quinta-feira, agosto 04, 2011

brincando aos extra-terrestres



É frequente receberem-se mails com fenómenos estranhos, tão estranhos e improváveis, que não se percebe como a mão humana ou outro estranho artífice os poderia fazer. E, nestes casos, é invariável a afirmação ou a simples sugestão de que foram ou só poderiam ter sido, os extra-terrestres. E, quando não é isto, são achados da civilização inca. Sou muito resistente a aderir à hipótese de haver OVNIS, extra-terrestres e outras galáxias habitadas por seres vivos. Admito que esta atitude possa ser considerada pouco aberta e esclarecida, pouco científica e sobretudo, pouco fundamentada. E aceito esse julgamento, já que não fundamento a minha posição senão na dúvida que se me põe de não conseguir entender a razão porque esses seres (a havê-los) não se mostravam pura e simplesmente, sabedores que seriam de estarem mais avançados do que nós e nada poderem recear, uma vez que eles podiam vir até nós e não somos capazes de ir até eles e o fazem em velocidades estonteantes e nós temos ido não muito longe e sem aquela rapidez e simplicidade de métodos.
Por isso, quando hoje encontrei na Visão uma notícia que parece vir esclarecer cientificamente o problema, senti-me acompanhado e mais animado na minha incredulidade , por sso, não resisti a deixar aqui essa not+iicia e a imagem que abre este post.

«O físico Richard Taylor e a sua equipa da Universidade de Oregon analisaram as figuras geométricas perfeitas e cada vez mais complexas desenhadas em várias plantações, e concluíram que são feitas com recurso a lasers, micro-ondas e GPS.

«Publicado na revista Physics World, o estudo de Taylor encontrou mesmo um complicado teorema matemático num dos padrões desenhados numa plantação britânica, no que descreve "o movimento de arte mais orientado pela ciência da história". Até agora já foram documentadas duas mil formas diferentes.

O "fenómeno" surgiu nas últimas décadas do século XX, intrigando a comunidade internacional e levando ao surgimento das teorias de que os desenhos seriam obra de extra-terrestres. Em 1991, no entanto, dois homens reivindicaram a autoria de alguns dos padrões conhecidos até então.

Segundo a equipa de Richard Taylor, as figuras poderão ser conseguidas usando micro-ondas para fazer tombar as plantações rápida e eficazmente.

Seja esta a teoria correta ou não, é certamente mais científica do que aquela que fez furor na Internet na semana passada: a de que um círculo encontrado na Tanzânia, em 2009, teria sido obra de um grupo de animais da família do canguru, que, depois de terem ficado "pedrados" numa plantação legal de ópio, teriam andado aos círculos...»
Ler mais: http://aeiou.visao.pt/ainda-o-misterio-dos-circulos-nas-plantacoes=f616312#ixzz1U4zEgMU3

terça-feira, agosto 02, 2011

a arte está no artista, não no instrumento



Quando se pensa em castanholas, pensa-se em flamengo, em salero, em vestidos vermelhos com bolas pretas aos folhos, em peinetas, em orgulho espanhol, em raça gitana, mas creio que, nunca, em música.
Pelo menos, até hoje assim era comigo. Mas, agora, depois de ver e ouvir esta magistral demonstração de arte e raça de Lucero Tena acompanhada por orquestra sinfónica dirigida pelo maestro Enrique García Asensio, no Auditorio Nacional de Música, em Madrid, a minha opinião é outra e as castanholas ganharam definitivamente estatuto de instrumento musical.
A classe interpretativa desta professora do Conservatório de Madrid, que pertenceu à Companhia da grande Carmen Amaya e a quem Joaquin Rodrigo dedicou Dos Danzas Españolas e já teve a honra de ser dirigida por directores de orquestra de grande craveira como Mstislav Rostropóvich, por exemplo, ressalta em cada segundo da sua longa interpretação, nos sons obtidos, no gestual que os acompanha, na força interior que se adivinha.
Em tudo isto ressalta ainda, pela estranheza, que Lucero Tena não seja espanhola, mas mexicana, mostrando que quando a arte é grande ela está bem lá dentro de cada um.
Eu gostei. Espero que gostem ver e ouvir a sua interpretação no Intermedio de La boda de Luís Alonso, de J Gimenez, quando Lucero Tena tinha já 69 anos.

segunda-feira, agosto 01, 2011

recordando brito camacho


Manuel Brito Camacho, Um Médico da República
Mais político, do que Médico
por
Carlos Vieira Reis
Historiador Aprendiz

Falar sobre Brito Camacho e apresentá-lo a quem nos ouve pode ser aliciante, mas não é tarefa fácil. Não só pela multiplicidade das facetas que o caracterizam, como pela pouca clareza de algumas, pelos traços da sua personalidade, suas razões ou consequências, pela dúvida sobre qual foi a sua verdadeira profissão, se aquela para a qual a Universidade o preparou ou se aquela para onde uma paixão o arrastou, saber esclarecer quem era ele na verdade, se o orador inflamado, ou o panfletista, o escritor político ou o observador atento de viagens, o zelador escrupuloso do bem comum ou também um aproveitador de benesses, se o injustiçado ou o apagado servidor dos homens e da pátria?
Quem foi realmente Brito Camacho? O que o guiava, o que pretendia, porque lutava?
Foram todas estas questões que ora enunciei, que me coloquei antes de começar a escrever fosse o que fosse. Mas se levantei essas dúvidas e quis, desde sempre, conduzir as minhas palavras pelos carris da linha de pensamento que iria construir para esta viagem através da vida de um vulto histórico da República, que isso indubitavelmente é, rapidamente me apercebi que teria de arrepiar caminho e ficar-me pela singeleza de uma nota histórica que se poderia ler em qualquer enciclopédia, apenas pintalgada ou sarapintada de uns borrifos de novidade, de chamadas de atenção para isto ou para aquilo, aqui ou ali, em todo sítio que o pudesse fazer, pois, a ser de outra forma, a palestra poderia chegar ao fim mas seria já sem ouvintes, se considerar-mos a dimensão com que ficaria.
Percebi que para mostrar Brito Camacho tal como o desejava fazer, teria que dividir a sua vida em capítulos e tratar cada um deles isoladamente e desgarrados do resto. Mas, para assim fazer, nunca poderia ser hoje, numa conversa generalista como esta vai ser e que, sem convicção, espero que todos ouçam sem grande enfado.
Digamos que tenho que apresentar este monólogo como se fosse uma história que se conta e nada mais do que isto.
Sendo assim, terei que começar esta charla dizendo – Era uma vez
Um casal de lavradores alentejanos, ele Manoel de Brito Camacho, ela D. Maria Bárbara, que viviam e trabalhavam no Monte das Mesas da aldeia de Rio de Moinhos, concelho de Aljustrel, a quem no dia 12 de Fevereiro de 1862, nasceu um filho a quem deram o nome de Manuel Brito Camacho Júnior.


Não sei qual a razão, se por vontade do pai ou por sua morte, o certo é que aos 14 anos de idade este jovem, então estudante, deixou de usar o Júnior com que foi registado e passou a usar apenas o nome de Manuel de Brito Camacho.


Em vários lados se lê que terá tido um meio-irmão, cinco anos mais novo, que se chamou Inocêncio Camacho Rodrigues e que teve um futuro risonho, apenas ensombrado durante o seu mandato como governador do Banco de Portugal, pelo escândalo causado pelas burlas de Alves dos Reis. Não creio, contudo que isto seja verdade, a menos que a criança tenha sido registada em nome do marido da mãe, sendo verdadeiro pai Brito Camacho. De facto, encontra-se registado como filho de Manuel do Carmo Rodrigues da Costa e de sua mulher Genoveva Máxima Camacho.
Manuel de Brito Camacho fez os estudos primários em Aljustrel e no Liceu em Beja, sendo um bom e aplicado aluno, nada mais merecendo especial realce.

