quinta-feira, outubro 14, 2010

uma verdade difícil de engolir


Desde os últimos tempos do Expresso e depois no Sol, são inúmeras as vezes que não tenho concordado com as opiniões de José António Saraiva. Mas neste seu texto que intitulou Crise Nacional, concordo com tudo que ali escreveu. É um texto bastante realista, embora quase fúnebre, derrotista, mas verdadeiro. Sabemos que irá ser assim, mas recusa-mo-nos a acreditar. Talvez seja melhor que não deixemos de pensar nisso e acautelemos o nosso futuro e o do país. E por assim pensar aqui o transcrevo para conhecimento de quem o não tenha lido.

Crise nacional

Creio que a maioria das pessoas ainda não percebeu bem esta crise – e os economistas não estão a saber explicá-la com clareza. É verdade, como se tem dito, que há uma ‘crise nacional’ e uma ‘crise internacional’. Mas, depois desta evidência, a confusão que por aí vai é enorme.
Comecemos pela crise portuguesa.
Trata-se de uma crise profundíssima, potenciada por três factos capitais: o fim do Império, a passagem da ditadura à democracia e a entrada na União Europeia. Tudo isso, que se pensava vir a ter um efeito benéfico na economia, produziu de facto consequências devastadoras. O fim do Império limitou-nos o espaço vital, cerceou-nos matérias-primas e mercados, diminuiu-nos política e psicologicamente. A passagem da ditadura à democracia (com o seu rosário de greves, nacionalizações, perseguições, saneamentos, reivindicações laborais insustentáveis, etc.) destruiu boa parte do nosso tecido económico.
A entrada na União Europeia e a abolição das fronteiras pôs-nos em confronto com economias muito mais avançadas, acabando de liquidar o que restava da nossa débil capacidade produtiva.
A crise internacional é de outra natureza.
Ela decorre da globalização e tem duas vertentes. Por um lado, os produtos feitos no Ocidente começam a não ter condições para competir a nível global com outros produzidos em países (China, Índia, Coreia, etc.) onde os salários e as regalias laborais são muitíssimo inferiores. Por outro lado, as empresas tendem a transferir cada vez mais as suas fábricas e serviços de Ocidente para Oriente – o que significa que no Ocidente vai aumentar o desemprego e no Oriente vai acentuar-se a procura de mão-de-obra. E, em consequência disso, no Ocidente baixarão os salários, acabarão muitas regalias sociais, numa palavra, será posto radicalmente em causa o tipo de vida que se fez nos últimos 50 anos. No Oriente, pelo contrário, os salários tenderão a subir e o nível de vida crescerá.
Assim, a crise que hoje se vive no Ocidente é de natureza diferente das anteriores.
Antes, eram crises de crescimento do capitalismo dentro da sua área geográfica; agora, a crise tem a ver com a globalização do capitalismo. Repare-se que grande parte do planeta, que até pouco vivia fora do sistema capitalista, aderiu à sociedade de mercado: basta pensar nas adesões quase simultâneas da Rússia e da China para se ter uma ideia do abrupto alargamento da área do capitalismo nos últimos anos. Os grandes grupos multinacionais, que antes estavam limitados a um determinado espaço territorial, hoje têm o planeta inteiro para instalar os seus centros de produção – podendo procurar os salários mais baixos, as melhores ofertas de mão-de-obra, as menores regalias dos trabalhadores.
O planeta tornou-se um sistema de vasos comunicantes – onde, para uns viverem melhor, outros vão ter de viver pior. Para certas regiões subirem o nível de vida, outras vão necessariamente perder privilégios.
Perante isto, perguntará o leitor: o que poderemos fazer para inverter o estado das coisas?
Basicamente, não há nada a fazer.
Os factores que potenciaram a crise nacional são irreversíveis – e a globalização não vai andar para trás.
Assim, vamos ter de nos adaptar à nova situação, o que significa de uma maneira simples trabalhar mais e ganhar menos. Os salários vão baixar (lenta ou abruptamente) entre 10 e 30%, os horários de trabalho vão aumentar (com a abolição total das horas extraordinárias), o 13.º e 14.º meses vão ficar em causa, a idade da reforma também vai ser ampliada (para perto dos 70 anos), o rendimento mínimo garantido vai regredir drasticamente, o subsídio de desemprego também vai diminuir, a acumulação de reformas vai ser limitadíssima. Muitas ‘conquistas dos trabalhadores’ na Europa, obtidas no pós-guerra, vão regredir. As leis laborais vão ter de ser flexibilizadas. O sistema de saúde não vai poder continuar a gastar o que tem gasto.
Preparem-se, porque não vale a pena protestar.
O que não tem remédio, remediado está.
Dizia há dias, com graça, Ernâni Lopes, a propósito do subsídio de férias: «Se dissessem a um americano: ‘Para o mês que vem não trabalhas e ganhas dois ordenados’, ele não acreditava».
Pois há muitos anos é esta a situação: não trabalhamos nas férias e recebemos o dobro.

Isto vai acabar.

José António Saraiva

quarta-feira, outubro 13, 2010

quando os pássaros escrevem música

Jarbas Agnelli encantou-se com uma fotografia que mostrava pássaros poisados nos fios eléctricos em posições tais que configuravam uma autêntica partitura musical. Falando sobre isto com o fotógrafo Paulo Pinto do jornal Estado de S. Paulo, ou Estadão como todos lhe chamam, este enviou-lhe alguns dias depois a foto completa, o que permitiu juntar mais notas de um e outro lado. Então, passadas as posições dos pássaros a uma pauta musical, obteve-se uma música curta, mas surpreendente, melódica e profunda.
No vídeo que aqui deixo, Jarbas Agnelli conta esta história num dos Encontros TED de S. Paulo e uma orquestra interpreta a música obtida de forma tão natural e espontânea como deve ser o repouso dos pássaros.

segunda-feira, outubro 11, 2010

res publica

Nesta época de crise que atravessamos aquilo que, eventualmente, antes dela não nos chamaria a atenção, para além da verificação da diferença, faz agora tocar em nós uma campainha de alarme e, quer queiramos quer não, deixa-nos a pensar sobre isso. E, naturalmente, após o espanto verificamos ter a obrigação de dar a conhecer essa diferença a todos que não a saibam e se venham a espantar, como nós. Vejam atentamente este vídeo e espantem-se. Se é que ainda alguma coisa é capaz de o fazer.
Conheçam como funciona o Parlamento da Suécia e tenham pena desse país tão pobre da Europa ...



