segunda-feira, novembro 01, 2010

tom and jerry in concert

Dá gosto ver algo que nos divertiu há 63 anos e continua a divertir e a maravilhar-nos hoje. Para que isso possa suceder é preciso génio, trabalho e imaginação, exactamente o que não faltava então ao produtor Fred Quimby, ao músico Scott Bradley e à capacidade imaginativa e técnica dos animadores Kenneth Muse, Ed Barge e Irven Spence que em 26 de Abril de 1946 assinaram a realização deste Tom e Jerry, que mereceu nesse ano o prémio da Academia em Cartoons.
Não perca este magnífico vídeo, tenha a idade que tiver. Há coisas que são eternas.

sexta-feira, outubro 29, 2010

a vida literária


Um artigo recente de António Guerreiro na sua coluna «Ao pé da letra» na Atual de 16 de Outubro p.p., recordou-me uma reflexão bastante recente quando deparei, uma vez mais, com a palavra escritor antecedendo o meu nome, numa encomenda postal enviada pela APE. Perguntei-me então quando se é escritor? O que é preciso para o ser? Apenas ser sócio da APE? Parece-me pouco ou nada. Ter livros publicados? Já será alguma coisa, mas continuará a ser pouco. Ser conhecido e admirado pelos leitores? Será bastante ou tudo, consoante a qualidade dos leitores. Ser aceite pela crítica? Será nada ou quase tudo, consoante quem sejam os críticos. Ser o próprio a considerar-se ou a julgar-se escritor? Será nada, pouco ou bastante consoante for o homem que escreve e agora se julga. Quem o pode julgar, em verdade? Com o tamanho de alguns egos que por aí andam, até se poderá pensar que será essa a medida para aferir a qualidade do escritor. Com o poder do marketing e dos lobbies, não sei se se poderá concluir que o escritor merece esse nome quando é publicitado e louvado aos quatro ventos, se apenas se pode ter a certeza de que vai vender muito, mas não podendo garantir-se que vai ser lido. O texto de António Guerreiro pareceu-me ser certeiro na análise que faz a partir da revista «Ler» e ao apontar a Etologia como ciência necessária para estudar e procurar entender a vida de muitos «contentinhos» que por aí andam, egos inchados, cheios de si, dando-se bem com a vida que alguns fazedores de opinião ou vendedores de produtos, lhes proporcionaram.
Leiam António Guerreiro e pensem.
CVR

A literatura, que na época do romantismo fez da crítica o seu conceito imanente e, com a sociedade de massas, se tornou objeto da sociologia, entrou na fase em que reclama uma etologia. Em rigor, a etologia nada tem a dizer sobre a literatura, mas é a ciência mais competente para falar sobre
aquilo em que esta se dissolve: a vida literária. Entende-se por vida literária o código de comportamentos que rodeiam a instituição literária. A utopia de uma vida literária plena, encontramo-la na revista "Ler". Até um etólogo de fraco saber percebe, mal começa a folheá-la, que entrou numa reserva de vida especial. Não é que esta vida não habite nas páginas literárias dos jornais. Mas na revista "Ler" todos os álibis foram abandonados e o resultado é uma concentração de vida literária, um encontro jubilante de escritores, editores, críticos, divulgadores, leitores: a grande entrevista que eleva o entrevistado ao Olimpo do Grande-Escritor; as rubricas de fait-divers e de brincadeiras inocentes; as notícias e as listas dos livros a sair (a vida literária tem, por definição, uma tensão prospetiva, declina-se sob a forma do que aí vem); o top dos livros mais vendidos nos países a que o leitor cosmopolita não pode deixar de estar atento; a prodigiosa proliferação (dez, ao todo) de crónicas - o bem mais partilhado neste mundo de sonho. Tudo alimentado por um fervoroso amor aos livros, até às suas entranhas materiais. A vida barroca e flamejante deste jardim, que é o melhor dos mundos possíveis, tem a sua expressão na eloquência patética de um Candide sem ironia: "O que faz falta na crítica literária portuguesa é a análise superficial (Jorge Reis-Sá). Só nesta coutada protegida de vida literária, onde reina uma harmonia pré-estabelecida, "um devorador de livros açoriano", anunciado na capa, não é uma séria ameaça a um escritor que, logo abaixo, ousa dizer em voz alta: "O Livro sou eu."

segunda-feira, outubro 25, 2010

um filósofo e comunicador

Mário Sérgio Cortella é um comunicador nato. É professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor-convidado da Fundação Dom Cabral. Antes de tudo um filósofo que sabe comunicar e dar a conhecer a beleza da filosofia. Autor de vários livros de que destaco «Não espere pelo epitáfio - provocações filosóficas» e «Nos Labirintos da Moral», autor do programa televisivo «Diálogos Impertinentes» e uma curta participação política como Secretário Municipal da Educação de S. Paulo na década de 90.
No vídeo que vos deixo ele fala sobre Ética, no programa de Jô Soares. Vale a pena ouvi-lo.

