No mundo confuso em que vivemos, mergulhados na crise que nos envolve, são muitas as teorias e as vozes que se levantam mostrando o erro ou a salvação. É tanta a informação e a contra informação que começa a ser difícil orientar-mo-nos neste mar de palavras, mesmo quando nos reclamamos algo esclarecidos ou bem informados. Quando hoje vi este vídeo em que o Professor Mark Blyth que ensina Política Económica Internacional no Instituto Watson da Universidade Brown nos fala sobre os perigos da austeridade económica, pareceu-me ser interessante colocá-lo aqui à vossa disposição, para informação e comentário. Um pouco rápido de mais na apresentação e argumentos, tem, apesar disso, algum mérito.
segunda-feira, novembro 22, 2010
segunda-feira, novembro 15, 2010
acerca dos mercados

Já algumas vezes tenho recorrido ao humor para tentar explicar ou esclarecer determinadas situações técnicas. Agora que cada vez mais se fala em «mercados», pensei que seria bom deixar aqui esta pequena lição, servida com humor, inteligência e eficácia. O riso é garantido, a eficácia (embora limitada) também.
Uma jovem mulher enviou um e-mail para o jornal a pedir dicas sobre “como arranjar um marido rico”. Um dos editores do jornal, respondeu-lhe.
MARIDO RICO (no Financial Times)
Contudo, mais inacreditável que o “pedido” da rapariga, foi a resposta do editor do jornal que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada.
“Sou uma rapariga linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Quero casar-me com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano.
Há algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas?
Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não me vão permitir morar em Central Park West.
Conheço uma mulher (do meu grupo de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem inteligente. Então, o que é que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correcta? Como chego ao nível dela?”
(Raphaella S.)
____________________
Resposta do editor do jornal:
“Li a sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação.
Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou a tomar o seu tempo à toa...
Posto isto, considero os factos da seguinte forma:
Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que procura), o que oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando o convencionalismo de lado, o que sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: Você entra com a beleza física e eu entro com o dinheiro.
Mas há um problema. Com toda a certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará a aumentar. Assim, em termos económicos, você é um activo que sofre depreciação e eu sou um activo que rende dividendos. Você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre a aumentar!
Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando se comparar com uma fotografia de hoje, verá que se transformou num caco. Isto é, hoje você está em ‘alta’, na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando a terminologia de Wall Street, quem a tiver hoje deve mantê-la como ‘trading position’ (posição para comercializar) e não como ‘buy and hold’ (comprar e manter), que é para o que você se oferece...
Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um ‘buy and hold’) consigo não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim!
Assim, em termos sociais, um negócio razoável a ponderar é, namorar. Sem ponderar... Mas, já a ponderar e, para me certificar do quão ‘articulada, com classe e maravilhosamente linda’ você é, eu, na condição de provável futuro locatário dessa ’máquina’, quero tão-somente o que é de praxe: fazer um ‘test drive’ antes de fechar o negócio...
podemos marcar?”
Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA
“Sou uma rapariga linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Quero casar-me com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano.
Há algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas?
Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não me vão permitir morar em Central Park West.
Conheço uma mulher (do meu grupo de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem inteligente. Então, o que é que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correcta? Como chego ao nível dela?”
(Raphaella S.)
____________________
Resposta do editor do jornal:
“Li a sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação.
Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou a tomar o seu tempo à toa...
Posto isto, considero os factos da seguinte forma:
Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que procura), o que oferece é simplesmente um péssimo negócio.
Eis o porquê: deixando o convencionalismo de lado, o que sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: Você entra com a beleza física e eu entro com o dinheiro.
Mas há um problema. Com toda a certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará a aumentar. Assim, em termos económicos, você é um activo que sofre depreciação e eu sou um activo que rende dividendos. Você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre a aumentar!
Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando se comparar com uma fotografia de hoje, verá que se transformou num caco. Isto é, hoje você está em ‘alta’, na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada.
Usando a terminologia de Wall Street, quem a tiver hoje deve mantê-la como ‘trading position’ (posição para comercializar) e não como ‘buy and hold’ (comprar e manter), que é para o que você se oferece...
Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um ‘buy and hold’) consigo não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim!
Assim, em termos sociais, um negócio razoável a ponderar é, namorar. Sem ponderar... Mas, já a ponderar e, para me certificar do quão ‘articulada, com classe e maravilhosamente linda’ você é, eu, na condição de provável futuro locatário dessa ’máquina’, quero tão-somente o que é de praxe: fazer um ‘test drive’ antes de fechar o negócio...
podemos marcar?”
Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA
sexta-feira, novembro 12, 2010
um aviso à navegação europeia
Com um ar de alguma satisfação e vingança final, o Venerável Professor Kuing Yamang, esclarece de forma clara, e de forma implacável anuncia, a bancarrota próxima do modelo europeu. E com um ar de cinismo educado constata que ao mesmo tempo que a Europa se afunda, floresce o oriente e a sua sabedoria milenária. Claro que na sua exposição ignora por completo que o seu modelo de trabalho e a ordem laboral em que baseia o seu modelo tem pouco de aconselhável sobre o ponto de vista de liberdades e garantias ... Vale a pena ouvi-lo até ao fim. E depois pensar sobre o que ele diz com tanta limpidez.
Agora que já viram e leram, devo esclarecer que o vídeo não é mais do que uma paródia e uma montagem, em que foram introduzidas legendas sobre imagens que nada têm a ver com o que se diz na entrevista.
Esclarecido isto, ainda pergunto - isto não dá que pensar?
quinta-feira, novembro 11, 2010
momentos
Há muita coisa boa no cinema português. Pena é que sejam poucos os portugueses que disso de apercebem ou tomam conhecimento. Sobretudo no domínio das curtas metragens a produção portuguesa é de qualidade. Só hoje vi uma recente produção de Nuno Rocha, chamada Momentos, que gostava de partilhar convosco. Aqui fica a «curta». Espero que gostem.
a nau portugal 1
A crónica publicada pelo Comendador Marques de Correia na sua coluna Cartas Abertas, na Revista Única do passado dia 6 de Novembro e intitulada «Se não fossem os dois velhotes, o país ficava sem massa para mandar cantar um invisual», refere um acontecimento recente da Nau Portugal que ficará para sempre registado na memória dos portugueses. Não vale a pena referir-me a ele, uma vez que o ilustre Comendador o faz de forma magistral. Aconselho-vos a sua leitura e agradeço ao Expresso, ao autor e ao ilustrador que não se zanguem por esta publicação no blog.

Agora que todo o país viu a fotografia dos dois velhotes a assinar a papelada e que se espera sinceramente não haver mais problemas, posso revelar que fui eu quem tirou a fotografia. Podem perguntar: que raio estava um Comendador já muito entrado de idade a fazer em casa de Eduardo Catroga quando este discutia o futuro do país com Teixeira dos Santos? A minha resposta é simples: Não têm nada a ver com isso!
A coisa foi assim. O Teixeira telefonou ao Catroga e este convidou-o a beber um chá de tília lá em casa. Aceite o convite, o Teixeira entrou e disse:
- Boa tarde! Trago aqui uma proposta nova ...
- E corta na despesa?
- Sei lá, eu já não percebo nada disto, achas que eu me entendo com estes números todos?
- Eu também não, mas se pudermos dizer que corta na despesa eu digo ao miúdo e ele fica todo contente.
- Mas eu não posso dizer ao meu que corta na despesa. Dá-lhe uma birra que ainda me parte a cabeça!
- A Merkel não lhe falou?
- Deve ter falado! Falou com o teu?
- Falou, no PPE...
- Hummm ... Então dizemos que corta na despesa ...
- E as deduçõezinhas?
- Vai a meias. Quantas queres?
- Só o sexto e o sétimo escalão. O miúdo não queria nenhuma, mas eu convenço-o. E no que cedes mais?
- Não me venhas com cedências que o Sócrates não gosta ...
- Mas isto é só para chatear o Sócrates, ou achas que estou aqui a fazer o quê? A tornar melhor uma porcaria de OE que não tem pés nem cabeça?
- Olha que não é assim tão mau ...
- Bebe o chá, anda. Dá-me lá uma cedência ... Já me deixaste a secar quatro horas ainda me zango contigo!
- Só se tu me deres outra. Convence lá o Passos ...
- Ok, cedemos os dois. Achas bem?
- Acho, assina aí!
- Assino o quê?
- Um papel qualquer, para o Comendador tirar uma fotografia que amanhã podes mostrar aos jornalistas.
- Mas fizeste as contas?
- Ah...
- Pois...eu também não!
- Para quê? Eu por mim tinha fechado isto há mais de um mês!
- Também eu, mas eles lá sabem ...
- Pronto, já assinei, toma lá a caneta.
- Venha ela ... Ah ... espera aí um bocado, não sais daqui sem acabar o Conselho de Estado.
- Vamos ver televisão, está a dar o Porto.
- Não vês futebol nenhum cá em casa. Ficas à espera que o Passos telefone e eu lhe conte ...
- Vá lá, deixa-me ver o Porto!
- Queres negociar isso, também?
- Se me deixares ver o Porto dou-te mais uns pós.
- Tipo quê?
- Sei lá, mantém-se o leite achocolatado a 6%.
- Vê lá o Porto, mas olha que esta parte é secreta.
- E na especialidade abstêm-se, ouviste?
- Claro. Bem, podes ir embora. Vemo-nos amanhã ...
- Adeus, Eduardo, ainda vamos ter saudades disto.
E, separaram-se com a sensação do dever cumprido. Tinham feito mais um serviço à Pátria. Doravante, sempre que pensardes no país, pensai nos velhotes que, salvando-o da bancarrota, vos meteram a vós nela.
Comendador Marques de Correia
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A coisa foi assim. O Teixeira telefonou ao Catroga e este convidou-o a beber um chá de tília lá em casa. Aceite o convite, o Teixeira entrou e disse:
- Boa tarde! Trago aqui uma proposta nova ...
- E corta na despesa?
- Sei lá, eu já não percebo nada disto, achas que eu me entendo com estes números todos?
- Eu também não, mas se pudermos dizer que corta na despesa eu digo ao miúdo e ele fica todo contente.
- Mas eu não posso dizer ao meu que corta na despesa. Dá-lhe uma birra que ainda me parte a cabeça!
- A Merkel não lhe falou?
- Deve ter falado! Falou com o teu?
- Falou, no PPE...
- Hummm ... Então dizemos que corta na despesa ...
- E as deduçõezinhas?
- Vai a meias. Quantas queres?
- Só o sexto e o sétimo escalão. O miúdo não queria nenhuma, mas eu convenço-o. E no que cedes mais?