Fez os Estudos Preparatórios na Escola Politécnica em Lisboa e depois ingressou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde se licenciou em 1884. Também aqui podemos dar esta informação telegráfica e considerá-la bastante.
Casou com Maria da Luz Nunes, uma filha do Dr. José Jacinto Nunes, Senador da República e presidente das Câmaras de Torres Vedras, Abrantes e Grândola figura grada em todas as regiões onde exerceu a profissão e a política autárquica, o que, de certo modo, indica que Brito Camacho tinha já alguma consideração a nível da burguesia e fez um casamento socialmente benéfico para ele.
Foi um casamento curto e infeliz, pois terminou com a morte de sua mulher durante o parto da única filha do casal a que se seguiu a morte desta, algum tempo depois. O enorme desgosto então sofrido pelo desaparecimento súbito da sua jovem esposa e da sua única filha, parece ter moldado o carácter de Brito Camacho, fazendo dele um homem duro, triste, revoltado e, por vezes, pouco sociável.




Logo após a sua licenciatura em Medicina iniciou a sua vida de médico no Alentejo, em Torrão. A sua actividade médica foi curta, muito curta mesmo, parecendo seguro ter preferido a escrita e a política à medicina, desviando-se assim daquela que, supostamente, iria ser a sua profissão.
Começou a escrever no jornal «Nove de Julho», folha política, litterária e noticiosa, que se editava em Beja, desde 1885.
Apesar disso, ainda ingressou no Quadro Permanente dos Médicos Militares em 23 de Abril de 1891, mas logo em 18 de Abril de 1895 solicitou a passagem à Inactividade temporária sem vencimento e em 11 de Julho de 1897 acabou por requerer a sua demissão, o que o Rei prontamente deferiu, podendo levantar-se aqui a hipótese deste deferimento rápido do rei ter a ver apenas com as ideias republicanas de Brito Camacho e os ataques que frequentemente dirigia à monarquia e ao rei.
Neste curto período de seis anos que durou a sua verdadeira carreira de médico militar, teve um processo disciplinar e um ano de suspensão de funções e foi transferido para os Açores.
Regressou em 1894 e foi colocado em Viseu.
Iniciou então colaboração regular na imprensa. Fundou, com Ricardo Pais Gomes e Ribeiro de Sousa, O Intransigente, jornal de crítica política e propaganda republicana que se publicou até Junho de 1895.
Nos anos de 1896 e 1897 dedicou-se à publicação e à colaboração com periódicos republicanos e desenvolveu em Évora intensa acção política, realizando conferências e inúmeros comícios.
Em 1902 apresentou uma tese de doutoramento na Universidade de Paris e em 1904 ainda concorreu a Professor da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Tanto quanto se sabe, não chegou a concluir nenhum destes projectos, nem se vislumbram os objectivos de tais esporádicas e falhadas incursões na Medicina e, muito menos a razão da escolha de Paris.
Em 1906, fundou, com outros, o periódico republicano A Lucta, que iniciou publicação no dia 1 de Janeiro. A Lucta foi o mais influente periódico republicano e, tempo depois, transformou-se no órgão oficioso do Partido Unionista.



Foi no Centro Socialista das Amoreiras que fez a sua primeira conferência política intitulada «A coroa substituída pelo chapéu alto».
Foi eleito deputado pela oposição republicana, nas eleições que se realizaram a 5 de Abril de 1908, após o Regicídio.
Falou pela primeira vez na Câmara de Deputados a 9 de Maio, protestando contra o facto de o terem obrigado, como deputado, a jurar manter uma religião que não professava e a ser fiel a uma instituição que combatia; e, logo então, apresentou um projecto de lei que visava abolir em todas as instâncias o juramento político. No Parlamento e na imprensa foi o grande defensor do derrube da monarquia e um dos líderes do movimento de opinião pública que criou as condições para a implantação da República Portuguesa a 5 de Outubro de 1910.
Em Agosto de 1909 tomou parte activa na organização das manifestações promovidas pela Junta Liberal de Miguel Bombarda. Foi dele que Brito Camacho recebeu as últimas indicações revolucionárias, a 3 de Outubro de 1910, quando aquele foi vítima mortal de um atentado.




As suas relações com o Almirante Cândido dos Reis, chefe militar do movimento insurreccional e com outros oficiais do Exército e da Marinha, permitiram a Brito Camacho, médico militar, ser um interlocutor privilegiado entre políticos e militares.
Foi um dos protagonistas da cisão do Partido Republicano Português (PRP), que originou os três principais agrupamentos políticos do novo regime - o Partido Democrático (Afonso Costa), o Partido Evolucionista (António José de Almeida) e o Partido da União Republicana ou Unionista (Brito Camacho).


Esta sua posição política, como líder e chefe de um dos principais partidos de então, levaram naturalmente à sua entrada para o Governo ou, pelo menos, a fazer dele um influente homem político.
Não é de estranhar, podendo até ajudar a que se perceba o comportamento político de agora, que o Governo tenha promulgado um Decreto, logo em 21 de Novembro de 1910, publicado na Ordem do Exército n.º 9, 2.ª série, que considerava Brito Camacho reintegrado nos quadros do Exército, no posto de capitão, contando a antiguidade desde 19 de Julho de 1901 e passando a ser promovido regularmente, ao longo da vida, até ao posto de Coronel Médico.
Este Decreto foi assinado por Joaquim Theófilo Braga, António José d’Almeida, Affonso Costa, José Relvas, António Xavier Corrêa Barreto, Bernardino Machado e António Luiz Gomes, para o qual tomo a liberdade de chamar a vossa atenção e que era do seguinte teor:


«Entre o grupo distincto dos mais ardentes servidores da Republica Portugueza, que como irrisória compensação, ainda hoje estão soffrendo as consequências da sua patriótica iniciativa, devotada isenção e inquebrantável amor pela causa pública, figura em vantajoso destaque o ex-cirurgião ajudante do regimento de artilheria n.º 2, Manuel de Brito Camacho.
Há cerca de vinte annos que este benemérito cidadão tem dedicado, com exclusivo e perseverante ardor, ao serviço e pública propaganda do ideal republicano, as melhores energias do seu carácter e os maiores fulgores do seu talento. Desde os seus artigos no extincto jornal Nove de Julho, até aos seus trabalhos brilhantes como conferencista, orador e organisador de núcleos de resistência contra o decaído regímen monarchico, e ainda ultimamente a diffusão esclarecida e methodica dos princípios democráticos feita entre as classes mais illustradas da sociedade portugueza pelo seu apostolado admirável no jornal A Lucta, Manuel de Brito Camacho tem-se revelado sempre como um dos mais arrojados, confiantes e leaes cooperadores n’essa obra grandiosa de saneamento e justiça que acaba de emancipar a Pátria Portugueza.
A collaboração de Manuel de Brito Camacho no jornal Nove de Julho e a apresentação da sua candidatura como deputado republicano, valeram-lhe a imposição d’uma grave pena disciplinar, que o levou, depois, com justificado desgosto, a demittir-se do exercito.
É agora um dever elementar de equidade reparar a injustiça feita e reintegrar o ex-cirurgião ajudante Manuel de Brito Camacho no cargo que antigamente exercia no exercito, com a sua folha de serviço limpa e occupando o posto na escala de promoção que hoje lhe pertenceria se não tivesse deixado o exercito.
É como expressão d’este levantado princípio de justiça que se publica o seguinte decreto.
O Governo Provisório da Republica Portugueza decreta, para valer como lei, o seguinte:
Artigo 1.º - É annullado o castigo imposto em 9 de Abril de 1894 a Manuel de Brito Camacho, sendo riscada a nota na respectiva folha.
Artigo 2.º - É reintegrado nos quadros do exercito o ex-cirurgião ajudante Manuel de Brito Camacho, no posto de capitão médico, por ser esta a sua altura na escala de promoção, com a antiguidade d’este posto, de 19 de Julho de 1901.
Determina-se, portanto, que todas as auctoridades a quem o conhecimento e a execução do presente decreto, com força de lei, pertencer, o cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente como n’elle se contém.
Os ministros de todas as repartições o façam imprimir, publicar e correr.
Dado nos Paços do Governo da Republica, aos 21 de Novembro de 1910»

