quarta-feira, dezembro 21, 2011

as vozes da razão


Há muito se vem dizendo (e verificando cada vez mais), que falta estatura e estrutura política aos pobres políticos que vêm tomando conta desta Europa ferida e perdida. Quando se comparam com políticos que já conhecemos noutros tempos fica-se parvo com a mediocridade que por aí vai grassando. Por isso, dá gosto quando essas vozes de que bem nos lembrámos, se vão levantando e antes que seja tarde para esta triste Europa.
Deixo aqui parte das palavras que Helmut Schmidt, ex-chanceler alemão, pronunciou em Berlim, no dia 4 de Dezembro de 2011 no Congresso ordinário do SPD e que intitulou «A Alemanha na e com a Europa», Merecem a vossa atenção e profunda reflexão. Que estas palavras possam ajudar a que os actuais políticas meditem sobre elas.

(…) Enquanto entretanto homem já muito velho, penso naturalmente em longos períodos temporais – quer para trás na História, quer para a frente na direção do desejado e pretendido futuro. Contudo, não pude dar há alguns dias uma resposta clara a uma pergunta muito simples. Wolfgang Thierse perguntara-me: «Quando será a Alemanha, finalmente, um país normal?» E eu respondi: num futuro próximo a Alemanha não será um país «normal». Já que contra isso está a nossa carga histórica enorme mas única. E além disso está contra isso a nossa posição central preponderante, demográfica e economicamente, no centro do nosso bastante pequeno continente mas organizado em múltiplos estados-nação.
Com isto já estou no centro do complexo tema do meu discurso: a Alemanha na Europa, com a Europa e pela Europa.

Razões e origens da integração europeia


Apesar de em alguns poucos dos cerca de 40 Estados europeus a consciência de ser um nação se ter desenvolvido tardiamente – assim em Itália, na Grécia e na Alemanha – sempre houve e em todo o lado guerras sangrentas. Pode-se compreender esta história europeia – observada da Europa Central – como uma
pura sequência de lutas entre a periferia e o centro e vice-versa. Sempre de novo o centro se manteve o campo de batalha decisivo.
Quando os governantes, os estados ou os povos no centro da Europa foram fracos, então os vizinhos da periferia avançaram para o centro. (...)diversas vezes, nós, alemães, fizemos sofrer os outros sob a nossa central posição de poder.
Hoje em dia, as reivindicações territoriais conflituais, os conflitos linguísticos e fronteiriços, que ainda na primeira metade do século XX desempenharam um papel importante na consciência das nações, tornaram-se de facto insignificantes, pelo menos para nós alemães.
Enquanto na opinião pública e na opinião publicada nas nações europeias o conhecimento e a lembrança das guerras da Idade Média se encontram amplamente esquecidos, a lembrança de ambas as guerras do século XX e a ocupação alemã desempenham todavia ainda um papel latente dominante.
Penso ser para nós alemães decisivo que quase todos os nossos vizinhos – e para além disso quase todos os judeus no mundo inteiro – se recordem do holocausto e das infâmias que aconteceram durante a ocupação alemã nos países da periferia. Não está suficientemente claro para nós alemães que provavelmente entre quase
todos os nossos vizinhos, ainda por muitas gerações, se mantém uma desconfiança contra os alemães.
Também as gerações alemãs posteriores têm de viver com este peso histórico. E as atuais não devem esquecer: foi a desconfiança com um futuro desenvolvimento da Alemanha que justificou o início da integração europeia em 1950.
Em 1946, Churchill, no seu grande discurso em Zurique, tinha duas razões para apelar aos franceses para se entenderem com os alemães e construírem com ele os Estados Unidos da Europa: em primeiro lugar a defesa conjunta perante a União Soviética, que parecia ameaçadora, mas em segundo a integração da Alemanha numa aliança ocidental alargada. Porque Churchill previa perspicazmente a recuperação económica da Alemanha.
Quando em 1950, quatro anos depois do discurso de Churchill, Robert Schuman e Jean Monnet apresentaram o plano Schuman para a integração da indústria pesada europeia, a razão foi a mesma, a razão da integração alemã. Charles de Gaulle, que dez anos mais tarde propôs a Konrad Adenauer a reconciliação, agiu pelo mesmo motivo.
Tudo isto aconteceu na perspetiva realista de um possível desenvolvimento futuro do poder alemão. Não foi o idealismo de Victor Hugo, que em 1849 apelou à união da Europa, nem nenhum idealismo esteve em 1950/52 no início da integração europeia então limitada à Europa Ocidental. Os estadistas dessa época na Europa e na América (nomeio George Marshall, Eisenhower, também Kennedy, mas principalmente Churchill, Jean Monnet, Adenauer e de Gaulle ou também Gasperi e Henri Spaak) não agiram de forma nenhuma por idealismo europeu, mas sim a partir do conhecimento da história europeia até à data. Agiram no juízo realista da necessidade de impedir uma continuação da luta entre a periferia e o centro alemão. Quem ainda não entendeu este motivo original da integração europeia, de que continua a ser um elemento fundamental, quem ainda não entendeu isto falta-lhe a condição indispensável para solucionar a presente crise altamente precária da Europa.
Quanto mais, durante os anos 60, 70 e 80, a então República Federal ganhava em peso económico, militar e político, mais a integração europeia se tornava aos olhos dos governantes europeus o seguro contra a de novo possível tentação de poder alemã. A resistência inicial de Margaret Tatcher ou de Miterrand ou de Andreotti em 1989/90 contra a unificação dos dois estados alemães do pós-guerra estava claramente fundada na preocupação de uma Alemanha poderosa no centro deste pequeno continente europeu. (...)