E, já agora, vejam o que se passa com os Deputados no Reino Unido e como tudo é tão diferente do caso português. Mas nós somos ricos ...
Os deputados no Reino Unido não têm lugar certo para sentar-se na Câmara dos Comuns; não têm escritórios, nem secretários, nem automóveis; não têm residência (pagam pela sua casa) e pagam por todas as suas despesas, normalmente,como todo e qualquer trabalhador; não têm passagens de avião gratuitas, salvo quando ao serviço do próprio Parlamento. E o seu salário equipara-se ao de um Chefe de Secção de qualquer repartição pública.
Em suma - são, realmente, servidores do povo.
Por cá é como se sabe e como alguns nem sabem. Não lhes parece estranho que os funcionários (não deputados) que trabalham na Assembleia tenham um subsídio equivalente a 80 % do seu vencimento? Porquê? Já viu os jornais falarem disto?

domingo, outubro 10, 2010

sangue novo, precisa-se


Enquanto sedimentam as memórias da minha estadia na Polónia, aproveito para vos deixar aqui um interessante e esclarecido artigo de José Cutileiro publicado na sua coluna «O Mundo dos Outros», que semanalmente assina no Expresso. Recomendo a sua leitura e a meditação devida.

Sangue Novo

Em sentido figurado é o que vai ser preciso em futuros homens de Estado europeus se se quiserem evitar grandes desastres económicos e sociais, incluindo porventura guerras onde há mais de meio século não as havia. Porque como se diz em histórias para crianças: "Acabou-se a papa doce".
Por outras palavras, o edifício de ajudas várias, pagas com impostos arrecadados pelo Estado, que levava os europeus do berço à cova num hovercraft de privilégio tomou-se caro demais. Hoje morre-se muito mais tarde do que se morria dantes, nasce-se muito menos e a assistência médica é custosíssima. O problema só tem uma de duas soluções: ou o Estado recebe muito mais em impostos ou passa a gastar muito menos.
Há anos que se sabia onde se iria chegar e o que se deveria fazer para evitar o pior mas os políticos europeus recusavam-se a tomar medidas que prevenissem o desastre. O primeiro-ministro do Luxemburgo Jean-Claude Junker sintetizou lapidarmente o dilema em 2007, falando pelos governantes da altura: "Sabemos todos o que há a fazer mas não sabemos como ser reeleitos se o fizermos".
As poucas medidas tentadas põem o povo em polvorosa: em França a proposta de passar a idade da reforma de 60 para 62 anos - indispensável para evitar a falência do sistema - aprovada na Assembleia Nacional e em discussão no Senado, está a provocar - com aprovação de 70% dos franceses - manifestações enormes convocadas pelos sindicatos apostados em ganhar mais uma vez um jogo clássico da V República: os eleitos do povo põem e a rua dispõe. Se desta vez Sarkozy conseguir quebrar os sindicatos, a França talvez fique governável.
O mal-estar expressa-se também em explosões de xenofobia: para ganhar votos à extrema-direita Sarkozy expulsa ciganos estrangeiros; na Suécia, até agora sogra moral do mundo, governo de direita minoritário terá de fazer malabarismos para sobreviver sem apoio parlamentar de um partido de extrema-direita hostil a imigrantes; na Holanda um partido também de extrema-direita, anti-islâmico, entra na coligação que vai passar a governar o país. Por toda a parte o Estado social, emblema da social-democracia europeia, que confortava anseios de igualdade e amaciava durezas do dia-a-dia, está a estalar pelas costuras. Um exemplo elucidativo: na Grã-Bretanha a despesa com saúde, educação e segurança social aumentou dez vezes (descontada a inflação) desde 1950 enquanto o rendimento nacional aumentou quatro vezes (também descontada a inflação).
Sangue novo político vai seguramente ser preciso. Em sentido figurado - porque se os que vierem quiserem exemplo a seguir encontram-no no primeiro-ministro da Grécia, Giorgios Papandreu, filho e neto de primeiros-ministros, que divulgou o estado das finanças do seu país e lutou lá dentro e cá fora para meter nos eixos muito mais do que as finanças. Recebeu na Alemanha o Prémio Quadriga, atribuído no dia da Reunificação a "pessoas exemplares e esclarecidas" - no seu caso "por poder de veracidade".

close to you

Mario Ranno nasceu em 28 de Janeiro de 1971 na Catânia, Itália, filho de um conhecido cantor. Naturalmente recebeu educação musical, pertenceu a vários coros e acompanhou artistas conhecidos nos seus tours de concertos. A sua magnífica voz de barítono veio a desenvolver-se e a ligá-lo para sempre à música. Adoptou o nome artístico de Mario Biondi. Embora o seu reconhecimento internacional tenha demorado, hoje é considerado uma das melhores vozes da actualidade em soul e blues. Ouçam a sua voz grave, doce e quente, numa canção que celebrizou o duo The Carpenters em 1970 - Close to You. É uma gravação ao vivo, acompanhado pela Duke Orkestra.

sexta-feira, outubro 01, 2010

a sensualidade e o erotismo nas doses certas

Chegado hoje da Polónia fui encontrar entre o correio recebido este magnífico vídeo, em que o chamado Duo MainTenanT, constituído por Nicolas Besnard e Ludivine Furnon, artistas do Cirque du Soleil, apresentam o seu número circense envolvido numa sensualidade e num erotismo fora do comum nestas exibições. Ludivine Furnon recebeu em Paris a medalha de prata conquistada no 31.º Festival Mundial do Cirque de Demain. Este vídeo foi gravado numa apresentação deste Duo no "Benissimo" Live TV show 2010. Vejam com atenção e não se arrependerão.


segunda-feira, setembro 20, 2010

até outubro

Durante uns dias vou estar longe deste blog e deste país. Em Outubro estarei de volta. Deixo-vos com uma imagem da catedral da cidade polaca que me acolherá. Dela e desses dias falarei no meu regresso e também do tema em discussão - a ética e a moral, hoje.

