quinta-feira, julho 15, 2010

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 31


116.
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Assírio e Alvim, 1998)


Se é verdade que os escritores escrevem sempre o mesmo livro e os romances que escrevem têm sempre qualquer coisa de autobiográfico, talvez possamos concluir que eles não escrevem senão a vida, seja ela a que viveram, a que quiseram viver ou a que imaginaram. E se for assim, não será como Pessoa dizia que escrever é esquecer, mas sim que escrever é lembrar. E a literatura não será nunca a maneira mais agradável de ignorar a vida, mas a melhor forma de a lembrar.
Diz Pessoa que a literatura simula a vida. E o que fazemos nós dela, quando a vivemos? Quando simulamos mais? Quando a vivemos ou quando a escrevemos? A literatura tem uma grande vantagem – podemos simular o que queremos e não simular a realidade que nos enfrenta.


CVR

quarta-feira, julho 14, 2010

carlos relvas e a sua casa-estúdio


Penso que a maioria dos portugueses desconhece a actividade cultural existente fora das grandes cidades. É natural que assim suceda num mundo que se pauta pelo individualismo, pelo stress, pela solidão individual e grupal. O conceito muito explorado ultimamente do «viaje para fora cá dentro» foi feliz na sua enunciação e no iniciar de um movimento de conhecimento do país que é nosso, onde nascemos, mas que desconhecemos e maltratamos.
No que me diz respeito posso considerar-me um privilegiado, já que o ter nascido no norte mais norte, roçando a raia com Espanha, estudado no centro, bem no centro territorial e académico e ter exercido a minha vida profissional no sul ou no princípio dele, capital do país, me permitiu toda a vida um viajar de norte a sul e sul a norte, que me foi pondo sempre em contacto com o país real e profundo, como é politicamente correcto dizer-se.
Mesmo sendo e considerando-me um privilegiado nesse sentido, tenho que reconhecer que existe uma malha de desigualdades culturais nos 89.000 Km2 em que o nosso país se contém (92 389 Km2 se incluirmos Madeira e Açores). Mas se é verdade que existe essa desigualdade não é menos verdade que cada dia me surpreendo mais com as manifestações culturais que vão brotando por esse país fora.
Perguntarão os leitores que bicho me terá mordido para que eu hoje me tenha posto a debitar sobre esta matéria. E perguntam bem, já que raramente trago este assunto à baila nas inúmeras crónicas que aqui vou colocando; e para que esta escolha fique esclarecida, digo já que há razões para que eu o esteja a fazer. Reparem no plural usado e logo entenderão que eu devo ter algo para contar e opinião para dar sobre aquilo que me espicaçou.
Para encurtar, devo dizer que por razões várias tive de me deslocar num curto período de tempo a cidades do interior que conheço razoavelmente, mas nas quais sempre vou encontrando qualquer coisa de novo para ver e para me admirar, admirando-as.
Refiro-me especificamente a Évora, Tomar e Torres Novas, onde tive oportunidade de assistir a espectáculos magníficos de que já dei registo neste meu blog.
No entanto, o tema desta crónica tem a ver com a inauguração em 20 de Abril de 2007, da Casa-Estúdio Carlos Relvas na Vila da Golegã, após as demoradas obras de conservação e beneficiação que ali ocorreram.


Carlos Relvas nasceu na Golegã, no dia 13 de Dezembro de 1838, filho do abastado lavrador, presidente da Câmara e procurador da Junta Geral do Distrito José Farinha Relvas de Campos, e foi registado com o nome de Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas e Campos.
Casou com D. Margarida Amália Mendes de Vasconcelos, filha dos condes de Podentes, com a qual teve 4 filhos. Por morte desta voltou a casar em segundas núpcias com Mariana Pinto Correia Relvas, contra a vontade de seus filhos, especialmente de seu filho José que viria a abandonar os ideais monárquicos de seu pai e a abraçar os ideais republicanos, sendo ele quem proclamou publicamente a República em 5 de Outubro de 1910, nos Paços do Concelho em Lisboa, exercendo depois funções governativas.
Com apenas 16 anos foi nomeado fidalgo cavaleiro da Casa Real. O rei ofereceu-lhe o título de barão e, mais tarde, o de visconde, mas Carlos Relvas recusou sempre essas mercês. Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição do Vila Viçosa.
Carlos Relvas foi repórter fotográfico de 1ª categoria, inventor de sucesso, músico, lavrador, cavaleiro tauromáquico e mestre de equitação, jockey de cavalos de corrida, hábil atirador de pistola e de carabina, dextro jogador de pau, de florete e de sabre. Possuidor de cavalos magníficos, sabia ensiná-los a primor. Toureou a cavalo e a pé; sempre em festas de caridade, para as quais não recusava nunca o seu concurso. A última tourada em que tomou parte foi no Verão de 1893, a favor das vítimas do ciclone dos Açores. Mandou construir na Golegã uma praça de touros, que se inaugurou com uma corrida em benefício do hospital daquela vila.




Em 1880 assistiu a um naufrágio na barra do Douro, o que o levou a estudar a maneira mais rápida e segura de acudir aos náufragos. Durante três anos não descansou, e nos fins de Outubro de 1883 dirigiu ao ministro da Marinha um requerimento, apresentando o barco salva-vidas da sua invenção. No dia 7 de Novembro desse ano realizou-se a experiência na Foz do Douro, com tripulação comandada por Carlos Relvas. Duraram uma hora essas experiências, que mostraram as vantagens incontestáveis do salva-vidas Relvas sobre os salva-vidas existentes. Pelas suas características passou a ser conhecido pelo nome de «sempre em pé» e foi pintado por Malhoa.


A paixão pela fotografia foi adquirida já adulto (pode dizer-se que se iniciou nessa arte aos 24 anos) durante as suas frequentes viagens à Europa. Carlos Relvas era um viajante, já que nessa época, correu mundo - China, Japão, Índia, Estados Unidos e toda a Europa.
Carlos Relvas criou o primeiro estúdio fotográfico de raiz em Portugal e é considerado o primeiro fotógrafo amador do país. Muitas das suas fotografias e dos seus instantâneos figuraram em várias exposições nacionais e estrangeiras.