- Não me venhas com cedências que o Sócrates não gosta ...
- Mas isto é só para chatear o Sócrates, ou achas que estou aqui a fazer o quê? A tornar melhor uma porcaria de OE que não tem pés nem cabeça?
- Olha que não é assim tão mau ...
- Bebe o chá, anda. Dá-me lá uma cedência ... Já me deixaste a secar quatro horas ainda me zango contigo!
- Só se tu me deres outra. Convence lá o Passos ...
- Ok, cedemos os dois. Achas bem?
- Acho, assina aí!
- Assino o quê?
- Um papel qualquer, para o Comendador tirar uma fotografia que amanhã podes mostrar aos jornalistas.
- Mas fizeste as contas?
- Ah...
- Pois...eu também não!
- Para quê? Eu por mim tinha fechado isto há mais de um mês!
- Também eu, mas eles lá sabem ...
- Pronto, já assinei, toma lá a caneta.
- Venha ela ... Ah ... espera aí um bocado, não sais daqui sem acabar o Conselho de Estado.
- Vamos ver televisão, está a dar o Porto.
- Não vês futebol nenhum cá em casa. Ficas à espera que o Passos telefone e eu lhe conte ...
- Vá lá, deixa-me ver o Porto!
- Queres negociar isso, também?
- Se me deixares ver o Porto dou-te mais uns pós.
- Tipo quê?
- Sei lá, mantém-se o leite achocolatado a 6%.
- Vê lá o Porto, mas olha que esta parte é secreta.
- E na especialidade abstêm-se, ouviste?
- Claro. Bem, podes ir embora. Vemo-nos amanhã ...
- Adeus, Eduardo, ainda vamos ter saudades disto.
E, separaram-se com a sensação do dever cumprido. Tinham feito mais um serviço à Pátria. Doravante, sempre que pensardes no país, pensai nos velhotes que, salvando-o da bancarrota, vos meteram a vós nela.
Comendador Marques de Correia
quarta-feira, novembro 10, 2010
segunda-feira, novembro 08, 2010
mais do mesmo

Daniel de Oliveira escreveu no dia 26 de Outubro passado, na sua coluna «Antes pelo contrário», no Expresso on line, um artigo que intitulou «Os cinco Cavacos» que me parece ser um bom complemento ao meu post anterior. Por isso, aqui o deixo para vossa leitura e opinião.
Os cinco Cavacos
Sem contar com a sua breve passagem pela pasta das Finanças, conhecemos cinco cavacos. Mas todos os cavacos vão dar ao mesmo.
O primeiro Cavaco foi primeiro-ministro. Esbanjou dinheiro como se não houvesse amanhã. Desperdiçou uma das maiores oportunidades de deste País no século passado. Escolheu e determinou um modelo de desenvolvimento que deixou obra mas não preparou a nossa economia para a produção e a exportação. O Cavaco dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas. O Cavaco do Dias Loureiro e do Oliveira e Costa num governo da Nação. Era também o Cavaco que perante qualquer pergunta complicada escolhia o silêncio do bolo rei. Qualquer debate difícil não estava presente, fosse na televisão, em campanhas, fosse no Parlamento, a governar. Era o Cavaco que perante a contestação de estudantes, trabalhadores, polícias ou utentes da ponte sobre o Tejo respondia com o cassetete. O primeiro Cavaco foi autoritário.
O segundo Cavaco alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme que conhecemos. O segundo Cavaco foi egoísta.
O terceiro Cavaco regressou vindo do silêncio. Concorreu de novo às presidenciais. Quase não falou na campanha. Passeou-se sempre protegido dos imprevistos. Porque Cavaco sabe que Cavaco é um bluff. Não tem pensamento político, tem apenas um repertório de frases feitas muito consensuais. Esse Cavaco paira sobre a política, como se a política não fosse o seu ofício de quase sempre. Porque tem nojo da política. Não do pior que ela tem: os amigos nos negócios, as redes de interesses, da demagogia vazia, os truques palacianos. Mas do mais nobre que ela representa: o confronto de ideias, a exposição à critica impiedosa, a coragem de correr riscos, a generosidade de pôr o cargo que ocupa acima dele próprio. Venceu, porque todos estes cavacos representam o nosso atraso. Cavaco é a metáfora viva da periferia cultural, económica e politica que somos na Europa. O terceiro Cavaco é vazio.
O quarto Cavaco foi Presidente. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que aquecia tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que nunca existiram a não ser na sua cabeça sempre cheia de paranóicas perseguições; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. O quarto Cavaco tem a mesma falta de coragem e a mesma ausência de capacidade de distinguir o que é prioritário de todos os outros.
Apesar de gostar de pensar em si próprio como um não político, todo ele é cálculo e todo o cálculo tem ele próprio como centro de interesse. Este foi o Cavaco que tentou passar para a imprensa a acusação de que andaria a ser vigiado pelo governo, coisa que numa democracia normal só poderia acabar numa investigação criminal ou numa acção política exemplar. Era falso, todos sabemos. Mas Cavaco fechou o assunto com uma comunicação ao País surrealista, onde tudo ficou baralhado para nada se perceber. Este foi o Cavaco que achou que não devia estar nas cerimónias fúnebres do único prémio Nobel da literatura porque tinha um velho diferendo com ele. Porque Cavaco nunca percebeu que os cargos que ocupa estão acima dele próprio e não são um assunto privado. Este foi o Cavaco que protegeu, até ao limite do imaginável, o seu velho amigo Dias Loureiro, chegando quase a transformar-se em seu porta-voz. Mais uma vez e como sempre, ele próprio acima da instituição que representa. O quarto Cavaco não é um estadista.
E agora cá está o quinto Cavaco. Quando chegou a crise começou a sua campanha. Como sempre, nunca assumida. Até o anúncio da sua candidatura foi feito por interposta pessoa. Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, quase todos contrários aos que praticou quando foi o primeiro Cavaco. Finge que modera enquanto se dedica a minar o caminho do líder que o seu próprio partido, crime dos crimes, elegeu à sua revelia. Sobre a crise e as ruínas de um governo no qual ninguém acredita, espera garantir a sua reeleição. Mas o quinto Cavaco, ganhe ou perca, já não se livra de uma coisa: foi o Presidente da República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com um dos baixos índices de popularidade da nossa democracia e pode ser um dos que será reeleito com menor margem. O quinto Cavaco não tem chama.
Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.
O primeiro Cavaco foi primeiro-ministro. Esbanjou dinheiro como se não houvesse amanhã. Desperdiçou uma das maiores oportunidades de deste País no século passado. Escolheu e determinou um modelo de desenvolvimento que deixou obra mas não preparou a nossa economia para a produção e a exportação. O Cavaco dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas. O Cavaco do Dias Loureiro e do Oliveira e Costa num governo da Nação. Era também o Cavaco que perante qualquer pergunta complicada escolhia o silêncio do bolo rei. Qualquer debate difícil não estava presente, fosse na televisão, em campanhas, fosse no Parlamento, a governar. Era o Cavaco que perante a contestação de estudantes, trabalhadores, polícias ou utentes da ponte sobre o Tejo respondia com o cassetete. O primeiro Cavaco foi autoritário.
O segundo Cavaco alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme que conhecemos. O segundo Cavaco foi egoísta.
O terceiro Cavaco regressou vindo do silêncio. Concorreu de novo às presidenciais. Quase não falou na campanha. Passeou-se sempre protegido dos imprevistos. Porque Cavaco sabe que Cavaco é um bluff. Não tem pensamento político, tem apenas um repertório de frases feitas muito consensuais. Esse Cavaco paira sobre a política, como se a política não fosse o seu ofício de quase sempre. Porque tem nojo da política. Não do pior que ela tem: os amigos nos negócios, as redes de interesses, da demagogia vazia, os truques palacianos. Mas do mais nobre que ela representa: o confronto de ideias, a exposição à critica impiedosa, a coragem de correr riscos, a generosidade de pôr o cargo que ocupa acima dele próprio. Venceu, porque todos estes cavacos representam o nosso atraso. Cavaco é a metáfora viva da periferia cultural, económica e politica que somos na Europa. O terceiro Cavaco é vazio.
O quarto Cavaco foi Presidente. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que aquecia tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que nunca existiram a não ser na sua cabeça sempre cheia de paranóicas perseguições; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. O quarto Cavaco tem a mesma falta de coragem e a mesma ausência de capacidade de distinguir o que é prioritário de todos os outros.
Apesar de gostar de pensar em si próprio como um não político, todo ele é cálculo e todo o cálculo tem ele próprio como centro de interesse. Este foi o Cavaco que tentou passar para a imprensa a acusação de que andaria a ser vigiado pelo governo, coisa que numa democracia normal só poderia acabar numa investigação criminal ou numa acção política exemplar. Era falso, todos sabemos. Mas Cavaco fechou o assunto com uma comunicação ao País surrealista, onde tudo ficou baralhado para nada se perceber. Este foi o Cavaco que achou que não devia estar nas cerimónias fúnebres do único prémio Nobel da literatura porque tinha um velho diferendo com ele. Porque Cavaco nunca percebeu que os cargos que ocupa estão acima dele próprio e não são um assunto privado. Este foi o Cavaco que protegeu, até ao limite do imaginável, o seu velho amigo Dias Loureiro, chegando quase a transformar-se em seu porta-voz. Mais uma vez e como sempre, ele próprio acima da instituição que representa. O quarto Cavaco não é um estadista.
E agora cá está o quinto Cavaco. Quando chegou a crise começou a sua campanha. Como sempre, nunca assumida. Até o anúncio da sua candidatura foi feito por interposta pessoa. Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, quase todos contrários aos que praticou quando foi o primeiro Cavaco. Finge que modera enquanto se dedica a minar o caminho do líder que o seu próprio partido, crime dos crimes, elegeu à sua revelia. Sobre a crise e as ruínas de um governo no qual ninguém acredita, espera garantir a sua reeleição. Mas o quinto Cavaco, ganhe ou perca, já não se livra de uma coisa: foi o Presidente da República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com um dos baixos índices de popularidade da nossa democracia e pode ser um dos que será reeleito com menor margem. O quinto Cavaco não tem chama.
Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.
quarta-feira, novembro 03, 2010
sobre a manha e as ideias

Nunca foi pessoa de que eu gostasse, apoiasse ou aceitasse como amigo. Além disso, sempre que o via na televisão, um natural e instantâneo impulso me levava a desligá-la. Ainda hoje não sei porquê houve um período após a sua eleição como presidente, em que passei a suportá-lo, a quase acreditar que os meus anteriores juízos estavam errados. Um amigo meu que o conhece bem e desde sempre, alertava-me e dizia-me - ele sempre foi um manhoso! Os anos passaram e o desconforto voltou. Por isso, quando li estas sensatas palavras que Miguel Sousa Tavares escreveu no último Expresso, senti necessidade de aqui as colocar, por me parecerem uma boa análise e um bom aviso à navegação. Aqui ficam para quem as não tenha lido ainda. Recomendo ainda as que Alfredo Barroso escreveu no jornal i.
Mais cinco anos para quê?
Acho que raras vezes assisti a um discurso político tão vazio de ideias, tão pouco mobilizador e tão destituído de alguma forma de grandeza como aquele com que Cavaco Silva anunciou ao país o que o país já sabia desde sempre: que quer mais cinco anos em Belém. Se a ocasião era para explicar as razões dessa vontade, a única coisa que ficou clara foi o desejo pessoal de continuar onde está. Mas isso já eu sabia desde o dia inaugural de Cavaco Silva como Presidente, quando Rui Ochôa fez aquela inesquecível fotografia de toda a família Cavaco Silva subindo a rampa do palácio para tomar posse dele: era o instantâneo de uma ambição longamente perseguida e, enfim, satisfeita.
Não vem mal ao mundo que os políticos gostem de exercer o poder para que foram eleitos: piores são os que dizem que não gostam. Mas também deviam, por pudor democrático, explicar ao que vêm e porque hão-de os eleitores igualmente ficar contentes ou esperançados quando eles são eleitos. Quando Cavaco Silva diz que se candidata em nome do futuro e da esperança, convém parar para pensar no assunto. Nos últimos vinte e cinco anos, desde 1986, ele ocupou por quinze anos o cume do poder, apenas tendo de se submeter a um interregno de dez anos, esperando que Jorge Sampaio terminasse os seus dois mandatos - pois que, desde 1926, não há memória de Presidente algum ter deixado de cobiçar e obter tantos mandatos consecutivos quantos Salazar ou a Constituição de 76 lhes permitiram.
Nesses longos quinze anos de poder que já leva, Cavaco Silva passou dez como primeiro-ministro e dispôs de condições únicas e irrepetíveis: maiorias absolutas, paz social, dinheiros europeus a perder de vista. Não vou agora fazer o diagnóstico desses anos, limitando-me a recordar que, quando ele saiu, disse e escreveu que tinha feito todas as "reformas da década" e do futuro: da justiça, da educação, do fisco, da saúde, do financiamento da segurança social, da habitação, das Forças Armadas, das empresas públicas, da flexibilização do mercado de trabalho e das finanças públicas. Palavra de honra que é verdade: ele garantiu que tinha feito tudo isto. E, como bem sabemos, nada disso estava e está feito - e por isso é que chegámos à beira do precipício.
Nestes cinco anos que leva de mandato presidencial, Cavaco Silva recebeu um país com problemas sérios e entrega ao julgamento dos eleitores um país à beira da falência, e não apenas financeira: também económica, social, educacional, jurisdicional, moral. Ficou quieto e calado quando o primeiro governo de Sócrates (o único a que se pode chamar governo), teve de impor a sua reforma do financiamento da Segurança Social aos sindicatos (a única reforma de Sócrates conseguida); falhou com a solidariedade devida quando Sócrates tentou tímidos passos, logo derrotados, para um princípio de reformas no ensino, na saúde ou na justiça. Quando Cavaco tomou posse, a justiça, por exemplo, era governada pelas respectivas corporações de magistrados: hoje, é governada pelos sindicatos representativos delas e o procurador-geral da República, cuja nomeação pertence ao Presidente, compara-se a si próprio à rainha de Inglaterra e é enxovalhado publicamente pelos subordinados que é-suposto dirigir. Alguém escutou alguma palavra sobre isso a Cavaco Silva?
Invoca a sua autoridade de professor de Finanças para dominar bem esses assuntos, mas de que serviu ao país, nestes cinco anos, o seu doutoramento acerca das consequências da dívida pública? Diz que avisou o país e é mais ou menos verdade. Mas fê-lo muito depois de muita outra gente, demasiado tarde e sem coragem para dizer o que era necessário ser dito. Ficou igualmente calado quando viu o Governo enfiar-se no buraco do BPN (onde estavam tantos amigos seus) - e que já custou ao país, até agora, exactamente o mesmo que vamos ter de cortar no défice para o ano que vem; falou elipticamente sobre o desvario dos TGV, pontes, aeroportos e auto-estradas para ninguém, mas não dei por que se preocupasse em nada com a conta acumulada do desastre das parcerias público-privadas, onerando as finanças públicas das gerações que se seguem; deixou que o Governo escondesse a dimensão da derrapagem das contas de 2009 para não perder as eleições e agora, para não perturbar a sua própria campanha eleitoral, ficou calado e quieto até isso se tornar insustentável aos olhos de todos, na esperança de que Passos Coelho acabasse por lhe fazer o favor de aprovar o orçamento - um qualquer, que lhe permita entrar em campanha tranquilamente. Infelizmente, desde o primeiro dia até hoje, a mim, pelo menos, Cavaco Silva deixou-me sempre a sensação de estar a trabalhar diariamente para a reeleição. Exemplo extremo disso foi a lei do casamento homossexual, que ele promulgou para conquistar votos à esquerda, não se importando, para tal, de trair o seu eleitorado, as suas próprias ideias e até o sentido político da eleição do Presidente por sufrágio universal. E eu, que até defendi a lei, fiquei estarrecido com o despudor da pífia justificação que deu para a promulgar - um texto que devia ser estudado nas escolas, como exemplo de tudo aquilo que a política não deve ser.
Disse agora o candidato Cavaco Silva que só após "profunda reflexão" é que decidiu recandidatar-se. Todos sabemos que não é verdade e a prova disso é que ele nem se deu ao trabalho de adiantar uma só razão capaz de levar as pessoas a acreditar que os seus próximos cinco anos serão diferentes dos cinco anos passados. Diz que, depois da "magistratura de influência", vai ter uma "activa" (coisa que não se percebe o que seja ao certo, mas que parece fácil de anunciar agora). Escutando o seu discurso com muita atenção, cheguei à.conclusão de que, segundo o próprio, só há duas razões para Cavaco pedir e justificar um segundo mandato: a primeira é porque, ao contrário do que eu sempre imaginei, o cargo é "particularmente exigente"; e a segunda, é porque ele é um homem notável.
O cargo é particularmente exigente, por exemplo, porque já lhe exigiu visitar 200 concelhos; porque o obriga a "uma grande capacidade para acompanhar os assuntos complexos das F A (para os quais jura estar bem preparado pela tropa feita em Moçambique, há cinquenta anos); porque tem de analisar e assinar os diplomas do Governo, "uma tarefa de grande responsabilidade, que exige um conhecimento profundo dos assuntos e uma grande disponibilidade de trabalho" (os tais jipes de diplomas que ele se queixa de ter de levar para férias); porque é preciso, como ele, "conhecer muito bem a situação económica" e ser, como ele, "uma personalidade respeitável e credível".
E quem, se não ele, poderia hoje estar em condições de assumir tão difícil tarefa? Quem, como ele, tem tão grande "visão de futuro", tão "elevado grau de exigência ética", quem é "tão avesso a intrigas políticas e partidárias", quem tem igual "honestidade, rectidão, e respeito à palavra dada", quem não permitiria, como ele, que "a função presidencial seja instrumentalizada por quem quer que seja" (e a inventona das escutas de S. Bento a Belém, congeminada entre o seu assessor de imprensa e o "Público"?)?
O seu grande trunfo eleitoral são, pois, os auto-elogios que tão generosamente dedicou a si próprio. Nada mais: não teve uma palavra sobre o país, sobre os tempos que se vivem, sobre o que terá de ser feito e o que não pode continuar a fazer-se. Não expôs uma ideia, um pensamento, um simples desejo político - aos costumes disse absolutamente nada. É nisto, então, que temos de acreditar: que o cargo é terrível, mas, felizmente, o homem ao leme é excepcional. Assim como temos de acreditar que, embora tudo tenha andado para trás e com a sua bênção, as coisas estariam bem piores não fossem a sua (mal aproveitada) "magistratura de influência" e os seus "discretos esforços" - tão discretos que ninguém deu por eles.
O problema com o candidato Cavaco Silva é que ele nem sequer pode, no limite, usar o argumento do candidato Tiririca, no Brasil: "vote em mim, pior do que está não fica". É que estamos bem piores agora do que estávamos há cinco anos. E, por isso, não podendo vangloriar-se do passado, ele anuncia-se candidato "em nome do futuro". Agora, ele vai ser "activo". Mas, agora, como escreveu Cesare Pavese, talvez estejamos já mortos e não o saibamos.
Não vem mal ao mundo que os políticos gostem de exercer o poder para que foram eleitos: piores são os que dizem que não gostam. Mas também deviam, por pudor democrático, explicar ao que vêm e porque hão-de os eleitores igualmente ficar contentes ou esperançados quando eles são eleitos. Quando Cavaco Silva diz que se candidata em nome do futuro e da esperança, convém parar para pensar no assunto. Nos últimos vinte e cinco anos, desde 1986, ele ocupou por quinze anos o cume do poder, apenas tendo de se submeter a um interregno de dez anos, esperando que Jorge Sampaio terminasse os seus dois mandatos - pois que, desde 1926, não há memória de Presidente algum ter deixado de cobiçar e obter tantos mandatos consecutivos quantos Salazar ou a Constituição de 76 lhes permitiram.
Nesses longos quinze anos de poder que já leva, Cavaco Silva passou dez como primeiro-ministro e dispôs de condições únicas e irrepetíveis: maiorias absolutas, paz social, dinheiros europeus a perder de vista. Não vou agora fazer o diagnóstico desses anos, limitando-me a recordar que, quando ele saiu, disse e escreveu que tinha feito todas as "reformas da década" e do futuro: da justiça, da educação, do fisco, da saúde, do financiamento da segurança social, da habitação, das Forças Armadas, das empresas públicas, da flexibilização do mercado de trabalho e das finanças públicas. Palavra de honra que é verdade: ele garantiu que tinha feito tudo isto. E, como bem sabemos, nada disso estava e está feito - e por isso é que chegámos à beira do precipício.