ética e moral, na perspectiva de um médico e aprendiz de filósofo


Código de Hamurabi (1690 AC)

Num mundo em que os princípios morais têm sido postos frequentemente em dúvida, sendo diferentes de sociedade para sociedade, de religião para religião, mesmo de indivíduo para indivíduo, a Moral, como um todo, acabou por deixar de governar ou orientar o cidadão.
Isso levou a que as sociedades procurassem, através de leis civis, colmatar essas alterações, porque continua a ser indispensável haver directrizes.
Mas há leis morais que não podem ser substituídas por leis civis. Então, grupos de várias naturezas (social, profissional, etária, ideológica), têm procurado encontrar uma via intermédia que dê solução ao vazio provocado pela perda de, e da, força da Moral. É assim que se refugiam na Ética.
Hoje em dia, é raro ouvir falar-se em Moral, a menos que seja para afirmar que cada vez há menos e, em contrapartida, raro é o dia em que não ouvimos nos media, umas dúzias de vezes, a Ética ser invocada.
Analisemos o que são uma e outra?
A palavra Moral vem do latim Mores e a palavra Ética vem do grego Etikon e ambas significam Costumes.
A palavra Deontologia (vem de Deontos – o Dever) constitui um ramo da Ética, podendo definir-se como a ética profissional.
Há quem afirme que a Ética é a ciência da Moral. Outros entendem que a Ética é a Moral aplicada.
A Moral vive da noção do bem e do mal que são noções de carácter moral, filosóficas.
Por isso os filósofos foram tratando destes assuntos ao longo dos tempos.
Sócrates atendia ao conteúdo do bem moral. Era uma Ética do bem.
Platão optou por uma Ética de fins. Se estes são bons, também o são a intenção, o saber e o poder.
Aristóteles colocou o bem moral, como actuação perfeita do homem, o que lhe permitirá, usando a inteligência prática ou prudência, situar a virtude em rigorosa equidistância.
Para os epicuristas a Ética não seria o estudo de um bem objectivo em si.
Os estóicos acentuaram uma Ética do dever e do ser.
O cristianismo deu lugar à Ética cristã, ontológica e teleológica, por isso o bem ético encontra-se inserido na consecução dos próprios fins da natureza e da sua obra, nas virtudes específicas e no valor de cada ser.
A partir de Kant, a Ética ficou independente das ideias religiosas e transformou-se numa ética do dever, da determinação da verdade.
A revolução industrial ou social teve reflexos importantes no relacionamento entre as pessoas e portanto na Ética. Criou-se a Ética da era industrial.
No que respeita à matéria médica, a ética do médico disponível, cheio de bondade, sempre pronto a sacrificar o seu descanso pelos doentes, muitas vezes sem qualquer paga, deu origem a uma nova Ética: a do profissional de saúde. Onde se apreciavam qualidades morais, avaliam-se agora também qualidades técnicas.
As correntes da Ética e da Moral evoluíram sempre paralelamente às escolas filosóficas.
A Moral é a ciência do comportamento espontâneo, porque estuda o comportamento adquirido durante a formação do indivíduo, nas fases mais precoces da sua vida, intrínseco, quase interiorizado, como tal espontâneo, constituindo a consciência de cada um.
A Ética é a ciência do comportamento elaborado, interessado no comportamento perante as novidades, as tecnologias avançadas; resulta de conceitos muito discutidos, constituindo por fim um Código.
Com a evolução científica acelerada, maior divulgação e absorção mais precoce dos conhecimentos, muitos dos conceitos éticos transformaram-se em conceitos morais.
Tanto no que se refere à Moral como à Ética, importa definir não só o que deve ser, mas também o que não deve ser, o moral e o imoral, o ético e o anti-ético.
Muitos dos princípios considerados éticos nos séculos passados, deixaram hoje de o ser, porque a evolução da ciência e da tecnologia assim o têm exigido.
O Código Ético fica situado entre a Moral e a Ética. E só existe porque os homens não cumprem ou não aceitam os princípios morais.
Um certo número de elementos de carácter social ou pessoal, os conceitos científicos, tecnológicos, as noções morais ou para-morais, a luta entre o saber e o sentir, a importância da emotividade, as modas filosóficas, constituem factores determinantes no sentido ético do comportamento das sociedades.
Existem outros factores, mais estáticos, que têm a ver com as características dos povos, o seu modo de ser e estar que, por exemplo, separam os povos nórdicos dos mediterrânicos.
Ao longo dos séculos, a noção de Ética tem sofrido uma evolução permanente, o mesmo não se passando, de modo tão marcado, com a noção de Moral, porque esta se apoia na existência do Bem e do Mal. Por isso, a Moral é teoria, elaboração mental.
À Ética não interessa o que deve ser ou não deve ser porque se baseia nos factos, na ocorrência. A Ética depende do que ocorre, do que acontece, da novidade.
Nas últimas décadas a Ética passou a ser preocupação dos profissionais de várias áreas, mais do que dos próprios filósofos.
Um pouco por todos os lados, formam-se comissões, integradas por indivíduos que se esforçam em criar princípios éticos relacionados com as suas profissões, que por vezes são princípios de natureza moral, não de natureza ética; porque na sua maioria apontam o que deve ser ou o que não deve ser que, como se sabe, são princípios morais.
A Moral é individual, decide-se no próprio indivíduo, na sua consciência; a Ética é recíproca ou colectiva, um contracto com aceitação das partes.
A Moral é resultado de preceitos, a Ética resultado de confrontos de ideias. Enquanto o médico e o doente estão de acordo, não é exigida a intervenção da Ética.
A Moral propõe, aconselha, mas cada um decide por si; a Ética impõe, e uma vez estabelecida, é entendida como lei que não permite incumprimento.
A Moral diz como deve ser, a Ética diz o que tem de se fazer.
A Moral é ampla, a Ética restrita, porque se refere apenas a campos determinados da actividade humana.
A Moral baseia-se em princípios, a Ética em consequências. Quais as consequências da interrupção voluntária de gravidez, por exemplo.
A Moral é independente, a Ética é condicionada, pela lei geral do país, pela moral, pela deontologia, pelos condicionalismos da profissão e da tecnologia.
A Moral é abstracta, a Ética concreta, tem em mira uma aplicação concreta. Depende de uma prática e desligada desta deixa de ter consistência.
A Moral realiza-se numa Doutrina, a Ética num Código.
¬
Há mais de dois milénios que o Corpo Médico se rege, ou procura orientar-se, por verdades e princípios essenciais que, sendo a base indiscutível da sua independência e liberdade profissionais, constituem a trama e a estrutura da própria independência e liberdade dos doentes que se lhe entregam.
Independência e liberdade do doente, fundamento da liberdade e independência do médico e seu limite.
São elas, precisamente, a Independência e Liberdade, que transparecem e ressaltam nos Juramentos ou nas Preces que ecoam desde há séculos até aos nossos dias, como compromissos do Corpo Médico perante o doente, perante a sociedade, perante a moral e perante Deus.
Se analisarmos todos estes Juramentos e Declarações -