Carlos Relvas era membro da Sociedade Francesa de Fotografia e obteve medalhas nas exposições dessa sociedade, de 1870, 1874 e 1876. Alcançou outros prémios, de que destaco –
1873 - Medalha do Progresso, em Viena de Áustria,
Medalha de prata, em Madrid,
1875 – Medalha de prata da Sociedade Fotográfica, Viena de Áustria,
1876 – Medalha, em Filadélfia,
Primeiro prémio, na Exposição de Amesterdão,
Cruz de Bronze dourado, na exposição hortícola do Palácio de Cristal do Porto, 1877 - Medalha de ouro, na Exposição do Porto,
Medalha de ouro na Exposição da União Central de Artes Decorativas no Palácio da Industria em Paris.
Inicialmente, Carlos Relvas usava um processo que suplantava todos os métodos existentes (que usavam clara de ovo); o chamado processo do "colódio úmido", veio resolver a dificuldade até aí existente (quando se usava o vidro como base do negativo), que era encontrar-se algo que contivesse, numa massa uniforme, os sais de prata sensíveis à luz, para que não se dissolvessem durante a revelação. O único inconveniente deste método era a necessidade de sensibilizar, expor e revelar a chapa num curto espaço de tempo.
Carlos Relvas tinha um espírito curioso e inventivo, visitava estúdios fotográficos da Europa e possuía uma biblioteca de 4.000 volumes. Pelo que não é estranho que fosse acompanhando toda a evolução da técnica fotográfica. Por isso, em 1875 introduziu em Portugal a fototipia, processo fotográfico de Jacobi de Neuerdorf, que consistia na impressão com tinta forte em meio de gelatina bicromada e exposta ao sol, técnica que marcou a substituição do colódio pela gelatina (embora se fale de colódio seco).
Era respeitado e estimado pelo seu carácter franco e bondoso; muito caritativo e esmoler, tornou-se na Golegã o verdadeiro pai dos pobres, segundo dizem jornais da época.
Morreu em 23 de Janeiro 1894, num acidente de cavalo.

O atelier fotográfico Carlos Relvas na Golegã, foi construído entre 1872 e 1875, com os recursos financeiros da sua fortuna pessoal, segundo projecto de Henrique Carlos Afonso e idealizado pelo próprio Carlos Relvas.

Uma construção original em termos de arquitectura europeia, em que foram utilizados mais de 30 mil quilos de ferro. A sua arquitectura lembra uma igreja precisamente para parecer um templo, um templo da fotografia. A fachada principal aparece-nos ladeada por dois baptistérios (que correspondem interiormente aos laboratório de claro e escuro) e apresenta um baixo relevo representando um cavalo marinho e por cima um janelão enquadrado pelos bustos de Niépce e Daguerre e um pouco mais acima uma rosácea ladeada por anjos que seguram câmaras fotográficas. Construído em estilo neo-gótico, mas com muito da arquitectura industrial de então, com motivos de inspiração muçulmana nos estuques, conta com um amplo estúdio completamente envidraçado no piso superior, com uma luz natural soberba, coada através de panos brancos controlados manualmente, com uso de roldanas.

O acesso dos clientes fazia-se quer pelas escadarias laterais, quer pela belíssima escada de caracol em madeira, vinda de Itália. O chão da casa foi revestido a mosaicos importados de França.

Em 1870, mandou construir um belo jardim romântico em volta da casa estúdio, para onde Carlos Relvas chegou a trazer árvores das viagens que fez pelo mundo.
Em 1887, Carlos Relvas, foi obrigado a habitar o estúdio, por incompatibilidades com o filho José, em consequência de partilhas e antagonismo político, decorrendo daí a destruição da singular tipologia do atelier. Só a Galeria norte manteve intacta a sua ossatura original de ferro e vidro de forma a permitir a continuidade da actividade fotográfica de Carlos Relvas.


Hoje este magnífico edifício é considerado monumento nacional, como se lê no Diário da República, com a data de 6 de Março de 1996, no Anexo I, com o título «Monumentos nacionais» - Casa-Museu de Carlos Relvas, também denominada «Casa-Estúdio de Carlos Relvas», «Atelier de Carlos Relvas» ou «Museu de Fotografia de Carlos Relvas», incluindo os seus jardins e recheio, no Largo de D. Manuel I e na Rua de José Farinha Relvas, Golegã, freguesia da Golegã.
A Casa-Estúdio Carlos Relvas que esteve à beira da degradação total e da ruína, com todo o seu espólio de cerca de 10.000 negativos e positivos fotográficos, adereços, mobílias e aparelhagem, encontra-se hoje completamente recuperada (salvo as peças já irrecuperáveis), graças à intervenção e combatividade da Câmara Municipal da Golegã, com o apoio do IPPAR e a ajuda recente do Instituto Português de Museus. Estas entidades estão de parabéns. No passado dia 22 de Fevereiro de 2008, foi assinado um protocolo entre a Câmara da Golegã e o Instituto Politécnico de Tomar, com vista à criação do Centro de Estudos de Fotografia que ficará instalado num anexo construído junto à Casa Estúdio para albergar o espólio fotográfico de Relvas.
Mal fora que se tivesse deixado continuar a caminho da ruína esta obra arquitectónica única no mundo e se deixasse no esquecimento a figura de Carlos Relvas, personalidade multifacetada de artista, inventor, desportista, lavrador, que era um verdadeiro gentleman rider e gentleman farmer (como diz José Veiga Maltez, presidente da Câmara da Golegã).
Aconselho a todos a visita, tendo a certeza que vão gostar e que serão surpreendidos agradavelmente por verdadeiras preciosidades que aqui, e de propósito, não referi.


Este post substitui o colocado em Março de 2008, com o mesmo nome

segunda-feira, julho 12, 2010

música e humor, em tempo de crise

Gidon Kremer, de família de judeus alemães, nasceu em Riga. Violinista e maestro. Abandonou a Rússia e foi viver para a Alemanha. Premiado em vários concursos internacionais, fundou em 1981, o Festival de Música de Câmera de Lockenhaus (Austria), destinado a música moderna e pouco convencional. O Festival de 1992 ficou conhecido como "Kremerata Musica" e em 1996, fundou com jovens músicos da região Báltica, a Orquestra de Câmera Kremerata Baltica. Foi um dos directores do festival "Art Projekt 92" de Munique e é director do Festival Musiksommer, em Gstaad (Suiça). Em 2008, realizou um tour com a sua orquestra, juntamente com o duo Igudesman & Joo. É deste tour que eu vos deixo a interpretação de «We will survive».
Gidon Kremer e a Kremerata Baltica, Aleksey Igudesman e Richard Hyung-ki Joo, tentam juntar a música e o humor, como representação da «Ascenção e Queda da Música Clássica». Eles assinam um manifesto em que afirmam vivermos numa época em que a economia de mercado tiraniza a arte e a qualidade da arte é medida pelo número de vendas. O que conta é o volume das vendas, o posicionamento nos top tens, chegando-se à errónea ideia de que o mais popular é o melhor e em que todos os artistas querem ser superstars.

