sábado, junho 04, 2011

para memória futura


Peço a todos que aqui venham que não deixem de ler o artigo que Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso de ontem, dia 3 de Junho de 2011, sob o título «Já se disse tudo» e que de seguida transcrevo, na íntegra.
De enorme lucidez, engloba todos os pontos que não podem deixar de ser cumpridos, seja por quem for que nos venha a governar, para que Portugal se salve, mantenha a sua soberania e perdure em nós o orgulho de ser portugueses.


"Já se disse tudo, mas, como ninguém ouviu, vou dizer outra vez"


«1. Vamos aprender agora, de vez e dolorosamente, que nenhum país pode viver para sempre a crédito: chega o dia em que é preciso pagar a conta.
2. Apesar de todas as lamentações, é forçoso reconhecer que Portugal evoluiu de uma forma incrível nos últimos trinta anos: talvez tenha aumentado o fosso entre ricos e pobres, mas a percentagem de pobres é incomparavelmente menor do que era na geração anterior e infinitamente menor do que era há cinquenta anos.
3. Mas não somos um país rico - nem em território nem em riquezas naturais. Nestes trinta anos, fomos muito ajudados para sairmos da situação de subdesenvolvimento em que estávamos. Mas agora é connosco: há outros que precisam ou merecem mais do que nós. Agora, seremos o que conseguirmos fazer com o nosso trabalho, a nossa qualificação, a nossa imaginação e o nosso juízo.
4. Não podemos aceitar que a sobrevivência da economia e das empresas dependa do favor do Estado, do tráfico de influências político, dos baixos salários ou de uma mão-de-obra desqualificada.
5. Mas não podemos aceitar também que a lei proteja os preguiçosos, os trabalhadores das falsas "baixas", que proteja os que têm emprego garantido para a vida e em nada se esforçam contra os que querem um lugar no mercado de trabalho e não o encontram.
6. Não podemos aceitar nem uma juventude condenada ao desemprego ou à imigração nem uma juventude habituada à ociosidade, ao consumismo e à exigência de todas as facilidades.
7. Não podemos pactuar com uma sociedade onde todos reclamam direitos e quase nenhuns reconhecem deveres para com a comunidade. Não podemos pactuar com os maus cidadãos, com os que roubam na contratação com o Estado, que fogem ao fisco, que vivem em off-shores ou nos cafés e blogues a dizer mal de tudo e de todos.
8. Não podemos consentir os médicos que, no horário público, estão a atender clientes privados, que assinam as falsas baixas ou que receitam conforme as benesses dos laboratórios.
9, Não podemos tolerar que os professores que não prestam, emboscados atrás de sindicatos cujos dirigentes há muito não sabem o que é ser professor, queiram ter os mesmos direitos e regalias que aqueles que se esforçam, que têm orgulho em ensinar e que se preocupam com o futuro dos seus alunos.
10. Não podemos deixar que a escola pública e gratuita, sirva para substituir pais que não educam e aturar alunos que não estudam, meninos mimados e mal-educados a quem o sistema facilita a vida com exames de fantochada, em benefício das estatísticas.
11. Não podemos fechar mais os olhos ao papel funesto das sociedades de advocacia de tráfico de influências, que cativam a decisão política e ajudam os governos a assinar contratos ruinosos para os contribuintes.
12. Não podemos tolerar mais a promiscuidade de negócios entre o que é público e o que é privado, com os seus protagonistas variando de campo conforme as circunstâncias e as oportunidades.
13. Não podemos continuar a sustentar mais Fundações privadas com dinheiros e bens públicos, falsos mecenas do favor político.
14. Não podemos manter 800 institutos e empresas públicas e municipais, reproduzindo e multiplicando tarefas, lugares e despesas que cabem à Administração.
15. Não temos de sustentar todos e cada um dos "agentes culturais" ou autodesignados como tais, que se acham no sagrado direito de verem sempre pago pelos contribuintes o seu imenso talento.
16. Não podemos pagar mais rotundas e chafarizes e ornamentos municipais inúteis para aos senhores autarcas mostrarem obra e ganharem eleições.
17. Não podemos deixar que as autarquias se sustentem através dos impostos imobiliários, premiando quem mais constrói e quem mais destrói.
18. Não podemos tolerar mais essa coisa infame que é o despesismo irresponsável do governo da Madeira: se querem ser independentes, que o sejam a sério!
19. Não podemos continuar a sacrificar todo o país, a sua paisagem, a sua sustentabilidade, ao lóbi da construção e do turismo massificado, que já só é rentável com os projectos PIN e a destruição do que resta de zonas protegidas.
20. Não podemos continuar a apostar na construção civil e nas obras públicas como fonte privilegiada de desenvolvimento económico, quando já somos o país da Europa com maior índice de habitação própria e maior número de quilómetros de auto-estrada por habitante.
21. Não podemos continuar a pagar para abandonar a agricultura, a desertificar o interior, a concentrar a população em megacentros urbanos invivíveis, que são território privilegiado para o crime, o abandono escolar, a miséria e a desumanização.
22. Não podemos entregar os melhores terrenos agrícolas à construção, ao turismo, aos eucaliptos e aos golfes, e depois irmos aos supermercados comprar fruta de Israel, legumes de Espanha e carne da Argentina. Em trinta anos, e com todas as ajudas comunitárias, o nosso défice alimentar aumentou 30%. Agora, pagamos.
23. Não podemos sustentar umas Forças Armadas que querem sempre os últimos gritos da tecnologia militar (opinião dos americanos), mas que têm mais almirantes e generais por marinheiros e soldados do que qualquer força militar comparável.
24. Não podemos pagar um Serviço Nacional de Saúde que se presta a toda a espécie de abusos de profissionais, de fornecedores e também de utentes. "Tendencialmente gratuito" não pode ser sinónimo de usar e abusar, como se, no fim, não houvesse alguém a ter de pagar.
25. Não podemos, financeiramente, ter um país com 70% de assistidos com dinheiros públicos.
26. Temos de ter o "Estado social" que podemos sustentar e não aquele que uns exigem e outros prometem, sem pensar nas gerações que se seguem. Devemos ajudar, não todos os que reclamam, mas os que não têm defesa, não têm alternativas e não têm oportunidades.
27. Não podemos consentir mais Parcerias Público Privadas que são contratos leoninos à custa do Estado, e temos de rever, se necessário unilateralmente, as existentes.
28. Não podemos continuar a permitir que o Estado continue cativo do poder dos lóbis e temos de fazer legislação para que eles não continuem a condicionar todas as mudanças e reformas recorrendo ao expediente das providências cautelares.
29. Não podemos mais tolerar uma Justiça que há muito esqueceu que está ao serviço dos cidadãos e não de si própria. Temos de simplificar, desformalizar e dessacralizar a Justiça, torná-la acessível, razoável em tudo e inteligível.
30. Temos de terminar com a independência e irresponsabilidade funcional do Ministério Público e colocá-lo ao serviço do país, através da política de Justiça do governo eleito e sob supervisão da Assembleia da República.
31. Na ditadura do Estado Novo, o regime criou as corporações para melhor as controlar. Na democracia, são as corporações que dominam e trazem cativo o Estado. Não são os magistrados que devem determinar a política de Justiça, ou os médicos a de Saúde, ou os professores a de Educação: são os governos eleitos, que respondem pelas políticas adoptadas.
32. Temos de ter leis que criminalizem e ponham fim à partidarização do aparelho do Estado e que impeçam a confusão entre o desempenho de funções políticas e o serviço de interesses privados.
33. Mas não podemos exigir qualidade na política se aceitamos pagar a um deputado ou a um ministro um terço ou metade do que ganha um gestor público, um general ou um juiz do Supremo.
34. Temos de aceitar em tudo uma política que privilegie o trabalho e o esforço contra a preguiça e a batota; o risco e a inovação contra a segurança e a protecção dos dinheiros públicos; o mérito contra a mediocridade; a independência contra a "cunha" e o favor; a poupança contra a ostentação; a luta por um futuro melhor contra a comodidade dos "direitos adquiridos".
Este é o programa de governo que eu desejo para 6 de Junho.»



E EU TAMBÉM

quinta-feira, junho 02, 2011

politiquinha

Tem sucedido com alguma frequência deparar-me com textos escritos e assinados por cronistas com quem estou em desacordo, normalmente, mas que uma vez ou outra me surpreendem pela lucidez de chamarem os bois pelos nomes e defenderem opiniões ao arrepio da massa pouco crítica que pensa exactamente o contrário do que eles escreveram. Porque considero esses casos excepções em relação àquilo que normalmente defendem, poderia quase abusivamente chamar-lhes cronistas bissextos, como chamava Manuel Bandeira aos escritores que poucas vezes ou uma só vez tinham escrito algo que fazia deles, realmente, escritores.
Vem isto a propósito da crónica de Henrique Raposo no Expresso de 28 de Maio passado que intitulou politiquinha. Embora a maior parte das vezes discorde das suas opiniões, não deixo, contudo, de ser seu habitual leitor. E, como sempre, seja com quem for, seja sobre o que for, ou gosto ou não gosto. Não sou propriamente de clubes, mas de quem me parece ter razão e fazer bem o que faz. São estas as razões que me levam a deixar aqui essa crónica, pois pode suceder que alguém que a não leu a possa ler agora.