Código de Hamurabi, 1690 AC,

Juramento de Hipócrates, 400 AC,
Juramento Grego (Século IV ou V), de autor desconhecido,
Juramento Médico de Assaph, médico judeu do século VII,
Prece de Moisés Maimonide, século XII,
Juramento de Amato Lusitano, feito em Salónica, no ano do Mundo 5.319 (1559 da nossa era),
A Prece dos Médicos ou «Thephilat Herofim», de Jacob Zahalou, médico e rabino em Itália (1630-1693),
Juramento Médico de Montpellier, redigido por Lallunaut,
Juramento do Conselho da Ordem dos Médicos de França,
Juramento ou Declaração de Genebra, adoptada pela Assembleia Geral da Associação Médica Mundial em Genebra, Suíça, em Setembro de 1948, Juramento do Médico Hebreu, redigido pelo Prof. Halpern, de Jerusalém e pronunciado pela primeira vez em 12 de Maio de 1952, quando da entrega de diplomas aos primeiros diplomados do Estado de Israel,
Oração do Médico, de Sua Santidade o Papa Pio XII,
1.° Código Internacional de Ética Médica, adoptado pela 3.ªAssembleia Geral da Associação Médica Mundial, Inglaterra, Outubro de 1949,
Declaração de Helsínquia, Recomendações para orientação dos médicos em investigação clínica (Adoptada pela 18.ª Assembleia Médica Mundial, Helsínquia, Finlândia, 1964),

veremos que, embora com o desajuste do tempo, não há grandes alterações nos princípios consignados. Muda a forma de os enunciar e a marca de cada período.
Hoje, com o desenvolvimento imparável da medicina, as alterações estão finalmente aí à espreita. Avanços científicos e tecnológicos, banalização das técnicas, modificação dos princípios sociais, influência de filósofos e pensadores, movimentos sociais, são base de fermentação de novos cozinhados éticos.
Ao longo dos últimos anos isso tem sido aparente com problemas como os transplantes, gravidez in vitro, interrupção voluntária de gravidez, eutanásia, doentes terminais, clonagem e por aí fora.
É de esperar que hoje em dia, com a evolução da medicina, nos apareça qualquer dia o dito «cuida de ti mesmo», integrando um código ético de saúde, dado que cuidar de si, será também responsabilidade de cada um.