sexta-feira, julho 09, 2010

um momento de magia em tempo de crise

Depois do humor, um pouco de magia, daquela que nos deixa com os olhos em bico, porque estivemos atentos, nada se passou, não nos apercebemos de nada e eis que a magia está ali à nossa frente.
Não temos dúvida que é truque, mas não sabemos explicar.
E, de repente, desejamos que se pudesse fazer o mesmo com a crise.

quarta-feira, julho 07, 2010

um momento de humor em tempo de crise

Em tempo de crise precisamos muito de momentos que nos façam rir e descarregar as raivas e raivinhas acumuladas. Isto não significa que com isso possamos esquecer as preocupações e a obrigação que temos de contribuir com uma parcela, mesmo que mínima, para a solução desejada e necessária dos problemas que nos afectam. Mas para que isso seja mais fácil e possível, necessitamos de estar bem, sem stress ou tensões acumuladas. É aqui que o humor pode entrar e dar uma ajuda.
Encontrei no YouTube este sketch em que Bruno Nogueira no seu programa Lado B entrevista virtualmente Marcelo Rebelo de Sousa. Vejam e ouçam esta mistura explosiva de bom humor. Tenho a certeza que Marcelo riu muito quando o viu.

terça-feira, julho 06, 2010

atlântida ou lemúria? ou nem uma nem outra?


Desde 1995, mergulhadores e cientistas japoneses estudam uma das mais importantes descobertas arqueológicas do planeta, localizada a alguns quilómetros da ilha de Yonaguni - os restos submersos de uma cidade muito antiga.
Em 1997, o Dr. Masaaki Kimura, professor da Universidade de Ryûkyû, PHD em geologia marinha, publicou A Continent Lost In The Pacific Ocean, onde defende a teoria da civilização submersa. Em 4 de Maio de 1998, a ilha e as ruínas foram sacudidas por um terramoto.
Ao longo de mais de uma década foram localizadas oito grandes estruturas feitas pelo homem, incluindo uma enorme plataforma com mais de 200m de comprimento, uma pirâmide no estilo das aztecas e maias, com 5 andares e alinhadas de acordo com os pontos cardeais, uma pedra mostrando a existência de escrita, conhecida agora como a Roseta de Okinawa e ferramentas várias.


Submersa, 18 metros abaixo da superfície, surge uma cabeça megalítica, um rosto de pedra gasto pela erosão das águas que faz lembrar as cabeças de pedra de Moais, no Pacífico ou de La Venta, Golfo do México.
Muitos falam em Atlântida (quarta raça, na teoria geológica do Catastrofismo), outros em Lemúria ou Mu, ainda mais antiga, chamada pelos esotéricos de civilização da Terceira Raça (a do esqueleto cartilaginoso e um terceiro olho na nuca).
Este apontamento que aqui deixo servirá apenas para aqueles que se interessam por estes assuntos mas, mesmo assim, penso que o devo divulgar para aqueles que se interessam com estes assuntos do desconhecido. E esses terão muito que averiguar, uma vez que o que aqui fica é apenas um tópico para início de pesquisa. Que alguém a faça, já que eu não a farei.

quarta-feira, junho 30, 2010

uma história de burros ou o mercado de acções


Recebi agora esta pequena história, divertida e educativa. Por isso, a repasso.

Certo dia, numa pequena e distante vila, apareceu um homem a anunciar que compraria burros a 5 euros cada.
Como havia muitos burros na região, todos os habitantes da pequena vila começaram a caça ao burro.
O homem acabou por comprar centenas e centenas de burros a 5 euros.
Quando os habitantes diminuíram o esforço na caça, o homem passou a oferecer 10 euros por cada burro.
Toda a gente foi novamente à caça, mas os burros começaram a escassear e a caça foi diminuindo.
É então que o homem aumenta a oferta para 25 euros por burro, mas a quantidade de burros ficou tão reduzida que já não compensava o esforço de ir à caça.
O homem anunciou então que compraria os burros a 50 euros.
Mas que teria que se ausentar por uns dias e deixaria o seu assistente responsável pela compra dos burros.
É então que, na ausência do homem, o assistente faz esta proposta aos habitantes da pequena vila:
- Sabeis dos burros que o meu patrão vos comprou? E se eu vos vendesse esses burros a 35 euros cada? E assim que o meu patrão voltar vós podeis vendê-los a ele pelos 50 euros que ele oferece, e ganhais uma pipa de massa!!! Que acham?
Toda a gente concordou.
Reuniram todas as economias e compraram as centenas de burros ao assistente por 35 euros cada um.

Os dias passaram e eles nunca mais viram o homem nem o seu assistente - somente burros por todo o lado!

Entendem agora como funciona o mercado de acções e porque apareceu a crise?

sábado, junho 19, 2010

última carta para josé saramago



Em 9 de Outubro de 1998, enviei esta carta oficial a José Saramago


Em nome da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos e no meu pessoal, apresento ao homem raro, íntegro, coerente e frontal e ao escritor ímpar da literatura contemporânea, burilador e alquimista da palavra portuguesa, as melhores felicitações pela justiça que lhe foi feita quando, em boa hora, lhe atribuíram o Prémio Nobel da Literatura de 1998.
Apresento-lhe também os parabéns, ou parabenizo-o como dizem os brasileiros, pelo Prémio Nobel, em nome da União dos Médicos Escritores e Artistas Lusófonos – UMEAL, que ajudei a fundar em 1992 e a que actualmente presido, certo que estou que será esse o sentir de todos os colegas que têm no português a sua forma de expressão oral e escrita.
Em nome de todos nós, que já somos bastantes, deixe-me que lhe diga – Obrigado, José Saramago, por ter elevado a nossa língua ao local que ela merece e a tenha levado ao conhecimento dos muitos que teimam em nos ignorar.
Pombalinho, 9 de Outubro de 1998
Carlos Vieira Reis
Presidente da SOPEAM e da UMEAL


Hoje, um dia depois da sua morte e uma hora depois da sua chegada ao Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, escrevo-lhe esta última carta, em meu nome pessoal, para lhe agradecer que nestes 12 anos de nobelizado não tenha mudado a sua maneira de ser nem as qualidades que sempre teve e cultivou.
Não lhe faltaram tentações que conduziriam a uma mudança a que muitos não resistiriam, mas a que o José Saramago soube resistir. A sua escrita ficou cada vez mais vintage.
São cada vez menos aqueles que nos ignoram como povo e como língua e, se assim sucede, a sua grandeza para isso contribuiu.
Cumpriu-se como Homem e como Escritor. O novo caminho espera por si. Por certo será mais macio do que foi este.
Até breve.
CVR


quarta-feira, junho 16, 2010

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 30

Salieri

106.
(…) De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta.
Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o não fizerem ali?

Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Assírio e Alvim, 1998)



Nada mais verdadeiro – o êxito está em ter êxito e não em ter condições de ter êxito. Por isso, e já o escrevi mais do que uma vez, me considerei sempre um Salieri que nada fazia para ser Mozart. De que serviu a Salieri ser compositor da Corte, maestro da Orquestra Imperial, presidente da Tonkünstler-Societät e professor de Beethoven, Czerny, Liszt, Schubert e outros, se o êxito lhe passou ao lado? Não que o êxito importe por si, mas sim como referência da apreciação que o trabalho de alguém merece. O certo é que poucos têm êxito e muitos são os que poderiam tê-lo igualmente. Todos aqueles que têm a terra larga bastante para ter um palácio, mas que nunca ali o construíram. Que nunca o construíram ou que nunca disso se lembraram ou nunca com isso se preocuparam? E, no fundo, quem constrói o êxito? O próprio ou os outros? Se pensarmos nos tempos de hoje quem o constrói? Os lobbies, o marketing, ou o próprio?
O êxito é como as comendas. Será que quem as recebe as merece? Porquê aqueles e não outros? Quantas vezes concordámos que só aqueles as merecem?
Quando Cesário Verde reclama ser chamado de poeta Cesário Verde e não de Snr. Verde, foi apenas por vaidade? Ou terá sido por ter uma real consciência de si? Por se identificar mais com a sua condição de poeta, aquilo que sentia ser, do que com o snr. Verde que para ele era apenas um apelido, mas não ele-pessoa?
«Serei o que quiser, mas tenho que querer o que for». Agir, portanto. Querer.


CVR

domingo, junho 13, 2010

o tango ao serviço do desporto

Vejam o vídeo que a Argentina fez para campanha do Mundial de Futebol e como conseguiu, de uma forma hábil e funcional, valorizar duas das suas referências nacionais - o tango e o futebol.

sábado, junho 12, 2010

quando o talento se faz arte

Não é o mesmo que ouvi-la em órgão, piano ou orquestra. Mas não pode deixar de se admirar o talento de Robert Tiso ao executar a Tocata e fuga em ré menor de Johann Sebastian Bach naquilo que poderemos chamar órgão de cristal. Ouçam e vejam com atenção.

quinta-feira, junho 10, 2010

uma língua única - o português


Recebi hoje, enviado por um colega e amigo brasileiro, este texto demonstrativo do que se pode fazer com o português e de como é rica e plástica a nossa língua. Leia devagar e com atenção e descubra o que falta neste longo texto. Será possível fazê-lo com outro idioma?

«Sem nenhum tropeço, posso escrever o que quiser sem ele, pois rico é o português e fértil em recursos diversos, tudo permitindo, mesmo o que de início, e somente de início, se pode ter como impossível. Pode-se dizer tudo, com sentido completo, como se isto fosse mero ovo de Colombo.
Desde que se tente sem se pôr inibido, pode muito bem o leitor empreender este belo exercício, dentro do nosso fecundo e peregrino dizer português, puríssimo instrumento dos nossos melhores escritores e mestres do verso, instrumento que nos legou monumentos dignos de eterno e honroso reconhecimento.
Trechos difíceis se resolvem com sinónimos.
Observe-se bem: é certo que, em se querendo, esgrime-se sem limites com este divertimento instrutivo. Brinque-se mesmo com tudo. É um belíssimo desporto do intelecto, pois escrevemos o que quisermos sem o "E" ou sem o "I" ou sem o "O" e, conforme meu exclusivo desejo, escolherei outro, discorrendo livremente, por exemplo, sem o "P", "R" ou "F", ou o que quiser escolher. Podemos, em estilo corrente, repetir sempre um som ou mesmo escrever sem verbos.
Com o concurso de termos escolhidos, isso pode ir longe, escrevendo-se todo um discurso, um conto ou um livro inteiro sobre o que o leitor melhor preferir. Porém mesmo sem o uso pernóstico dos termos difíceis, muito e muito se prossegue do mesmo modo, discorrendo sobre o objecto escolhido, sem impedimentos. Deploro sempre ver moços deste século inconscientemente esquecerem e oprimirem nosso português, hoje culto e belo, querendo substituí-lo pelo inglês. Por quê?
Cultivemos nosso polifónico e fecundo verbo, doce e melodioso, porém incisivo e forte, messe de luminosos estilos, voz de muitos povos, cofre de belos versos e de imenso porte, ninho de cisnes e de condores.
Honremos o que é nosso, ó moços estudiosos, escritores e professores. Honremos o digníssimo modo de dizer que nos legou um povo humilde, porém viril e cheio de sentimentos estéticos, pugilo de heróis e de nobres descobridores de mundos novos».


Se não descobriu, eu digo-lhe - nunca foi usada a letra A ...

terça-feira, junho 08, 2010

até que a morte nos separe ...