E logo a 23 de Novembro de 1910, foi nomeado Ministro do Fomento do Governo Provisório, substituindo o Dr. António Luiz Gomes.
Levou a cabo importantes reformas e decisões sobre o crédito agrícola, os caminhos de ferro e os transportes em geral.
Em 18 de Dezembro de 1910, com as assinaturas de Teófilo Braga e Brito Camacho, foi criada a ACAP (Associação de Classe Industrial de Vehículos e Artes Correlativas), hoje Associação Automóvel de Portugal que representa um dos mais dinâmicos e inovadores sectores da economia nacional.
Mas preocupou-se, sobretudo, com o ensino técnico. Neste sector fez publicar em Maio de 1911 (vão lá 100 anos) um Decreto onde procedeu à divisão do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, criando em sua substituição o Instituto Superior de Comércio (actual ISEG) e o Instituto Superior Técnico, por considerar que “o nosso atraso provém, apenas, de insuficiência do nosso ensino técnico, insuficiência que ontem era um mal e hoje é um perigo dada a luta de competência que é preciso suportar na concorrência aos mercados de todo o mundo”.
Em Setembro de 1911, após as primeiras eleições republicanas, voltou a integrar o Governo.
Durante a I Grande Guerra conservou-se afastado dos governos da União Sagrada, defendendo a ideia de que a participação de Portugal deveria ser nas colónias e não em França.
Apesar de ele não concordar, Portugal decidiu constituir o Corpo Expedicionário Português e entrou na Guerra.
No que a esta respeita, para além do seu pensamento político sobre ela, sobram dois acontecimentos que me parecem merecer especial atenção e reflexão sobre a sua personalidade e o poder do poder. Brito Camacho esteve mobilizado e foi desmobilizado, como se poderá ver na leitura de dois documentos que elaborou a esse respeito e que representam apenas a visão unilateral e pessoal dos factos e onde se pode ler o seguinte:
«Chegou ao meu conhecimento que um tenente coronel médico reclamou da ordem que o mandava seguir para França, em serviço de campanha, alegando que a mim e não a ele competia, n’aquella altura, uma tal missão de serviço.
Sou levado a crer que não tinha bons fundamentos a reclamação, visto não ter obtido despacho favorável; mas nem por isso deixa de ser verdade que na Secretaria da Guerra existe um documento em que um oficial do meu quadro e da minha patente se considera prejudicado em meu favor.
Em 12 de Fevereiro de 1917, sendo deputado da Nação, dirigi ao Presidente da Câmara dos Deputados uma carta assim redigida
Ex.mo Snr. Presidente da Câmara dos Deputados
Em nota de que me foi dado conhecimento hoje, o Quartel General da 1.ª Divisão do Exército ordenou ao Ex.mo Director do Hospital Militar de Lisboa que me mandasse apresentar na 5.ª repartição do Ministério da Guerra, afim de ser incorporado como capitão médico, na expedição a Moçambique.
Fiz imediatamente a minha apresentação.
Tenho, pela Constituição Política da República, o direito, que é ao mesmo tempo uma obrigação, de acompanhar regularmente os trabalhos parlamentares, e desse direito não prescindo enquanto durar a sessão legislativa ordinária, isto é, até 2 de Abril. Terminada ella, se o Ministério da Guerra carecer dos meus serviços fora do território continental da República, estarei pronto a desempenhá-los.
Digne-se V.a Ex.a comunicar ao Ministério da Guerra, para os devidos effeitos, o que deixo exposto.
Saúde e Fraternidade.
Sala das Sessões, 12 de Fevereiro de 1917
Manoel de Brito Camacho

No segundo documento dirigido ao Chefe da Repartição de Saúde Militar, a quem envia cópia do documento anterior, diz o seguinte:
Como V.a Ex.a vê, estou à disposição do Ministério da Guerra, para serviço de campanha, desde o dia 2 de Abril de 1917, até aos primeiros dias de Dezembro do anno corrente, por ter prescindido das minhas imunidades parlamentares, e a partir de então por ter perdido essas imunidades, dissolvido por decreto o Congresso da República.
No dia 8 de Junho próximo passado apresentei-me no Quartel General Territorial do C.E.P. com guia da 5.º repartição da 2.ª direcção da Secretaria da Guerra, e no dia 21 imediato, finda a licença regulamentar que gozara, foi-me lançada na guia esta verba – Apresentado e marcha amanhã para França no comboio das 20 e 05 a apresentar-se ao serviço do C.E.P. devendo apresentar-se na legação portuguesa de Paris no dia 25 do corrente.
Sucedeu, porém, que n’este mesmo dia, por motivos que ignoro, a Secretaria da Guerra mandou sustar a minha partida, ficando demorado sem limitação de tempo.
Encontro-me na situação que me criou a Secretaria da Guerra, por motivos de que nem sequer tenho o direito de inquirir; mas como já um oficial do meu quadro e da minha patente reclamou por não ir eu para França adiante d’elle, resolvi fazer a V.a Ex.a, como chefe da corporação dos médicos militares, a quem incumbe uma função tutelar com respeito aos seus interesses e decoro, esta exposição que fará parte do meu processo individual, para lhe dizer que marcharei para o serviço de campanha, logo que me mandem marchar, sem que verifique o logar que ocupo na respectiva escala e sem olhar para traz, no momento da partida, a ver se fica por cá alguém que devesse ir adiante de mim.
Saúde e Fraternidade.
Lisboa, 7 de Setembro de 1918
Manoel de Brito Camacho
Tenente-coronel médico»

Em 1920 e apenas com 58 anos de idade recusou o convite para formar um governo apoiado pelo Partido Liberal Republicano (que resultara da fusão dos Partidos Unionista e Evolucionista), o que seria a cereja em cima do bolo, pelo que representava ser o seu Partido Unionista, embora apoiado por outro, a chefiar o Ministério.
Mas, Brito Camacho recusou. Por medo ou cobardia não seria, pois disso a sua frontalidade o impediria.
Parece a um observador menos atento como eu, que Brito Camacho sofreria já os efeitos de uma vida agitada e tumultuosa e não via sair desses primeiros anos da República os frutos que imaginara e desejara para o país, mas antes via a repetição dos erros do passado e o domínio dos pobres pelos ricos, com umas finanças cada vez mais esgotadas, uma grave crise bancária e dívidas ao exterior.
Exerceu ainda as funções de Alto Comissário da República em Moçambique, de Março de 1921 a Setembro de 1923, embora regressasse a Lisboa em 1922, provavelmente por doença.
Em 1925, manifestou a vontade de abandonar a vida política activa e o cargo de Deputado.
Continuou, no entanto, a promover a defesa dos ideais democráticos e da estabilidade política da República, em inúmeras conferências pelo país.
Parecia adivinhar o que lá vinha, pois após a Revolução de 28 de Maio de 1926 foi obrigado a abandonar a actividade política e retirou-se para a vida privada.
Era um livre pensador. Pugnou por mais educação popular e apoiou os Grémios de Instrução e os Centros Escolares Republicanos pois considerava «…que aos letrados não convém que se difunda e intensifique a instrução, assim como aos ricos não convém que haja uma repartição mais equitativa das fortunas. Se o nível intelectual subisse, o valor de muita gente baixava, porque se tornaria manifesta a sua incompetência para ascenderam às posições que ocupam. A ignorância, mais que a preguiça, é a mãe de todos os vícios, porque, embora não tire ao homem o lugar que ocupa na escala zoológica, reduz a pouco mais de nada a sua categoria social, o seu valor como cidadão». (em Matéria Vaga, pág. 6).
Pertenceu ao Grande Oriente Lusitano, tendo-se iniciado em 1893 no triângulo de Torres Novas.
A sua vida literária foi vária e vasta, quer como publicista, contista, literatura de viagens, cronista político ou de costumes.
Dizia que era para si que escrevia - «esforço-me para que os meus escritos reflictam o mais exactamente possível o meu particular modo de pensar e de sentir, as minhas ideias e os meus sentimentos, sempre norteado por um ideal de justiça, de verdade e de beleza».
É muito extensa a sua obra publicada, de que são prova os 39 títulos abaixo descriminados. Mas além dos livros publicados há que ter em conta as centenas de artigos publicados, as dezenas de palestras efectuadas.