Entretanto, a Ética deu lugar à Bioética e esta prepara-se para dar lugar à Saniética. Enquanto a primeira tem a ver com o relacionamento entre o homem e a vida, o relacionamento do homem com os elementos da biosfera, a Saniética aplica-se à ética da saúde.
E não será ainda aqui que as coisas vão parar ou abrandar, pois presumo que daqui em diante ainda iremos assistir à publicação anual dos Códigos Éticos e tal como na lei civil, o crime terá que ser analisado à luz do código do ano em que o crime foi cometido.
A menos que a Moral recupere do estado de doença em que caiu e termine o ciclo histórico da sua queda. Por aqui e por ali, começa a haver sinais de que se prepara um renascimento moral.
Assim seja.
CVR

sábado, outubro 23, 2010

o lucro

«The Corporation» é um longo documentário dirigido e produzido por Mark Achbar e Jennifer Abbott, baseado na adaptação do livro de Joel Bakan «The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power», onde o autor analisa a fundo o poder das grandes empresas, desde que em 1886, um juiz decidiu que as corporações poderiam considerar-se como indivíduos. Consequência deste despacho faz com que, apesar das posições individuais de seus fundadores e mesmo após a morte destes, uma corporação continue a sua existência, operando como um "organismo" autónomo em busca de um objectivo bastante específico - o lucro.
Apesar da sua extensão, necessária para bem documentar e defender a tese em discussão, este filme merece a nossa atenção, não porque nos traga algo que desconhecíamos, mas antes por nos mostrar claramente as várias ligações e a trama universal de tudo isto.


sexta-feira, outubro 15, 2010

quinta-feira, outubro 14, 2010

uma verdade difícil de engolir


Desde os últimos tempos do Expresso e depois no Sol, são inúmeras as vezes que não tenho concordado com as opiniões de José António Saraiva. Mas neste seu texto que intitulou Crise Nacional, concordo com tudo que ali escreveu. É um texto bastante realista, embora quase fúnebre, derrotista, mas verdadeiro. Sabemos que irá ser assim, mas recusa-mo-nos a acreditar. Talvez seja melhor que não deixemos de pensar nisso e acautelemos o nosso futuro e o do país. E por assim pensar aqui o transcrevo para conhecimento de quem o não tenha lido.

Crise nacional

Creio que a maioria das pessoas ainda não percebeu bem esta crise – e os economistas não estão a saber explicá-la com clareza. É verdade, como se tem dito, que há uma ‘crise nacional’ e uma ‘crise internacional’. Mas, depois desta evidência, a confusão que por aí vai é enorme.
Comecemos pela crise portuguesa.
Trata-se de uma crise profundíssima, potenciada por três factos capitais: o fim do Império, a passagem da ditadura à democracia e a entrada na União Europeia. Tudo isso, que se pensava vir a ter um efeito benéfico na economia, produziu de facto consequências devastadoras. O fim do Império limitou-nos o espaço vital, cerceou-nos matérias-primas e mercados, diminuiu-nos política e psicologicamente. A passagem da ditadura à democracia (com o seu rosário de greves, nacionalizações, perseguições, saneamentos, reivindicações laborais insustentáveis, etc.) destruiu boa parte do nosso tecido económico.
A entrada na União Europeia e a abolição das fronteiras pôs-nos em confronto com economias muito mais avançadas, acabando de liquidar o que restava da nossa débil capacidade produtiva.
A crise internacional é de outra natureza.
Ela decorre da globalização e tem duas vertentes. Por um lado, os produtos feitos no Ocidente começam a não ter condições para competir a nível global com outros produzidos em países (China, Índia, Coreia, etc.) onde os salários e as regalias laborais são muitíssimo inferiores. Por outro lado, as empresas tendem a transferir cada vez mais as suas fábricas e serviços de Ocidente para Oriente – o que significa que no Ocidente vai aumentar o desemprego e no Oriente vai acentuar-se a procura de mão-de-obra. E, em consequência disso, no Ocidente baixarão os salários, acabarão muitas regalias sociais, numa palavra, será posto radicalmente em causa o tipo de vida que se fez nos últimos 50 anos. No Oriente, pelo contrário, os salários tenderão a subir e o nível de vida crescerá.
Assim, a crise que hoje se vive no Ocidente é de natureza diferente das anteriores.
Antes, eram crises de crescimento do capitalismo dentro da sua área geográfica; agora, a crise tem a ver com a globalização do capitalismo. Repare-se que grande parte do planeta, que até pouco vivia fora do sistema capitalista, aderiu à sociedade de mercado: basta pensar nas adesões quase simultâneas da Rússia e da China para se ter uma ideia do abrupto alargamento da área do capitalismo nos últimos anos. Os grandes grupos multinacionais, que antes estavam limitados a um determinado espaço territorial, hoje têm o planeta inteiro para instalar os seus centros de produção – podendo procurar os salários mais baixos, as melhores ofertas de mão-de-obra, as menores regalias dos trabalhadores.
O planeta tornou-se um sistema de vasos comunicantes – onde, para uns viverem melhor, outros vão ter de viver pior. Para certas regiões subirem o nível de vida, outras vão necessariamente perder privilégios.
Perante isto, perguntará o leitor: o que poderemos fazer para inverter o estado das coisas?
Basicamente, não há nada a fazer.
Os factores que potenciaram a crise nacional são irreversíveis – e a globalização não vai andar para trás.
Assim, vamos ter de nos adaptar à nova situação, o que significa de uma maneira simples trabalhar mais e ganhar menos. Os salários vão baixar (lenta ou abruptamente) entre 10 e 30%, os horários de trabalho vão aumentar (com a abolição total das horas extraordinárias), o 13.º e 14.º meses vão ficar em causa, a idade da reforma também vai ser ampliada (para perto dos 70 anos), o rendimento mínimo garantido vai regredir drasticamente, o subsídio de desemprego também vai diminuir, a acumulação de reformas vai ser limitadíssima. Muitas ‘conquistas dos trabalhadores’ na Europa, obtidas no pós-guerra, vão regredir. As leis laborais vão ter de ser flexibilizadas. O sistema de saúde não vai poder continuar a gastar o que tem gasto.
Preparem-se, porque não vale a pena protestar.
O que não tem remédio, remediado está.
Dizia há dias, com graça, Ernâni Lopes, a propósito do subsídio de férias: «Se dissessem a um americano: ‘Para o mês que vem não trabalhas e ganhas dois ordenados’, ele não acreditava».
Pois há muitos anos é esta a situação: não trabalhamos nas férias e recebemos o dobro.