Eu sei da crise e sinto-a na pele. Conheço as razões que a ela conduziram, como sei que não vai ser fácil libertar-nos dela. Pior ainda, sei de muitos que por ela passarão incólumes sem terem sido acusados de a fabricarem e que sempre ostentarão o sorriso vitorioso dos que se julgam acima de tudo e de todos. Sei destas e de outras desgraças e injustiças. Tenho pois muitas razões para andar triste, furioso, revoltado.
Mas hoje apetece-me rir e ginasticar todos estes músculos que fazem do riso o melhor remédio … Apetece-me rir e tenho uma razão para isso. Por isso, resolvi partilhar convosco uma história ocorrida há dias que, de tão absurda e inacreditável, nos faz rir, quando não seria isso o que se esperaria que fizesse. Vamos à história, então.
Começou há cerca de 50 anos, no altar de uma igreja, quando um e outro repetiram perante o padre, perante Deus, «sim, aceito …. Até que a morte nos separe».
Foram anos e anos de vida em comum, semelhante à da maioria dos casais – rotina e mais rotina, com raros períodos de alegria e muitos de tristeza e dor.
Chegou o tempo do envelhecimento e do «arrumar» dos velhos. A mulher já não conseguia tratar dele e os filhos não estavam interessados nisso. Como vai sendo hábito, o destino foi quase natural – foi para um Lar. (antigamente lar era a própria casa).
Por lá se arrastou escassos anos, com raras visitas da mulher e ainda menos, dos filhos.
Quando o telefone tocou no seu antigo lar, não era do novo Lar que ligavam, mas do hospital, dizendo que ele tinha acabado de falecer.
Prontamente se tratou de tudo e escassas horas depois já ele se encontrava na capela mortuária, em caixão aberto.
A mulher que há mais de 50 anos dissera, com ele, «até que a morte nos separe», chorava, soluçava, debruçava-se sobre ele e beijava-o ardente e continuadamente.
Entretanto, uma sobrinha do morto foi despedir-se do tio e tal impressão este lhe causou que aproximando-se da prima lhe perguntou – tu tens visto o teu pai? Tenho. Porque perguntas? Porque achei o teu pai muito diferente – careca e ele sempre teve cabelo e muito gordo e sempre foi magro. Está gordo, porque está inchado e ele agora já tinha pouco cabelo. OK, tudo bem. E a sobrinha deu-se por esclarecida e nada mais perguntou.
Os beijos da viúva continuavam inflamados, até que a morte finalmente os separasse.
E foi a enterrar numa sexta feira. E a família deixou de chorar.
No dia seguinte, a viúva foi convocada a comparecer na morgue do hospital onde o marido morrera. Quando lá chegou, encontrou uma família de luto, chorosa, e um morto que afirmavam não ser o seu familiar falecido.
Foi-lhe explicado que tinha havido uma lamentável troca e que o seu marido era aquele que ali se encontrava e não o que enterrara. Precisavam pois que identificasse aquele morto como seu marido e devolvesse à outra família o morto já enterrado.
Mesmo sem ver, foi logo dizendo e gritando que o seu marido já fora enterrado e estava no descanso do Senhor.
Mas houve engano, minha senhora.
Qual erro, qual carapuça. Então eu não reconhecia o meu marido com quem casei há quase 50 anos?
Desculpe, minha senhora, mas houve uma troca. Estes senhores não reconhecem este morto como sendo da sua família. A senhora tem que o ver bem e confirmar que é este o seu marido.
Mas confirmar, o quê? O meu marido já o enterrei.
Mas tem que confirmar, minha senhora.
Deixe lá ver, então. Olhou, olhou bem. Este não é o meu marido, foi conclusiva.
Não pode ser, minha senhora. O seu marido não tinha qualquer cicatriz ou sinal, qualquer coisa de que se lembre e o possa identificar?
Tinha. Uma cicatriz, duma operação antiga numa das pernas, perto do joelho.
Foram levantadas as calças e uma cicatriz via-se na coxa esquerda.
Houve um silêncio prolongado.
Ouviu-se então a viúva dizer – credo, que me fartei de beijar o outro, pensando que era o meu homem. Credo! Que Deus me perdoe!

Até que a morte finalmente os separou.



Esta situação é verídica, recente e passou-se algures perto do Tejo.

segunda-feira, junho 07, 2010

o beija flor como nunca o viu

O beija-flor bate as asas numa cadência entre os 36 e os 80 batimentos por segundo. Com esta nova tecnologia consegue ver-se batida a batida o seu voo na vertical. Este vídeo é apenas uma pequena parte de tudo que foi filmado pela Globo Repórter.

domingo, junho 06, 2010

fuá na casa do cabral

Uma das coisas que me impressionam nas minhas idas ao Brasil, é sentir a forte influência deixada pelos portugueses e os conhecimentos que os brasileiros têm da nossa História, sobretudo naquilo em que ela nos liga a eles. Outra coisa de que gosto é de um bom «romance de cordel» (que ainda hoje se vão encontrando) e de assistir à exibição de cantores repentistas no Nordeste.
Ontem chegou-me às mãos este forró intitulado Fuá (mexerico) na casa do Cabral, tocado no Palace de S. Paulo, num dos Concertos Heineken, por Mestre Ambrósio Siba na rabeca, violão, guitarra e vocal, Helder Vasconcelos no fole de 8 baixos, percussão e vocal, Mazinho Lima no baixo, triângulo e vocal, Maurício Alves na percussão e Eder Rocha na percussão.
A qualidade do som não é a melhor, perdendo-se algumas das palavras. Mesmo assim, vale a pena.

quarta-feira, junho 02, 2010

uma visão da ajuda à grécia

Embora este Daniel Cohn-Bendit seja uma espécie de clone do que conhecemos no Maio de 68, vale a pena, como portugueses, escutar a forma como ele apresentou e chamou a hipócrita ajuda da UE à Grécia. Entre os ouvintes destaca-se Durão Barroso.

sexta-feira, maio 21, 2010

comprar, comprar, comprar ... afundar, afundar, afundar ...

É um vídeo bem feito e explicando bem o mundo actual.
Tem dois defeitos - a duração e a voz pouco agradável da apresentadora.
Feitos estes comentários, fica convosco a decisão de o ver ou não.

domingo, maio 16, 2010

as irmãs ross

Um curto vídeo 3 em 1, em que as Ross Sisters (Aggie, Maggie e Elmira) no filme Broadway Rhythm de 1944, nos presenteiam com canto, dança e contorcionismo aparentemente impossível para seres humanos. Trata-se de uma cópia melhorada e dura escassos três minutos. Espreitem ... este tesourinho ...

sexta-feira, maio 14, 2010

à consideração do governo

Depois das recentes decisões do Governo sobre as medidas necessárias à tentativa de resolução da grave situação financeira que o país atravessa, verifico que a maioria dessas medidas estava contemplada no Manual de Instruções para um País, que Ricardo Costa publicou recentemente no Expresso.
Porque algumas medidas ali definidas e que me parecem correctas e desejáveis, não foram ainda contempladas, resolvi publicá-las neste blogue com a esperança que alguém as leia e possa tomar em conta.

quinta-feira, maio 13, 2010

seremos mesmo assim?

Ou estou cada vez mais preguiçoso ou deparo cada vez mais com textos que parecem merecer ampla difusão. Se antigamente só colocava neste blogue textos meus agora, de quando em quando, coloco outros de que fui leitor e apreciei. Aqui está mais um desses textos, publicado na Única de 10 de Abril passado e da autoria de Clara Ferreira Alves.

terça-feira, maio 11, 2010

criancinhas ...


Parece não haver dúvidas de que a maioria dos pais se demitiu da sua acção formadora e educativa permitindo que os seus filhos se venham a transformar em seres despidos de educação e valores. Esses pais perderam a força, o respeito dos filhos e, desse modo, os filhos. Penso que este texto publicado na Visão, intitulado «A Devida Comédia», da autoria de Miguel Carvalho, ilustra bem a deseducação hoje bem visível e audível no nosso dia a dia e nos telejornais diários. Aqui transcrevo o texto, para reflexão.



A DEVIDA COMÉDIA
Miguel Carvalho

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.
A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.
A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.
A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.
A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.
A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.
Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher. Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta
metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.
A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.
A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.
A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência
meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em
sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».
Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal.
Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as
criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».
A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».
Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?
Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos.

sábado, maio 08, 2010

ontem, como hoje, como sempre ...