Nestes cinco anos que leva de mandato presidencial, Cavaco Silva recebeu um país com problemas sérios e entrega ao julgamento dos eleitores um país à beira da falência, e não apenas financeira: também económica, social, educacional, jurisdicional, moral. Ficou quieto e calado quando o primeiro governo de Sócrates (o único a que se pode chamar governo), teve de impor a sua reforma do financiamento da Segurança Social aos sindicatos (a única reforma de Sócrates conseguida); falhou com a solidariedade devida quando Sócrates tentou tímidos passos, logo derrotados, para um princípio de reformas no ensino, na saúde ou na justiça. Quando Cavaco tomou posse, a justiça, por exemplo, era governada pelas respectivas corporações de magistrados: hoje, é governada pelos sindicatos representativos delas e o procurador-geral da República, cuja nomeação pertence ao Presidente, compara-se a si próprio à rainha de Inglaterra e é enxovalhado publicamente pelos subordinados que é-suposto dirigir. Alguém escutou alguma palavra sobre isso a Cavaco Silva?
Invoca a sua autoridade de professor de Finanças para dominar bem esses assuntos, mas de que serviu ao país, nestes cinco anos, o seu doutoramento acerca das consequências da dívida pública? Diz que avisou o país e é mais ou menos verdade. Mas fê-lo muito depois de muita outra gente, demasiado tarde e sem coragem para dizer o que era necessário ser dito. Ficou igualmente calado quando viu o Governo enfiar-se no buraco do BPN (onde estavam tantos amigos seus) - e que já custou ao país, até agora, exactamente o mesmo que vamos ter de cortar no défice para o ano que vem; falou elipticamente sobre o desvario dos TGV, pontes, aeroportos e auto-estradas para ninguém, mas não dei por que se preocupasse em nada com a conta acumulada do desastre das parcerias público-privadas, onerando as finanças públicas das gerações que se seguem; deixou que o Governo escondesse a dimensão da derrapagem das contas de 2009 para não perder as eleições e agora, para não perturbar a sua própria campanha eleitoral, ficou calado e quieto até isso se tornar insustentável aos olhos de todos, na esperança de que Passos Coelho acabasse por lhe fazer o favor de aprovar o orçamento - um qualquer, que lhe permita entrar em campanha tranquilamente. Infelizmente, desde o primeiro dia até hoje, a mim, pelo menos, Cavaco Silva deixou-me sempre a sensação de estar a trabalhar diariamente para a reeleição. Exemplo extremo disso foi a lei do casamento homossexual, que ele promulgou para conquistar votos à esquerda, não se importando, para tal, de trair o seu eleitorado, as suas próprias ideias e até o sentido político da eleição do Presidente por sufrágio universal. E eu, que até defendi a lei, fiquei estarrecido com o despudor da pífia justificação que deu para a promulgar - um texto que devia ser estudado nas escolas, como exemplo de tudo aquilo que a política não deve ser.
Disse agora o candidato Cavaco Silva que só após "profunda reflexão" é que decidiu recandidatar-se. Todos sabemos que não é verdade e a prova disso é que ele nem se deu ao trabalho de adiantar uma só razão capaz de levar as pessoas a acreditar que os seus próximos cinco anos serão diferentes dos cinco anos passados. Diz que, depois da "magistratura de influência", vai ter uma "activa" (coisa que não se percebe o que seja ao certo, mas que parece fácil de anunciar agora). Escutando o seu discurso com muita atenção, cheguei à.conclusão de que, segundo o próprio, só há duas razões para Cavaco pedir e justificar um segundo mandato: a primeira é porque, ao contrário do que eu sempre imaginei, o cargo é "particularmente exigente"; e a segunda, é porque ele é um homem notável.
O cargo é particularmente exigente, por exemplo, porque já lhe exigiu visitar 200 concelhos; porque o obriga a "uma grande capacidade para acompanhar os assuntos complexos das F A (para os quais jura estar bem preparado pela tropa feita em Moçambique, há cinquenta anos); porque tem de analisar e assinar os diplomas do Governo, "uma tarefa de grande responsabilidade, que exige um conhecimento profundo dos assuntos e uma grande disponibilidade de trabalho" (os tais jipes de diplomas que ele se queixa de ter de levar para férias); porque é preciso, como ele, "conhecer muito bem a situação económica" e ser, como ele, "uma personalidade respeitável e credível".
E quem, se não ele, poderia hoje estar em condições de assumir tão difícil tarefa? Quem, como ele, tem tão grande "visão de futuro", tão "elevado grau de exigência ética", quem é "tão avesso a intrigas políticas e partidárias", quem tem igual "honestidade, rectidão, e respeito à palavra dada", quem não permitiria, como ele, que "a função presidencial seja instrumentalizada por quem quer que seja" (e a inventona das escutas de S. Bento a Belém, congeminada entre o seu assessor de imprensa e o "Público"?)?
O seu grande trunfo eleitoral são, pois, os auto-elogios que tão generosamente dedicou a si próprio. Nada mais: não teve uma palavra sobre o país, sobre os tempos que se vivem, sobre o que terá de ser feito e o que não pode continuar a fazer-se. Não expôs uma ideia, um pensamento, um simples desejo político - aos costumes disse absolutamente nada. É nisto, então, que temos de acreditar: que o cargo é terrível, mas, felizmente, o homem ao leme é excepcional. Assim como temos de acreditar que, embora tudo tenha andado para trás e com a sua bênção, as coisas estariam bem piores não fossem a sua (mal aproveitada) "magistratura de influência" e os seus "discretos esforços" - tão discretos que ninguém deu por eles.
O problema com o candidato Cavaco Silva é que ele nem sequer pode, no limite, usar o argumento do candidato Tiririca, no Brasil: "vote em mim, pior do que está não fica". É que estamos bem piores agora do que estávamos há cinco anos. E, por isso, não podendo vangloriar-se do passado, ele anuncia-se candidato "em nome do futuro". Agora, ele vai ser "activo". Mas, agora, como escreveu Cesare Pavese, talvez estejamos já mortos e não o saibamos.
segunda-feira, novembro 01, 2010
tom and jerry in concert
Dá gosto ver algo que nos divertiu há 63 anos e continua a divertir e a maravilhar-nos hoje. Para que isso possa suceder é preciso génio, trabalho e imaginação, exactamente o que não faltava então ao produtor Fred Quimby, ao músico Scott Bradley e à capacidade imaginativa e técnica dos animadores Kenneth Muse, Ed Barge e Irven Spence que em 26 de Abril de 1946 assinaram a realização deste Tom e Jerry, que mereceu nesse ano o prémio da Academia em Cartoons.
Não perca este magnífico vídeo, tenha a idade que tiver. Há coisas que são eternas.
Não perca este magnífico vídeo, tenha a idade que tiver. Há coisas que são eternas.
sexta-feira, outubro 29, 2010
a vida literária

Um artigo recente de António Guerreiro na sua coluna «Ao pé da letra» na Atual de 16 de Outubro p.p., recordou-me uma reflexão bastante recente quando deparei, uma vez mais, com a palavra escritor antecedendo o meu nome, numa encomenda postal enviada pela APE. Perguntei-me então quando se é escritor? O que é preciso para o ser? Apenas ser sócio da APE? Parece-me pouco ou nada. Ter livros publicados? Já será alguma coisa, mas continuará a ser pouco. Ser conhecido e admirado pelos leitores? Será bastante ou tudo, consoante a qualidade dos leitores. Ser aceite pela crítica? Será nada ou quase tudo, consoante quem sejam os críticos. Ser o próprio a considerar-se ou a julgar-se escritor? Será nada, pouco ou bastante consoante for o homem que escreve e agora se julga. Quem o pode julgar, em verdade? Com o tamanho de alguns egos que por aí andam, até se poderá pensar que será essa a medida para aferir a qualidade do escritor. Com o poder do marketing e dos lobbies, não sei se se poderá concluir que o escritor merece esse nome quando é publicitado e louvado aos quatro ventos, se apenas se pode ter a certeza de que vai vender muito, mas não podendo garantir-se que vai ser lido. O texto de António Guerreiro pareceu-me ser certeiro na análise que faz a partir da revista «Ler» e ao apontar a Etologia como ciência necessária para estudar e procurar entender a vida de muitos «contentinhos» que por aí andam, egos inchados, cheios de si, dando-se bem com a vida que alguns fazedores de opinião ou vendedores de produtos, lhes proporcionaram.
Leiam António Guerreiro e pensem.
CVR
A literatura, que na época do romantismo fez da crítica o seu conceito imanente e, com a sociedade de massas, se tornou objeto da sociologia, entrou na fase em que reclama uma etologia. Em rigor, a etologia nada tem a dizer sobre a literatura, mas é a ciência mais competente para falar sobre
aquilo em que esta se dissolve: a vida literária. Entende-se por vida literária o código de comportamentos que rodeiam a instituição literária. A utopia de uma vida literária plena, encontramo-la na revista "Ler". Até um etólogo de fraco saber percebe, mal começa a folheá-la, que entrou numa reserva de vida especial. Não é que esta vida não habite nas páginas literárias dos jornais. Mas na revista "Ler" todos os álibis foram abandonados e o resultado é uma concentração de vida literária, um encontro jubilante de escritores, editores, críticos, divulgadores, leitores: a grande entrevista que eleva o entrevistado ao Olimpo do Grande-Escritor; as rubricas de fait-divers e de brincadeiras inocentes; as notícias e as listas dos livros a sair (a vida literária tem, por definição, uma tensão prospetiva, declina-se sob a forma do que aí vem); o top dos livros mais vendidos nos países a que o leitor cosmopolita não pode deixar de estar atento; a prodigiosa proliferação (dez, ao todo) de crónicas - o bem mais partilhado neste mundo de sonho. Tudo alimentado por um fervoroso amor aos livros, até às suas entranhas materiais. A vida barroca e flamejante deste jardim, que é o melhor dos mundos possíveis, tem a sua expressão na eloquência patética de um Candide sem ironia: "O que faz falta na crítica literária portuguesa é a análise superficial (Jorge Reis-Sá). Só nesta coutada protegida de vida literária, onde reina uma harmonia pré-estabelecida, "um devorador de livros açoriano", anunciado na capa, não é uma séria ameaça a um escritor que, logo abaixo, ousa dizer em voz alta: "O Livro sou eu."
Leiam António Guerreiro e pensem.