terça-feira, setembro 14, 2010

adeus ângelo



Só agora soube que morreste, uma coisa quase improvável em ti. Quem passou pelo Porto e por Coimbra, quem depois conviveu contigo anos e anos em Lisboa, ficou sempre com a ideia que os dias não passavam por ti e o calendário se esquecia de te marcar a passagem inexorável do tempo, como faz com todos nós, aqueles de quem ninguém duvida que um dia desaparecerão. Mas contigo não era assim. Cada encontro te mostravas igual, talvez melhor. Sempre com o teu sorriso, sempre com a piada pronta, a observação certeira, o chiste rápido, e sempre o inseparável papel no bolso, que retiravas e nos mostravas, dando-nos algo de ti - um poema, uma crítica feroz, um baú de humor.
Só agora soube que no passado dia 30 de Julho tinhas resolvido deixar-nos e decidiras levar para o além o teu espírito inquieto, a tua juventude de 90 anos e a ideia que só a ti lembraria de pores os anjos a cantar o fado de Coimbra, não só os muitos que escreveste e musicaste, mas o de todos aqueles que o trouxeram até hoje.
Partiste sem me avisar e em falta comigo, se bem te lembras. Pedi-te uma informação e nunca me telefonaste a dar-ma. Quando depois disso te encontrei, perguntei-te porque nada me disseras. A resposta veio pronta - tens razão, Carlos, nem sei como me esqueci, logo agora que eu me lembro todos os dias que me esqueço de tudo!! Sempre tu.
O vídeo seguinte mostra algumas cenas do filme Capas Negras em que se pode ouvir o primeiro fado da autoria de Ângelo Araújo - Feiticeira.



Da Biografia escrita por José Niza publico algumas notas sobre ti, que não respeitam à nossa amizade, mas à tua circunstância. Aqui ficam para quem não saiba nada de ti.

«Ângelo Vieira de Araújo nasceu em S. João da Madeira, a 1 de Janeiro de 1920. Completou o curso dos liceus no Porto e, em 1936, matriculou-se na Faculdade de Medicina desta cidade. Nos seus tempos de caloiro foi membro da Tuna Universitária do Porto, como solista de banjolim; foi também 2.° tenor do Orfeon Universitário do Porto.
Em 1937 transferiu-se para Coimbra, onde se licenciou em Medicina (1947), depois de ter cumprido o serviço militar. Foi membro da Real República do Kalifado.
Nos seus tempos de Coimbra foi 1.º violino da Tuna Académica e músico da sua Orquestra Havaiana. Pertenceu ainda ao Fado Académico e integrou o TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, fundado em 1938), organismo cuja fundação se deve à iniciativa de Jorge Moraes (Xabregas), guitarrista que marcou a geração de 1940.
Ângelo de Araújo, para além de poeta e compositor, tocava também diversos instrumentos (violino, banjolim, guitarra e viola).
Mas foi sobretudo como compositor e poeta que se notabilizou, sendo autor de cerca de duas dezenas de fados e baladas, dos quais se destacam a célebre Feiticeira, o primeiro que compôs. Esta canção foi estreada e divulgada por Manuel Julião, cantor dos anos 40 e, posteriormente, interpretada por Alberto Ribeiro, no filme Capas Negras, em que este cantor contracenou com Amália Rodrigues. Neste filme há outra canção de Ângelo de Araújo, interpretada pelo tenor Domingues Marques.
Outros fados, como Suspiros que Nascem na Alma, Contos Velhinhos, Minha Capa já Velhinha, Carta (Soneto), Balada do Crepúsculo, Coimbra dos Meus Encantos, Santa Clara, Amor e mais Nada e Maria se Fores ao Baile, têm também a marca da sua criatividade».

sábado, setembro 11, 2010

às vezes não é só fumaça


Recomendo a leitura deste texto de Mia Couto sobre os recentes acontecimentos em Maputo após o anúncio governamental do aumento de preço do pão e outros bens. O que se passou foi lá, já está aparentemente saneado com a cedência do Governo, mas pode acontecer em qualquer lado onde o autismo do Governo não leve em conta a opinião pública e considere mais a publicada.

A pobreza sai muito caro

Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.
E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo actuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, excepto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.
A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este parodoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.
Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.
Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutores e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direcção política do país. Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.
Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a “quem de direito”. Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam “uma resposta”. Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expectativa.
Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.
As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.
Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os “não eventos” da nossa história recente. Um deles é a chamada “guerra civil”. O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio. Entre esquecimentos e distorções, o fenómeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.
Vvemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos “bandos armados” esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas. Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os “maravilhosos” avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjectivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é “maravilhoso”, que o nosso país é “belo”. Mas todos os povos do mundo são “maravilhosos”, todos os países são “belos”. A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza.

Mia Couto, O País

quinta-feira, setembro 02, 2010

seja cientista amador ou ajude quem o é

A um dos seus mais recentes 'Passeios aleatórios', que Nuno Crato escreve e assina no Expresso, intitulou-o de 'cientistas cidadãos'. Nele explica como é possível a cidadãos comuns participarem em investigações em curso a nível mundial e fazê-lo de uma forma passiva ou activa, consoante a preparação, a disponibilidade e o interesse. Mesmo quando passiva essa participação será sempre útil, pois permitir acelerar a investigação, aproveitar a capacidade dos verdadeiros investigadores, deixando-os libertos de pesquisas que lhes roubavam tempo, para o poderem aplicar em investigação que só eles poderão fazer. Considero esta possibilidade interessantíssima e não quero deixar de a dar a conhecer a mais algumas pessoas. Esta informação vinda de quem vem, é segura, é real e merece ser apoiada. Leiam o que Nuno Crato lhes quis dizer para que o soubessem e reajam activamente. Sintam isto como uma nova pulsão e vão atrás dos pulsares que por aí andarão à espera de quem os descubra.

a arte de fazer a corte ou canto dos bons malandros

Na água, em terra ou no ar, é sempre preciso uma boa 'cantada', como exemplificam as várias imagens com que vos deixo. Aprende-se a cantar e dançar assim, no livro da vida ou no livro de instruções que já vem no ADN?

quinta-feira, agosto 26, 2010

inteligência animal

Qualquer lisboeta gostará de ver os dois vídeos que vos deixo, porque são corvos os animais escolhidos para demonstrarem a inteligência animal, fazendo-o de tal maneira que raciocínio e inteligência se afirmam como coisas naturais.
No primeiro vídeo o corvo descobre a maneira mais fácil de quebrar a noz, depois de uma tentativa que se mostrou falhada, embora o raciocínio tivesse sido correcto. Reparem que o corvo espera o sinal ficar vermelho para os carros e só então desce em segurança para pegar os pedaços da noz no asfalto; ao contrário de muitos humanos que se esquecem desse pequeno detalhe de respeitar o semáforo.
No segundo vídeo o raciocínio é ainda mais elaborado nas suas soluções. Só vendo. Não deixem de o fazer, pois é bom ser surpreendido.



terça-feira, agosto 24, 2010

consegue assobiar assim?