A sabedoria não tem data. A memória persegue-nos. O esquecimento é imperdoável.

terça-feira, maio 04, 2010

um lembrete

Não há ninguém que não saiba e, muito mais, que não sinta, que a vida é curta, mesmo quando ela começa a ser um pouco mais longa do que era quando nascemos. Mas, apesar disso, poucos pensam claramente no que devem fazer com ela e como a devem aproveitar.
A escolha é individual, mas há opiniões que devem ser ouvidas, por serem formuladas por pessoas com sabedoria e lucidez, como o Dalai Lama.


segunda-feira, maio 03, 2010

para quem gosta de jazz

Em 1985, Steven Spielberg realizou o magnífico filme «The Color Purple», onde conta a história passada numa pequena cidade da Georgia, da adolescente Celie, violentada pelo próprio pai, de quem tem duas crianças. Separada imediatamente dos filhos, Celie é doada a Mister que a trata como companheira e escrava ao mesmo tempo. Cada vez mais calada e solitária, Celie passa a compartilhar a sua tristeza escrevendo cartas, primeiro a Deus e depois à irmã Nettie, missionária em África. Mas é quando ouve cantar Miss Celie's Blues que ela começa a revelar o seu espírito brilhante, ganhando consciência do seu próprio valor.
Deixo-vos com a voz de Tata Vega cantando Miss Celie's Blues nesse magnífico filme e no segundo vídeo (e 25 anos depois) podem ouvir o mesmo blue e a mesma cantora, em Março de 2009 no Club Nefertiti, em Gothenburg (Suécia).



quarta-feira, abril 28, 2010

nunca é demais insistir

Já algumas vezes tenho publicado vídeos sobre prevenção rodoviária. Mas todos sabemos que a reacção mais normal da maioria das pessoas é ficar impressionada com o que vê, mas rapidamente esquecer o que viu. Talvez por isso a prevenção é cada vez mais agressiva, incorporando imagens chocantes numa tentativa de obter mais efeito residual. Porque a prevenção continua a ser muito precisa e acreditando no efeito das imagens subliminares, deixo hoje mais um vídeo chocante e espero que eficaz, na esperança de que algo do seu horror se mantenha subliminarmente e possa vir cumprir a sua missão preventiva.

terça-feira, abril 20, 2010

dignidade e determinação

Mesmo que este vídeo não atinja todos que o virem, tenho a certeza que tocará profundamente alguns de vocês. Reparem na assistência e verifiquem como isto é uma verdade. Cada vez precisamos mais de bons exemplos de coragem, dignidade, determinação. Vejam e deixem-se tocar pelo exemplo.

domingo, abril 18, 2010

va pensiero, uma vez mais

Nunca é demais ouvir-se a área "Va Pensiero Sull´ali Dorate" do Nabuco de Verdi, sobretudo em versões como esta da Metropolitan Opera House, dirigida por James Levine, em 2001.
São apenas cinco minutos, no fim dos quais, garantidamente, gostávamos de continuar.
Para mim foi um prazer.

ler, ler, cada vez mais

Gosto da publicidade quando ela é inteligente, criativa e visa bons produtos. Este é um dos casos.
Espero que gostem, como eu gostei.

sábado, abril 17, 2010

há sempre quem assobie melhor do que nós

É no mínimo surpreendente encontrar uma interpretação das Czardas de Monti pela Orquestra Sinfónica de Kiel, tendo como solista Geert Chatrou tocando um instrumento pouco usual em concertos, mas talvez o mais tocado no mundo, pois talvez se possa dizer que não existe nenhum homem que não o toque com frequência - o assobio.
Por mim, posso dizer que sou um praticante frequente e cheguei a ser quase perfeito, até que a idade me foi levando alguns dentes e a cavidade bucal tomou outras formas. Mesmo assim, de quando em quando, ouço-me a interpretar músicas preferidas e sinto-me feliz, mesmo quando uma fífia me lembra que o tempo está a passar depressa demais.

uma boa e útil lição

Mais uma das magníficas palestras TED talks. A escritora nigeriana Chimamanda Adichie («Half of a Yellow Sun», «Purple Hibiscus») ao longo dum discurso bem construído, mostra claramente o perigo da «história única» ou do juízo mal fundamentado. Merece bem a vossa atenção, mesmo demorando o tempo da palestra.

quarta-feira, abril 14, 2010

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 29


«Nuvens … Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de útil nem farei de justificável. Tenho gasto parte da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa nenhuma, fazendo versos em prosa às sensações intransmissíveis com que torno o universo incógnito. Estou farto de mim objectiva e subjectivamente. Estou farto de tudo e do tudo de tudo o resto. Nuvens …»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Porquê não me revendo eu no que agora li, fico com a dúvida se fui eu quem o escreveu? Vejamos, por partes. «Interrogo-me e desconheço-me»? Não é verdade minha. Primeiro porque costumo repetir à exaustão (penso que para me convencer) que não sou homem de me interrogar. Segundo – porque sendo verdade que me desconheço, conheço-me bem de mais para me aceitar assim e por isso, só tenho que desconhecer-me para não atentar contra mim.
Sim, isso é verdade, tenho gasto toda a vida que não perdi e não só parte dela, a fazer tudo que é coisa nenhuma, como depois se vê.
Mas, sobretudo, estou farto de mim objectiva e subjectivamente. Objectivamente, desde sempre, subjectivamente há não muito tempo, mas de tal forma que o que parece pouco é quase tudo.
Estou farto de tudo e só agora começo a perceber que o que me fazia correr, não merecia nem valia um chavo. Talvez por isso, e só por isso, passei a vida a pensar que não era homem de me interrogar.
CVR

quinta-feira, abril 08, 2010

discurso sobre a paixão e o feminismo

É um vídeo longo pois comporta todo um discurso que Isabel Allende fez nos afamados TED Talks abarcando o tema das mulheres, do feminismo e da paixão. Merece que a ouçamos os 17 minutos que demora o discurso, mesmo que algumas vezes não estejamos de acordo ou preferíssemos que se tivesse expressado doutra forma. Mas não é por isso que deixa de ser um interessante e válido testemunho. Quem quiser ouvir em português pode seleccionar a nossa língua nos subtitles.

segunda-feira, abril 05, 2010

um desenho quase completo

Apreciem um artista russo a desenhar uma mulher reclinada, numa perspectiva única. Normalmente olha-se uma mulher e fica-se com uma ideia. Atenta-se nos olhos e o conhecimento dela aumenta. Sente-se a pele, o toque da mão e apreende-se um pouco mais. Observam-se as reacções e começa a ter cada vez mais forma. De passo em passo, chega-se mesmo a saber por quê e por quem bate o coração. Mas, continua a pouco se conhecer da sua alma. É muito difícil chegar lá e interpretá-la. Permanece qualquer coisa de enigmático que poucos poderão um dia traduzir, tal e qual o que neste momento me sucede com o nome do desenhador e o título que deu à sua obra e que aqui deixo para quem possa ir mais longe do que eu - Виртуальные открытки II - "Просмотр Открытки".
O desenho é magnífico, mas incompleto. Desenhou apenas quase tudo...