CVR
A literatura, que na época do romantismo fez da crítica o seu conceito imanente e, com a sociedade de massas, se tornou objeto da sociologia, entrou na fase em que reclama uma etologia. Em rigor, a etologia nada tem a dizer sobre a literatura, mas é a ciência mais competente para falar sobre
aquilo em que esta se dissolve: a vida literária. Entende-se por vida literária o código de comportamentos que rodeiam a instituição literária. A utopia de uma vida literária plena, encontramo-la na revista "Ler". Até um etólogo de fraco saber percebe, mal começa a folheá-la, que entrou numa reserva de vida especial. Não é que esta vida não habite nas páginas literárias dos jornais. Mas na revista "Ler" todos os álibis foram abandonados e o resultado é uma concentração de vida literária, um encontro jubilante de escritores, editores, críticos, divulgadores, leitores: a grande entrevista que eleva o entrevistado ao Olimpo do Grande-Escritor; as rubricas de fait-divers e de brincadeiras inocentes; as notícias e as listas dos livros a sair (a vida literária tem, por definição, uma tensão prospetiva, declina-se sob a forma do que aí vem); o top dos livros mais vendidos nos países a que o leitor cosmopolita não pode deixar de estar atento; a prodigiosa proliferação (dez, ao todo) de crónicas - o bem mais partilhado neste mundo de sonho. Tudo alimentado por um fervoroso amor aos livros, até às suas entranhas materiais. A vida barroca e flamejante deste jardim, que é o melhor dos mundos possíveis, tem a sua expressão na eloquência patética de um Candide sem ironia: "O que faz falta na crítica literária portuguesa é a análise superficial (Jorge Reis-Sá). Só nesta coutada protegida de vida literária, onde reina uma harmonia pré-estabelecida, "um devorador de livros açoriano", anunciado na capa, não é uma séria ameaça a um escritor que, logo abaixo, ousa dizer em voz alta: "O Livro sou eu."
segunda-feira, outubro 25, 2010
um filósofo e comunicador
Mário Sérgio Cortella é um comunicador nato. É professor titular do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e da pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor-convidado da Fundação Dom Cabral. Antes de tudo um filósofo que sabe comunicar e dar a conhecer a beleza da filosofia. Autor de vários livros de que destaco «Não espere pelo epitáfio - provocações filosóficas» e «Nos Labirintos da Moral», autor do programa televisivo «Diálogos Impertinentes» e uma curta participação política como Secretário Municipal da Educação de S. Paulo na década de 90.
No vídeo que vos deixo ele fala sobre Ética, no programa de Jô Soares. Vale a pena ouvi-lo.
No vídeo que vos deixo ele fala sobre Ética, no programa de Jô Soares. Vale a pena ouvi-lo.
ética e moral, na perspectiva de um médico e aprendiz de filósofo
Num mundo em que os princípios morais têm sido postos frequentemente em dúvida, sendo diferentes de sociedade para sociedade, de religião para religião, mesmo de indivíduo para indivíduo, a Moral, como um todo, acabou por deixar de governar ou orientar o cidadão.
Isso levou a que as sociedades procurassem, através de leis civis, colmatar essas alterações, porque continua a ser indispensável haver directrizes.
Mas há leis morais que não podem ser substituídas por leis civis. Então, grupos de várias naturezas (social, profissional, etária, ideológica), têm procurado encontrar uma via intermédia que dê solução ao vazio provocado pela perda de, e da, força da Moral. É assim que se refugiam na Ética.
Hoje em dia, é raro ouvir falar-se em Moral, a menos que seja para afirmar que cada vez há menos e, em contrapartida, raro é o dia em que não ouvimos nos media, umas dúzias de vezes, a Ética ser invocada.
Analisemos o que são uma e outra?
A palavra Moral vem do latim Mores e a palavra Ética vem do grego Etikon e ambas significam Costumes.
A palavra Deontologia (vem de Deontos – o Dever) constitui um ramo da Ética, podendo definir-se como a ética profissional.
Há quem afirme que a Ética é a ciência da Moral. Outros entendem que a Ética é a Moral aplicada.
A Moral vive da noção do bem e do mal que são noções de carácter moral, filosóficas.
Por isso os filósofos foram tratando destes assuntos ao longo dos tempos.
Sócrates atendia ao conteúdo do bem moral. Era uma Ética do bem.
Platão optou por uma Ética de fins. Se estes são bons, também o são a intenção, o saber e o poder.
Aristóteles colocou o bem moral, como actuação perfeita do homem, o que lhe permitirá, usando a inteligência prática ou prudência, situar a virtude em rigorosa equidistância.
Para os epicuristas a Ética não seria o estudo de um bem objectivo em si.
Os estóicos acentuaram uma Ética do dever e do ser.
O cristianismo deu lugar à Ética cristã, ontológica e teleológica, por isso o bem ético encontra-se inserido na consecução dos próprios fins da natureza e da sua obra, nas virtudes específicas e no valor de cada ser.
A partir de Kant, a Ética ficou independente das ideias religiosas e transformou-se numa ética do dever, da determinação da verdade.
A revolução industrial ou social teve reflexos importantes no relacionamento entre as pessoas e portanto na Ética. Criou-se a Ética da era industrial.
No que respeita à matéria médica, a ética do médico disponível, cheio de bondade, sempre pronto a sacrificar o seu descanso pelos doentes, muitas vezes sem qualquer paga, deu origem a uma nova Ética: a do profissional de saúde. Onde se apreciavam qualidades morais, avaliam-se agora também qualidades técnicas.
As correntes da Ética e da Moral evoluíram sempre paralelamente às escolas filosóficas.
A Moral é a ciência do comportamento espontâneo, porque estuda o comportamento adquirido durante a formação do indivíduo, nas fases mais precoces da sua vida, intrínseco, quase interiorizado, como tal espontâneo, constituindo a consciência de cada um.
A Ética é a ciência do comportamento elaborado, interessado no comportamento perante as novidades, as tecnologias avançadas; resulta de conceitos muito discutidos, constituindo por fim um Código.
Com a evolução científica acelerada, maior divulgação e absorção mais precoce dos conhecimentos, muitos dos conceitos éticos transformaram-se em conceitos morais.
Tanto no que se refere à Moral como à Ética, importa definir não só o que deve ser, mas também o que não deve ser, o moral e o imoral, o ético e o anti-ético.
Muitos dos princípios considerados éticos nos séculos passados, deixaram hoje de o ser, porque a evolução da ciência e da tecnologia assim o têm exigido.
O Código Ético fica situado entre a Moral e a Ética. E só existe porque os homens não cumprem ou não aceitam os princípios morais.
Um certo número de elementos de carácter social ou pessoal, os conceitos científicos, tecnológicos, as noções morais ou para-morais, a luta entre o saber e o sentir, a importância da emotividade, as modas filosóficas, constituem factores determinantes no sentido ético do comportamento das sociedades.
Existem outros factores, mais estáticos, que têm a ver com as características dos povos, o seu modo de ser e estar que, por exemplo, separam os povos nórdicos dos mediterrânicos.
Ao longo dos séculos, a noção de Ética tem sofrido uma evolução permanente, o mesmo não se passando, de modo tão marcado, com a noção de Moral, porque esta se apoia na existência do Bem e do Mal. Por isso, a Moral é teoria, elaboração mental.
À Ética não interessa o que deve ser ou não deve ser porque se baseia nos factos, na ocorrência. A Ética depende do que ocorre, do que acontece, da novidade.
Nas últimas décadas a Ética passou a ser preocupação dos profissionais de várias áreas, mais do que dos próprios filósofos.
Um pouco por todos os lados, formam-se comissões, integradas por indivíduos que se esforçam em criar princípios éticos relacionados com as suas profissões, que por vezes são princípios de natureza moral, não de natureza ética; porque na sua maioria apontam o que deve ser ou o que não deve ser que, como se sabe, são princípios morais.
A Moral é individual, decide-se no próprio indivíduo, na sua consciência; a Ética é recíproca ou colectiva, um contracto com aceitação das partes.
A Moral é resultado de preceitos, a Ética resultado de confrontos de ideias. Enquanto o médico e o doente estão de acordo, não é exigida a intervenção da Ética.
A Moral propõe, aconselha, mas cada um decide por si; a Ética impõe, e uma vez estabelecida, é entendida como lei que não permite incumprimento.
A Moral diz como deve ser, a Ética diz o que tem de se fazer.
A Moral é ampla, a Ética restrita, porque se refere apenas a campos determinados da actividade humana.
A Moral baseia-se em princípios, a Ética em consequências. Quais as consequências da interrupção voluntária de gravidez, por exemplo.
A Moral é independente, a Ética é condicionada, pela lei geral do país, pela moral, pela deontologia, pelos condicionalismos da profissão e da tecnologia.
A Moral é abstracta, a Ética concreta, tem em mira uma aplicação concreta. Depende de uma prática e desligada desta deixa de ter consistência.
A Moral realiza-se numa Doutrina, a Ética num Código.
¬
Há mais de dois milénios que o Corpo Médico se rege, ou procura orientar-se, por verdades e princípios essenciais que, sendo a base indiscutível da sua independência e liberdade profissionais, constituem a trama e a estrutura da própria independência e liberdade dos doentes que se lhe entregam.
Independência e liberdade do doente, fundamento da liberdade e independência do médico e seu limite.
São elas, precisamente, a Independência e Liberdade, que transparecem e ressaltam nos Juramentos ou nas Preces que ecoam desde há séculos até aos nossos dias, como compromissos do Corpo Médico perante o doente, perante a sociedade, perante a moral e perante Deus.
Se analisarmos todos estes Juramentos e Declarações -
Código de Hamurabi, 1690 AC,
Juramento de Hipócrates, 400 AC,
Juramento Grego (Século IV ou V), de autor desconhecido,
Juramento Médico de Assaph, médico judeu do século VII,
Prece de Moisés Maimonide, século XII,
Juramento de Amato Lusitano, feito em Salónica, no ano do Mundo 5.319 (1559 da nossa era),
A Prece dos Médicos ou «Thephilat Herofim», de Jacob Zahalou, médico e rabino em Itália (1630-1693),
Juramento Médico de Montpellier, redigido por Lallunaut,
Juramento do Conselho da Ordem dos Médicos de França,
Juramento ou Declaração de Genebra, adoptada pela Assembleia Geral da Associação Médica Mundial em Genebra, Suíça, em Setembro de 1948, Juramento do Médico Hebreu, redigido pelo Prof. Halpern, de Jerusalém e pronunciado pela primeira vez em 12 de Maio de 1952, quando da entrega de diplomas aos primeiros diplomados do Estado de Israel,
Oração do Médico, de Sua Santidade o Papa Pio XII,
1.° Código Internacional de Ética Médica, adoptado pela 3.ªAssembleia Geral da Associação Médica Mundial, Inglaterra, Outubro de 1949,
Declaração de Helsínquia, Recomendações para orientação dos médicos em investigação clínica (Adoptada pela 18.ª Assembleia Médica Mundial, Helsínquia, Finlândia, 1964),
veremos que, embora com o desajuste do tempo, não há grandes alterações nos princípios consignados. Muda a forma de os enunciar e a marca de cada período.