Isto vai acabar.

José António Saraiva

quarta-feira, outubro 13, 2010

quando os pássaros escrevem música

Jarbas Agnelli encantou-se com uma fotografia que mostrava pássaros poisados nos fios eléctricos em posições tais que configuravam uma autêntica partitura musical. Falando sobre isto com o fotógrafo Paulo Pinto do jornal Estado de S. Paulo, ou Estadão como todos lhe chamam, este enviou-lhe alguns dias depois a foto completa, o que permitiu juntar mais notas de um e outro lado. Então, passadas as posições dos pássaros a uma pauta musical, obteve-se uma música curta, mas surpreendente, melódica e profunda.
No vídeo que aqui deixo, Jarbas Agnelli conta esta história num dos Encontros TED de S. Paulo e uma orquestra interpreta a música obtida de forma tão natural e espontânea como deve ser o repouso dos pássaros.

segunda-feira, outubro 11, 2010

res publica

Nesta época de crise que atravessamos aquilo que, eventualmente, antes dela não nos chamaria a atenção, para além da verificação da diferença, faz agora tocar em nós uma campainha de alarme e, quer queiramos quer não, deixa-nos a pensar sobre isso. E, naturalmente, após o espanto verificamos ter a obrigação de dar a conhecer essa diferença a todos que não a saibam e se venham a espantar, como nós. Vejam atentamente este vídeo e espantem-se. Se é que ainda alguma coisa é capaz de o fazer.
Conheçam como funciona o Parlamento da Suécia e tenham pena desse país tão pobre da Europa ...



E, já agora, vejam o que se passa com os Deputados no Reino Unido e como tudo é tão diferente do caso português. Mas nós somos ricos ...
Os deputados no Reino Unido não têm lugar certo para sentar-se na Câmara dos Comuns; não têm escritórios, nem secretários, nem automóveis; não têm residência (pagam pela sua casa) e pagam por todas as suas despesas, normalmente,como todo e qualquer trabalhador; não têm passagens de avião gratuitas, salvo quando ao serviço do próprio Parlamento. E o seu salário equipara-se ao de um Chefe de Secção de qualquer repartição pública.
Em suma - são, realmente, servidores do povo.
Por cá é como se sabe e como alguns nem sabem. Não lhes parece estranho que os funcionários (não deputados) que trabalham na Assembleia tenham um subsídio equivalente a 80 % do seu vencimento? Porquê? Já viu os jornais falarem disto?

domingo, outubro 10, 2010

sangue novo, precisa-se


Enquanto sedimentam as memórias da minha estadia na Polónia, aproveito para vos deixar aqui um interessante e esclarecido artigo de José Cutileiro publicado na sua coluna «O Mundo dos Outros», que semanalmente assina no Expresso. Recomendo a sua leitura e a meditação devida.