Lamento que o recuperador deste vídeo não tenha tido o cuidado de ver que lhe colocou um título e logo a seguir lhe inverteu o sentido. De qualquer modo, mesmo com erro, obrigado por tê-lo colocado no youtube.

sábado, abril 03, 2010

páscoas

Recebi este ovo da Páscoa do meu colega e amigo José Dias Egipto. Foi imperioso que o compartilhasse convosco. Aqui fica para vosso deleite e reflexão.



Páscoas


Que é feito da cidade branca,
esse tesouro,
prometido há mais de dois mil anos
pelos Homens de ouro
que esfarrapados bebiam o fel dos poderosos?


Quem voltará a transmutar esses metais ignóbeis,
esses homens esboços,
essa ignorância ancestral e gorda
que jaz ainda sobre os destroços
de todas as religiões?


Mortos na vida reinam ainda,
lobos matreiros,
sobre a cidade desvirtuada
e os seus saberes são passageiros
e o seu poder cheira a sangue imaculado.


Cegos permanecem, de tal sorte,
que não vêem
a cidade branca iluminada,
concreta e habitada
pelos que hão-de estar vivos na morte.


Quem lhes pode explicar
que o que interessa,
simplesmente,
não é o saber sempre mais que se gabe,
mas tão-somente
o Viver, apenas, o que se sabe!



José Dias Egipto

terça-feira, março 30, 2010

nunca é demias chamar a atenção

As deficiências ou as mortes resultantes dos acidentes de viação, representam valores tão elevados que não podem deixar de preocupar os governos e os cidadãos que, frequentemente, se organizam em associações para combater a sinistralidade e levarem à adopção de medidas preventivas.
É por isso que hoje vos deixo dois vídeos, o primeiro dos quais um pouco pesado, a merecer bolinha no canto superior direito, mas bem feito e espero que eficaz e um segundo mais leve e que apela para o melhor de nós.
Vejam, meditem e divulguem.

terça-feira, março 23, 2010

acerca do facebook

Não aderi nem frequento o Facebook, apesar dos vários convites que tenho tido de amigos meus e outros conhecidos. Não sei porquê nunca me vi a criar uma nova obrigação, quando tudo que agora desejo é só fazer aquilo que me apetece e me dá na «mona».
Hoje recebi este vídeo enviado por um amigo que me envia com regularidade vídeos interessantes. Este é uma espécie de aviso e reflexão sobre o Facebook e dizem-me ser sério. Pediram-me que o repasse, razão porque hoje aqui o deixo para vocês.
Não o encarem como a Verdade, mas pensem e julguem.

sábado, março 20, 2010

veja uma gota como nunca a viu

Todos os dias aprendemos, todos os dias temos oportunidade de ver o mundo com outros olhos. A ciência não para de se desenvolver e de nos admirar com o que com ela se pode fazer ou muito simplesmente, como é este o caso, de nos mostrar um outro aspecto da realidade. A realidade até onde se pode ir. Hoje. Como será amanhã?
Vejam uma gota a cair, fotografada a 2000 imagens por segundo. Vejam o poder da tensão superficial.

sexta-feira, março 19, 2010

parabéns, pai


Hoje é o teu dia, pai.
Continuo a dizer o que sempre disse - só tiveste um defeito. Morreste cedo de mais.
Aqui fica o meu obrigado e a minha homenagem.

quarta-feira, março 17, 2010

um pedaço dos sixtie's

Num estilo intimista e numa pose muito diferente do Elvis the pelvis, podemos recordar o rei do rock Elvis Presley cantando «Blue Christmas», em 1968.
O que não é de 68 é podermos ouvir conjuntamente a voz de Martina McBride que com dois anos de idade assistiu a esse concerto de Natal, intitulado «Santa Klaus is back in town». Este remaster foi feito em 2008, nos 42 anos de Martina.

segunda-feira, março 15, 2010

o declínio dos impérios

Este vídeo só valoriza a importância da carga genética dos portugueses!!! Depois de verem perceberão que depois de ver o esvaziamento sofrido, deixamos pelo menos aquilo que não deixou de ser nosso.

domingo, março 14, 2010

carga genética

Fiquei surpreendido com a carga genética que os portugueses foram deixando por todo o mundo. Por isso me entristece ainda mais assistir ao que hoje somos, ao estado em que estamos. Devo ter acordado mal disposto ...

quinta-feira, março 11, 2010

ainda estamos a tempo

Ainda estamos a tempo de evitar que os nossos filhos e netos nos venham a acusar.
Ainda estamos a tempo. Mas será que queremos? Será que podemos?
Muitos de nós, adultos responsáveis, poderão, mas não querem.
O grosso de nós quererá, mas não pode.
Será que ainda estamos a tempo?
Que cada um de nós descubra o caminho para que juntos, consigamos.



Ver em ecrã total

segunda-feira, março 08, 2010

os 100 anos do dia internacional da mulher

Parabéns mulher. Parabéns mulheres. No dia em que se comemoram 100 anos da criação do Dia Internacional da Mulher parece-me bem recordar as razões e a história da sua criação. Embora não considere este vídeo perfeito, penso que dá, apesar de tudo, uma ideia aproximada da história deste dia.
Aqui fica a minha homenagem.

domingo, março 07, 2010

escutas

A última crónica escrita por José Manuel dos Santos no suplemento do Expresso - Actual, de ontem, dia 6 de Março, na sua coluna «impressão digital», merece ser lida por todos. Porque nem todos lerão aquele jornal resolvi colocar aqui esta imperdível crónica para aumentar o número dos seus possíveis leitores.
O tema das escutas deve ser um dos que há mais tempo se mantém na crista da onda mediática e não há jornal ou pasquim que a ele não se refira continuadamente com todos os pormenores, deixando de ser tema para ser folhetim.
Isto seria uma razão para não trazer este tema ao blog. Contudo é esta a primeira vez que eu leio uma crónica que analisa as escutas numa vertente sábia e definitiva. Não trata do folhetim, mas das suas razões e finalidade. Para ler e meditar.