Lourdes / Gente vária / Contos e sátiras / Gente rústica / Contos ligeiros / A reacção / Por ali fora: notas de viagem / Os amores de Latino Coelho / Gente bóer: aspectos de África / Por cerros e vales / De bom humor / A linda Emília / Impressões de viagem: cartas a um jornalista / Longe da vista / Moçambique: problemas coloniais / Rescaldo da guerra: através do "Livro Branco" / Política colonial / D. Carlos, íntimo / Memórias e narrativas alentejanas / Contos selvagens: recordações de África / A caminho de África / Questões nacionais / Nas horas calmas / Jornadas / Dois crimes / Cenas da vida / Ao de leve / Ferroadas / Quadros alentejanos / Pretos e brancos / Pó da estrada / Terra de lendas / Portugal na guerra / Rescaldo da guerra através do "Livro branco": continuação do "Portugal na guerra" / Matéria vaga / A reacção / Longe da vista / A educação nacional / Por ahi fóra: notas de viagem



































Manuel Brito Camacho foi sempre uma personalidade polémica. Admirado por muitos e odiado por outros tantos. Era uma personalidade que não deixava ninguém indiferente.

Raul Brandão que considerava que a liderança da República assentava em três políticos dizia deles - «O Afonso Costa desperta paixões e manda, o António José (de Almeida) arrasta multidões com frases. O Brito Camacho, até quando tem razão, é detestado – talvez mais detestado do que quando a não tem […]” .
Podia ser detestado, tanto como era amado. Mas não era neutro.
Personalidade marcada e influente, pouco sociável e contestatária, peça importante na luta pelo derrube da monarquia e pela implantação da República, talvez isso explique o interesse que foi despertando naquela época e ao longo dos tempos e de que são prova os vários livros que sobre ele se escreveram:

Manuel Brito Camacho ; org. e pref. António Aresta
Brito Camacho : político 1862-1934 / textos Teresa Sancha Pereira ; coord. António Trindade, Álvaro Albuquerque
Manuel de Brito Camacho : alguns aspectos sobre o homem e a sua genealogia pela comemoração do centenário da fundação do jornal "A lucta" / Orlando da Rocha Pinto
O pensamento anticlerical de Brito Camacho / Luís Vaz ; pref. António Arnaut
Brito Camacho - calunialista / Eduardo de Almeida Saldanha
Brito Camacho / M. Ferreira de Mira e Aquilino Ribeiro
Brito Camacho : algumas reflexões acerca da sua obra colonial / João Fernandes
A rebolação: resposta ao folheto "A Reacção" do Sr. Dr. Brito Camacho / Frey Gil
Brito Camacho (Tropical) : compilação dos artigos publicados em 1933 / Ismael Alves da Costa
Brito Camacho ameaçado de morte pelos democráticos e o 19 de Outubro / Tomé Vieira


Contudo o interesse que motivou os autores destas obras, foi bem maior que o reconhecimento público da sua carreira de político e de médico. Teve poucos louvores e honrarias, talvez porque o seu pensamento político se poderia definir tal como o escreveu na página 6 de «Matéria Vaga» e que atrás vos li, mas não será de mais repetir:

«…que aos letrados não convém que se difunda e intensifique a instrução, assim como aos ricos não convém que haja uma repartição mais equitativa das fortunas. Se o nível intelectual subisse, o valor de muita gente baixava, porque se tornaria manifesta a sua incompetência para ascenderam às posições que ocupam. A ignorância, mais que a preguiça, é a mãe de todos os vícios, porque, embora não tire ao homem o lugar que ocupa na escala zoológica, reduz a pouco mais de nada a sua categoria social, o seu valor como cidadão». (em Matéria Vaga, pág.6).

Louvado pela muita competência de que deu prova nos trabalhos apresentados e pela dedicação e interesse como procurou levar a cabo a missão que lhe havia sido confiada como vogal da comissão nomeada para a reorganização do Exército (2 de Maio de 1911), é tudo menos um louvor a um homem da sua envergadura política.
Ordem Militar de Aviz, um pouco melhor.
Comendador da Ordem de S. Thiago da Espada, é pior que não ter, no seu caso. Comendador, só?
Medalha comemorativa das Campanhas do Exército Português?
E se considero que foi pouco louvado ou medalhado, não deixo de considerar estranho que tenha recebido a Medalha das campanhas do Exército, quando não fez nenhuma delas, fosse ou não por sua culpa, não as ter feito.
Como parece ser comum à maioria daqueles que fizeram algo de útil pela Pátria ou pela Humanidade, também com ele sucedeu que só passados anos sobre a sua morte a memória dos homens se tenha lembrado dele e tratasse então de perpetuar a sua memória:
Foi dado o seu nome a várias ruas e avenidas nas seguintes localidades – S. João do Estoril, Oeiras, Lisboa, Évora, Ferreira do Alentejo, Viana do Alentejo, Beja, Castro Verde, Montemor o Novo, Pedrógão do Alentejo, Pias, Lourenço Marques (hoje Patrice Lumumba em Maputo), Sesimbra, Évora, Rio de Moinhos, Almodôvar.
A 29 de Outubro de 1987, o Presidente da República Mário Soares, descerrou uma lápide comemorativa na casa de Aljustrel onde Brito Camacho viveu, onde se lê – Homenagem a Brito Camacho por ocasião da instalação da Presidência da República no Alentejo, sendo Presidente da República o doutor Mário Soares Aljustrel, 29-10-1987.



Em 1999 foi atribuído o nome de Brito Camacho à Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos de Aljustrel, designado seu patrono e inaugurado o seu busto em bronze, perpetuando a sua memória.



Morreu em Lisboa no dia 19 de Setembro de 1934.

Tenho dito.

domingo, julho 31, 2011

sorriam, já que rir não podem

Estamos em férias de Verão. Na silly season. Claro que a crise continua o que quer dizer que cada dia se agrava mais. Mas não parece. Os múltiplos festivais de música do norte ao sul estão completamente cheios com jovens que pagaram (Quer dizer, que alguém pagou por eles) bilhetes que chegam aos 70 euros. Crise? Neste momento em que escrevo passa na televisão a festa de Verão da família TVI com várias locutoras entrevistando as estrelas ou as famosas e famosos que a ela vão assistir. Quem diabo se terá lembrado de lançar esta moda dos chamados famosos! Famosos de quê? Famosos por quê? Deixem-se disso, senhores. Parem um pouco para pensar. Desçam à terra, que bem precisam. Tratem de tentar ser gente.
Crise. Crise. Será? Garanto-vos que para a grande maioria dos portugueses é a crise, verdadeira e grave. mas não parece, sobretudo àqueles que não sabem o que é isso.
Para aqueles que dela sabem e se ainda conseguirem sorrir, que rir já não acredito, deliciem-se com este magnífico sketch da montagem feita por Bruno Nogueira há já bastante tempo no seu programa de então o Lado B.

terça-feira, julho 26, 2011

privatizações

Em 9 de Outubro de 1998, enderecei a José Saramago uma carta de felicitações por lhe ter sido concedido o Prémio Nobel da Literatura desse ano, em meu nome pessoal e das Sociedades a que então presidia a SOPEAM (Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos) e a UMEAL (Uníão dos Médicos Escritores e Artistas Lusófonos).
Entre várias coisas referia-me ao premiado como o homem raro, íntegro, coerente e frontal e ao escritor ímpar da literatura contemporânea, burilador e alquimista da palavra portuguesa (...,) e terminava escrevendo - Obrigado, José Saramago, por ter elevado a nossa língua ao local que ela merece e a tenha levado ao conhecimento dos muitos que teimam em nos ignorar.

Este intróito para melhor entenderem a razão porque hoje resolvi deixar aqui uma pequena transcrição da página 148 do Diário III dos Cadernos de Lanzarote, em que são bem patentes algumas das características que ali apontava e ainda pela oportunidade do tema nestes conturbados tempos que ora passamos.
Sei que nem todos amavam Saramago e que muitos o odiavam. Não sei, no entanto, de ninguém a quem ele fosse indiferente. E poucos como ele sabiam tão bem chamar os bois pelos nomes.