Em Abril passado deixei aqui um vídeo com uma magnífica interpretação da Orquestra Sinfónica de Kiel das Czardas de Monti, com solo em assobio de Geert Chatrou. Poderia pensar-se que não voltaria ao assobio, esse magnífico instrumento com que todos fomos dotados e alguns executam bem, mas pensando melhor vou deixar um pequeno vídeo com outro genial intérprete de assobio, Roger Wittaker.
O assobio é um magnífico tratamento para o stress, mas não deve ser usado para assobiar para ao lado...

segunda-feira, agosto 23, 2010

léo ferré ele próprio e revisitado

Aqueles que já contam mais de 50 anos, por certo apreciarão ouvir uma vez mais a poesia e a voz de Léo Ferré, esse magnífico escritor e cantor, nascido no Mónaco em 1916 e falecido em 1993. Todos os que então o ouviam, apreciavam garantidamente a beleza das palavras, a música que as acompanhava e ainda, ou sobretudo, a sensibilidade, a expressão, a emoção, que ele lhes imprimia. Poderia colocar aqui muitos dos seus sucessos. Escolhi colocar Thank You Satan, pela força da mensagem, pela modernidade com que construiu alguns efeitos musicais e, sobretudo, por poder deixar também aqui uma versão do mesmo poema interpretado por uma banda de rock ou art rock criada no mesmo ano em que Ferré morreu - os Dionysos. Banda de jovens liceais, residentes em Valence, no Drône, sudoeste de França. Vale a pena ouvir as duas versões. Vamos a Léo Ferré, o próprio:



Ouçamos agora os Dionysos - Mathias Malzieu, Éric Serra Tosio, Michaël Ponton, Guillaume Garidel, Élisabeth Maistre (Babet) e Stéphan Bertholio



Para aqueles que tenham perdido algumas das palavras do poema, deixo-vos uma tradução em português feita pelo brasileiro Paulo de Tharso

Thank You Satan, de Léo Ferré

Por essa chama que você acende

No vazio de uma cama pobre ou não
Pelo prazer que ela consome
Em panos de seda ou algodão
Pelas crianças que você cria
Nos dormitórios de querubins
Por suas pétalas esquecidas
Como a rosa da manhã

Thank you Satan

Pelo ladrão que você aquece
Com tua lã macia e berne
Por toda porta descerrada
Dos celeiros dos ricos empanturrados
Pelo condenado que você vela
Na abadia dos ministérios
Pelo rum barato e velho
E pela guimba que você lhe dá

Thank you Satan

Pelas estrelas que você semeia
No remorso de um matador
Pelo coração que bate igual
No peito das putas dos bataclãs
Pelas idéias maquiadas
Na mente de todo cidadão
Pela queda da Bastilha
Que nunca nos dará o pão

Thank you Satan

Pelo padre que se exaspera
Para encontrar o cordeiro de Deus
Pelo sangue vagabundo, elementar
Que ele bebe como Château Margoux
Pelo anarquista a quem você dá
As duas cores de teu país
O vermelho para nascer em Barcelona
E o negro para morrer em Paris

Thank you Satan

Pela sepultura anônima
Que você deu ao Monsieur Mozart
Sem cruz, sem nada, salvo a piada sem graça
De um cão surgido ao acaso
Pelos poetas que você escorrega
Nos travesseiros dos adolescentes
Quando eles crescem sob a sombra cúmplice
Das flores do mal dos dezessete

Thank you Satan

Pelo pecado que você faz nutrir
Nos seios das mais rígidas virtudes
E pelo tormento que irá surgir
No canto dos leitos onde você não mais está
Pelos imbecis que você ordena padre
No pasto como carneiros
Por teu orgulho de jamais aparecer
Na televisão

Thank you Satan

Por tudo, e mais ainda:
Pela solidão dos reis
E pelo riso na cara das caveiras dos mortos
O jeito de driblar a lei
E que não me ponham o dedo em riste
Pois eu canto por teu bem
Nesse mundo onde as focinheiras
Não são feitas só para os cães

Pela beleza destes dois vídeos poderei dizer - Thank You Satan

sexta-feira, agosto 20, 2010

ondas da política

Até nas pessoas, individualmente, existem diferenças e alterações, consoante a 'onda' em que se está. Por exemplo, eu posso não apreciar muito os editoriais de um jornalista do Expresso e posso, ao mesmo tempo, apreciar muito e, quase sempre, o que escreve no mesmo jornal (o mesmo jornalista) em nome do Comendador Marques de Correia. Deixo-vos com uma das suas últimas Cartas Abertas em que disserta sobre ondas e política. Penso que devem ler e pensar sobre isso.

«(…) As ondas do mar fazem-me lembrar a política. Para quem anda em cima da terra já há uns bons anos, como eu, vejo que, ao fim do dia, já com o Sol a mergulhar no mar, as ondas se confundem, como os governos se confundem. Quereis um exemplo: o condicionamento industrial foi de Salazar ou foi o que agora se utilizou para vender um ativo da PT e comprar outro? Já não sei, de tal modo tudo se torna semelhante. Por outro lado, a justiça popular foi própria do PREC, em 1975, ou é uma coisa que os procuradores fazem atualmente quando não conseguem reunir provas que sustentem a sua pré-formatada tese ou a sua teoria da conspiração? Os lugares do Estado eram reservados para os adeptos do regime no tempo de Marcello Caetano e no de Vasco Gonçalves ou é agora que os reservam? Os escalões intermédios dos partidos eram mais papistas do que o Papa no tempo de Cavaco à frente do PSD ou no tempo atual?
A cada onda sucede outra, que desmaia com mais ou menos a mesma intensidade e estrondo do que a anterior. A cada vaga parece que o mundo é alterado, mas o mundo fica na mesma - os homens sussurram, mas o barulho do mar, o estrondo das ondas abafa as palavras ...
Os privilégios dos grandes grupos económicos eram do tempo de Alfredo da Silva, quando fundou a CUF, ou dos tempos de agora, quando ganham mais-valias de muitos euromilhões graças à intervenção do Governo? As companhias majestáticas eram próprias dos séculos XVIII e XIX ou continuam presentes nas EDP, PT, GALP e outras, que se mantêm protegidas por um poder forte e centralizado que as promove contra concorrentes internos e estrangeiros?
As vagas sucedem-se e, de quando em vez, rebenta uma com estrondo que parece ter destruído a ordem anterior. Porém, passados poucos minutos, tudo volta ao normal, ainda que se proclame que a nova ordem triunfou. Já não há latifundiários, há grandes proprietários agrícolas; já não há patrões, há empresários; já não há especuladores, há investidores; já não há patos-bravos nem novos-ricos, há respeitáveis presidentes de construtoras e ex-ministros que são seus homens de mão. Era no tempo de Salazar que era muito lucrativo já ter sido membro do Governo ou é agora?
Mais uma onda, mais um pedaço moldado, enquanto de terra olhamos com indiferença essa sucessão de pequenos ajustes.
Nada é novo. E, como dizia Cícero, "nihil fit quod non necesse fuerit" - nada acontece que não tivesse mesmo de ser. A clareza que desejamos, as fronteiras que construímos na teoria falham ou não existem na realidade ... A seguir a uma onda vem outra onda igual e faz mais ou menos o mesmo daquela que a precedeu. Estas linhas são novas ou já foram escritas? São a brincar ou são a sério?
Em breve serão esquecidas ... vem outra onda».