«A culpa não é só dos políticos. A culpa não é só de Sócrates. A culpa também é da elite que filtra o ar mediático. A culpa também é dos Marcelos desta terra. Os Marcelos Rebelos de Sousa têm sido os guardiães do statu quo que nos conduziu à bancarrota. Se Sócrates é culpado pela ação, Marcelo Rebelo de Sousa é culpado pela inação. Porquê? Porque o senhor-professor-doutor-marcelo-rebelo-de-sousa é o máximo representante de uma forma tipicamente portuguesa de estar na política, a saber: o tuga consegue falar de política de forma apolítica. Sim, digo bem, apolítica. Marcelo não defende valores ou causas políticas. E, quando defende, é tão vago e impreciso como a licenciatura domingueira de Sócrates. É por isso que, após décadas de comentários, uma pergunta fica sem resposta: Marcelo acredita em quê? Marcelo representa o quê? Quando fizerem a história desta III República, os historiadores não vão encontrar nada de substancial nos milhões de minutos que Marcelo já gravou. Este homem falou, falou e falou, mas não disse nada, não gravou nada na pedra. Alguém se lembra de uma convicção profunda de Marcelo?
Ora, quem não tem uma visão normativa acaba por reduzir a política à politiquinha dos truques e tricas. E Marcelo é isso mesmo. Marcelo é o homem dos esquemas (ele diz que são "cenários"). É o Gabriel Alves da politiquice, sempre entretido num treco-lareco tático que transforma a política num jogo de futebol, onde só existem erros táticos, e não erros de substância. E o pior é que este vazio marcelista é o espelho da cultura (a)política que domina a pátria. Marcelo é a norma, e não a exceção. Em Portugal, a política é transformada - de forma marcelista - num constante joguinho futeboleiro entre partidos. Há a liga de futebol de Rui Santos e depois há a liga politiqueira de Marcelo Rebelo de Sousa. E, atenção, as semanas políticas são mesmo vistas como jornadas. Cada semana é uma entidade separada da anterior, porque as notas da semana x, ora essa, não podem ser iguais às notas da semana y. O país é assim cortado em 52 pedacinhos sem ligação entre si. Como é óbvio, no meio deste carrossel, os problemas estruturais não são analisados. Alguém se lembra de ver Marcelo a assumir um compromisso claro com um conjunto de reformas para o país? Eu não. Marcelo nunca se comprometeu a fundo com projetos ideológicos e políticos (o que é grave para um pensador. .. político). E, nas poucas vezes em que se distraiu e começou a falar mesmo de política, Marcelo criticou sempre as mudanças "neoliberais", as tais que a troika acabou por impor. Agora, ouvimos muita gente dizer "ai, foi preciso um estrangeiro para colocar os portugueses a falar do que interessa". Pois, o debate sobre as reformas foi sempre bloqueado por Marcelo & Cia. A nossa massa crítica de topo, liderada por Marcelo, quis ser uma mera gestora do pântano situacionista, e desistiu de pensar a mudança. Alguém se recorda de uma convicção profunda de Marcelo?

O prof. Marcelo, preclaro oráculo da nação, não tem as mãos sujas como Sócrates, mas esta crise também tem a sua assinatura. Na última década, o nosso espaço público não discutiu ideias. Discutiu táticas e timings. A culpa disto não é do povo, é dos Marcelos Rebelos de Sousa. Alguém se lembra de uma convicção profunda de Marcelo?»

domingo, maio 29, 2011

o triunfo dos agiotas - uma história de gangsters


Por estranho que nos possa parecer o artigo que aqui vos deixo, da autoria de Alfredo Barroso, foi recusado para publicação como o próprio autor diz nas palavras que a seguir transcrevo -
«Aqui vai o artigo que escrevi sobre a crise - «O TRIUNFO DOS AGIOTAS - UMA HISTÓRIA DE GANGSTERS - que o jornal «i» me tinha prometido publicar, em princípio, ontem (2ª feira), mas afinal não publicou nem ontem nem hoje - nem me deu, até agora, qualquer explicação.
Se tiverem a paciência de o ler, perceberão que era agora,com a chegada do FMI a Portugal, que fazia sentido publicar o artigo. Lamento ter andado a chatear alguns amigos, via telemóvel, incitando-os a comprarem o «i» - afinal em vão. Estou envergonhado. ALFREDO BARROSO»


«1. «DUAS NAÇÕES». Benjamin Disraeli (1804-1881), aliás Lord Beaconsfield (desde 1876), foi um dos políticos ingleses mais notáveis do século XIX. Conservador e reformador com preocupações sociais, chegou a advogar uma aliança entre a aristocracia e a classe trabalhadora, sugerindo que os aristocratas deviam usar o seu poder para ajudar a proteger os mais pobres. Além de ter sido Primeiro Ministro da Rainha Vitória (e do Império Britânico) durante a década de 1870, foi um escritor popular que expressou em alguns dos seus romances as suas preocupações em relação à pobreza e à injustiça do sistema parlamentar, que ele ajudou a reformar com o apoio do Partido Liberal (já chefiado por William Gladstone, que viria a suceder-lhe como Primeiro Ministro). Num dos seus romances mais conhecidos, Sybil (1844), Disraeli descreve uma Inglaterra dividida em «duas nações», a dos ricos e a dos pobres, entre as quais «não há nem relacionamento nem simpatia». Cenário que se repetiria no século XX, com algumas adaptações, mas a mesma crueldade, durante os Governos de Margaret Thatcher, e que ameaça repetir-se no século XXI com o Governo de David Cameron.
Tal como essas «duas nações» inglesas de costas voltadas uma para a outra, também hoje se poderá falar de «duas Américas», de «duas Europas» ou, mesmo, de «duas nações» de costas voltadas em vários países da União Europeia. Estamos, de facto, a viver uma crise profunda e a assistir a uma degradação inquietante da democracia representativa. Há uma distância cada vez maior entre a classe política e os cidadãos, entre o povo e os seus representantes, entre a minoria dos muito ricos e o resto da sociedade, com uma classe média em erosão acentuada que vai engrossando as fileiras dos pobres e desempregados. O partido dos abstencionistas é cada vez maior e a representação política é cada vez mais a imagem inversa do país real.
Em sondagem recentemente publicada por vários jornais europeus, constata-se que aumentou significativamente a desconfiança dos cidadãos europeus na capacidade dos Governos e respectivas oposições para resolver os problemas económicos. Cresce a sensação de que os políticos nacionais já não têm autonomia para tomar as decisões indispensáveis para combater eficazmente a crise nos seus países, tal como a noção de que esses políticos foram substituídos pelos novos poderes fácticos: mercados e especuladores financeiros, bancos e agências de rating, tecnocratas e políticos escolhidos em instâncias superiores, que tomam decisões além-fronteiras encerrados em «torres de marfim» (BCE, FED, Wall Street, City, Bruxelas, etc.).
Alguém lembrava recentemente uma famosa frase de um dos actores da Revolução Francesa, o abade Emmanuel-Joseph Sieyès: «O poder vem de cima, a confiança vem de baixo». Quando o topo e a base se afastam entre si excessivamente, o poder vai perdendo a autoridade à medida que a confiança se degrada. E vai tomando forma, entre o povo, o sentimento de que existem «duas nações» ou «dois países»: um país de cima, constituído pelos muito ricos, por uma minoria de pessoas moldadas na mesma matriz, que obedecem aos mesmos códigos e vivem encerradas na mesma «torre de marfim»; e um país de baixo, constituído pela grande maioria abandonada à sua sorte, esquecida pelos que tudo têm, pelas elites, vítima de uma espécie de desprezo de classe. Como salienta o filósofo esloveno Slavoj Zizek, «o capitalismo actual move-se segundo uma lógica de apartheid, em que uns poucos se sentem com direito a tudo e a grande maioria é constituída por excluídos». Sendo certo que, como ele também diz, «os capitalistas actuais são fanáticos religiosos que defendem a todo o custo os seus lucros, mesmo que causem a ruína de milhões de pessoas». É a lógica neoliberal.