Se não conseguir ler mesmo ampliado, imprima e leia porque vale a pena.

quinta-feira, março 04, 2010

o triplo concerto de beethoven

O Concerto Triplo para Piano, Violino e Violoncelo em Dó Maior, Opus 56 de Beethoven, foi composto entre 1804 e 1805, período em que escreveu também a 3.ª Sinfonia e a Sonata Appassionata e foi escrito para o Arquiduque Rodolfo. Não é considerado uma das obras-primas de Beethoven, mas é lindíssimo. Para além disso é inovador, ao integrar um trio de solistas, em que o violoncelo ocupa o papel principal (talvez porque Beethoven não compôs nenhum concerto para violoncelo).
Tem três andamentos - allegro, largo e rondó alla polacca. No primeiro andamento, o mais longo e talvez o mais envolvente, está presente a melodia mais difundida do concerto.
Porque se trata de um belo concerto e com história penso ser interessante apresentá-lo em três versões distintas, consoante a época e os solistas.
No mais antigo vamos ter oportunidade de ouvir três intérpretes de excepção - David Oistrakh (violino), Mstislav Rostropovich (violoncelo) e Sviatoslav Richter (piano) com a Orquestra Filarmónica de Moscovo, dirigida por Kyril Kondrachin, no concerto do 50.º aniversário desta orquestra, em 1970.




Outra parte do triplo concerto, agora interpretado por Daniel Barenboim (piano), Itzhak Perlman (violino) e Yo-Yo Ma (violoncelo). (Part 3)



E por fim a interpretação mais recente, pela Orquestra Juvenil Simon Bolivar, da Venezuela, dirigida por Gustavo Dudamel e os solistas Martha Argerich (Piano), Renaud Capuçon (Violino) e Gautier Capuçon (Violoncelo), em 29 de Agosto de 2008, durante o Festival de Salzburgo (Große Festspielhaus).



Ouçam e comparem as diferentes interpretações e não se esqueçam de ver em ecrã total.

domingo, fevereiro 28, 2010

acordem cidades do meu país

Nunca me canso de sonhar. Ainda acredito que um dia isto se possa passar no meu país.
Já houve tempo em que as Bandas faziam concertos nos jardins e o povo gostava. Hoje as Bandas que ainda resistem tocam em datas oficiais, desfilam nas ruas, o povo continua a gostar, mas sabe-lhes a pouco. Mesmo assim repito - nunca me canso de sonhar.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

respeitem quem estuda e sabe

Este vídeo de cinco minutos é uma pequena parte do documentário passado na RTP2 em Abril de 2008, em que o geólogo Prof. Domingos Rodrigues da Universidade da Madeira , alerta para a necessidade de se respeitar o Plano Director para impedir que a falta de critério na construção e os interesses pessoais ou a especulação imobiliária possam levar a tragédias que poderiam ser evitadas ou, pelo menos, diminuídas. À voz da ciência juntava-se a dos ecologistas preocupados. Não quero atirar pedras, quero apenas implorar a quem manda que respeitem a voz de quem estuda e sabe.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

um cérebro muito especial

A experiência registada no vídeo que vos deixo é espantosa. O Channel 5 da televisão inglesa sabendo que Stephen Wiltshire, considerado um dos 100 génios autistas do mundo, tinha uma capacidade de registo de imagens em tudo semelhante a uma videocam, lançou-lhe o desafio de registar em vídeo o seu poder especial. Levou Sthepen Wiltshire num helicóptero e sobrevoou a cidade de Roma durante algum tempo, fazendo uma panorâmica da cidade. Após essa viagem Stephen foi colocado perante uma tela enorme e com uma precisão notável desenhou toda a vista da cidade, durante três dias, como se fosse um registo filmado. Espantoso. Esta experiência ficou registada com o nome de Human Camera.



Ver em ecrã total

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

uma canção pela mudança


É a música a dar a volta ao mundo, feita por músicos de várias latitudes e longitudes, todos com um desejo e uma finalidade comuns - lutar pela mudança através da música, acreditando que esta poderá quebrar barreiras e preconceitos e arejar as mentes mais fechadas e resistentes às mudanças.
São muitas as canções a correr o mundo. No vídeo que vos deixo ouviremos «stand by me», como quem diz fica comigo e, neste caso, junta-te a mim.
Ouçam os cantores do mundo a tocarem e cantarem ao mesmo ritmo, cada um deles dando um pouco de si para que a canção se faça e a mudança venha a acontecer.
Qual mudança? Salvando-nos a nós, salvando o mundo.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

sabia que ...

Eu sei que antes de colocar aqui este vídeo devia ter tido o cuidado e o rigor científico de verificar a exactidão de tudo que nele se pode ler. Sim, eu sei. Mas sei também que embora admita haver um ou outro exagero, uma outra inverdade, no geral ele alerta para uma realidade que aí vem. Pode não ser exactamente assim, haver nuances, haver correcções a fazer, mas estou convencido que a futura realidade não se afastará muito desta de que o vídeo nos fala.
Não fica aqui ciência, nem talvez rigor. Fica apenas uma previsão que poderá ser realidade.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 28


100
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
(...)
Bernardo Soares, Livro do Desassossego


Não sei se é comum este olhar sobre o passado, o presente e o futuro das nossas vidas. Acredito que ele seja estranho e mesmo considerado anormal pela maioria das pessoas, generalizando eu esta ideia a partir da amostra dos meus amigos mais próximos.
Sei, no entanto, que ele é em tudo coincidente com o que eu penso, melhor direi com o que eu sinto, melhor ainda com o que eu sinto quando tento fazer um «rewind» da minha vida.
Escrevi algures e não sei quando, mas sei que há muito tempo, que olho para mim como um estranho a tudo e a todos e, no entanto, por dentro de tudo continuando sempre fora, personagem de muitas vivências, as mais variadas, testemunha de muitos acontecimentos, de todos os géneros, e contudo e apesar disso, incapaz de uma memória fiel e palpável, apesar de inteiramente vivida.
Se eu quiser descrever o meu passado, posso conseguir alinhavar umas linhas que mais não serão que uma modesta fita do tempo, uma infografia banal e superficial que nunca corresponderá ao grosso do meu passado, da minha vida, e que nunca será melhor do que dele fariam amigos próximos ou parentes afastados.
E isto atormenta-me, embora esta realidade amnésica não seja muito visível aos outros e pouco presente em mim, enquanto tormento. Não só esqueço o passado, como o tormento do seu esquecimento. O passado nunca me aparece por si, para me atormentar, mas apenas quando eu o torno presente, pensando e reflectindo sobre ele.
Posso escrever hoje, como já antes escrevi, que não conheço ninguém além de mim que tão forte e involuntariamente deite fora o seu passado e assim desencorporando-me, me transforme «num vestígio e um simulacro de mim».

CVR