Sangue Novo

Em sentido figurado é o que vai ser preciso em futuros homens de Estado europeus se se quiserem evitar grandes desastres económicos e sociais, incluindo porventura guerras onde há mais de meio século não as havia. Porque como se diz em histórias para crianças: "Acabou-se a papa doce".
Por outras palavras, o edifício de ajudas várias, pagas com impostos arrecadados pelo Estado, que levava os europeus do berço à cova num hovercraft de privilégio tomou-se caro demais. Hoje morre-se muito mais tarde do que se morria dantes, nasce-se muito menos e a assistência médica é custosíssima. O problema só tem uma de duas soluções: ou o Estado recebe muito mais em impostos ou passa a gastar muito menos.
Há anos que se sabia onde se iria chegar e o que se deveria fazer para evitar o pior mas os políticos europeus recusavam-se a tomar medidas que prevenissem o desastre. O primeiro-ministro do Luxemburgo Jean-Claude Junker sintetizou lapidarmente o dilema em 2007, falando pelos governantes da altura: "Sabemos todos o que há a fazer mas não sabemos como ser reeleitos se o fizermos".
As poucas medidas tentadas põem o povo em polvorosa: em França a proposta de passar a idade da reforma de 60 para 62 anos - indispensável para evitar a falência do sistema - aprovada na Assembleia Nacional e em discussão no Senado, está a provocar - com aprovação de 70% dos franceses - manifestações enormes convocadas pelos sindicatos apostados em ganhar mais uma vez um jogo clássico da V República: os eleitos do povo põem e a rua dispõe. Se desta vez Sarkozy conseguir quebrar os sindicatos, a França talvez fique governável.
O mal-estar expressa-se também em explosões de xenofobia: para ganhar votos à extrema-direita Sarkozy expulsa ciganos estrangeiros; na Suécia, até agora sogra moral do mundo, governo de direita minoritário terá de fazer malabarismos para sobreviver sem apoio parlamentar de um partido de extrema-direita hostil a imigrantes; na Holanda um partido também de extrema-direita, anti-islâmico, entra na coligação que vai passar a governar o país. Por toda a parte o Estado social, emblema da social-democracia europeia, que confortava anseios de igualdade e amaciava durezas do dia-a-dia, está a estalar pelas costuras. Um exemplo elucidativo: na Grã-Bretanha a despesa com saúde, educação e segurança social aumentou dez vezes (descontada a inflação) desde 1950 enquanto o rendimento nacional aumentou quatro vezes (também descontada a inflação).
Sangue novo político vai seguramente ser preciso. Em sentido figurado - porque se os que vierem quiserem exemplo a seguir encontram-no no primeiro-ministro da Grécia, Giorgios Papandreu, filho e neto de primeiros-ministros, que divulgou o estado das finanças do seu país e lutou lá dentro e cá fora para meter nos eixos muito mais do que as finanças. Recebeu na Alemanha o Prémio Quadriga, atribuído no dia da Reunificação a "pessoas exemplares e esclarecidas" - no seu caso "por poder de veracidade".

close to you

Mario Ranno nasceu em 28 de Janeiro de 1971 na Catânia, Itália, filho de um conhecido cantor. Naturalmente recebeu educação musical, pertenceu a vários coros e acompanhou artistas conhecidos nos seus tours de concertos. A sua magnífica voz de barítono veio a desenvolver-se e a ligá-lo para sempre à música. Adoptou o nome artístico de Mario Biondi. Embora o seu reconhecimento internacional tenha demorado, hoje é considerado uma das melhores vozes da actualidade em soul e blues. Ouçam a sua voz grave, doce e quente, numa canção que celebrizou o duo The Carpenters em 1970 - Close to You. É uma gravação ao vivo, acompanhado pela Duke Orkestra.

sexta-feira, outubro 01, 2010

a sensualidade e o erotismo nas doses certas

Chegado hoje da Polónia fui encontrar entre o correio recebido este magnífico vídeo, em que o chamado Duo MainTenanT, constituído por Nicolas Besnard e Ludivine Furnon, artistas do Cirque du Soleil, apresentam o seu número circense envolvido numa sensualidade e num erotismo fora do comum nestas exibições. Ludivine Furnon recebeu em Paris a medalha de prata conquistada no 31.º Festival Mundial do Cirque de Demain. Este vídeo foi gravado numa apresentação deste Duo no "Benissimo" Live TV show 2010. Vejam com atenção e não se arrependerão.


segunda-feira, setembro 20, 2010

até outubro

Durante uns dias vou estar longe deste blog e deste país. Em Outubro estarei de volta. Deixo-vos com uma imagem da catedral da cidade polaca que me acolherá. Dela e desses dias falarei no meu regresso e também do tema em discussão - a ética e a moral, hoje.

terça-feira, setembro 14, 2010

adeus ângelo



Só agora soube que morreste, uma coisa quase improvável em ti. Quem passou pelo Porto e por Coimbra, quem depois conviveu contigo anos e anos em Lisboa, ficou sempre com a ideia que os dias não passavam por ti e o calendário se esquecia de te marcar a passagem inexorável do tempo, como faz com todos nós, aqueles de quem ninguém duvida que um dia desaparecerão. Mas contigo não era assim. Cada encontro te mostravas igual, talvez melhor. Sempre com o teu sorriso, sempre com a piada pronta, a observação certeira, o chiste rápido, e sempre o inseparável papel no bolso, que retiravas e nos mostravas, dando-nos algo de ti - um poema, uma crítica feroz, um baú de humor.
Só agora soube que no passado dia 30 de Julho tinhas resolvido deixar-nos e decidiras levar para o além o teu espírito inquieto, a tua juventude de 90 anos e a ideia que só a ti lembraria de pores os anjos a cantar o fado de Coimbra, não só os muitos que escreveste e musicaste, mas o de todos aqueles que o trouxeram até hoje.
Partiste sem me avisar e em falta comigo, se bem te lembras. Pedi-te uma informação e nunca me telefonaste a dar-ma. Quando depois disso te encontrei, perguntei-te porque nada me disseras. A resposta veio pronta - tens razão, Carlos, nem sei como me esqueci, logo agora que eu me lembro todos os dias que me esqueço de tudo!! Sempre tu.
O vídeo seguinte mostra algumas cenas do filme Capas Negras em que se pode ouvir o primeiro fado da autoria de Ângelo Araújo - Feiticeira.



