballet clássico. Como todas as coisas, também aqui foi marcante a evolução. Apesar desta significativa mudança, a adesão do público ao chamado ballet moderno não é ainda total. Digamos que há 3 espécies de espectadores - os que continuam ligados ao clássico, os que se passaram para o moderno e aqueles que gostam dos dois, melhor dizendo do que é bom, num e noutro. Eu encontro-me neste terceiro grupo e deste não saio. Gosto do que é bom e me fala aos sentidos, aquele que me emociona, aquele que me diverte, aquele que me deixa suspenso, aquele que me faz sorrir ou mesmo rir. O vídeo que hoje vos deixo é daqueles que vos fará sorrir, por ser uma paródia, cheia de humor, uma homenagem da Companhia de Dança holandesa (Nederlands Dans Teather) ao grande coreógrafo e seu director artístico Jiri Kylian, nascido checo em 1947, formado bailarino em Londres e depois Estugarda e desde 1975, compondo e coreografando, peças cheias de humor, movimento, escala, crítica social.

sexta-feira, agosto 13, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 9


Que segurança? A do plano traçado, a da descoberta, a da destruição? A linha para uma vida?

quinta-feira, agosto 12, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 8


Um provérbio árabe que não tem sido lido por muitos, inclusive por aqueles que o criaram, como que confirmando o provérbio português - Santos da casa não fazem milagres ...

migalhas da sabedoria dos povos 7


Muitos recusarão esta sabedoria japonesa. Outros dirão que nas guerras, por exemplo, é sempre muito difícil saber quem venceu ou foi vencido. Mas todos concordarão que, neste caso, os japoneses devem saber bem o que dizem.

segunda-feira, agosto 09, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 6


E, cada vez mais, deve praticar o que estudou e praticar o estudo de forma continuada e permanente, acrescento eu ao provérbio árabe, esperando não o «danificar».

migalhas da sabedoria dos povos 5

Este provérbio árabe faz-me pensar na tristeza do homem, quando olha alguns tantos.

sábado, agosto 07, 2010

a ópera está na rua, uma vez mais

No dia 24 de Abril deste ano, a ópera veio à rua, uma vez mais e noutro país. Desta vez foi a Companhia de Ópera de Filadélfia que resolveu fazer uma operação de marketing junto daqueles que não conhecem a ópera, não a apreciam ou não a frequentam. Desta vez, 30 elementos do Coro da Ópera de Filadélfia colocaram-se estrategicamente no Reading Terminal Market e levaram a cabo aquilo que vai sendo chamado de "Flash Opera", em que inesperadamente e em locais improváveis se dá a conhecer a ópera, através de intervenções rápidas e de árias que ficam no ouvido. Em Filadélfia escolherem a área Brindisi (Brindemos) da ópera Traviata. Parabéns para os promotores.