2. NEOLIBERALISMO. Não se trata de uma fantasia imaginada por esquerdistas. Como nos explica David Harvey, no seu livro O enigma do capital e as crises do capitalismo (Editorial Bizâncio, 2011), o termo neoliberalismo «refere-se a um projecto de classe que foi tomando forma durante a crise da década de 1970». «Mascarado por muita retórica sobre liberdade individual, autonomia, responsabilidade pessoal e as virtudes da privatização, do mercado livre e do comércio livre, o termo neoliberalismo legitimou políticas draconianas concebidas para restaurar e consolidar o poder da classe capitalista. Projecto que tem sido bem sucedido, a julgar pela incrível concentração de riqueza e poder que se verifica em todos os países que enveredaram pela via neoliberal. E não há provas de que esteja morto» – ao contrário do que pensam os que não se cansam de falar de um «novo paradigma», mas não conseguem sequer defini-lo ou explicá-lo.
Num texto publicado em 2000, A mão invisível dos poderosos, Pierre Bourdieu dizia que «a visão neoliberal é difícil de combater com eficácia porque, sendo conservadora, apresenta-se como progressista e pode remeter para o lado do conservadorismo, e até do arcaísmo, todas as críticas que lhe são dirigidas, nomeadamente aquelas que tomam por alvo a destruição das conquistas sociais do passado». Todavia, é um facto que «o neoliberalismo visa destruir o Estado social, a mão esquerda do Estado (que é fácil mostrar ser o melhor garante dos interesses dos dominados, desprovidos de recursos culturais e económicos, mulheres, etnias estigmatizadas, etc.)». Para os que praticam esta doutrina, é a Economia que está «no centro da vida» – e não o Homem. E acham que o mercado não se dá bem com a res publica.
De facto, o neoliberalismo está na base daquilo que alguns designam por «hipercapitalismo» e, evidentemente, na base da «financeirização da economia». A finança - que nunca devia ter deixado de ser um meio, um instrumento, uma alavanca - tornou-se um fim em si mesma. O dinheiro é rei e o homem é súbdito, a especulação financeira não conhece limites nem regras, o lucro imediato é o Santo Graal. Pior: a dívida é consubstancial, é indispensável ao bom funcionamento do sistema. A ganância e o egoísmo estão na essência do hipercapitalismo. São os agiotas, e não os políticos, que governam o mundo e estão a dar cabo da democracia representativa.
O hipercapitalismo, é bom lembrar, nasceu nos EUA e em Inglaterra durante a década de 1980, nos anos Reagan-Thatcher (e também teve como fiéis executores, através de férreas ditaduras militares, o general chileno Augusto Pinochet, assim como os generais brasileiros e argentinos, todos adeptos da doutrina neoliberal elaborada por Milton Friedman, acolitado pelos seus «Chicago boys»). Foi nessa altura que a progressão dos salários começou a ser bloqueada, o desemprego em massa gerou a precariedade e esta foi instituída em regra, ao mesmo tempo que os accionistas passaram a ser privilegiados em detrimento do factor trabalho. A acentuada diminuição da parte dos salários dos trabalhadores na redistribuição das riquezas, que partiu do mundo anglo-saxónico, alastrou em seguida a todos os países desenvolvidos e foi reforçada pela irrupção da China e da sua mão-de-obra barata. Só que, para a máquina continuar a funcionar, era preciso que os assalariados consumissem. Para tanto, urgia estimulá-los a endividar-se, e a sobreendividar-se, enquanto as desigualdades se iam acentuando. «Você não ganha o suficiente? Peça emprestado, consuma, sobretudo produtos importados baratos, e o mundo continuará a girar». O hipercapitalismo tem, estruturalmente, necessidade de um endividamento sempre crescente para prosperar. E as vítimas tanto são os indivíduos como os Estados.
Desregulamentação financeira, baixos salários, aumento do trabalho precário, feminização crescente da mão-de-obra (e da pobreza) a nível mundial, acesso do capital às reservas de mão-de-obra barata em todo o mundo – são algumas das características essenciais da doutrina neoliberal, que estão na base da famosa globalização e da subordinação dos governos às exigências do mercado. Ao Estado passou a estar reservada uma função essencial: a de usar o seu poder para proteger as instituições financeiras a qualquer preço (em contradição, aliás, com o não intervencionismo que é preconizado pela doutrina neoliberal). No fundo, trata-se - como salienta David Harvey «com toda a crueza» - de «privatizar os lucros e socializar os riscos», de «salvar os bancos e extorquir ao povo». A pretexto de não poder haver um risco sistémico, «os bancos comportam-se mal porque não têm de responsabilizar-se pelas consequências negativas dos seus comportamentos de alto risco». Como se viu nos EUA e no Reino Unido, a partir da brutal crise das hipotecas subprime, em 2008. E como se viu em Portugal, no caso absolutamente escandaloso do BPN. Mas há muitos mais exemplos.
É verdade o que diz Jean-Claude Trichet, presidente do BCE: «Os bancos teriam todos desaparecido se nós não os tivéssemos salvo». Mas o paradoxo é evidente: os Estados endividaram-se para evitar o colapso dos bancos, mas agora são os bancos que impõem aos Governos a adopção de políticas de austeridade brutais, que podem conduzir ao colapso dos Povos e dos Estados. Para tanto, socorrem-se das já famosas agências de rating, que «espancam» os Governos até estes atirarem «a toalha ao chão».

3. «GANGSTERISMO». Parece-me ser a expressão mais adequada para descrever a actividade das agências privadas de qualificação de riscos, mais conhecidas como agências de rating. Trabalham para quem lhes paga, sobretudo os bancos, proporcionando aos especuladores financeiros, e aos investidores oportunistas de alto calibre, juros sempre mais elevados para os seus empréstimos. Para tanto, «sovam» os Governos de vários países em sérias dificuldades económicas e financeiras, até eles não aguentarem mais «espancamentos». E se continuarem a resistir, apontam-lhes uma «pistola» à cabeça e ameaçam: «Ou cedes ou morres de bancarrota»! As agências de rating são, assim, uma espécie de gangsters ao serviço da agiotagem.
Apesar da veneração que suscitam entre os economistas e jornalistas especializados ao serviço do capital financeiro, as agências de rating não são entidades de direito divino. De facto, são empresas privadas ao serviço de interesses privados, que acumulam já, ao longo da sua história, muitos casos de manifesta incompetência, escandaloso favoritismo e oportunismo irresponsável. Além disso, não são avaliadas nem fiscalizadas por qualquer entidade reguladora e, ainda por cima, funcionam praticamente em regime de oligopólio: apenas três agências - Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch - repartem entre si mais de 90 % do mercado e as duas primeiras quase 80 %. Para já nem falar dos óbvios conflitos de interesses em que incorrem.
O actual Presidente da República, Cavaco Silva, gostaria de impor um silêncio patriótico aos políticos e comentadores (infelizmente, poucos!) que criticam as agências de rating. Todavia, abundam os casos em que elas contribuíram para agravar as crises. Vejamos dois exemplos recentes.
Desde logo, o caso do magnata Bernard Maddoff, sem dúvida um dos maiores vigaristas do século, que exibia, no cartão de apresentação da sua entidade financeira, um rutilante triplo A (AAA), que é a classificação positiva máxima atribuída pelas agências de rating. Foi parar à cadeia.
Depois, o caso das famosas hipotecas subprime e dos tão sofisticados como «tóxicos» produtos financeiros que ajudaram a fabricar, que incluíam nomeadamente títulos de dívida (obrigações) do Lehman Brothers. Todos eles beneficiaram também de um rutilante triplo A. Mas foi precisamente a falência do Lehman Brothers que desencadeou a gigantesca crise financeira de 2008, nos EUA, que depois alastrou à Europa, e cujas consequências ainda hoje estamos a sofrer. Vale a pena lembrar aqui uma passagem do relatório final da Comissão de Investigação do Congresso dos EUA que foi constituída para apurar as causas da grave crise financeira. Reza assim:
«Concluímos que os erros cometidos pelas agências de qualificação de riscos (agências de rating) foram engrenagens essenciais na maquinaria de destruição financeira. As três agências foram ferramentas chave do caos financeiro. Os valores relacionados com hipotecas, no coração da crise, não se teriam vendido sem o selo de aprovação das agências. Os investidores confiaram nelas, na maioria dos casos cegamente. (…) Esta crise não teria podido ocorrer sem as agências de rating. As suas qualificações (máximas) ajudaram o mercado a disparar, e quando tiveram de baixá-las (até ao nível de «lixo»), em 2007 e 2008, causaram enormes estragos».
O relatório salienta que a Moody’s - que em 2006 foi uma autêntica fábrica de atribuição de classificações máximas a títulos hipotecários - deve ser considerada como um case study sobre as más práticas que provocaram a crise. De facto, entre os anos 2000 e 2007, a Moody’s considerou como de máxima solvência (AAA) nada menos do que 45.000 valores relativos a hipotecas. O relatório refere a existência de modelos de cálculo desfasados, as pressões exercidas por empresas financeiras e a ânsia de ganhar quota de mercado que se sobrepôs à qualidade das qualificações atribuídas.
Mas, apesar destas conclusões devastadoras para a credibilidade das agências de rating, estas não hesitaram em aumentar os salários e prémios dos seus executivos, já depois de conhecido o relatório. O caso da Moody’s foi o mais escandaloso. O seu presidente executivo, Raymond Mc Daniel, recebeu em 2010 um aumento de 69 % do seu salário anual, que trepou até aos 9,15 milhões de dólares (cerca de 6,4 milhões de euros). Um motivo invocado, entre outros, foi o facto de ter ajudado a «restaurar a confiança (!) nas qualificações atribuídas pela Moody’s Investors Service, ao elevar o conhecimento sobre o papel e a função dessas qualificações».
Raymond Mc Daniel foi chamado a testemunhar perante a Comissão de Inquérito acompanhado pelo principal accionista da Moody’s, Warren Buffet. Mas este lavou as mãos, como Pilatos, declarando que não fazia a menor ideia sobre a gestão da agência, e que nunca lá tinha posto os pés. Explicou, no entanto, que tinha investido na empresa porque o negócio das agências de rating era «um duopólio natural, o que lhe dava um incrível poder sobre os preços»! Na transcrição do depoimento de Raymond Mc Daniel perante a Comissão de Inquérito do Congresso também surge uma declaração surpreendente. Disse ele: «Os investidores não deveriam confiar nas qualificações (das agências) para comprar, vender ou manter valores»! Não foi ingenuidade. Foi insolência e hipocrisia. Infelizmente, em relação a Portugal, ninguém seguiu o conselho deste senhor Raimundo…