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

terça-feira, julho 19, 2011

um concentrado de beleza e paz



Cada vez mais a vida agitada de alguns, os problemas de todos, a crise que por aí anda e, mesmo sem o querermos (mas já o crermos), começamos a sentir de forma ameaçadora, tudo isto e mais uma mão cheia de outras coisas, leva-nos a andarmos cada vez mais irritados ou deprimidos ou agressivos ou profundamente tristes, de tal modo que se torna insistentemente necessário podermos socorrer-nos, de quando em quando, de qualquer coisa que nos faça sentir que o mundo não é todo assim, que há coisas boas na vida, que há coisas que são bálsamo para as nossas queixas.
Foi por isto que, embora receie que já alguma vez tenha cedido ao desejo de a colocar aqui (mas esperando que seja realmente pela primeira vez), a deixo aqui hoje para consolo de todos, mesmo daqueles que possam ter alguma dureza de ouvido ...
Ninguém que ouça esta canção de Francesco Sartori e Lucio Quarentotto, chamada «Con te partiró», interpretada magistralmente por Andrea Bocelli e Sarah Brightman, pode ficar indiferente ou insensível à sua beleza.
Ouçam, voltem a ouvir e deixem o amor e a paz invadir-vos. Ganhem fôlego para a crise.

Deixo também a letra da canção em italiano e português.

Quando sono solo
Sogno all'orizzonte
E mancan le parole
Si lo so che non c'è luce
In una stanza quando manca il sole
Se non ci sei tu con me, con me

Su le finestre
Mostra a tutti il mio cuore
Che hai acceso
Chiudi dentro me
La luce che
Hai incontrato per strada

Con te partirò
Paesi che non ho mai
Veduto e vissuto con te
Adesso si li vivrò
Con te partirò
Su navi per mari
Che io lo so
No no non esistono più
Con te io li vivrò

Quando sei lontana
Sogna all'orizzonte
E mancan le parole
E io si lo so
Che sei con me, con me
Tu mia luna tu sei qui con me
Mio sole tu sei qui con me, con me
Con me, con me...

Con te partirò
Paesi che non ho mai
Veduto e vissuto con te
Adesso sì le vivrò
Con te partirò
Su navi per mari
Che io lo so
No no non esistono più
Con te io li rivivrò
Con te partirò
Su navi per mari
Che io lo so
No no non esistono più
Con te io li rivivrò
Con te partirò
Io con te


Quando estou só
sonho no horizonte
e faltam as palavras
Sim, eu sei que não há luz
em um quarto quando falta o sol
Se você não está comigo, comigo

Erga as janelas,
mostre a todos o meu coração
que você acendeu
Feche dentro de mim
a luz que
você encontrou pelas ruas

Com você partirei
Países que nunca
vi e vivi com você
Agora sim os viverei
Com você partirei
Em navios por mares
que, eu sei,
não, não existem mais
Com você eu os viverei

Quando você está distante
sonha no horizonte
e faltam as palavras
E eu, sim, sei
que você está comigo, comigo
Você, minha lua, você está aqui comigo
Meu sol, você está aqui comigo, comigo,
comigo, comigo

Com você partirei
Países que nunca
vi e vivi com você
Agora sim os viverei
Com você partirei
Em navios por mares
que, eu sei,
não, não existem mais
Com você eu os reviverei
Com você partirei
Em navios por mares
que, eu sei,
não, não existem mais
Com você eu os reviverei
Com você partirei
Eu com você

o que há de escandaloso no escândalo


Ce qu'il y a de scandaleux dans le scandale, c'est qu'on s'y habitue.
[Simone de Beauvoir]

Não sei porque razão (ou sei-o bem demais) me veio hoje à cabeça esta afirmação de Simone de Beauvoir, feita há mais de 60 anos. Estas palavras e esta ideia nasceram no tempo em que ela preparava e escrevia a sua magnífica obra «Le Deuxième Sexe», livro que se tornou uma referência mundial do movimento feminista, onde analisou as desigualdades entre os dois sexos, no que se referia a consideração social, direitos de trabalho, liberdades (assim mesmo, no plural). O homem, cabeça do casal, chefe do clã, a mulher escrava do lar, do marido e dos filhos. Não sabia e continuo sem o saber, porque aparentemente não havia qualquer link (deixem-me usar esta palavra porque exprime melhor que qualquer outra o que agora queria dizer) a esta época, a este tema, a esta escritora. Pelo menos era o que eu pensava antes, tenho continuado a pensar enquanto venho alinhando estas palavras e, não fosse esta estranha sensação que comecei a sentir, ainda agora sentiria.
Mas, falando verdade - em tempo e tema, começo a sentir que no fundo, bem lá no fundo do registo mnésico que ainda vou tendo, estas lembranças se quiseram associar a outras actuais, aparentemente não relacionadas, mas cada vez mais inequivocamente ligadas.
E, pouco a pouco , comecei a reparar que esta associação se faz não a problemas de sexo, seja ele primeiro ou segundo ou terceiro, mas a temas que se prendem mais com a palavra escândalo, seja qual for a sua origem ou o justificativo do nome. Poderia pensar-se, dada a actualidade do tema, que me refiro a escândalo sexual, grau 1 do link que se estabeleceu. De facto, um escândalo sexual aparentemente semelhante a umas centenas ou milhares deles que se praticam diariamente, tomou proporções globais, planetárias, por nele estar envolvido alguém que exercia uma posição chave a nível político e económico mundial – DSK, o senhor FMI, abusou de alguém, tratando-a como segundo sexo, como ser descartável, objecto de prazer ocasional, aparentemente de forma não consentida. Poderei dizer que se tratou de um verdadeiro escândalo e escandaloso. Poderei dizer ainda que se tratou de uma relação de poder (e imenso) sobre quem não tinha nenhum. O facto de este escândalo se ter passado nos EUA e, ainda por cima em Nova Iorque, veio criar-nos a ilusão de que, afinal, o poder tem limites, os fracos e oprimidos têm voz e força e, para que não restassem dúvidas todo o mundo assistiu às imagens filmadas e insistentemente repetidas do senhor DSK sair algemado do avião onde supostamente iria a fugir e conduzido pela polícia para o tribunal e para a prisão, sem direito a caução, mesmo que milionária.
Foi isso que todos vimos, ouvimos e lemos – e como no poema e na canção, não podemos ignorar.
Só que o mundo não pára, o tempo também não e os poderes políticos e económicos, muito menos.
Por isso, com a rapidez do poder, assistimos a um filme com vários cenários e vários realizadores, que nos mostraram o nascimento e fim de uma cabala política por causa económica, em que o predador passa a vítima indefesa daqueles a quem ele iria prejudicar na sua pretensa campanha de justiceiro económico.
Outro realizador e outro cenário centrava a acção num golpe político da direita francesa contra o presumido candidato de esquerda â presidência da França.
Outros ainda vieram mostrar e, parece, que até demonstrar que a vítima sexual tinha pouco de vítima e muito de golpista e especuladora e chantagista e, crime dos crimes, ainda por cima era negra e de um país quase inexistente, por desconhecido, que se chama Guiné Equatorial. E, atenção, e, parece haver registo telefónico de uma conversa da vítima com o seu namorado preso numa prisão de alta segurança, em que ambos discutem sobre o lucro que poderão obter com a denúncia da suposta violação.
Embora se aguarde ainda o final destes filmes ou de um novo que anunciará, por certo - eis aqui a verdadeira verdade (!) - já assistimos ao pagamento de uma caução multimilionária, dita anteriormente não permitida, ao tirar das algemas e sua exibição pública e à saída do predador em liberdade, com termo de residência e sem passaporte. Mas com o dinheiro da caução de volta ao seu bolso e , mais do que tudo, vimos e ouvimos o procurador público a correr toda a escala da linguagem acusatória, até ao canto dúbio da surpresa de a prova acusatória passar a frágil e a admitir que vai ser difícil manter a acusação.
O predador, a mulher, a quase totalidade da esquerda francesa embandeira em arco com a possibilidade eventual de poder manter o seu candidato presidencial, enquanto a direita fica preocupada e resolve avançar um peão no tabuleiro deste combate de galos, que sete ou oito anos depois vem acusar o dito DSK de tentativa de violação…
É evidente que este romance não é para rir e só pode ser para chorar.
Mas será que alguém ainda chora com este escândalo?
Será que Simone de Beauvoir tinha razão quando pensou e escreveu o que está na epígrafe? Será que já todos nos habituámos ao escândalo, por mais escandaloso que seja?
Penso que sim, que ela teve razão quando escreveu que o que é escandaloso no escândalo é nós habituarmo-nos a ele. Só pode ser isso. Se assim não fosse, como aceitarmos de uma forma amorfa, quase indiferente, que os escândalos estoirem regularmente por todo o lado, envolvendo pessoas supostamente respeitáveis até aí, que nalguns casos continuemos a considerá-los assim mesmo depois de tomarmos conhecimento dos seus escândalos, a que já nem sequer chamamos assim, mas simplesmente apelidamos de notícias.
Como continuarmos mudos e quedos ao assistirmos aos BPN (está certo ter escrito «aos», pois eles são muitos e com vários graus de responsabilidade, de fraude e de lucro), aos BPP, às EP tornadas coutadas de filhos dos respeitáveis, cobrindo com esses actos magnânimos os seus próprios abusos pessoais de se atribuírem ordenados, benesses, mordomias, imorais e afrontosas para todos aqueles que vêem o seu trabalho ser pago nos valores mínimos.
Como ficar mudo e quedo perante tanta hipocrisia política daqueles que hoje apontam uma solução e um caminho para a crise que é exactamente o contrário do que eles próprios fizeram e seguiram quando deram o seu contributo para que ela mais tarde aparecesse.
Como ficar mudo e quedo quando assistimos a desmandos vários, a baixas irregulares, a subsídios de desemprego dados a quem está a trabalhar noutro local ou recusa emprego, a reformas de políticos com regras muito próprias, a milhares de processos pendentes por parte de uma classe que sendo poder independente exige sindicatos próprios, a um número não esclarecido de chicos espertos que se vangloriam de não pagar impostos e ainda são por vezes felicitados pelas suas «habilidades», como ficar mudo e ainda vibrar com algumas das suas vitórias, cós as irregularidades desportivas, os gastos e ordenados sumptuosos, os gastos vergonhosos com programas de televisão que nada fazem pela educação dos portugueses, mas antes pelos seus defeitos e vícios.
Só pode ser isso. Ou então estamos todos anestesiados. Mergulhados em escândalos e nada nos toca. Tens razão, Simone – habituámo-nos.