terça-feira, agosto 17, 2010

o grau zero da confiança na justiça



No Expresso do passado dia 14 de Agosto de 2010, Daniel Oliveira escreveu na sua coluna habitual um artigo que intitulou «A Justiça dos Mortos-Vivos», em que de uma forma simples, clara, sintética, mostra alguns dos caminhos que conduziram à actual situação da Justiça e ao grau zero da confiança que os cidadãos nela depositam. Mostra ainda a acção perniciosa do clubismo partidário que conduz os cidadãos, supostamente seres pensantes, a não quererem avaliar por si as situações, mas a analisá-las sempre com a cor partidária. Mostra ainda o caldeirão imenso em que se cozinham as ementas ao gosto das conveniências partidárias.
Por tudo isto e porque me parece ser um artigo que pode ajudar muitos daqueles que parecem ter abdicado de pensar por si a recuperarem o seu juízo crítico, independentemente de torcerem por uns ou por outros, é que resolvi transcrever aqui o referido artigo, com os meus agradecimentos e felicitações ao autor.


«Para quem esteja, como está a esmagadora maioria dos portugueses, distraído em relação às minudências do 'caso Freeport' há pelo menos uma coisa evidente: que o Ministério Público tem sido palco de confrontos políticos onde cada investigação que envolva pessoas com responsabilidades públicas é um novo round. E neste confronto a independência dos vários procuradores é tudo menos um dado seguro.
Uma parte do país está convencida de que José Sócrates é culpado. Não interessa culpado de quê. Acha que o homem não é sério e, por isso, qualquer acusação que lhe seja feita está provada à partida. Outra parte do país está convencida de que José Sócrates é inocente. Não interessa inocente de quê. Acha que o homem é líder do PS e, por isso, qualquer acusação que lhe seja feita não passa de uma cabala. E a maioria do país não faz a menor ideia de que estamos todos a falar. Perdeu-se há muito no labirinto da justiça portuguesa e tem, por agora, coisas mais importantes com que se preocupar.
Acontece que não é a primeira vez que cai sobre o Ministério Público a suspeita de manipulação política dos seus poderes de investigação. Quem esteve atento ao 'caso Casa Pia' percebeu que muito se jogava ali além da investigação de violações de menores. Nem os casos são semelhantes nem o desastre daquela investigação impede que outras se façam com eficácia. Mas o que ficámos a saber é que os poderes judiciários são terrivelmente permeáveis ao contexto político em que se movem.
Não é coisa de hoje. Na
Procuradoria sempre houve coutadas políticas. A diferença é que, no tempo de Cunha Rodrigues, a comunicação social era menos afoita e estes debates não se faziam à luz do dia. Agora fazem-se. A porcaria corre a céu aberto e não é bonita de se ver. E como tudo acontece aos olhos de todos, as investigações passaram a ter repercussões políticas desconhecidas até ao 'caso Casa Pia'. Como se viu, é possível usar a justiça para decapitar a liderança de um partido sem sequer ter de a levar até ao banco dos réus. E mesmo depois de se pôr de lado o envolvimento de alguém num crime, a suspeita anda por aí como um zombie, a atormentar para sempre aqueles com quem se cruzou em vida. Por isso, escaldados que estamos, não duvidamos de que é possível manipular a justiça para matar ou salvar um governante. E enquanto suspeitarmos de tal possibilidade teremos uma democracia coxa.
As minhas convicções sobre o 'caso Freeport' são poucas: que a aprovação daquele empreendimento tem contornos administrativos pouco claros; que não tenho nenhum facto indesmentível que me leve a pensar que a responsabilidade de Sócrates é mais do que política; que durante muito tempo a direita, como acusadora ad hoc, e Sócrates, como vítima empenhada, usaram o caso para não ter de discutir a situação do país; que não falta quem queira que as sentenças se lavrem nos jornais; e que os agentes de justiça foram incapazes de dar aos cidadãos qualquer sinal de confiança de que a verdade se viria a saber.
O 'caso Freeport' morreu como tantos outros: sem que a justiça conseguisse enterrar o corpo da suspeita. E mais uma vez a sua alma penada andará por aí, durante anos, mostrando que quando um processo judicial tem utilidade política ninguém tem o poder, a autoridade e a credibilidade para declarar o óbito. E é esta justiça de processos mortos-vivos que põe em perigo a democracia».

segunda-feira, agosto 16, 2010

assim vai o mundo - sobre a lapidação


Publicado no livro Vestígios (Ed. Rocco) de Affonso Romano Sant'anna sob um caso de lapidação na Nigéria.

Lapidar uma Mulher

Há quem tente lapidar
uma mulher
como se lapida
jóia rara
e pedra bruta.

Com escalpelo
cinzel
buril
inscrevem nela uma figura, depois
a expõem nos salões
revistas e altares
apregoando quantos camelos
quantos colares
vale o dote
-da criatura.

Na Nigéria também
lapida-se mulher
mas de forma
inda mais dura.

Não bastassem
os muros em que viva
vive emparedada
é sob pedras
que a mulher viva
é pétrea e friamente
sepultada
quando não se conforma
com a forma
como desde sempre
é deformada.

Assim a mulher
que se nega a ser
por eles esculpida
deve morrer como viveu:
-petrificada.