4. PORTUGAL. Cumpriu-se o fado. O destino marca a hora. Como na famosa canção de Tony de Matos: «Se o destino nos condena / Não vale a pena / Lutarmos mais». Portugal foi «sovado» pelas agências de rating até à exaustão. Estava marcado para «morrer de bancarrota» se não cedesse às exigências do capital financeiro. No dia 5 de Abril de 2011, o «Jornal de Negócios» noticiava: «Bancos cortam crédito ao Estado». E explicava: «Os banqueiros reuniram-se ontem no Banco de Portugal. Não vão financiar mais o Estado. Querem um pedido de ajuda intercalar de 15 mil milhões – e já! O Governo tem de pedir e o PSD e o PP têm de subscrever».
«E já!». Perceberam? Foi assim, sem qualquer pudor, que o ultimato foi anunciado, que a «pistola» foi apontada à cabeça da vítima que já estava na fila de espera para ser «garrotada» pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Cerca de 24 horas depois, já tínhamos direito a ouvir o sr. Olli Rehn (criatura finlandesa em quem não votámos e que fala inglês aos soluços) a explicar à Europa e ao Mundo o que é bom para Portugal - e não necessariamente para a grande maioria dos portugueses. Olli Rehn é comissário europeu para os Assuntos Económicos e Monetários. Trabalha, portanto, sob a direcção (!?) do sr. Durão Barroso, ex-presidente do PSD e ex-primeiro-ministro, que foi «sovado» pelo PS (de Ferro Rodrigues) nas eleições europeias de 2004 e que, a seguir, abandonou o Governo que chefiava «com o rabo entre as pernas», pouco depois de ter prometido ao país que não o faria, para ir ocupar em Bruxelas o cargo de presidente da Comissão Europeia, que lhe foi oferecido pela direita.
Como escreveu Pierre Bourdieu há onze anos: «Temos uma Europa dos bancos e dos banqueiros, uma Europa das empresas e dos patrões, uma Europa das polícias e dos polícias, teremos em breve uma Europa das forças armadas e dos militares» (esta está quase!). Infelizmente, ainda não existe um movimento social europeu unificado, capaz de reunir diferentes movimentos, sindicatos e associações de diferentes naturezas, e capaz de resistir eficazmente às forças dominantes, a essa «Europa que se constrói em torno dos poderes e dos poderosos e que é tão pouco europeia».
Ao contrário do que algumas vozes bem intencionadas andaram a proclamar, a gravíssima crise económica e financeira desencadeada pelas más práticas do hipercapitalismo não deu origem a um «novo paradigma». Paralisada (e neutralizada) pelas sucessivas concessões que fez à doutrina neoliberal, a social-democracia europeia assiste, política e ideologicamente desarmada, ao que alguns já designam como «nova contra-revolução social thatchero-reaganiana». Até onde poderá ela ir? Nesta verdadeira guerra dos «mercados» contra os Estados, foi manifesta a incapacidade dos europeus para definir uma estratégia progressista comum para enfrentar a crise. Isso foi perfeitamente percebido pelos «mercados», que decidiram aproveitar essa sua vantagem para atacar frontalmente os Estados mais frágeis, com o objectivo de desregular ainda mais os mercados internos e de exigir mais privatizações. E é exactamente isso que está a acontecer aqui e agora.
A estratégia europeia de saída da crise mundial é clara: desregulação dos mercados de trabalho, deflação salarial, desemprego estrutural, menor protecção no emprego, restrições orçamentais, privatizações em massa, etc. É uma estratégia aparentemente paradoxal, que torna ainda mais vorazes os «mercados», que exigem sempre tudo e nunca se sentem saciados. Mas é também uma estratégia fundamentalmente recessiva, que pode provocar um aumento significativo das reivindicações sociais e políticas. «Neste braço-de-ferro, o estatuto do euro é um teste definitivo», dizem os entendidos. E a questão está em saber se «será, finalmente, posto ao serviço da promoção de um modelo social sustentável» ou «irá tornar-se o vector da destruição do que resta do Estado de bem-estar europeu». Os exemplos da Grécia, da Irlanda e de Portugal não auguram nada de bom para o Estado social.
Como já se noticia, a «ajuda» financeira do FEEF e do FMI servirá, essencialmente, para Portugal «pagar o que deve aos credores, sobretudo bancos estrangeiros que, ao longo de décadas, foram fornecendo fundos aos bancos nacionais e que estes depois canalizavam para a compra de casas, carros e créditos às empresas» («DN», 08/04/2011). Para além de cortes em salários, pensões, subsídios de desemprego e outras prestações sociais, fala-se em «reformas mais profundas do mercado de trabalho, menor protecção no emprego, maior abertura da Educação e da Saúde aos privados, subida dos impostos». (O dr. Passos Coelho deve estar radiante!). Também se diz que «mal as condições melhorem, o Estado deve começar a sair (privatizar) das empresas de transportes. Casos da ANA, TAP, CP, Refer, Carris, Metro de Lisboa e do Porto». Não haverá mais nada para privatizar? Claro que há! Um Estado bem desmantelado dá para enriquecer vários oligarcas.
Enfim, temos este país pronto a morrer da cura. Graças ao «trabalho sujo» das agências de rating (os «gangsters» desta história) ao serviço dos «mercados» (os agiotas). Mas também graças aos «bons ofícios» do actual Presidente da República, à «ansiedade do pote» de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, e ao extraordinário «sentido de oportunidade» de Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã. Sem esquecer as evidentes responsabilidades de José Sócrates, que não resistiu às sucessivas concessões que foi fazendo ao «blairismo» e ao «neo-centrismo», ou seja, à doutrina neoliberal.
Observação final. Várias são as vozes que afirmam que o FMI não é nenhum papão e não mete medo a ninguém, porque já cá esteve no século passado e tudo correu às mil maravilhas. É quase verdade, mas esquecem-se de um pequeno pormenor que faz toda a diferença: é que, quando o país sair exausto e exangue dos próximos anos de brutal austeridade, não haverá mais uma CEE à nossa espera para «inundar» Portugal com as «catadupas» de fundos comunitários que fizeram a felicidade do cavaquismo!

Lisboa, 9 de Abril de 2011 ALFREDO BARROSO»

domingo, maio 08, 2011

o humor é uma arma


O humor é uma grande arma. O Almanaque Bertrand de 1908 publicava este cartoon de que desconheço a autoria. É inteligente e eficaz. A crise era tão grande que o povo receia mais que lhe peçam uma moedinha, do que usem a espada ou o casse tête para dispersar a multidão. O humor é uma arma eficaz.

sábado, maio 07, 2011

orgulho de nascer em portugal

Todos os portugueses devem ver com atenção este magnífico vídeo feito com inteligência, cultura, eficácia e orgulho. Vê-lo alimenta-nos a alma portuguesa e recompõe-nos da depressão em que andamos. Vou enviá-lo a todos os meus amigos espalhados pelo mundo. Façam o mesmo, os que puderem.

segunda-feira, abril 25, 2011

bing maps

Mais uma conferência TED proferida por Blaise Aguera Y Arcas, sobre o avanço da tecnologia e a perda da liberdade individual. O Big Brother quase no seu melhor. Vale a pena ver. Tem legendagem em português do Brasil ou em português de Portugal. Veja em full screen.

quinta-feira, abril 21, 2011

dois em um

Um bom truque de cartas, acompanhado por uma bela canção de Sting.

segunda-feira, abril 18, 2011

um porto especial

São, felizmente, muitos e variados os vídeos que nos aparecem mostrando o Porto antigo, moderno, assim-assim. O típico e o sofisticado. O bonito e o armado ao pincarelho! Este que hoje aqui vos deixo é apenas (?) poético, bonito e feito com inteligência - é um 'filmedamente'. Gostei de o ver e espero que vocês também gostem.

PORTO with a SONY PMW-F3 from FilmesDaMente on Vimeo.

segunda-feira, abril 11, 2011

duelo mortal

A burocracia no seu melhor. O poder do «apito» e de quem o tem e o pode tocar. A «quinta» que todos querem ter, nem que apenas tenha a superfície de uma secretária e onde não se plantam couves, mas vinganças, sobranceria e ódios.

terça-feira, abril 05, 2011

física para o povo, lembrando rómulo de carvalho

Há vídeos que nos deixam completamente espantados pela ideia inicial, pelo treino requerido, pelo conhecimento científico que comportam, mesmo quando este é apenas intuitivo ou ocasional e não é fruto de aprendizagem e investigação metodológicas.
É o caso deste exemplo que hoje vos deixo, de alguém com nome, naturalidade ou instrução desconhecidas, que suponho ser provavelmente egípcio, que com mestria de desempenho desenvolve todo um exercício de estática e equilíbrio que desafia todas as leis da física, especialmente da Lei de Newton e a sua acção de forças em equilíbrio. Vale a pena ver. Não demora muito, a música (árabe?) é bonita, o conceito e o resultado excelentes.

quarta-feira, março 30, 2011

ejaculação política precoce


Publicado no Jornal i de hoje, 30 de Março, o texto que aqui vos deixo merece a vossa atenção, reflexão e sorriso aberto. É um texto inteligente, lúcido e cheio de humor. Deleitem-se.