domingo, julho 17, 2011

já nada me espanta



Já nada me espanta é o título que Tiken Jah Fakoly deu a mais esta canção, das muitas que se encontram nos vários álbuns já editados e que têm despertado grande interesse por parte dos seus fãs e muitos ódios por parte daqueles que ele critica, pelos seus abusos de poder, os seus regimes ditatoriais, a discriminação, a exploração do homem pelo homem, especialmente nos países da África ocidental subsahariana.
Estes ódios são tais que fazem com que Doumbia Moussa Fakoly, verdadeiro nome do cantor e músico de reggae Tiken Jah Fakoly, nascido na Costa do Marfim se encontre a viver em Bamako, no Mali, após ter sofrido várias tentativas de assassinato e perseguições várias.
No Senegal, foi declarado persona non grata e proibido de regressar aquele pais, em virtude das acusações políticas que faz durante os seus espectáculos.
Já actuou em Portugal, onde foi bem recebido e aplaudido.
Tem músicas talvez mais interessantes do que esta que aqui vos deixo, mas esta tem a vantagem de estar traduzida e poder chegar a mais gente. Música e texto linear mas eficaz, dizendo o que quer dizer e precisa ser dito e duma forma que quem escuta, além de ouvir, não deixe de reflectir e interrogar-se.

terça-feira, junho 28, 2011

um diálogo de hoje












Por mais voltas que o mundo dê, por mais anos que passem, por mais que se pense e diga e escreva, há coisas que nunca mudam, como a cobiça de muitos, a exploração de outros, o abuso do poder sobre os que o não têm.
Vem isto a propósito de um diálogo entre
Jean-Baptiste Colbert, ministro de Estado e da Economia do rei Luís XIV e o Cardeal Giulio Raimondo Mazzarino, italiano radicado em França, sucessor do Cardeal Richelieu e Primeiro Ministro de França quase 20 anos, que me parece confirmar o que atrás escrevi. Leiam e confirmem.

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

a propósito de metáforas

O filme "Being there" (1979), traduzido entre nós por "Bem-Vindo Mr. Chance", baseado numa novela de Jerzy Kosinski conta-nos a história de um jardineiro que até à morte de seu patrão apenas conhecia o seu pequeno mundo limitado ao jardim da mansão, de onde nunca saíu. Só se afasta do seu trabalho e conhece a realidade quando é posto na rua após a morte do seu patrão. Tudo que conhecia até então era o que via e ouvia na televisão. Sucedeu então que após um pequeno acidente é levado para casa de um importante lobbista político (Melvin Douglas) pela sua mulher, responsável pelo acidente (Shirley MacLaine). A partir daí tudo que ele dizia, embora realmente fosse de um vazio total, dito de forma tão desgarrada, parecia a outros corresponder a uma grande capacidade de raciocínio, a um pensamento filosófico e cultural espantosos e de uma grande profundidade. Daí até presidente dos EUA foi um pulo. Peter Sellers, Shirley MacLaine e Melvin Douglas assinaram grandes interpretações e contribuíram muito para o êxito do filme de Hal Ashby. Em 1994, Robert Zemeckis realizou Forrest Gump, com uma brilhante interpretação de Tom Hanks que nos mostra um personagem que apesar das diferenças nos faz lembrar Mr. Chance.
Mas, por estranho que pareça, não estou a escrever sobre cinema e muito menos sobre estes filmes em especial. Estou a fazê-lo porque a crónica escrita por António Guerreiro na sua coluna «Aopédaletra» no Atual (Expresso de 18 de Junho) me trouxe à memória esse filme de Ashby que me fez rir com gosto no final da década de 70. Mas, a crónica era tudo quanto aqui queria deixar.

«Uma metáfora da doença marcou este ano o discurso do Presidente da República, no 10 de junho, quando disse que acreditava que os portugueses queriam ser curados da doença que afeta Portugal. As suas palavras inscrevem-se numa história das metáforas de má memória. A um Presidente da República não se exige conhecimentos de metaforologia, ainda que neste caso bastasse a intuição para perceber que estava a entrar num terreno perigoso. Mas essa metáfora joga com outra dimensão semântica: ela atribui a Portugal qualidade de um ser biológico. Se quiséssemos procurar um antepassado ilustre para este pensamento (chamemos-lhe assim), poderíamos citar Oswald Spengler, que em 1918 publicou "O Declínio do Ocidente", onde defendia que a civilização ocidental, na sua história, cumpria um ciclo semelhante ao de um organismo: um ciclo "natural" de nascimento, crescimento e morte. Spengler imaginava-se assim a fazer um diagnóstico da civilização ocidental e a detetar os sintomas da sua decrepitude. Semelhante tropismo biológico está presente na metáfora do Presidente. Vendo o país como um organismo vivo, Cavaco Silva vai ao encontro do pensamento mais reacionário do século XX (não apenas representado por Spengler). Faz mais do que isso: imagina-se como um pastor cheio de solicitude e preocupação pelo seu rebanho, vê o exercício da presidência como uma pastorícia e os seus discursos como pastorais. Ele quer a saúde e a salvação do rebanho, quer que a criação do parque aceite voluntariamente tratar-se. A isto poderia chamar-se "biopolítica" em estado bucólico. Mas talvez lhe possamos chamar a "síndrome de Mr. Chance", em homenagem à personagem do filme de Hal Ashby, que chegou a Presidente dos Estados Unidos por fazer metáforas que ninguém entendia».

segunda-feira, junho 27, 2011

é tudo um teatro

Na sua coluna no Expresso último, sob o título Cinismo e Piqueniques, publicou Daniel de Oliveira uma crónica em que desmascara o enorme teatro da mentira e do marketing. Sob a pseudo-capa de actos louváveis, genuinamente patriotas, ditados pelos melhores sentimentos de amor à Pátria e aos portugueses, numa ajuda solidária, como seria de esperar de tão honestas empresas e fundações, monta-se um teatro, cozinha-se uma peça à medida, enche-se uma plateia imensa de espectadores, fazem-se uns truques de ilusionismo, cria-se uma aura de ajuda voluntária, oferecem-se bens que não são deles mas dos produtores e no fim da festa, por favor, não se esqueçam de ter para comnosco, vossos benfeitores, a delicadeza de frequentar os nossos estabelecimentos e depositarem nas nossas caixas quanto puderem e não puderem. O que é que ainda hoje não nos revolta? Haverá alguma coisa? Valerá a pena eu estar para aqui a escrever, agitar ideias, lançar dúvidas, espicaçar as consciências? E saberei eu fazer tão nobre acção? Penso que não. Se quiserem saltem o meu texto e leiam apenas a crónica que vos deixo a seguir.