Atiram-lhe
tantas pedras
até que não se veja
a forma e o sangue
da apedrejada,
até que a mulher-alvo
alvejada
desapareça numa maré de pedras
coaguladas.

Desta feita os escultores
foram mais perfeccionistas
deixaram a mãe
amamentar o filho
antes que o leite no seio
se petrificasse.

Assim o filho na fonte beberia
o pétreo ensinamento
antes
que a fonte secasse.

Ao amante não lapidaram.

Ali o homem já nasce feito
é obra de arte que dispensa
qualquer lapidação.
A mulher, sim, carece
de acabamento
posto que imperfeita figura
na ordem da criação.

Affonso Romano Sant’anna

Infelizmente a lapidação não é exclusiva da Nigéria e ocorre noutros países. Porque neste momento está em causa a punição do caso de adultério de Sakineh Mohammadi Ashtiani, em que as entidades responsáveis do Irão, querendo mostrar bom coração e clemência (!), se propõem transformar a pena de lapidação em enforcamento, penso ser minha obrigação relembrar a todos que isto existe e dar-lhes a conhecer o poema que aqui deixo.

domingo, agosto 15, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 10

Termino esta série de migalhas de sabedoria com mais um provérbio árabe. Penso que com este todos estarão de acordo. Segui-lo é que nem todos o farão. Mas como diz o velho provérbio português «água mole em pedra dura tanto bate até que fura».

bom para a vista e para o humor

Hoje em dia já é raro ver-se ballet clássico. Como todas as coisas, também aqui foi marcante a evolução. Apesar desta significativa mudança, a adesão do público ao chamado ballet moderno não é ainda total. Digamos que há 3 espécies de espectadores - os que continuam ligados ao clássico, os que se passaram para o moderno e aqueles que gostam dos dois, melhor dizendo do que é bom, num e noutro. Eu encontro-me neste terceiro grupo e deste não saio. Gosto do que é bom e me fala aos sentidos, aquele que me emociona, aquele que me diverte, aquele que me deixa suspenso, aquele que me faz sorrir ou mesmo rir. O vídeo que hoje vos deixo é daqueles que vos fará sorrir, por ser uma paródia, cheia de humor, uma homenagem da Companhia de Dança holandesa (Nederlands Dans Teather) ao grande coreógrafo e seu director artístico Jiri Kylian, nascido checo em 1947, formado bailarino em Londres e depois Estugarda e desde 1975, compondo e coreografando, peças cheias de humor, movimento, escala, crítica social.

sexta-feira, agosto 13, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 9


Que segurança? A do plano traçado, a da descoberta, a da destruição? A linha para uma vida?

quinta-feira, agosto 12, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 8


Um provérbio árabe que não tem sido lido por muitos, inclusive por aqueles que o criaram, como que confirmando o provérbio português - Santos da casa não fazem milagres ...

migalhas da sabedoria dos povos 7


Muitos recusarão esta sabedoria japonesa. Outros dirão que nas guerras, por exemplo, é sempre muito difícil saber quem venceu ou foi vencido. Mas todos concordarão que, neste caso, os japoneses devem saber bem o que dizem.

segunda-feira, agosto 09, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 6


E, cada vez mais, deve praticar o que estudou e praticar o estudo de forma continuada e permanente, acrescento eu ao provérbio árabe, esperando não o «danificar».

migalhas da sabedoria dos povos 5

Este provérbio árabe faz-me pensar na tristeza do homem, quando olha alguns tantos.

sábado, agosto 07, 2010

a ópera está na rua, uma vez mais

No dia 24 de Abril deste ano, a ópera veio à rua, uma vez mais e noutro país. Desta vez foi a Companhia de Ópera de Filadélfia que resolveu fazer uma operação de marketing junto daqueles que não conhecem a ópera, não a apreciam ou não a frequentam. Desta vez, 30 elementos do Coro da Ópera de Filadélfia colocaram-se estrategicamente no Reading Terminal Market e levaram a cabo aquilo que vai sendo chamado de "Flash Opera", em que inesperadamente e em locais improváveis se dá a conhecer a ópera, através de intervenções rápidas e de árias que ficam no ouvido. Em Filadélfia escolherem a área Brindisi (Brindemos) da ópera Traviata. Parabéns para os promotores.

migalhas da sabedoria dos povos 4

Gosto especialmente deste provérbio chinês. Outros, talvez não.

sexta-feira, agosto 06, 2010

o que é o norte


Nasci em Chaves e ali vivi permanentemente, até que aos 15 anos parti para Coimbra continuar os meus estudos e depois dos 23 segui para Lisboa, onde passei a viver. Chaves para mim, desde os 15 anos, era apenas as férias com os meus pais, a família e os amigos e com o passar dos anos e a morte dos meus pais, passou a ser a terra desejada onde se tem as raízes e os amigos e onde pouco se vai, porque a vida nos exige que fiquemos. Passaram dezenas de anos e eu continuo a falar à Chaves, a sentir-me um homem do norte.
Recebi hoje este texto que Miguel Esteves Cardoso escreveu, não sei onde, nem quando. Penso que todos o devem ler, porque se aproxima muito da verdade, do que um nortenho é e sente.

O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal

Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.

Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país

Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.

Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.

Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.

Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.

É esta a verdade.

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino.

O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.

São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.

Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.


O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.

Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".

Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.

No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?


Escrito por Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, agosto 04, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 3

Chegou a vez da sabedoria africana.

terça-feira, agosto 03, 2010

lula pena

Há já algum tempo que ouço falar dela ou leio boas, mas curtas, referências. Tentei saber mais e troquei-lhe o nome, por raro que é. Tão raro como ela parece ser.
Descobri há dias que já publicou um disco há cinco anos (Phados) e outro agora (Troubadour). Contudo só hoje consegui ouvi-la e gostei muito. Só hoje descobri que a ouço há vários anos no disco Alma Mater de Rodrigo Leão, cantando Pasión. No primeiro vídeo um par de dançarinos magníficos (desconheço quem são) encanta-nos dançando aquele tango português.