Ejaculação política precoce
por
José de Pina

Muitos analistas estão preocupados com as consequências da demissão de José Sócrates. Estávamos em crise e agora temos a crise em crise! Eu acho que pode ser bom. Como todos sabemos, em matemática, menos (Sócrates) com menos (Passos Coelho) dá mais. Mas a decisão de eleições antecipadas veio confirmar que Passos Coelho é uma lufada de ar fresco fora dos vícios do mainstream da política nacional: ainda antes de ser eleito, já está a quebrar promessas. Isto acontece porque o tempo de reacção política de Passos Coelho é demasiado curto para o tempo da realidade. Faltam dois meses para chegar ao poder, mas ele não se consegue aguentar; é o que se chama de ejaculação política precoce. A excitação para se chegar ao poder é tanta que ainda não se chegou lá e... já está! O IVA afinal pode aumentar! Mas temos de ser compreensivos com Passos; a ejaculação política precoce atinge, na sua maioria, quem nunca chegou ao poder, nem esteve em nenhum governo. Umas das terapêuticas mais eficazes, e que se aconselha nestes casos, é fixar o pensamento em coisas que nos distraiam do poder. Por exemplo: Passos Coelho, em vez de ouvir o Miguel Relvas, que oiça os Deolinda ou o Zé Cabra; que se ponha a pensar na sua casa de Massamá sempre que vai a S. Bento; e, quando estiver com Merkel, basta imaginar que está com Cavaco. Tudo coisas que o distraiam e façam esmorecer, prolongando o tempo de reacção, para que se desbronque só quando atingir o poder. Durão Barroso e Sócrates já se mostraram especialistas neste tantrismo. Argumentista/humorista

terça-feira, março 29, 2011

o farsolas e o pote

A opinião de um português em Bruxelas. Um sério aviso à navegação, feito por um português frontal, eurodeputado desalinhado que merece ser ouvido.

segunda-feira, março 28, 2011

é tudo relativo


Embora seja uma visão propositadamente exagerada, entende-se a razão de ser assim, pois doutra forma não obteria o efeito pretendido por quem escreveu o texto.
Exagerada e deformada, é certo. Mas certeira em grande parte dos casos. Se pensarmos um pouco, todos conhecemos alguém que se pode enquadrar neste amargo escrito.
Leiam e comentem.


Diálogo com um jovem à rasca
por
Rui Herbon

- Então, foste à manifestação da geração à rasca?

- Sim, claro.

- Quais foram os teus motivos?

- Acabei o curso e não arranjo emprego.

- E tens respondido a anúncios?

- Na realidade, não. Até porque de verão dá jeito: um gajo vai à praia, às esplanadas, as miúdas são giras e usam pouca roupa. Mas de inverno é uma chatice. Vê lá que ainda me sobra dinheiro da mesada que os meus pais me dão. Estou aborrecido.

- Bom, mas então porque não respondes a anúncios de emprego?

- Err...

- Certo. Mudando a agulha: felizmente não houve incidentes.

- É verdade, mas houve chatices.

- Então?

- Quando cheguei ao viaduto Duarte Pacheco já havia fila.

- Seguramente gente que ia para as Amoreiras.

- Nada disso. Jovens à rasca como eu. E gente menos jovem. Mas todos à rasca.

- Hum... E estacionaste onde? No parque Eduardo VII?

- Tás doido?! Um Audi TT cabrio dá muito nas vistas e aquela zona é manhosa. Não, tentei arranjar lugar no parque do Marquês. Mas estava cheio.

- Cheio de...?

- De carros de jovens à rasca como eu, claro. Que pergunta!

- E...?

- Estacionei no parque do El Corte Inglés. Pensei que se me despachasse cedo podia ir comprar umas coisinhas à loja gourmet.

- E apanhaste o metro.

- Nada disso. Estava em cima da hora e eu gosto de ser pontual. Apanhei um táxi. Não sem alguma dificuldade, porque havia mais jovens à rasca atrasados.

- Ok. E chegaste à manif.

- Sim, e nem vais acreditar.

- Diz.

- Entrevistaram-me em directo para a televisão.

- Muito bom. O que disseste?

- Que era licenciado e estava no desemprego. Que estava farto de pagar para as reformas dos outros.

- Mas, se nunca trabalhaste, também não descontaste para a segurança social.

- Não? Pois... não sei.

- Deixa-me adivinhar: és licenciado em Estudos Marcianos.

- F***-se! És bruxo, tu?

- Palpite. E então, gritaste muito?

- Nada. Estive o tempo todo ao telemóvel com um amigo que estava na manif do Porto. E enquanto isso ia enviado mensagens para o Facebook e o Twitter pelo iPhone e o Blackberry.

- Mas isso não são aparelhinhos caros para quem está à rasca?

- São as armas da luta. A idade da pedra já lá vai.

- Bem visto.

- Quiriquiri-quiriquiri-qui! Quiriquiri-quiriquiri-qui!

- Calma, rapaz. Portanto despachaste-te cedo e ainda foste à loja gourmet.

- Uma merda! A luta é alegria, de forma que continuámos a lutar Chiado acima, direitos ao Bairro Alto. Felizmente uma amiga, que é muito previdente, tinha reservado mesa.

- Agora os tascos do Bairro aceitam reservas?

- Chamas tasco ao Pap'Açorda?

- Errr... E comeram bem?

- Sim, sim. A luta é cansativa, requer energia. Mas o pior foi o vinho. Aquele cabernet sauvignon escorregava...

- Não me digas que foste conduzir nesse estado.

- Não. Ainda era cedo. Nunca ouviste dizer que a luta continua? E continuou em direcção ao Lux. Fomos de táxi. Quatro em cada um, porque é preciso poupar guito para o verão. Ah... a praia, as esplanadas, as miúdas giras e com pouca roupa...

- Já não vou ao Lux há algum tempo, mas com a crise deve estar meio morto, não?

- Qual quê! Estava à pinha. Muita malta à rasca.

- E daí foste para casa.

- Não. Apanhei um táxi para um hotel. Quatro estrelas, que a vida não está para luxos.

- Bom, és um jovem consciente. Como tinhas bebido e...

- Hã?! Tu passas-te! A verdade é que conheci uma camarada de luta e... bem... sabes como é.

- Resolveram fazer um plenário?

- Quê? Às vezes não te percebo.

- Costuma acontecer. E ficaram de ver-se?

- Ha! Ha! Ha! De ver-se, diz ele. Não estás a ver a cena. De manhã chegámos à conclusão que ela era bloquista e eu voto no Portas. Saiu porta fora. Acho que foi tomar o pequeno-almoço à Versailles.

- Tu tomaste o teu no hotel.

- Sim, mas mandei vir o room service, porque ainda estava meio ressacado.

- Depois pagaste e...

- A crédito, atenção. Com o cartão gold do Barclays.

- ... rumaste a casa.

- Sim, àquela hora a A5 não tinha trânsito. Já não havia malta à rasca a entupir o tráfego.

- Moras onde? Paço d'Arcos? Parede?

- Passas-te, ou quê…!? Que horror! Não, não. Moro na Quinta da Marinha, numa casita modesta que os meus pais se vêem à rasca para pagar. Para a próxima levo-os comigo.

segunda-feira, março 21, 2011

o que faz um tango


São precisos dois para dançar o tango. Neste momento crucial que atravessamos, parece não haver parceiros, mesmo para o dançarem virtualmente, sem chama, sem desejo, como muitos o têm dançado - a fingir que o fazem.
Lembrei-me do que Mário Sabino escreveu sobre o tango e aqui o deixo para quem o queira ler.


O que faz de um tango um tango não são as letras lamechas. O que faz de um tango um tango não é o Gardel, morto, que canta cada vez melhor. O que faz de um tango um tango não são os passos ensaiados na tradição. O que faz de um tango um tango não é a orquestra, com o ar cansado de quem já viu tudo. O que faz de um tango um tango não são as pernas altas da dançarina, vestidas de meias pretas com ligas. Nem o seu cabelo preso, ora com uma flor, ora com uma fita.

O que faz de um tango um tango não é o chapéu antigo do dançarino. Não são os seus sapatos lustrosos. Não é o seu fato às riscas. Não é o lenço vermelho, dobrado no bolso da lapela. O que faz de um tango um tango não é Buenos Aires. Não é qualquer geografia.

O tango não está no mundo das latitudes, das longitudes, das cartografias, dos guias turísticos.

O que faz de um tango um tango é a atração e a repulsa. É a tentação e o medo. É o afecto e a raiva. O que faz de um tango um tango é ela, seguindo na mesma direção dele, e ele, seguindo na mesma direção dela - até que um tenta fugir e o outro tenta impedir, numa alternância de fugas que se querem e que não se querem. O que faz de um tango um tango é a dor de um e do outro transformada em coreografia simétrica. O que faz de um tango um tango é o encontro que se desencontra e se reencontra. O que faz de um tango um tango são os volteios do amor dos poemas clássicos, das canções dos trovadores. Os volteios do amor que bebe no prazer e na fúria. Os volteios do amor que amorna para logo depois torna a incandescer. O que faz de um tango um tango é o amor que, na iminência de um final que se prenuncia infeliz, acha o final feliz. Porque nunca, num tango que é tango, os dançarinos terminam separados, descolados, deslocados.