«A avenida da Liberdade fechou e o Continente fez a festa. O circo tinha uma benemérita função: alertar para a importância da produção nacional. Simpático, vindo da parte de uma grande distribuidora. Mas, já com o palco desmontado, seria bom começar uma conversa franca com estes senhores. O Pingo Doce teve em 2010, um aumento dos seus lucros em 40%. Depois de puxar as orelhas aos governantes, que "gostam de truques", Alexandre Soares dos Santos explicou que o segredo do seu sucesso "assenta em trabalho". Quais oráculos da nação, Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos explicam, aconselham, apoiam candidatos, debitam soluções.
Mas o 'trabalho' da Jerónimo Martins e da Sonae, que dominam cerca de metade do mercado de retalho alimentar (se juntarmos as restantes grandes distribuidoras, chega quase aos 90%) resume-se a isto: uma relação de abuso com quem produz. "Se tivermos de morrer, morremos hoje. Não vamos estar a sobreviver aos soluços". Foi assim que a gestora da Laticínios das Marinhas - empresa que produz a 13ª melhor manteiga do mundo - explicou o fim das relações comerciais com a Jerónimo Martins.
Sim, a culpa é dos políticos. Foram eles que permitiram que o território fosse coberto de grandes superfícies, deixando que estes eucaliptos comerciais destruíssem o comércio local e, mais grave, a agricultura. Foram eles que, depois de Maastricht, ancoraram o escudo ao marco, para cumprir as metas de inflação, e penalizaram de forma irreversível as empresas exportadoras, que migraram para os produtos não transacionáveis. A Sonae é um bom exemplo desta trágica migração empresarial: de líder mundial em contraplacados passou a líder nacional de distribuição. De exportador de sucesso, passou a importador que sufoca a produção nacional, tendo hoje a sua área de negócio original uma importância marginal. E assim se garantiu um crescimento económico à custa do défice externo. Estamos agora a pagar a fatura destas escolhas.
Cada vez mais portugueses estão preocupados com o facto de importarmos tanto e tentam comprar produtos nacionais. Sensíveis a estas preocupações, as grandes superfícies fazem campanhas e piqueniques patrióticos. O que é nacional é bom. A coisa deve provocar um sorriso amarelo nos produtores. Com que lata pode a Jerónimo Martins, o quinto maior importador nacional, dizer que ajuda a economia portuguesa? Com que lata pode o Continente, que baixa os preços aos pequenos fornecedores quando quer e fica com a parte de leão dos lucros, fazer campanhas pela produção nacional? É legítimo que os empresários procurem os negócios que lhes garantem maior rendibilidade. Só é bom percebermos que nem sempre os interesses de todos empresários são iguais aos interesses do país. Não se trata de decidir quem são os 'bons' e os 'maus'. Trata-se de saber se os negócios a que cada um se dedica são os que mais nos interessam a cada momento. Nas circunstâncias em que estamos, as grandes distribuidoras prejudicam a economia. Porque sufocam os produtores e aumentam as importações. É claro que vamos aos hipers para poupar. Mas não vale a penas pensar que, naqueles longos corredores, podemos ajudar o país. As campanhas pela produção nacional são apenas isso: campanhas. A realidade é, como sabem os produtores, bem diferente».

sábado, junho 25, 2011

nascer pintora

Não costumo «embarcar» nestes meninos prodígios que por aí vão abundando, a menos que tenha razões que me levem a acreditar ou a não duvidar da veracidade desses prodígios.
No que respeita à arte sou ainda mais resistente, sobretudo depois de ter sido presenteado com um magnífico vídeo que nos mostrava uma escola de ensino básico madrilena em que a professora colocara uma tela sobre a mesa e disse aos seus alunos para que usassem as mãos, os pincéis e todas as tintas que quisessem para fazer uma pintura naquela tela virgem. Pois bem, depois desta pronta, a professora conseguiu entrar na famosa ARCO de Madrid e dependurar num espaço livre a tela recém pintada. Até aqui tudo bem. O que pretendia a professora? Testar as opiniões dos eruditos frequentadores daquela famosa mostra de arte moderna. E a nossa surpresa atinge o quase impensável quando ouvimos tais mestres e amantes de arte, opinar sobre a qualidade e até o preço justo daquela obra exposta, para eles de autoria desconhecida. As palavras inflamadas de tais pseudo eruditos deixa-nos pasmados quando os ouvimos falar da força expressiva do pintor, da carga erótica do desenho, do sofrimento que transparece de tal obra. Só visto. Por isso, estou avisado e de pé atrás. Ainda mais de pé atrás quando ouvi e vi na televisão o pai de Aelita pronunciar-se sobre a arte da sua filha. Tudo aquilo sabia tanto a falso, a marketing, a embuste, que esqueci o prodígio da arte de Aelita Andre. Até que hoje, vendo um vídeo relativamente extenso em que a vemos a pintar e a criar, qual Pollock, tivemos que nos interrogar e deixar aqui as nossas inquietações. Não foi o vê-la pintar que me fez mudar de opinião, mas sim e apenas os seus olhos e a expressão deles em vários momentos da sua criação. Quem olha assim, quem regula o tempo entre o olhar, a meditação e o gesto pictoral não está a fazer de autómato ou a representar um papel. Está mesmo a criar seja o que isso seja para ela. Pouco me interessa que ela tenha a sua primeira exposição numa Galeria de Nova Iorque e muito menos que já tenha vendido todos os seus quadros. Apenas me interessou a beleza de algumas telas e o olhar de Aelita. Vamos ver no que isto dá.


sexta-feira, junho 24, 2011

o copianço dos juízes


Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, jornalista e crítico da realidade portuguesa, publicou recentemente sob o título «Honestidade dos Juízes», uma análise crítica e pormenorizada do caso do copianço no CEJ, das causas e efeitos que daí advêm. Penso que merece ser lido e tido em atenção. Sobretudo por aqueles que têm o poder de decisão nas áreas em análise.

O «caso do copianço» no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) ilustra, como poucos, uma das principais causas da degenerescência da Justiça portuguesa. Em vez de ser um verdadeiro centro de formação, o CEJ transformou-se numa espécie de universidade em que os formandos foram reduzidos ao estatuto de alunos e os formadores elevados à categoria de catedráticos. E, assim, em vez de efectiva preparação profissional, o CEJ ministra um ensino essencialmente teorético e laboratorial assente no paradigma professor/aluno, em que a cabeça dos formandos é atulhada com tecnicidade jurídica pelos seus omniscientes mestres. Não admira que, assim tratados, os chamados auditores de Justiça se comportem como alunos, para quem copiar nos exames sempre foi uma espécie de direito natural.
Só que esses alunos com 26, 27, 28 anos de idade serão, dentro de meses, magistrados que exercerão uma função soberana de forma totalmente irresponsável e independente. Sem qualquer experiência profissional, bom
senso ou capacidade de compreensão dos problemas concretos da vida, eles passam de alunos a titulares de poderes soberanos vitalícios, em cujo exercício vão continuar a reproduzir os mesmos métodos do CEJ, ou seja, a copiar uns pelos outros sentenças e despachos, às vezes com tal displicência que nem os nomes das partes corrigem. E, assim, com essa «mentalidade de copianço», eles vão, como magistrados, dedicar-se com inusitado zelo à cultura das «chocas» (cópias de decisões de outros casos, próprias ou de colegas) que diligentemente armazenam nos seus computadores. E depois, através da laboriosa actividade do copy/paste, «proferem» longuíssimos despachos, sentenças e acórdãos, sempre com a mesma prolixa fundamentação que, mecanicisticamente, vão transpondo de uns processos para os outros com soberana displicência. E, em vez de se esforçarem por resolver com sensatez e prudência os litígios da vida, eles continuarão a preocupar-se apenas com o «professor», que agora é o todo-poderoso inspector do Conselho Superior da Magistratura que os virá avaliar. E, assim, as suas decisões soberanas estarão mais voltadas para agradar ao inspector que temem do que para a questão concreta que deveriam resolver com justiça.
Infelizmente, o CEJ não forma magistrados, mas sim majestades. Os «alunos», em vez de serem preparados para prestar um serviço público à comunidade, são formatados para aceder a uma casta e defenderem à outrance um poder ilimitado e irresponsável, sem qualquer escrutínio democrático. O resultado está à vista!