Para que a possam conhecer a cantar fado na sua maneira especial de o fazer, deixo outro vídeo em que ela canta Fria Claridade de José Marques do Amaral e Pedro Homem de Mello e que Amália celebrizou.
Lula Pena é uma mulher muito especial. Tanto que esteve um dia para publicar um anúncio em que diria - Lula Pena, canta ao domicílio. Não o fez.
Fica o vídeo, na sua vez.

segunda-feira, agosto 02, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 2

Aqui fica mais uma migalha da sabedoria dos povos, neste caso do alemão.

sábado, julho 31, 2010

morreu antónio feio

O teatro português teve mais uma baixa de peso. António Feio morreu ontem e realiza-se hoje o seu funeral para o Cemitério dos Olivais, onde será cremado. Lutou como poucos contra o mal que o venceu, com uma imensa coragem e dignidade, tornando pública a sua doença e passando uma mensagem de luta, de força, de verdade, de paz.
A homenagem que hoje os órgãos de comunicação, os amigos, os admiradores lhe prestaram revelou bem a forma como era admirado o seu trabalho de actor, encenador e professor e a pessoa que era.
Ainda há menos de um ano assisti a um espectáculo seu no Teatro Virgínia, em Torres Novas, com o seu colega de há muitos anos, José Pedro Gomes. A doença já se manifestara e iniciara o seu caminho de destruição. Mas António Feio, corajosamente enfrentava-a. Um teatro inteiro, de pé, aplaudiu com entusiasmo e gratidão pela dádiva de humor e riso que em período cinzento e depressivo de todos, conseguiste nos dar.
A doença obrigou-te a partir, mas não conseguiu destruir a memória de ti. Palmas,
de todos nós.

sexta-feira, julho 30, 2010

canção da terra (earth song)

Este vídeo foi um dos melhores realizados por Michael Jackson. Esteve proibido nos E.U.A.. Fazia parte dos espectáculo marcado para Londres e que não chegou a realizar-se pela sua morte prematura. Merece ser divulgado. Por isso, o faço.

quinta-feira, julho 29, 2010

migalhas da sabedoria dos povos 1

Lamento não poder manter a qualidade gráfica do power point que me chegou às mãos. Contudo a qualidade do pensamento não sofre abalo e é sobretudo isso que eu vos quero aqui deixar. Convosco mais uma migalha da sabedoria dos povos.

a arte está no coração e na alma

Não deixe de ver este vídeo até ao fim. Delicie-se com o que vai ouvir e surpreenda-se no fim. Abaixo os preconceitos!

quarta-feira, julho 28, 2010

uma boa maneira de divulgar a música

Foi uma óptima e belíssima ideia esta que a AGAO (Asociación Gayarre Amigos de la Ópera de Navarra) teve de divulgar a ópera no Dia Europeu da Música. Efectuando uma actuação surpresa no Café Iruña em 7 de Maio passado, acredito que tenha despertado interesse pela ópera em muitos dos clientes que se encontravam no café. Seguramente nenhum deles esquecerá mais esse dia. A actuação esteve a cargo do Coro Premier Ensemble daquela Associação.
Tenho a certeza de que todos aqueles que virem este vídeo, para além de serem tocados pela música serão tocados pela beleza do Café Iruña que recordará a todos o nosso Café Majestic na cidade do Porto.

segunda-feira, julho 26, 2010

o belo é para admirar

Grande parte do que se pode ver no vídeo que aqui vos deixo já todos vós tereis visto algures , em quaisquer locais.
Mas, quase aposto, que há momentos aqui registados que nunca tereis visto, porque a perfeição é coisa tão rara que será difícil terem visto tal apuro de qualidade e grau de dificuldade como estes que Wu Zhengdan e Wei Baohua personificam ao som da banda sonora do filme Somewhere in Time, composta por John Barry. Esta exibição realizou-se no Festival de Circo de Mónaco.

treino e perseverança

Poucos gostarão desta música, mas não duvido que todos se rendam ao rigor e perfeição da execução. Só muito treino (nem falo em ensaio), esforço e reconhecida direcção do coreógrafo, pode conduzir a tal grau de perfeição. Pergunto-me que tempo de duração terão as articulações dos pés e joelhos destes bailarinos, submetidos a tais esforços e desgaste, mesmo descontando o acréscimo de resistência que lhes traz o treino.
O vídeo que vos deixo mostra cenas dos ensaios e uma apresentação do Georgian National Ballet, companhia fundada em 1945 por Iliko Sukhishvili e Nino Ramishvili e actualmente dirigida pelo filho do primeiro, Tengiz Sukhishvili e sua mulher Inga Tevzadze (ex primeira bailarina). Esta Companhia tem realizado espectáculos nas melhores e mais respeitadas catedrais da música, como La Scala, Metropolitan Opera, Albert Hall, Madison Square Garden, etc...

domingo, julho 25, 2010

migalhas da sabedoria dos povos

Recebi hoje um magnífico power point sobre provérbios do mundo, variado, subtil, inteligente e apoiado em belíssimas imagens e enquadramento gráfico. Espero que o autor, não identificado, não leve a mal que lhe vá publicando aqui, um a um, a sua bela recolha da sabedoria popular ou de alguém que escreveu pelo povo, mandatado pela sua reconhecida sabedoria. Lamento que haja uma pequena perda de qualidade de imagem em relação ao original. E pensem, por favor.

quinta-feira, julho 22, 2010

ricos, mas pobres


Quando este texto de Mia Couto me chegou às mãos foi minha intenção publicá-lo aqui. Não sei porque razões, não cheguei a fazê-lo. Hoje o texto voltou a visitar-me, mas vinha amputado da parte final. Como não encontro o antigo e porque penso que é um texto importante que, mesmo incompleto, deve ser dado a conhecer, publico-o hoje mesmo assim.
Se, entretanto, encontrar o texto completo, logo o substituirei. Fiquem com Mia Couto.

Pobres dos Nossos Ricos
por
Mia Couto


A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos "ricos".
Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lança-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (...)
Mia Couto




Encontrado o texto original, aqui o deixo para quem o queira ler -

Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.

Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.

Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentados com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados-às-pressas não se sentem bem na sua própria pele. Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos. Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal-explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores. Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado “a luta pelo progresso”? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.