O que faz de um tango um tango sou eu dentro de ti na carne e tu dentro de mim na alma, depois do último acorde, depois do último aplauso, depois da última lágrima, depois do último gozo.
O que faz de um tango um tango é a música que se quer silêncio.
O silêncio dos amantes.

quinta-feira, março 17, 2011

desgarrada com garra

Enquanto aguardamos que o Fado seja considerado património imaterial da UNESCO, vai sabendo bem ouvir as suas novas vozes, apresentadas pelas antigas.
João Braga e Maria da Fé, juntam-se a Camané, Miguel Capucho, Mariza, Mafalda Arnauth, Maria Ana Bobone, Rodrigo Costa Félix, Gonçalo Salgueiro, Joana Amendoeira, Nuno Guerreiro e Gonçalo Salgueiro numa desgarrada intitulada "Norte/Sul", uma paródia que nos diverte e que envolve também o Centro.

quarta-feira, março 16, 2011

um olhar sobre esta geração


Recebi hoje um texto não assinado onde, em meu entender, o autor faz uma análise bastante real e inteligente do que se está a passar com esta geração e onde analisa as razões ou as causas de aqui se ter chegado. Parece-me uma análise serena e lúcida, que merece ser lida. Muitos dos possíveis leitores poderão sentir-se aqui retratados, enquanto outros haverá que não o aceitem. Aqui fica, para uns e outros.

GERAÇÃO À RASCA???


Um dia, isto tinha de acontecer.

Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego,... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades/características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estão à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.

terça-feira, março 15, 2011

quem tem unhas ...?

Normalmente não gosto de ver «habilidades» de crianças. Penso sempre que por trás do aparente virtuosismo se encontra um chicote e muitas vezes exploração. Por outro lado, fico sempre com a sensação de que nessas habilidades não há alma, mas regras obrigatórias, treino desmedido, não desejado, nem consentido e que o que se vê é apenas técnica; nada de humanos, mas de robots.
Apesar disso, resolvi colocar aqui este vídeo de um quinteto de violas que parecem justificar o que escrevi, sobretudo sabendo que são crianças da Coreia do Norte. Tocam as suas violas ou «guitars» com exemplar mestria e precisão de sons, gestos, movimentos de cabeça, tipo preparação militar.
Mas apesar disso (novamente), tenho de deixar a dúvida de que elas possam sentir a música, pela música e sentirem-se felizes com o que fazem, porque querem e não porque lho mandam fazer. Quem dera que seja assim.


quarta-feira, março 09, 2011

recordando maya plisetskaya

Nunca é demais recordar a incomparável Maya Plisetskaya, dançando em 1969 a Morte do Cisne, de Camille Saint-Saëns, com coreografia de Michel Fokine feita para Anna Pavlova.


segunda-feira, março 07, 2011

vou-me embora p'ra pasárgada, lá sou amigo do rei

Encontrei hoje um dos poemas da minha juventude, na voz e interpretação de Jessier Quirino, brasileiro da Paraíba. Dentro da poesia de Manuel Bandeira, o poema «Vou-me embora p'ra Pasárgada» era o meu favorito.
Durante a minha estadia em Cabinda, durante a guerra colonial, tive ocasião de manter durante meses um programa radiofónico que intitulei «Poesia, Música e Teatro - Trilogia necessária», onde um dos poetas apresentados foi Manuel Bandeira. Se nessa altura tivesse as possibilidades técnicas de hoje, seguramente teria poupado aos ouvintes a minha leitura de Bandeira e ter-lhes-ia dado a interpretação Jessier Quirino.
Não o pude fazer, então. mas posso deixá-la aqui para vocês,
hoje.

uma animação que o é, sobre outra que não o é

Estamos no Carnaval. Foi celebração que nunca me interessou e, muito menos, me entusiasmou. Mas hoje mandaram-me esta animação feita para anunciar o Carnaval do Rio e, disto sim, eu gostei. Aqui fica para os que gostam e os que não apreciam o Carnaval ou que só apreciam dele a benesse do feriado ou tolerância de ponto.

sexta-feira, março 04, 2011

no arms, no legs

Quando aquilo que aqui se escreve e aquilo que aqui se mostra começa a atingir números muito elevados, sucede termos que fazer a pergunta - será que já falei sobre isto? será que já mostrei isto?
Hoje essa dúvida veio mais uma vez ter comigo. Procurei confirmar, mas não consegui. Na dúvida, quando ela é deste teor, a minha decisão é deixar de a ter e considerar apenas o valor próprio do que se vai mostrar. Tenho a certeza de que quem já viu, verá outra vez, quem não viu, verá mais do que uma vez.
Ninguém pode ficar indiferente a esta fibra, a este coração enorme, a estes princípios. Basta de palavras. Apresento-vos Nick Vujicic, um grande homem.

quarta-feira, março 02, 2011

tempo de chacais e de hienas


Dá pena assistir-se com grande frequência a actos de manifesta estupidez, inveja e maldade. Assistimos a essas manifestações nos campos mais variados - naqueles onde não nos admiramos tanto, por já o esperarmos e noutros em que não estávamos à espera que tal pudesse suceder.
Vem isto a propósito das recentes alterações editoriais no Expresso e na sua revista Atual. Na maioria das mudanças ou danças de colaboradores, creio que nenhum dos leitores mais fiéis deixará de se interrogar com a razão ou sem razão de tais decisões. Quem decide dirá que são apenas mudanças cosméticas, um refresh, incapazes de assumirem as verdadeiras razões (no plural, porque admito que sejam várias). Pode ser que me engane, mas não adivinho grandes coisas a virem. Pode ser que me engane e se assim for, aqui deixarei em devida altura o meu mea culpa.
Para quem não tenha lido deixo aqui a transcrição do último texto de um cronista exemplar, José Manuel dos Santos, intitulado Despedida e que é um retrato perfeito do seu estilo, da sua cultura, da sua honestidade e da sua frontalidade. Vamos ter, todos, muita pena da sua coluna Impressão Digital, onde como ele próprio escreve «falei muito do que se fala pouco e falei pouco do que se fala muito».
Não deixem de o ler.


Despedida
No próximo sábado - e por uma decisão que não foi minha - já não aparecerá aqui esta crónica semanal. Os que a procurarem encontrarão, em vez dela, uma ausência que lhes dirá a gratidão por estes anos em que olhámos as ilusões e as desilusões de um tempo que não começou ontem nem terminará amanhã. Tudo vem de mais longe e vai para mais longe do que suspeitam aqueles para quem a origem do mundo está na data do seu nascimento. A todos os que se tornaram meus leitores - e alguns, por isso, leitores do Expresso - entrego o meu reconhecimento com uma mão que acena, sabendo que uma despedida pode não ser um fim. As palavras que acabam são como os mortos que não morrem nos fantasmas em que vivem para inquietar os vivos.
Nestas crónicas, falei muito do que se fala pouco e falei pouco do que se fala muito. Falei do que é meu como se fosse dos outros e do que é dos outros como se fosse meu. Quis lembrar que, no mundo, não há só vencedores, pragmáticos, comunicadores, gestores, milionários, famosos, neoliberais, conformistas, contentinhos, poder, ruído, multidões, mais-valias, televisões, best sellers, condomínios fechados. Que há também vencidos, tímidos, desempregados, imigrantes, pobres, vagabundos, mendigos, doidos, poetas, idealistas, rebeldes, doentes, velhos, melancólicos, anarquistas, liberdade, silêncio, solidão, sabedoria, tiragens pequenas, bairros populares. Fiz da indignação uma serenidade. Recusei a crueldade que usa a máscara da eficácia. Tentei, em vez da rapidez de uma opinião, a lentidão de um pensamento. Procurei falar de uma grandeza que dá ao homem o direito a usar um nome que não o envergonhe. E sei bem de que grandeza falo, pois encontro-a nas palavras de Albert Camus: "No segredo do meu coração não me sinto em estado de humildade senão perante as vidas mais pobres ou as grandes aventuras do espírito humano. Entre as duas, encontra-se hoje uma sociedade que dá vontade de rir."
Este é o mundo que fez de "A Sociedade do Espectáculo" (Guy Debord) o seu livro de estilo: "Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção anuncia-se como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido afastou-se numa representação". Nele, o cronista é um Fernão Lopes da sua perplexidade. Hoje, o jornalismo vive sobre o abismo, e ter disso a incómoda consciência é prevenir a queda nele. Mas há os que desviam o olhar do chão que lhes foge debaixo dos pés, avançando numa fuga para a frente de que ficará apenas o rasto de um desastre que lhes parece um êxito .
Ganharíamos em conhecer melhor a geologia do jornalismo contemporâneo, esse poder-espetáculo que afirma tantas vezes a liberdade para melhor a negar. Lucraríamos em não ignorar o que está debaixo do terreno movediço onde ele firma a sua autoridade e sacraliza a sua missão. Seria útil analisarmos as condições em que o jornalismo produz o seu discurso de verdade, com que se justifica e enaltece, fundando uma teologia da qual é o deus menor. Seria bom avaliarmos a validade desse discurso e os efeitos da sua automitificação, da sua boa consciência, do seu conformismo irrequieto. Seria fundamental conhecermos os ímanes, visíveis e ocultos, que regem as atrações e repulsões no seu campo. Ficaríamos surpreendidos se alguém fizesse para a instituição jornalística o que Foucault fez para outras instituições e dispositivos de normalização social: a justiça penal, a clínica, o saber, a psiquiatria, a sexualidade. Talvez as gerações futuras olhem um dia com horror a mistura explosiva de cinismo e violência, avidez e leviandade, sobranceria e perversidade com que nos olhámos no mundo.
Neste tempo megalómano e exibicionista, em que todos procuram uma insaciada autoestima e já não parece haver lugar para a subtileza, a compaixão e a cortesia, convém mantermos o sentido da memória e da medida. Sempre soube que, em mim, para cada abundância há uma escassez. Aprendi cedo a admirar o que é grande e os que são grandes (mesmo que tenham vivido no século V antes de Cristo) para não reconhecer logo o que é pequeno. E o que vejo por aí é uma pequenez alucinada e convencida da sua grandeza inexistente. Por isso, não há melhores palavras para dizer este tempo e este modo do que as que Lampedusa deu ao príncipe de Salina: "Nós fomos os Leopardos, os Leões; os que vêm são os chacais, as hienas." É com o sangue dos outros que eles alimentam a vaidade que lhes impede de ver a vulgaridade e o vazio que os faz ser o que são.
Agora, olho o céu e a sua luz desfeita. Há um raio que entra e cai sobre a capa de um velho livro onde se fala do "amor que move o sol e as outras estrelas". E isso torna a minha vida feliz. (Dedico esta última crónica ao Henrique Monteiro e ao Fernando Diogo, que me convidaram a escrever no Expresso).

terça-feira, março 01, 2011

como solnado nos fazia rir em 1967

Recordar Raul Solnado é sempre um mergulho no humor e uma inevitável recordação da sua habitual despedida - façam o favor de ser felizes.
No vídeo que vos deixo, Solnado estava no Brasil e contracena com o artista brasileiro Zeloni, em que este o quer conduzir para a estafada paródia sobre portugueses e Solnado vai fazendo que alinha e deixa o outro K.O. no último round. É tão profissional que nada parece preparado...