Hoje, com o desenvolvimento imparável da medicina, as alterações estão finalmente aí à espreita. Avanços científicos e tecnológicos, banalização das técnicas, modificação dos princípios sociais, influência de filósofos e pensadores, movimentos sociais, são base de fermentação de novos cozinhados éticos.
Ao longo dos últimos anos isso tem sido aparente com problemas como os transplantes, gravidez in vitro, interrupção voluntária de gravidez, eutanásia, doentes terminais, clonagem e por aí fora.
É de esperar que hoje em dia, com a evolução da medicina, nos apareça qualquer dia o dito «cuida de ti mesmo», integrando um código ético de saúde, dado que cuidar de si, será também responsabilidade de cada um.
Entretanto, a Ética deu lugar à Bioética e esta prepara-se para dar lugar à Saniética. Enquanto a primeira tem a ver com o relacionamento entre o homem e a vida, o relacionamento do homem com os elementos da biosfera, a Saniética aplica-se à ética da saúde.
E não será ainda aqui que as coisas vão parar ou abrandar, pois presumo que daqui em diante ainda iremos assistir à publicação anual dos Códigos Éticos e tal como na lei civil, o crime terá que ser analisado à luz do código do ano em que o crime foi cometido.
A menos que a Moral recupere do estado de doença em que caiu e termine o ciclo histórico da sua queda. Por aqui e por ali, começa a haver sinais de que se prepara um renascimento moral.
Assim seja.
CVR
Isso levou a que as sociedades procurassem, através de leis civis, colmatar essas alterações, porque continua a ser indispensável haver directrizes.
Mas há leis morais que não podem ser substituídas por leis civis. Então, grupos de várias naturezas (social, profissional, etária, ideológica), têm procurado encontrar uma via intermédia que dê solução ao vazio provocado pela perda de, e da, força da Moral. É assim que se refugiam na Ética.
Hoje em dia, é raro ouvir falar-se em Moral, a menos que seja para afirmar que cada vez há menos e, em contrapartida, raro é o dia em que não ouvimos nos media, umas dúzias de vezes, a Ética ser invocada.
Analisemos o que são uma e outra?
A palavra Moral vem do latim Mores e a palavra Ética vem do grego Etikon e ambas significam Costumes.
A palavra Deontologia (vem de Deontos – o Dever) constitui um ramo da Ética, podendo definir-se como a ética profissional.
Há quem afirme que a Ética é a ciência da Moral. Outros entendem que a Ética é a Moral aplicada.
A Moral vive da noção do bem e do mal que são noções de carácter moral, filosóficas.
Por isso os filósofos foram tratando destes assuntos ao longo dos tempos.
Sócrates atendia ao conteúdo do bem moral. Era uma Ética do bem.
Platão optou por uma Ética de fins. Se estes são bons, também o são a intenção, o saber e o poder.
Aristóteles colocou o bem moral, como actuação perfeita do homem, o que lhe permitirá, usando a inteligência prática ou prudência, situar a virtude em rigorosa equidistância.
Para os epicuristas a Ética não seria o estudo de um bem objectivo em si.
Os estóicos acentuaram uma Ética do dever e do ser.
O cristianismo deu lugar à Ética cristã, ontológica e teleológica, por isso o bem ético encontra-se inserido na consecução dos próprios fins da natureza e da sua obra, nas virtudes específicas e no valor de cada ser.
A partir de Kant, a Ética ficou independente das ideias religiosas e transformou-se numa ética do dever, da determinação da verdade.
A revolução industrial ou social teve reflexos importantes no relacionamento entre as pessoas e portanto na Ética. Criou-se a Ética da era industrial.
No que respeita à matéria médica, a ética do médico disponível, cheio de bondade, sempre pronto a sacrificar o seu descanso pelos doentes, muitas vezes sem qualquer paga, deu origem a uma nova Ética: a do profissional de saúde. Onde se apreciavam qualidades morais, avaliam-se agora também qualidades técnicas.
As correntes da Ética e da Moral evoluíram sempre paralelamente às escolas filosóficas.
A Moral é a ciência do comportamento espontâneo, porque estuda o comportamento adquirido durante a formação do indivíduo, nas fases mais precoces da sua vida, intrínseco, quase interiorizado, como tal espontâneo, constituindo a consciência de cada um.
A Ética é a ciência do comportamento elaborado, interessado no comportamento perante as novidades, as tecnologias avançadas; resulta de conceitos muito discutidos, constituindo por fim um Código.
Com a evolução científica acelerada, maior divulgação e absorção mais precoce dos conhecimentos, muitos dos conceitos éticos transformaram-se em conceitos morais.
Tanto no que se refere à Moral como à Ética, importa definir não só o que deve ser, mas também o que não deve ser, o moral e o imoral, o ético e o anti-ético.
Muitos dos princípios considerados éticos nos séculos passados, deixaram hoje de o ser, porque a evolução da ciência e da tecnologia assim o têm exigido.
O Código Ético fica situado entre a Moral e a Ética. E só existe porque os homens não cumprem ou não aceitam os princípios morais.
Um certo número de elementos de carácter social ou pessoal, os conceitos científicos, tecnológicos, as noções morais ou para-morais, a luta entre o saber e o sentir, a importância da emotividade, as modas filosóficas, constituem factores determinantes no sentido ético do comportamento das sociedades.
Existem outros factores, mais estáticos, que têm a ver com as características dos povos, o seu modo de ser e estar que, por exemplo, separam os povos nórdicos dos mediterrânicos.
Ao longo dos séculos, a noção de Ética tem sofrido uma evolução permanente, o mesmo não se passando, de modo tão marcado, com a noção de Moral, porque esta se apoia na existência do Bem e do Mal. Por isso, a Moral é teoria, elaboração mental.
À Ética não interessa o que deve ser ou não deve ser porque se baseia nos factos, na ocorrência. A Ética depende do que ocorre, do que acontece, da novidade.
Nas últimas décadas a Ética passou a ser preocupação dos profissionais de várias áreas, mais do que dos próprios filósofos.
Um pouco por todos os lados, formam-se comissões, integradas por indivíduos que se esforçam em criar princípios éticos relacionados com as suas profissões, que por vezes são princípios de natureza moral, não de natureza ética; porque na sua maioria apontam o que deve ser ou o que não deve ser que, como se sabe, são princípios morais.
A Moral é individual, decide-se no próprio indivíduo, na sua consciência; a Ética é recíproca ou colectiva, um contracto com aceitação das partes.
A Moral é resultado de preceitos, a Ética resultado de confrontos de ideias. Enquanto o médico e o doente estão de acordo, não é exigida a intervenção da Ética.
A Moral propõe, aconselha, mas cada um decide por si; a Ética impõe, e uma vez estabelecida, é entendida como lei que não permite incumprimento.
A Moral diz como deve ser, a Ética diz o que tem de se fazer.
A Moral é ampla, a Ética restrita, porque se refere apenas a campos determinados da actividade humana.
A Moral baseia-se em princípios, a Ética em consequências. Quais as consequências da interrupção voluntária de gravidez, por exemplo.
A Moral é independente, a Ética é condicionada, pela lei geral do país, pela moral, pela deontologia, pelos condicionalismos da profissão e da tecnologia.
A Moral é abstracta, a Ética concreta, tem em mira uma aplicação concreta. Depende de uma prática e desligada desta deixa de ter consistência.
A Moral realiza-se numa Doutrina, a Ética num Código.
¬
Há mais de dois milénios que o Corpo Médico se rege, ou procura orientar-se, por verdades e princípios essenciais que, sendo a base indiscutível da sua independência e liberdade profissionais, constituem a trama e a estrutura da própria independência e liberdade dos doentes que se lhe entregam.
Independência e liberdade do doente, fundamento da liberdade e independência do médico e seu limite.
São elas, precisamente, a Independência e Liberdade, que transparecem e ressaltam nos Juramentos ou nas Preces que ecoam desde há séculos até aos nossos dias, como compromissos do Corpo Médico perante o doente, perante a sociedade, perante a moral e perante Deus.
Se analisarmos todos estes Juramentos e Declarações -
Código de Hamurabi, 1690 AC,
Juramento de Hipócrates, 400 AC,
Juramento Grego (Século IV ou V), de autor desconhecido,
Juramento Médico de Assaph, médico judeu do século VII,
Prece de Moisés Maimonide, século XII,
Juramento de Amato Lusitano, feito em Salónica, no ano do Mundo 5.319 (1559 da nossa era),
A Prece dos Médicos ou «Thephilat Herofim», de Jacob Zahalou, médico e rabino em Itália (1630-1693),
Juramento Médico de Montpellier, redigido por Lallunaut,
Juramento do Conselho da Ordem dos Médicos de França,
Juramento ou Declaração de Genebra, adoptada pela Assembleia Geral da Associação Médica Mundial em Genebra, Suíça, em Setembro de 1948, Juramento do Médico Hebreu, redigido pelo Prof. Halpern, de Jerusalém e pronunciado pela primeira vez em 12 de Maio de 1952, quando da entrega de diplomas aos primeiros diplomados do Estado de Israel,
Oração do Médico, de Sua Santidade o Papa Pio XII,
1.° Código Internacional de Ética Médica, adoptado pela 3.ªAssembleia Geral da Associação Médica Mundial, Inglaterra, Outubro de 1949,
Declaração de Helsínquia, Recomendações para orientação dos médicos em investigação clínica (Adoptada pela 18.ª Assembleia Médica Mundial, Helsínquia, Finlândia, 1964),
veremos que, embora com o desajuste do tempo, não há grandes alterações nos princípios consignados. Muda a forma de os enunciar e a marca de cada período.
Hoje, com o desenvolvimento imparável da medicina, as alterações estão finalmente aí à espreita. Avanços científicos e tecnológicos, banalização das técnicas, modificação dos princípios sociais, influência de filósofos e pensadores, movimentos sociais, são base de fermentação de novos cozinhados éticos.
Ao longo dos últimos anos isso tem sido aparente com problemas como os transplantes, gravidez in vitro, interrupção voluntária de gravidez, eutanásia, doentes terminais, clonagem e por aí fora.
É de esperar que hoje em dia, com a evolução da medicina, nos apareça qualquer dia o dito «cuida de ti mesmo», integrando um código ético de saúde, dado que cuidar de si, será também responsabilidade de cada um.
Entretanto, a Ética deu lugar à Bioética e esta prepara-se para dar lugar à Saniética. Enquanto a primeira tem a ver com o relacionamento entre o homem e a vida, o relacionamento do homem com os elementos da biosfera, a Saniética aplica-se à ética da saúde.