Mas há um segundo aspecto que não é menos importante e que tem a ver com a honestidade. Quem utiliza métodos fraudulentos para chegar a magistrado não deixará de utilizar métodos fraudulentos no exercício dessas funções. Por isso devia haver um especial rigor na selecção das pessoas que pretendem aceder à magistratura, até porque, uma vez atingido esse estatuto, eles ficam totalmente fora de qualquer escrutínio.
Nunca vi um magistrado ser punido por desonestidade nas suas decisões e, no entanto, eles são tão (des)honestos como outros profissionais. Em todas as profissões e funções (advogados, médicos, engenheiros, professores, funcionários públicos, polícias, autarcas, deputados, governantes, etc.) há pessoas desonestas, mas quando chegamos aos magistrados eles são todos honestos. É falso. Eles não são feitos de uma massa diferente da do comum dos mortais. O problema é que eles julgam-se uns aos outros, protegem-se uns aos outros, exculpam-se uns outros, muitas vezes sem qualquer pudor. Algumas das piores desonestidades a que assisti em toda a minha vida foram praticadas em tribunal por magistrados, sobretudo juízes, sem quaisquer consequências porque a desonestidade deles é absorvida pelas sua independência e irresponsabilidade funcionais.
Existe na sociedade portuguesa uma ideia antiga, segundo a qual «se é juiz é honesto». Ora, isso não é verdadeiro. O princípio correcto devia ser: «se é honesto, então que seja juiz». Mas, como se vê com o «caso do copianço», a honestidade pessoal não é critério para a selecção dos magistrados.

para quem não entende de economia

O vídeo que hoje aqui vos deixo destina-se a todos aqueles, que como eu, pouco ou nada percebemos de economia ou dos malabarismos que alguns fazem com ela.
Esta magnífica lição do professor de economia da Universidade de Madrid, Julián Pávon, intitulada Morte e ressurreição de Keynes, explica-nos em termos simples como tudo se passa nos países do euro. Não ficaremos a saber economia, mas talvez fiquemos mais aptos a entendê-la.

o top ten no gelo

Não sei quem é (penso que é israelita), nem tão pouco sei onde se passa.
Sei apenas que dificilmente se verá patinar e dançar tão bem, com tanta técnica e capacidade interpretativa. Deliciem-se, apesar da imagem não ser famosa e o som ser bastante mau.

sábado, junho 18, 2011

o seu a seu dono


Sob o título «Cavaco & Barreto», escreveu hoje Fernando Madrinha estas justas e oportunas palavras nas suas crónicas habituais do Expresso. De facto, nunca se deve esquecer o passado e muito menos quando as pedras que se atiram podem atingir não só o telhado do vizinho, mas também o nosso próprio.
Por outro lado, há que ter cada vez mais cuidado com o ar que arvoramos de seres à parte, de méritos e comportamentos inatacáveis e acima de toda a suspeita, quando é cada vez mais estreito o orifício que nos separa dos demais e por consequência mais difícil de passar.
E no que respeita aos dois visados do título, se um, desde sempre, defende que nunca se engana e raramente tem dúvidas, o outro tem vindo a pouco e pouco a considerar-se um oráculo lusitano, um asceta e um despojado intelectual de interesses e honrarias, mas deixando antever ou suspeitar que o seu olhar e acção indicam o contrário. Talvez por isso esta crónica me tenha tocado e feito com que aqui a deixe para quem não teve a oportunidade de a ler antes.

«Nas cerimónias do Dia de Portugal, em Castelo Branco, o Presidente tinha um objetivo: "Trazer o interior do país para o centro da agenda nacional". Pois, o mais que conseguiu foi que lhe atirassem à cara as suas próprias responsabilidades pela situação a que o interior chegou, por força de decisões tomadas nos seus mandatos como chefe do Governo.
Por pouco não se apelou a que "o apuramento de responsabilidades" pedido por António Barreto se aplicasse não só aos recentes seis anos de José Sócrates, alvo aparente do orador, mas também aos 10 anos de Cavaco como chefe do Governo. Aliás, se a responsabilidade criminal- supondo-se que era a esta que Barreto se referia - fosse aplicada retroativamente aos agentes políticos, quem sabe se o próprio sairia imune, visto que também ele tomou decisões controversas, pelo menos aos olhos do PCP, enquanto ministro da Agricultura nos idos de 1976.
Não é fácil ser prior nesta freguesia e Cavaco paga o preço da sua longevidade política. Mas factos são factos. O abandono da agricultura a troco de uns milhões que se esfumaram rapidamente, boa parte deles nas mãos de uns poucos, foi uma opção fatal para o interior e para o país no seu conjunto. Muita gente o disse na altura e ao longo destes 20 anos. Não admira, pois, que um discurso certeiro e consistente, como o que Cavaco proferiu no 10 de junho, perca toda a sua eficácia. É difícil alguém passar a mensagem quando as preocupações enunciadas hoje não batem certo com decisões tomadas ontem».

a mestria de fred «às tiras»

Não sei porquê os «musicais» quase desapareceram do universo cinematográfico, depois de terem sido campeões de bilheteiras em todo o mundo.
Parece que começaram a ser vistos como cinema pimba. De facto, os Cahiers du Cinéma nunca aplaudiram estes filmes, tratando-os quase como subprodutos. O certo é que foram filmes de que todos gostámos e que hoje revemos através destes pequenos vídeos que, de quando em quando, nos chegam às mãos recuperados das arcas que, segundo alguns, escondem estes 'tesourinhos deprimentes'! Por mim, que era leitor dos Cahiers podem mandar-me mais, porque gosto de os ver. tanto que não resisto a deixá-los aqui. A arte de Fred Astaire, ou às tiras como então se dizia, é de tal modo perfeita que não é possível não gostar. Apreciem e recordem.

terça-feira, junho 14, 2011

ilhas diomedes


Há um lugar no mundo em que os territórios dos Estados Unidos e da Rússia e as suas ilhas Diomedes representam a passagem do Leste a Oeste, a curta distância entre si, mas com uma diferença horária de 24 horas.
Refiro-me ás quase desconhecidas e isoladas Ilhas Diomedes, no Estreito de Bering, região onde provavelmente atravessaram os primeiros habitantes da América para leste.
As duas Ilhas, conhecidas como Grande Diomedes (Rússia) e Pequena Diomedes (EUA) são separadas por uma faixa de água de apenas 4 km, que fica congelada durante boa parte do ano, permitindo, nessa altura, a passagem a pé entre elas.


Durante o período da Guerra Fria, os nativos que habitavam as ilhas antes da colonização russa ou americana não podiam circular entre as ilhas, nem trocar qualquer tipo de informação, na área que ficou conhecida como "Cortina de Gelo".

Após o final da 2a Guerra, todos os nativos da ilha russa de Grande Diomedes foram transferidos para o continente, e o arquipélago manteve um pequeno povoado apenas na ilha norte americana de Pequena Diomedes, que até hoje possui cerca de 170 habitantes, num dos locais mais isolados do planeta.

O que torna o lugar ainda mais curioso é que exatamente entre as duas ilhas passa a "Linha Internacional de Data", criando um fuso horário de nada menos que 24 horas numa distância que, de tão pequena, chega a ser visual.

Em 1987, a nadadora americana Lynne Cox atravessou os pouco mais de 3.700 metros que separam as ilhas irmãs, num gesto de aproximação entre as super potências e e que visava a paz entre as duas nações. Hoje existe um projecto de construção de uma ponte entre as duas ilhas e que se chamará Ponte da Memória.

Humberto Eco, no seu romance "A Ilha do dia anterior" aborda este tema da seguinte maneira


"Meia-noite de sexta-feira, aqui no navio, é meia-noite de quinta-feira na ilha. Se da América para a Ásia viajas, perdes um dia; se, no sentido contrário viajas, ganhas um dia: eis o motivo por que o [navio] Daphne percorreu o caminho da Ásia, e vós, estúpidos, o caminho da América. Tu és agora um dia mais velho do que eu! Não é engraçado?"

Texto composto a partir da net.