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

nunca o cisne morreu tão bem

Quem como eu conserva a memória de Maya Plisetskaya a dançar a morte do cisne, considera que depois dela seria muito difícil ver outra interpretação que a superasse. O bater de assas dos seus braços «desossados» parecia inigualável.
Pois bem, hoje vi este vídeo em que o jovem John Lennon da Silva, aluno de artes e bailado, desenha a sua própria coreografia para este bailado e com sapatos de ténis e roupa de todos os dias, nos dá a ver uma morte do cisne de profunda sensibilidade e emotivamente eficaz.
Vejam e comentem.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

no limite

Aparecem muitos vídeos mostrando contorcionistas de grande qualidade e que despertam admiração e nos deixam espantados com o efeito do treino na quebra das barreiras anatómicas. Mas este que hoje decidi aqui colocar excede tudo. Está quase para além do limite do possível. Pergunto-me o que sucederá a estas articulações, no médio e longo prazo? Vejam com atenção.

o unicórnio

Um filme de tristes memórias, de ódios e maldade, mas também de amor.

descendência


Por vezes é através do humor que melhor conseguimos definir situações ou estados de alma. A mais funda reflexão filosófica, embora se possa pensar o contrário disso, é mais eficaz quando acompanhada de uma sonora gargalhada que, a seguir, nos envergonha, não pela termos dado, mas como consequência do que nos fez rir. Leiam e reflitam.

Era no tempo em que, no palácio das Necessidades, ainda havia ocasião para longas conversas (mas podia passar-se hoje...). Um jovem diplomata, em diálogo com um colega mais velho, revelava o seu inconformismo. A situação económica do país era complexa, os índices nacionais de crescimento e bem-estar, se bem que em progressão, revelavam uma distância, ainda significativa, face aos dos nossos parceiros. Olhando retrospectivamente, tudo parecia indicar que uma qualquer "sina" nos condenava a esta permanente "décalage". E, contudo, olhando para o nosso passado, Portugal "partira" bem:

- Francamente, senhor embaixador, devo confessar que não percebo o que correu mal na nossa história. Como é possível que nós, um povo que descende das gerações de portugueses que "deram novos mundos ao mundo", que criaram o Brasil, que viajaram pela África e pela Índia, que foram até ao Japão e a lugares bem mais longínquos, que deixaram uma língua e traços de cultura que ainda hoje sobrevivem e são lembrados com admiração, como é possível que hoje sejamos o mais pobre país da Europa ocidental.


O embaixador sorriu, benévolo e sábio, ao responder ao seu jovem colaborador:


- Meu caro, você está muito enganado. Nós não descendemos dessa gente aventureira, que teve a audácia e a coragem de partir pelo mundo, nas caravelas, que fez uma obra notável, de rasgo e ambição.


- Não descendemos? - reagiu, perplexo, o jovem diplomata - Então de quem descendemos nós?



- Nós descendemos dos que ficaram por aqui...

sábado, fevereiro 19, 2011

memória da guerra colonial

Nunca estive na Guiné. A minha experiência de guerra foi em Angola, bem no seu centro - no Luso, hoje Luena, quando todo o esforço de guerra se situava ali, no leste. Quando hoje vi este vídeo feito pela televisão francesa e vi os rostos de sofrimento, dor e raiva na cara dos soldados brancos e negros, olhando os seus camaradas feridos e morto, fiquei seguro que se tratava de um documento raro e real. Por isso, aqui o deixo, para memória.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

senhoras e senhores - convosco o bucha e o estica

Sempre que me aparecem pequenos tesouros da minha juventude, não resisto a compartilhá-los. Hoje deixo-vos com o Bucha e o Estica ou com o Laurel e o Hardy, tanto faz. Mesmo hoje e apesar do tempo passado não conseguimos ser indiferentes à sua arte e se já não damos salutares gargalhadas, sorrimos e sentimo-nos melhor e melhores.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

um mentiroso compulsivo


Vale a pena ler este magnífico texto escrito pelo professor de Filosofia, José Ricardo Costa e publicado no jornal «O Torrejano».

«Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância. Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente,pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.
Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la?
Passemos então à parte divertida. A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar sua ausência na sala do exame. Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.
Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.
O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.
Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.
Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.
Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade.
Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.
Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o 'ET', que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe. A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados.
Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.
Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro,mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.
Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.
Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.
Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio».
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URGE MUDAR ESTE ESTADO DE COISAS.
ESTÁ NA SUA MÃO, NA MINHA E DAQUELES A QUEM A MENSAGEM CHEGAR!

terça-feira, fevereiro 15, 2011

nem tudo que luz é áurea

É verdade - nem tudo que luz é ouro e muito menos Áurea. Mas, de certeza Áurea vai valer ouro.
Vi-a há poucos dias no programa do Herman (RTP), como convidada ou artista-convidada. Posso dizer-vos que se portou bem num ou nos dois papéis. Penso que não deixou qualquer dúvida a todos que a ouviram, de que uma nova artista despontou, para ficar e durar. Tem voz, tem garra, tem figura, tem luz e sabe o que quer.
Fico-me por aqui - I'm o.k., I'm allright ...

sábado, fevereiro 12, 2011

a luta pela sobrevivência

As produções da BBC são habitualmente boas e merecedoras da nossa atenção, respeito e aplauso.
Chegou-me hoje às mãos este vídeo chamado Human Planet, que creio vos agradará. Fiquem com ele e comentem.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

os vampiros, uma vez mais

Há poucos dias deixei aqui a nova canção sucesso dos Deolinda, que parece estar a tornar-se numa bandeira dos jovens e dos mais esclarecidos.
Alguém chamou a atenção para a semelhança com o que se passou com a canção-arma «Os Vampiros», do Zeca Afonso, nas décadas de 60 e 70.
A época, as condições, as motivações, a voz, são diferentes, muito diferentes, mas não parece absurdo que uma nos lembra a outra.

para quem pensa que já viu tudo

Desconheço quem é o artista e apenas sei que foi filmado algures, num Hotel Génève.
Mas uma coisa sei - é do melhor que tenho visto nesta difícil arte da ilusão. Gosto de compartilhar o que vale a pena. Aqui fica o vídeo e um grande artista.

que parva que eu sou

Os Deolinda continuam a surpreender e a agradar. A nova canção «Que parva que eu sou» é capaz de ser a campainha que desperte uma geração nem nem e até uma geração executiva bem precisada deste abalo sonoro. Fiquem com o vídeo e a letra, já que o som do Coliseu do Porto não é dos melhores.

Sou da geração sem remuneração

e não me incomoda esta condição.

Que parva que eu sou!

Porque isto está mal e vai continuar,

já é uma sorte eu poder estagiar.

Que parva que eu sou!

E fico a pensar,

que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração casinha dos pais,

se já tenho tudo, pra quê querer mais?

Que parva que eu sou

Filhos, maridos, estou sempre a adiar

e ainda me falta o carro pagar

Que parva que eu sou!

E fico a pensar,

que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração vou queixar-me pra quê?

Há alguém bem pior do que eu na TV.

Que parva que eu sou!

Sou da geração eu já não posso mais

que esta situação dura há tempo demais

E parva não sou!