Da Biografia escrita por José Niza publico algumas notas sobre ti, que não respeitam à nossa amizade, mas à tua circunstância. Aqui ficam para quem não saiba nada de ti.

«Ângelo Vieira de Araújo nasceu em S. João da Madeira, a 1 de Janeiro de 1920. Completou o curso dos liceus no Porto e, em 1936, matriculou-se na Faculdade de Medicina desta cidade. Nos seus tempos de caloiro foi membro da Tuna Universitária do Porto, como solista de banjolim; foi também 2.° tenor do Orfeon Universitário do Porto.
Em 1937 transferiu-se para Coimbra, onde se licenciou em Medicina (1947), depois de ter cumprido o serviço militar. Foi membro da Real República do Kalifado.
Nos seus tempos de Coimbra foi 1.º violino da Tuna Académica e músico da sua Orquestra Havaiana. Pertenceu ainda ao Fado Académico e integrou o TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, fundado em 1938), organismo cuja fundação se deve à iniciativa de Jorge Moraes (Xabregas), guitarrista que marcou a geração de 1940.
Ângelo de Araújo, para além de poeta e compositor, tocava também diversos instrumentos (violino, banjolim, guitarra e viola).
Mas foi sobretudo como compositor e poeta que se notabilizou, sendo autor de cerca de duas dezenas de fados e baladas, dos quais se destacam a célebre Feiticeira, o primeiro que compôs. Esta canção foi estreada e divulgada por Manuel Julião, cantor dos anos 40 e, posteriormente, interpretada por Alberto Ribeiro, no filme Capas Negras, em que este cantor contracenou com Amália Rodrigues. Neste filme há outra canção de Ângelo de Araújo, interpretada pelo tenor Domingues Marques.
Outros fados, como Suspiros que Nascem na Alma, Contos Velhinhos, Minha Capa já Velhinha, Carta (Soneto), Balada do Crepúsculo, Coimbra dos Meus Encantos, Santa Clara, Amor e mais Nada e Maria se Fores ao Baile, têm também a marca da sua criatividade».

sábado, setembro 11, 2010

às vezes não é só fumaça


Recomendo a leitura deste texto de Mia Couto sobre os recentes acontecimentos em Maputo após o anúncio governamental do aumento de preço do pão e outros bens. O que se passou foi lá, já está aparentemente saneado com a cedência do Governo, mas pode acontecer em qualquer lado onde o autismo do Governo não leve em conta a opinião pública e considere mais a publicada.

A pobreza sai muito caro

Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.
E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo actuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, excepto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.
A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este parodoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.
Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.
Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutores e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direcção política do país. Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.
Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a “quem de direito”. Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam “uma resposta”. Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expectativa.
Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.
As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.
Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os “não eventos” da nossa história recente. Um deles é a chamada “guerra civil”. O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio. Entre esquecimentos e distorções, o fenómeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.
Vvemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos “bandos armados” esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas. Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os “maravilhosos” avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjectivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é “maravilhoso”, que o nosso país é “belo”. Mas todos os povos do mundo são “maravilhosos”, todos os países são “belos”. A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza.

Mia Couto, O País

quinta-feira, setembro 02, 2010

seja cientista amador ou ajude quem o é

A um dos seus mais recentes 'Passeios aleatórios', que Nuno Crato escreve e assina no Expresso, intitulou-o de 'cientistas cidadãos'. Nele explica como é possível a cidadãos comuns participarem em investigações em curso a nível mundial e fazê-lo de uma forma passiva ou activa, consoante a preparação, a disponibilidade e o interesse. Mesmo quando passiva essa participação será sempre útil, pois permitir acelerar a investigação, aproveitar a capacidade dos verdadeiros investigadores, deixando-os libertos de pesquisas que lhes roubavam tempo, para o poderem aplicar em investigação que só eles poderão fazer. Considero esta possibilidade interessantíssima e não quero deixar de a dar a conhecer a mais algumas pessoas. Esta informação vinda de quem vem, é segura, é real e merece ser apoiada. Leiam o que Nuno Crato lhes quis dizer para que o soubessem e reajam activamente. Sintam isto como uma nova pulsão e vão atrás dos pulsares que por aí andarão à espera de quem os descubra.

a arte de fazer a corte ou canto dos bons malandros

Na água, em terra ou no ar, é sempre preciso uma boa 'cantada', como exemplificam as várias imagens com que vos deixo. Aprende-se a cantar e dançar assim, no livro da vida ou no livro de instruções que já vem no ADN?