E não será ainda aqui que as coisas vão parar ou abrandar, pois presumo que daqui em diante ainda iremos assistir à publicação anual dos Códigos Éticos e tal como na lei civil, o crime terá que ser analisado à luz do código do ano em que o crime foi cometido.
A menos que a Moral recupere do estado de doença em que caiu e termine o ciclo histórico da sua queda. Por aqui e por ali, começa a haver sinais de que se prepara um renascimento moral.
Assim seja.
CVR
sábado, outubro 23, 2010
o lucro
«The Corporation» é um longo documentário dirigido e produzido por Mark Achbar e Jennifer Abbott, baseado na adaptação do livro de Joel Bakan «The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power», onde o autor analisa a fundo o poder das grandes empresas, desde que em 1886, um juiz decidiu que as corporações poderiam considerar-se como indivíduos. Consequência deste despacho faz com que, apesar das posições individuais de seus fundadores e mesmo após a morte destes, uma corporação continue a sua existência, operando como um "organismo" autónomo em busca de um objectivo bastante específico - o lucro.
Apesar da sua extensão, necessária para bem documentar e defender a tese em discussão, este filme merece a nossa atenção, não porque nos traga algo que desconhecíamos, mas antes por nos mostrar claramente as várias ligações e a trama universal de tudo isto.
Apesar da sua extensão, necessária para bem documentar e defender a tese em discussão, este filme merece a nossa atenção, não porque nos traga algo que desconhecíamos, mas antes por nos mostrar claramente as várias ligações e a trama universal de tudo isto.
sexta-feira, outubro 15, 2010
quinta-feira, outubro 14, 2010
uma verdade difícil de engolir

Desde os últimos tempos do Expresso e depois no Sol, são inúmeras as vezes que não tenho concordado com as opiniões de José António Saraiva. Mas neste seu texto que intitulou Crise Nacional, concordo com tudo que ali escreveu. É um texto bastante realista, embora quase fúnebre, derrotista, mas verdadeiro. Sabemos que irá ser assim, mas recusa-mo-nos a acreditar. Talvez seja melhor que não deixemos de pensar nisso e acautelemos o nosso futuro e o do país. E por assim pensar aqui o transcrevo para conhecimento de quem o não tenha lido.
Crise nacional
Creio que a maioria das pessoas ainda não percebeu bem esta crise – e os economistas não estão a saber explicá-la com clareza. É verdade, como se tem dito, que há uma ‘crise nacional’ e uma ‘crise internacional’. Mas, depois desta evidência, a confusão que por aí vai é enorme.
Comecemos pela crise portuguesa.
Trata-se de uma crise profundíssima, potenciada por três factos capitais: o fim do Império, a passagem da ditadura à democracia e a entrada na União Europeia. Tudo isso, que se pensava vir a ter um efeito benéfico na economia, produziu de facto consequências devastadoras. O fim do Império limitou-nos o espaço vital, cerceou-nos matérias-primas e mercados, diminuiu-nos política e psicologicamente. A passagem da ditadura à democracia (com o seu rosário de greves, nacionalizações, perseguições, saneamentos, reivindicações laborais insustentáveis, etc.) destruiu boa parte do nosso tecido económico.
A entrada na União Europeia e a abolição das fronteiras pôs-nos em confronto com economias muito mais avançadas, acabando de liquidar o que restava da nossa débil capacidade produtiva.
A crise internacional é de outra natureza.
Ela decorre da globalização e tem duas vertentes. Por um lado, os produtos feitos no Ocidente começam a não ter condições para competir a nível global com outros produzidos em países (China, Índia, Coreia, etc.) onde os salários e as regalias laborais são muitíssimo inferiores. Por outro lado, as empresas tendem a transferir cada vez mais as suas fábricas e serviços de Ocidente para Oriente – o que significa que no Ocidente vai aumentar o desemprego e no Oriente vai acentuar-se a procura de mão-de-obra. E, em consequência disso, no Ocidente baixarão os salários, acabarão muitas regalias sociais, numa palavra, será posto radicalmente em causa o tipo de vida que se fez nos últimos 50 anos. No Oriente, pelo contrário, os salários tenderão a subir e o nível de vida crescerá.
Assim, a crise que hoje se vive no Ocidente é de natureza diferente das anteriores.
Antes, eram crises de crescimento do capitalismo dentro da sua área geográfica; agora, a crise tem a ver com a globalização do capitalismo. Repare-se que grande parte do planeta, que até pouco vivia fora do sistema capitalista, aderiu à sociedade de mercado: basta pensar nas adesões quase simultâneas da Rússia e da China para se ter uma ideia do abrupto alargamento da área do capitalismo nos últimos anos. Os grandes grupos multinacionais, que antes estavam limitados a um determinado espaço territorial, hoje têm o planeta inteiro para instalar os seus centros de produção – podendo procurar os salários mais baixos, as melhores ofertas de mão-de-obra, as menores regalias dos trabalhadores.
O planeta tornou-se um sistema de vasos comunicantes – onde, para uns viverem melhor, outros vão ter de viver pior. Para certas regiões subirem o nível de vida, outras vão necessariamente perder privilégios.
Perante isto, perguntará o leitor: o que poderemos fazer para inverter o estado das coisas?
Basicamente, não há nada a fazer.
Os factores que potenciaram a crise nacional são irreversíveis – e a globalização não vai andar para trás.
Assim, vamos ter de nos adaptar à nova situação, o que significa de uma maneira simples trabalhar mais e ganhar menos. Os salários vão baixar (lenta ou abruptamente) entre 10 e 30%, os horários de trabalho vão aumentar (com a abolição total das horas extraordinárias), o 13.º e 14.º meses vão ficar em causa, a idade da reforma também vai ser ampliada (para perto dos 70 anos), o rendimento mínimo garantido vai regredir drasticamente, o subsídio de desemprego também vai diminuir, a acumulação de reformas vai ser limitadíssima. Muitas ‘conquistas dos trabalhadores’ na Europa, obtidas no pós-guerra, vão regredir. As leis laborais vão ter de ser flexibilizadas. O sistema de saúde não vai poder continuar a gastar o que tem gasto.
Preparem-se, porque não vale a pena protestar.
O que não tem remédio, remediado está.
Dizia há dias, com graça, Ernâni Lopes, a propósito do subsídio de férias: «Se dissessem a um americano: ‘Para o mês que vem não trabalhas e ganhas dois ordenados’, ele não acreditava».
Pois há muitos anos é esta a situação: não trabalhamos nas férias e recebemos o dobro.
Isto vai acabar.
Comecemos pela crise portuguesa.
Trata-se de uma crise profundíssima, potenciada por três factos capitais: o fim do Império, a passagem da ditadura à democracia e a entrada na União Europeia. Tudo isso, que se pensava vir a ter um efeito benéfico na economia, produziu de facto consequências devastadoras. O fim do Império limitou-nos o espaço vital, cerceou-nos matérias-primas e mercados, diminuiu-nos política e psicologicamente. A passagem da ditadura à democracia (com o seu rosário de greves, nacionalizações, perseguições, saneamentos, reivindicações laborais insustentáveis, etc.) destruiu boa parte do nosso tecido económico.
A entrada na União Europeia e a abolição das fronteiras pôs-nos em confronto com economias muito mais avançadas, acabando de liquidar o que restava da nossa débil capacidade produtiva.
A crise internacional é de outra natureza.
Ela decorre da globalização e tem duas vertentes. Por um lado, os produtos feitos no Ocidente começam a não ter condições para competir a nível global com outros produzidos em países (China, Índia, Coreia, etc.) onde os salários e as regalias laborais são muitíssimo inferiores. Por outro lado, as empresas tendem a transferir cada vez mais as suas fábricas e serviços de Ocidente para Oriente – o que significa que no Ocidente vai aumentar o desemprego e no Oriente vai acentuar-se a procura de mão-de-obra. E, em consequência disso, no Ocidente baixarão os salários, acabarão muitas regalias sociais, numa palavra, será posto radicalmente em causa o tipo de vida que se fez nos últimos 50 anos. No Oriente, pelo contrário, os salários tenderão a subir e o nível de vida crescerá.
Assim, a crise que hoje se vive no Ocidente é de natureza diferente das anteriores.
Antes, eram crises de crescimento do capitalismo dentro da sua área geográfica; agora, a crise tem a ver com a globalização do capitalismo. Repare-se que grande parte do planeta, que até pouco vivia fora do sistema capitalista, aderiu à sociedade de mercado: basta pensar nas adesões quase simultâneas da Rússia e da China para se ter uma ideia do abrupto alargamento da área do capitalismo nos últimos anos. Os grandes grupos multinacionais, que antes estavam limitados a um determinado espaço territorial, hoje têm o planeta inteiro para instalar os seus centros de produção – podendo procurar os salários mais baixos, as melhores ofertas de mão-de-obra, as menores regalias dos trabalhadores.
O planeta tornou-se um sistema de vasos comunicantes – onde, para uns viverem melhor, outros vão ter de viver pior. Para certas regiões subirem o nível de vida, outras vão necessariamente perder privilégios.
Perante isto, perguntará o leitor: o que poderemos fazer para inverter o estado das coisas?
Basicamente, não há nada a fazer.
Os factores que potenciaram a crise nacional são irreversíveis – e a globalização não vai andar para trás.
Assim, vamos ter de nos adaptar à nova situação, o que significa de uma maneira simples trabalhar mais e ganhar menos. Os salários vão baixar (lenta ou abruptamente) entre 10 e 30%, os horários de trabalho vão aumentar (com a abolição total das horas extraordinárias), o 13.º e 14.º meses vão ficar em causa, a idade da reforma também vai ser ampliada (para perto dos 70 anos), o rendimento mínimo garantido vai regredir drasticamente, o subsídio de desemprego também vai diminuir, a acumulação de reformas vai ser limitadíssima. Muitas ‘conquistas dos trabalhadores’ na Europa, obtidas no pós-guerra, vão regredir. As leis laborais vão ter de ser flexibilizadas. O sistema de saúde não vai poder continuar a gastar o que tem gasto.
Preparem-se, porque não vale a pena protestar.
O que não tem remédio, remediado está.
Dizia há dias, com graça, Ernâni Lopes, a propósito do subsídio de férias: «Se dissessem a um americano: ‘Para o mês que vem não trabalhas e ganhas dois ordenados’, ele não acreditava».
Pois há muitos anos é esta a situação: não trabalhamos nas férias e recebemos o dobro.
Isto vai acabar.