E fico a pensar,

que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

domingo, fevereiro 06, 2011

o que é bom, resiste ao tempo

Penso que ninguém ficará indiferente a este vídeo que nos mostra Sammy Davis Jr., Dean Martin e Frank Sinatra, acompanhados pela orquestra de Count Basie, cantando «Birth of the Blues». Suponho fazer parte dum conjunto de espectáculos do Rat Pack Live no Salão Copa do Sand's Hotel de Las Vegas.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

recordando o jeep willys


Sempre considerei a minha experiência profissional durante a guerra de Angola o melhor momento da minha carreira. Ser responsável pelo tratamento cirúrgico de 75% dos feridos de Angola durante 14 meses foi uma experiência que deixa marcas para sempre. Para além desta experiência profissional outras coisas houve de grande importância, como a amizade e a satisfação do dever cumprido. No que respeita a divertimento ou pequenos prazeres, não posso esquecer também o prazer que eu tinha conduzindo o jeep Willys que me estava distribuído, mesmo que ele tenha sido responsável pelas fracturas de costelas que tive e que nunca me impediram de trabalhar, apesar das dores. Coitado do jeep a ser aqui responsabilizado pelas fracturas, quando ele foi apenas, como eu, um dos intervenientes. Culpado foi aquele que mandou cavar buracos para plantar árvores que nunca foram plantadas e durante algum tempo, em dias de chuva eram autênticas ratoeiras...
Perceberão agora porque hoje vos deixo aqui um vídeo em louvor do Willys

terça-feira, janeiro 25, 2011

de como um quarto dos eleitores decide quem é presidente


No rescaldo das eleições presidenciais menos participadas, em que o presidente eleito corresponde apenas a 52,94% dos 46,63% que votaram, significando que apenas votaram nele 23,06% dos eleitores registrados (9.629.630), ou sejam 2.230.240 - o que o coloca bem distante da imagem de Messias ou Salvador da Pátria Portuguesa que os seus apoiantes e ele próprio para si reclamavam - parece-me interessante ter em atenção aquilo que depois do acto eleitoral se escreveu. Comecemos pelo texto «Peças do 'puzzle'» que Baptista-Bastos escreveu e assinou:

«Mário Soares foi o vencedor das eleições. A astúcia e a imaginação do velho estadista permitiram que Fernando Nobre, metáfora de uma humanidade sem ressentimento, lhe servisse às maravilhas para ajustar contas. É a maior jogada política dos últimos tempos. Um pouco maquiavélica. Mas nasce da radical satisfação que Mário Soares tem de si mesmo, e de não gostar de levar desaforo para casa. Removeu Alegre para os fojos e fez com que Cavaco deixasse de ser tema sem se transformar em problema. O algarvio regressa a Belém empurrado pelos acasos da fortuna, pelos equívocos da época, pelo cansaço generalizado dos portugueses e pelos desentendimentos das esquerdas (tomando esta definição com todas as precauções recomendáveis). Vai, também, um pouco sacudido pelo que do seu carácter foi revelado. Cavaco não possui o estofo de um Presidente, nem um estilo que o dissimulasse. Foi o pior primeiro-ministro e o mais inepto Chefe do Estado da democracia. Baço, desajeitado, inculto sem cura, preconceituoso, assaltado por pequenas vinganças e latentes ódios, ele é o representante típico de um Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa. Nada fez para ser o que tem sido. Já o escrevi, e repito: foi um incidente à espera de acontecer. Na galeria de presidentes com que, até agora, fomos presenteados, apenas encontro um seu equivalente: Américo Tomás. E, como este, perigoso. Pode praticar malfeitorias? Não duvido. Sobre ser portador daqueles adornos é uma criatura desprovida de convicções, de ideologia, de grandeza e de compaixão. Recupero o lamento de Herculano: "Isto dá vontade de morrer!"».

segunda-feira, janeiro 17, 2011

para que se entenda bem como isto funciona

Já algumas vezes deixei aqui elementos credíveis e importantes e facilitadores da compreensão daquilo que quase nos parece incompreensível. Falo de geo-estratégia e mercados. Apesar disso e porque temos dificuldade em acreditar no que nos mostram e ensinam, vou deixar aqui mais dois vídeos que tocando a mesma tecla, reforçam o conhecimento. Vejam, se quiserem. Mas garanto-vos que não é tempo perdido.


quarta-feira, janeiro 12, 2011

o candidato-presidente que não deve explicações 3


Embora fugindo ao tema BPN e alargando a crítica a outros candidatos, resolvo terminar esta curta série sob o mesmo título, com a crónica de Henrique Raposo, no mesmo jornal e dia. Discordando quase totalmente das suas opiniões, vezes há em que as suas palavras me parecem justíssimas. Tal como no futebol, não é por ser do clube adversário que deixo de bater palmas a um grande golo.

«Caro Prof. Cavaco Silva, se o candidato das repúblicas soviéticas soubesse fazer uma 'conta’ de dividir, eu não me levantaria da cama para ir votar em V. Exa. Se o bardo de Águeda soubesse a diferença entre défice e dívida, eu iria engrossar as hordas da abstenção. Se Gama ou Amado estivessem no lugar de Alegre, eu votaria em branco. Mas, de facto V.Exa. é um mal menor, uma necessidade. O seu oponente, Manuel Alegre, é mau de mais para ser verdade. Alegre é uma espécie de Tiririca económico. Eu até acho que deviam meter este candidato numa sala da escolinha primária para lhe. perguntarem o seguinte: ‘V. Exa. sabe o valor do nosso PIB? Sabe qual é a dimensão do nosso endividamento externo?’ E, já agora, também podiam satisfazer uma dúvida epistemológica que me assalta há muito: "Caríssimo bardo, V. Exa. sabe fazer uma conta de dividir com dois divisores?" Sim, este Tiririca de Águeda é uma perigosa nulidade. Sobre isso estamos conversados. Mas, meu caro Presidente, a péssima qualidade do seu adversário não apaga os pecados do cavaquismo.
Com alguma sorte, V. Exa. ainda poderá representar um importante papel na renovação deste regime. Mas, nessa eventualidade, V. Exa. estará apenas no caminho da redenção. Porque o meu caro amigo é um dos responsáveis pela nossa presente situação. Este "Estado' enxameado de boys (o tal "monstro") também é uma invenção do cavaquismo. Aliás, neste momento, um dos grandes obstáculos à modernização do país dá pelo nome de PSD cavaquista, esse-exército-de-encostados-ao-Estado. E este PSD situacionista, meu caro Aníbal, segue a sua mui socialista filosofia de governo: o Estado lidera, a sociedade obedece. Sim, o professor vai à missa, sim senhor, mas isso não o retira do paradigma socialista, o paradigma onde sempre esteve e de onde nunca quis sair. V. Exa. parte do Estado para a sociedade, quando devia partir da sociedade para o Estado. Claro que o cavaquismo é diferente do guterrismo e do cavaquismo 2.0 (Sócrates & Cia.), mas a diferença é de grau, não de natureza. Guterres e Sócrates são socialistas assumidos e incompetentes. V. Exa. é muito competente, mas é um socialista de armário.
É por isso que o cavaquismo representa a descaracterização da Direita portuguesa. O meu caro Professor transformou a Direita na revisora de contas do regime, e anulou aquilo que Sá Carneiro e Lucas Pires tentaram construir: uma direita liberal e conservadora com a Vontade de fazer um debate moral e político com a Esquerda dentro do espaço democrático. V. Exa. deu medo à Direita, medo de se assumir, medo de dar a cara por ideias fora do padrão imposto pela macumba progressista. A sua sorte, meu caro Sr. Medo, é que a política passa pela escolha do mal menor. E eu tenho um medo bíblico do Tiririca de Águeda.»

domingo, janeiro 09, 2011

o candidato-presidente que não deve explicações 2


Também no Expresso de ontem escreveu Daniel de Oliveira, sob o título «A credibilidade de Cavaco», o seguinte texto que vem complementar o que ontem aqui publiquei. Aviso que talvez se venha a justificar a publicação de um terceiro. Amanhã verei.

«Quando confrontado por Francisco Lopes com o 'caso BPN', Cavaco Silva ignorou o assunto. Defensor Moura voltou à carga e o Presidente optou pela vitimização. Por fim, em resposta a dúvidas de Manuel Alegre, decidiu atacar a atual administração do BPN. Ou seja, quando os seus amigos andavam a brincar com o fogo fez negócios com eles; quando o caso rebentou, manteve-se em silêncio; quando Dias Loureiro mentiu ao Parlamento veio em sua defesa; quando o BPN foi nacionalizado assinou por baixo; e só resolve abrir a boca para criticar quem, mal ou bem, recebeu o presente envenenado.
Mas o silêncio, a vitimização e a fuga para a frente não o salvam dos esclarecimentos que tem de dar. E ninguém quer saber das suas poupanças familiares. Cavaco Silva e a filha compraram ações da SLN, empresa detentora do BPN e sem cotação na bolsa. Foi definido, sabe-se lá com que critérios, o preço de um euro por ação. Dois anos depois vendeu as mesmas ações por 2,4 euros e teve um lucro de 147,5 mil euros (e 209,4 para a filha). Ações de uma empresa que, mesmo com as contas aldrabadas, dava um lucro anual insignificante. Os preços de venda e de compra foram definidos pela SLN. Na administração da sociedade estavam um ex-secretário de Estado, um ex-ministro que Cavaco viria a nomear para o Conselho de Estado e vários membros da sua atual Comissão-de Honra. Se Cavaco quer matar o assunto em que ele próprio se enfiou é simples: explica porque teve um tratamento de favor na venda de ações.
Por enquanto, a suspeita é esta: a entrada de Cavaco Silva para o grupo acionista da SLN, mesmo com a certeza de que a sociedade iria perder dinheiro com a compra e venda das ações, teria como única função a utilização do seu nome para credibilizar a empresa junto de outros investidores. Se esta suspeita se confirmar, o caso tem relevância política. Afinal de contas, o buraco do BPN é agora de todos nós. O assunto é sujo? Claro que sim. Mas quem não se quer enfiar na lama tem cuidado com quem faz negócios, política ou as duas coisas em simultâneo. É fundamental saber em que tipo de gente confia um chefe de Estado. E se, consciente ou inconscientemente, andou a oferecer a sua credibilidade a quem não devia. Mais ainda, quando Cavaco Silva faz dela o seu único argumento político. Precisamos de saber se a pôs a render.»