quinta-feira, agosto 26, 2010

inteligência animal

Qualquer lisboeta gostará de ver os dois vídeos que vos deixo, porque são corvos os animais escolhidos para demonstrarem a inteligência animal, fazendo-o de tal maneira que raciocínio e inteligência se afirmam como coisas naturais.
No primeiro vídeo o corvo descobre a maneira mais fácil de quebrar a noz, depois de uma tentativa que se mostrou falhada, embora o raciocínio tivesse sido correcto. Reparem que o corvo espera o sinal ficar vermelho para os carros e só então desce em segurança para pegar os pedaços da noz no asfalto; ao contrário de muitos humanos que se esquecem desse pequeno detalhe de respeitar o semáforo.
No segundo vídeo o raciocínio é ainda mais elaborado nas suas soluções. Só vendo. Não deixem de o fazer, pois é bom ser surpreendido.



terça-feira, agosto 24, 2010

consegue assobiar assim?

Em Abril passado deixei aqui um vídeo com uma magnífica interpretação da Orquestra Sinfónica de Kiel das Czardas de Monti, com solo em assobio de Geert Chatrou. Poderia pensar-se que não voltaria ao assobio, esse magnífico instrumento com que todos fomos dotados e alguns executam bem, mas pensando melhor vou deixar um pequeno vídeo com outro genial intérprete de assobio, Roger Wittaker.
O assobio é um magnífico tratamento para o stress, mas não deve ser usado para assobiar para ao lado...

segunda-feira, agosto 23, 2010

léo ferré ele próprio e revisitado

Aqueles que já contam mais de 50 anos, por certo apreciarão ouvir uma vez mais a poesia e a voz de Léo Ferré, esse magnífico escritor e cantor, nascido no Mónaco em 1916 e falecido em 1993. Todos os que então o ouviam, apreciavam garantidamente a beleza das palavras, a música que as acompanhava e ainda, ou sobretudo, a sensibilidade, a expressão, a emoção, que ele lhes imprimia. Poderia colocar aqui muitos dos seus sucessos. Escolhi colocar Thank You Satan, pela força da mensagem, pela modernidade com que construiu alguns efeitos musicais e, sobretudo, por poder deixar também aqui uma versão do mesmo poema interpretado por uma banda de rock ou art rock criada no mesmo ano em que Ferré morreu - os Dionysos. Banda de jovens liceais, residentes em Valence, no Drône, sudoeste de França. Vale a pena ouvir as duas versões. Vamos a Léo Ferré, o próprio:



Ouçamos agora os Dionysos - Mathias Malzieu, Éric Serra Tosio, Michaël Ponton, Guillaume Garidel, Élisabeth Maistre (Babet) e Stéphan Bertholio



Para aqueles que tenham perdido algumas das palavras do poema, deixo-vos uma tradução em português feita pelo brasileiro Paulo de Tharso

Thank You Satan, de Léo Ferré

Por essa chama que você acende

No vazio de uma cama pobre ou não
Pelo prazer que ela consome
Em panos de seda ou algodão
Pelas crianças que você cria
Nos dormitórios de querubins
Por suas pétalas esquecidas
Como a rosa da manhã

Thank you Satan

Pelo ladrão que você aquece
Com tua lã macia e berne
Por toda porta descerrada
Dos celeiros dos ricos empanturrados
Pelo condenado que você vela
Na abadia dos ministérios
Pelo rum barato e velho
E pela guimba que você lhe dá

Thank you Satan

Pelas estrelas que você semeia
No remorso de um matador
Pelo coração que bate igual
No peito das putas dos bataclãs
Pelas idéias maquiadas
Na mente de todo cidadão
Pela queda da Bastilha
Que nunca nos dará o pão

Thank you Satan

Pelo padre que se exaspera
Para encontrar o cordeiro de Deus
Pelo sangue vagabundo, elementar
Que ele bebe como Château Margoux
Pelo anarquista a quem você dá
As duas cores de teu país
O vermelho para nascer em Barcelona
E o negro para morrer em Paris

Thank you Satan

Pela sepultura anônima
Que você deu ao Monsieur Mozart
Sem cruz, sem nada, salvo a piada sem graça
De um cão surgido ao acaso
Pelos poetas que você escorrega
Nos travesseiros dos adolescentes
Quando eles crescem sob a sombra cúmplice
Das flores do mal dos dezessete

Thank you Satan

Pelo pecado que você faz nutrir
Nos seios das mais rígidas virtudes
E pelo tormento que irá surgir
No canto dos leitos onde você não mais está
Pelos imbecis que você ordena padre
No pasto como carneiros
Por teu orgulho de jamais aparecer
Na televisão

Thank you Satan

Por tudo, e mais ainda:
Pela solidão dos reis
E pelo riso na cara das caveiras dos mortos
O jeito de driblar a lei
E que não me ponham o dedo em riste
Pois eu canto por teu bem
Nesse mundo onde as focinheiras
Não são feitas só para os cães

Pela beleza destes dois vídeos poderei dizer - Thank You Satan