José António Saraiva
quarta-feira, outubro 13, 2010
quando os pássaros escrevem música
Jarbas Agnelli encantou-se com uma fotografia que mostrava pássaros poisados nos fios eléctricos em posições tais que configuravam uma autêntica partitura musical. Falando sobre isto com o fotógrafo Paulo Pinto do jornal Estado de S. Paulo, ou Estadão como todos lhe chamam, este enviou-lhe alguns dias depois a foto completa, o que permitiu juntar mais notas de um e outro lado. Então, passadas as posições dos pássaros a uma pauta musical, obteve-se uma música curta, mas surpreendente, melódica e profunda.
No vídeo que aqui deixo, Jarbas Agnelli conta esta história num dos Encontros TED de S. Paulo e uma orquestra interpreta a música obtida de forma tão natural e espontânea como deve ser o repouso dos pássaros.
No vídeo que aqui deixo, Jarbas Agnelli conta esta história num dos Encontros TED de S. Paulo e uma orquestra interpreta a música obtida de forma tão natural e espontânea como deve ser o repouso dos pássaros.
segunda-feira, outubro 11, 2010
res publica
Nesta época de crise que atravessamos aquilo que, eventualmente, antes dela não nos chamaria a atenção, para além da verificação da diferença, faz agora tocar em nós uma campainha de alarme e, quer queiramos quer não, deixa-nos a pensar sobre isso. E, naturalmente, após o espanto verificamos ter a obrigação de dar a conhecer essa diferença a todos que não a saibam e se venham a espantar, como nós. Vejam atentamente este vídeo e espantem-se. Se é que ainda alguma coisa é capaz de o fazer.
Conheçam como funciona o Parlamento da Suécia e tenham pena desse país tão pobre da Europa ...
Conheçam como funciona o Parlamento da Suécia e tenham pena desse país tão pobre da Europa ...
E, já agora, vejam o que se passa com os Deputados no Reino Unido e como tudo é tão diferente do caso português. Mas nós somos ricos ...
Os deputados no Reino Unido não têm lugar certo para sentar-se na Câmara dos Comuns; não têm escritórios, nem secretários, nem automóveis; não têm residência (pagam pela sua casa) e pagam por todas as suas despesas, normalmente,como todo e qualquer trabalhador; não têm passagens de avião gratuitas, salvo quando ao serviço do próprio Parlamento. E o seu salário equipara-se ao de um Chefe de Secção de qualquer repartição pública.
Em suma - são, realmente, servidores do povo.
Por cá é como se sabe e como alguns nem sabem. Não lhes parece estranho que os funcionários (não deputados) que trabalham na Assembleia tenham um subsídio equivalente a 80 % do seu vencimento? Porquê? Já viu os jornais falarem disto?
Os deputados no Reino Unido não têm lugar certo para sentar-se na Câmara dos Comuns; não têm escritórios, nem secretários, nem automóveis; não têm residência (pagam pela sua casa) e pagam por todas as suas despesas, normalmente,como todo e qualquer trabalhador; não têm passagens de avião gratuitas, salvo quando ao serviço do próprio Parlamento. E o seu salário equipara-se ao de um Chefe de Secção de qualquer repartição pública.
Em suma - são, realmente, servidores do povo.
Por cá é como se sabe e como alguns nem sabem. Não lhes parece estranho que os funcionários (não deputados) que trabalham na Assembleia tenham um subsídio equivalente a 80 % do seu vencimento? Porquê? Já viu os jornais falarem disto?
domingo, outubro 10, 2010
sangue novo, precisa-se

Enquanto sedimentam as memórias da minha estadia na Polónia, aproveito para vos deixar aqui um interessante e esclarecido artigo de José Cutileiro publicado na sua coluna «O Mundo dos Outros», que semanalmente assina no Expresso. Recomendo a sua leitura e a meditação devida.
Sangue Novo
Em sentido figurado é o que vai ser preciso em futuros homens de Estado europeus se se quiserem evitar grandes desastres económicos e sociais, incluindo porventura guerras onde há mais de meio século não as havia. Porque como se diz em histórias para crianças: "Acabou-se a papa doce".
Por outras palavras, o edifício de ajudas várias, pagas com impostos arrecadados pelo Estado, que levava os europeus do berço à cova num hovercraft de privilégio tomou-se caro demais. Hoje morre-se muito mais tarde do que se morria dantes, nasce-se muito menos e a assistência médica é custosíssima. O problema só tem uma de duas soluções: ou o Estado recebe muito mais em impostos ou passa a gastar muito menos.
Há anos que se sabia onde se iria chegar e o que se deveria fazer para evitar o pior mas os políticos europeus recusavam-se a tomar medidas que prevenissem o desastre. O primeiro-ministro do Luxemburgo Jean-Claude Junker sintetizou lapidarmente o dilema em 2007, falando pelos governantes da altura: "Sabemos todos o que há a fazer mas não sabemos como ser reeleitos se o fizermos".
As poucas medidas tentadas põem o povo em polvorosa: em França a proposta de passar a idade da reforma de 60 para 62 anos - indispensável para evitar a falência do sistema - aprovada na Assembleia Nacional e em discussão no Senado, está a provocar - com aprovação de 70% dos franceses - manifestações enormes convocadas pelos sindicatos apostados em ganhar mais uma vez um jogo clássico da V República: os eleitos do povo põem e a rua dispõe. Se desta vez Sarkozy conseguir quebrar os sindicatos, a França talvez fique governável.
O mal-estar expressa-se também em explosões de xenofobia: para ganhar votos à extrema-direita Sarkozy expulsa ciganos estrangeiros; na Suécia, até agora sogra moral do mundo, governo de direita minoritário terá de fazer malabarismos para sobreviver sem apoio parlamentar de um partido de extrema-direita hostil a imigrantes; na Holanda um partido também de extrema-direita, anti-islâmico, entra na coligação que vai passar a governar o país. Por toda a parte o Estado social, emblema da social-democracia europeia, que confortava anseios de igualdade e amaciava durezas do dia-a-dia, está a estalar pelas costuras. Um exemplo elucidativo: na Grã-Bretanha a despesa com saúde, educação e segurança social aumentou dez vezes (descontada a inflação) desde 1950 enquanto o rendimento nacional aumentou quatro vezes (também descontada a inflação).
Sangue novo político vai seguramente ser preciso. Em sentido figurado - porque se os que vierem quiserem exemplo a seguir encontram-no no primeiro-ministro da Grécia, Giorgios Papandreu, filho e neto de primeiros-ministros, que divulgou o estado das finanças do seu país e lutou lá dentro e cá fora para meter nos eixos muito mais do que as finanças. Recebeu na Alemanha o Prémio Quadriga, atribuído no dia da Reunificação a "pessoas exemplares e esclarecidas" - no seu caso "por poder de veracidade".
Por outras palavras, o edifício de ajudas várias, pagas com impostos arrecadados pelo Estado, que levava os europeus do berço à cova num hovercraft de privilégio tomou-se caro demais. Hoje morre-se muito mais tarde do que se morria dantes, nasce-se muito menos e a assistência médica é custosíssima. O problema só tem uma de duas soluções: ou o Estado recebe muito mais em impostos ou passa a gastar muito menos.
Há anos que se sabia onde se iria chegar e o que se deveria fazer para evitar o pior mas os políticos europeus recusavam-se a tomar medidas que prevenissem o desastre. O primeiro-ministro do Luxemburgo Jean-Claude Junker sintetizou lapidarmente o dilema em 2007, falando pelos governantes da altura: "Sabemos todos o que há a fazer mas não sabemos como ser reeleitos se o fizermos".
As poucas medidas tentadas põem o povo em polvorosa: em França a proposta de passar a idade da reforma de 60 para 62 anos - indispensável para evitar a falência do sistema - aprovada na Assembleia Nacional e em discussão no Senado, está a provocar - com aprovação de 70% dos franceses - manifestações enormes convocadas pelos sindicatos apostados em ganhar mais uma vez um jogo clássico da V República: os eleitos do povo põem e a rua dispõe. Se desta vez Sarkozy conseguir quebrar os sindicatos, a França talvez fique governável.
O mal-estar expressa-se também em explosões de xenofobia: para ganhar votos à extrema-direita Sarkozy expulsa ciganos estrangeiros; na Suécia, até agora sogra moral do mundo, governo de direita minoritário terá de fazer malabarismos para sobreviver sem apoio parlamentar de um partido de extrema-direita hostil a imigrantes; na Holanda um partido também de extrema-direita, anti-islâmico, entra na coligação que vai passar a governar o país. Por toda a parte o Estado social, emblema da social-democracia europeia, que confortava anseios de igualdade e amaciava durezas do dia-a-dia, está a estalar pelas costuras. Um exemplo elucidativo: na Grã-Bretanha a despesa com saúde, educação e segurança social aumentou dez vezes (descontada a inflação) desde 1950 enquanto o rendimento nacional aumentou quatro vezes (também descontada a inflação).
Sangue novo político vai seguramente ser preciso. Em sentido figurado - porque se os que vierem quiserem exemplo a seguir encontram-no no primeiro-ministro da Grécia, Giorgios Papandreu, filho e neto de primeiros-ministros, que divulgou o estado das finanças do seu país e lutou lá dentro e cá fora para meter nos eixos muito mais do que as finanças. Recebeu na Alemanha o Prémio Quadriga, atribuído no dia da Reunificação a "pessoas exemplares e esclarecidas" - no seu caso "por poder de veracidade".
close to you
Mario Ranno nasceu em 28 de Janeiro de 1971 na Catânia, Itália, filho de um conhecido cantor. Naturalmente recebeu educação musical, pertenceu a vários coros e acompanhou artistas conhecidos nos seus tours de concertos. A sua magnífica voz de barítono veio a desenvolver-se e a ligá-lo para sempre à música. Adoptou o nome artístico de Mario Biondi. Embora o seu reconhecimento internacional tenha demorado, hoje é considerado uma das melhores vozes da actualidade em soul e blues. Ouçam a sua voz grave, doce e quente, numa canção que celebrizou o duo The Carpenters em 1970 - Close to You. É uma gravação ao vivo, acompanhado pela Duke Orkestra.
sexta-feira, outubro 01, 2010
a sensualidade e o erotismo nas doses certas
Chegado hoje da Polónia fui encontrar entre o correio recebido este magnífico vídeo, em que o chamado Duo MainTenanT, constituído por Nicolas Besnard e Ludivine Furnon, artistas do Cirque du Soleil, apresentam o seu número circense envolvido numa sensualidade e num erotismo fora do comum nestas exibições. Ludivine Furnon recebeu em Paris a medalha de prata conquistada no 31.º Festival Mundial do Cirque de Demain. Este vídeo foi gravado numa apresentação deste Duo no "Benissimo" Live TV show 2010. Vejam com atenção e não se arrependerão.
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