São nacionais mas só na aparência. Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros. Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode irás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem criancas que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal. Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem. Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida. Uma parte da nossa elite está pronta para realizar esse suicídio histórico. Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento.

terça-feira, julho 20, 2010

o importante e o supérfluo

Estamos a viver uma época em que quase nada é feito ou vivido como sempre foi. As pessoas parecem sentir necessidade de introduzir qualquer coisa de novo, qualquer coisa de diferente, que possa distinguir quem o faz de forma diferente daqueles que o faziam ou fazem de forma normal. Tudo isto vem a propósito do vídeo que aqui deixo em que nos aparece a tocar piano um pianista acrobata, que parece mais interessado em que vejamos as suas capacidades acrobáticas do que as musicais. Chegamos ao fim sem saber exactamente se ele é pianista, se é acrobata, se é ambas as coisas. Por mim preferia que não fizesse acrobacias enquanto toca e que quando tocasse o fizesse melhor. Gostava, por mim, que fosse só pianista e um bom pianista e deixasse as acrobacias para os acrobatas. A música é mais para ouvir do que para ver, por isso precisa de ser boa, de soar bem e dispensa outras penas de pavão. Só aqui deixo o vídeo porque serve de exemplo às muitas outras coisas que se rodeiam de artifícios para encobrir o que interessa e mostrar o dispensável.

concerto para violino em ré menor de Sibelius (integral)

Ilya Kaler, foi o único violinista a vencer as 3 medalhas de ouro dos concursos mais prestigiados deste instrumento musical - Paganini (Génova, 1981), Sibelius (Helsínquia, 1985) e Tchaikovsky (Moscovo, 1986).
Ilya Kaler nasceu em 1963 na União Soviética.
Tocou com as mais famosas orquestras, como a de Leninegrado, Moscovo, Dresden, Montreal,
Copenhaga, Berlim, Zurique, entre outras. Deu recitais a solo na Europa, na Ásia, foi professor de violino em Rochester, New York, Bloomington e actualmente na DePaul University School of Music de Chicago.
O concerto para violino e orquestra em ré menor, de Sibelius, que vão ouvir é a gravação do concerto em Helsínquia quando ganhou o Prémio Sibelius.







segunda-feira, julho 19, 2010

quando a terra resolve mudar de sítio

Há imagens que devem ser vistas porque nos deixam a pensar, por serem inesperadas até percebermos que são reais, inexplicáveis por não encontrarmos imediatamente a razão porque sucederam. Causam respeito e medo porque nunca queremos encarar a hipótese de poderem ser possíveis. Vale a pena verem este movimento gigantesco de terras ocorrido em Itália há alguns meses.

sexta-feira, julho 16, 2010

antes rir que chorar

O mundo está uma confusão e a maioria das pessoas interroga-se como foi possível chegar a tal estado e como sair do fosso em que se caiu. Por outro lado não acredita nos políticos e não entende a forma como eles a fazem. Não lhes reconhece preparação, entrega à causa pública, liderança, preocupações sociais e encontra neles mais o que não queria ver, nem desejava que eles tivessem - interesses pessoais, pouca honestidade, desejo de poder. As pessoas andam deprimidas, tristes, revoltadas. Porque sabem que rir é um grande remédio, cartoonistas e vídeo designers esforçam-se por nos trazer algum espaço de bem estar e de nos fazer rir. O vídeo que aqui deixo é um bom exemplo disso - com o uso da técnica, enxerta humor sobre imagens reais da CNN e goza com a política, com a forma como os políticos a vêem e fazem. Riam à vontade, mas não esqueçam o desconforto,o protesto e se puderem, a acção.



Para aqueles a quem interesse, deixo aqui a letra:

Hugo Chavez: Tun tun tun tun tun tun tun tun
Seamos un tilín mejores
Y un poco menos egoístas
Tun tun tun tun tun tun tun tun
Huele a esperanza

Fredrik Reinfeldt 1.ºMinistro da Suécia: In this common endeavor
Huele a esperanza

Gordon Brown: All of us work together

Hugo Chavez: Tun tun tun tun tun tun tun tun

BO: We must embrace a new era of engagement
Because the time has come

UN Choir: To smell the hope!
Gordon Brown: For growth to be sustained
It has to be shared

UN Choir: ohhh, We can smell the hope!

BO: The time has come

UN Choir: To smell a better world!!

Fredrik Reinfeldt: A better world to live in for future generations everywhere.

Adam Grayson: Don't get sick
That's right, don't get sick
If you have insurance, don't get sick
If you don't have insurance, don't get sick
If you're sick, don't get sick
Just don't get sick
That's the Republicans' health care plan

CC: He has a chart

Adam Grayson: An angry chart

CC: A chart that helps us learn!

Adam Grayson: ooh ooh ah ah
If you get sick in America, die quickly
That's right--the Republicans want you to die quickly if you get sick
Adam Grayson: I agree!

CC: He agrees!

Adam Grayson: Angrily!

CC: Cuz he's angry!

Keith Olbermann: Afford to live?
Are we at that point?
Are we so heartless?
How can we not be united against death?

Us: My BFF Gilgamesh knows eternal life's an impossible quest
The resources exist for your father and mine to get the same treatment
Yeah, we're in agreement
But first we gotta lay down some
All: High speed rail
Us: Bail out some
All: Banks
Us: Save your daddy with the leftover change

Keith Olberman: How can we be so heartless?
Us: We're nihilists!
Keith Olbermann: How can we be so heeeeaaartless?
Us: We're tryna die quick!
Keith Olbermann: What more obvious role could government have
Than the defense of the life of each citizen?

Keith Olbermann: How is the Nobel Peace Prize decided?

Bob Schieffer: Well, uh, that is what people were asking all day today

Minister Bølverk: We mix a secret potion,
And roll the ancient dice,
Then hire a focus group
And have a human sacrifice.

Keith Olbermann: A lot of people are asking today why do you think the committee elected President Obama?

Minister Bølverk: I believe a prize for peace should go to the biggest wuss.

Bob Schieffer: They were giving Obama a prize for not being George Bush.

Choir: They can smell the hope!!

KC: Take a deep breath!

Choir: And hope a smelly world!

Keith Olbermann: A deep breath!

Friedrich Reinfeldt: A better world to live in for future generations everywhere

quinta-feira, julho 15, 2010

o vinho e o mosto - um exercício de intertextualidade 31


116.
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Assírio e Alvim, 1998)


Se é verdade que os escritores escrevem sempre o mesmo livro e os romances que escrevem têm sempre qualquer coisa de autobiográfico, talvez possamos concluir que eles não escrevem senão a vida, seja ela a que viveram, a que quiseram viver ou a que imaginaram. E se for assim, não será como Pessoa dizia que escrever é esquecer, mas sim que escrever é lembrar. E a literatura não será nunca a maneira mais agradável de ignorar a vida, mas a melhor forma de a lembrar.
Diz Pessoa que a literatura simula a vida. E o que fazemos nós dela, quando a vivemos? Quando simulamos mais? Quando a vivemos ou quando a escrevemos? A literatura tem uma grande vantagem – podemos simular o que queremos e não simular a realidade que nos enfrenta.


CVR