A União Europeia é necessária


De Gaulle e Pompidou continuaram nos anos 60 e início dos anos 70 a integração europeia, para integrar a Alemanha – mas também não queriam de maneira nenhuma integrar o seu próprio estado. Depois disso, o bom entendimento entre mim e Giscard d’Estaing, levou a um período de cooperação franco-alemão e à continuação da integração europeia, um período que depois da primavera de 1990 continuou com êxito entre Miterrand e Kohl. Ao mesmo tempo desde 1950/52 que a comunidade europeia cresceu, até 1991, passo a passo de seis para doze membros.
Graças ao amplo trabalho preparatório de Jacques Delors (na altura presidente da Comissão Europeia), Miterrand e Kohl acordaram, em 1991, em Maastricht a moeda comum – o euro – que se tornou realidade dez anos mais tarde, em 2001. De novo na sua origem a preocupação francesa de uma Alemanha demasiado poderosa, mais exatamente de um marco demasiado poderoso.
Entretanto o euro tornou-se na segunda moeda mais importante da economia mundial. Esta moeda europeia é até, quer interna, quer externamente mais estável do que o dólar americano e mais estável do que o marco foi nos seus últimos dez anos. Toda a conversa sobre uma suposta «crise do euro» é conversa fiada leviana dos media, de jornalistas e de políticos.
Mas desde Maastricht, desde 1991/92, que o mundo mudou imensamente. Assistimos à libertação das nações do leste europeu e à implosão da União Soviética. Assistimos à ascensão fenomenal da China, da Índia, do Brasil e outros «estados emergentes», que antigamente chamávamos «Terceiro Mundo». Simultaneamente, as economias reais de grande parte do mundo «globalizaram-se», em alemão: quase todos os estados no mundo dependem uns dos outros. Principalmente, os actores nos mercados financeiros globalizados apropriaram-se de um poder, por enquanto, totalmente sem controlo.
Mas paralelamente, quase sem se dar por isso, a humanidade multiplicou-se de forma explosiva atingindo os 7 mil milhões. Quando nasci eram cerca de 2 mil milhões. Todas estas enormes mudanças tiveram consequências tremendas nos povos europeus, nos seus estados, no seu bem-estar!
Por outro lado, todas as nações europeias envelhecem e por todo o lado desce o número de cidadãos europeus. Em meados do século XXI seremos provavelmente 9 mil milhões de pessoas a viver na Terra, enquanto todas as nações europeias não ultrapassarão os 7%. 7% de 9 mil milhões. Até 1950, os europeus representaram, durante mais de dois séculos, mais de 20% da população mundial. Mas desde há 50 anos que nós europeus diminuímos – não só em números absolutos, mas principalmente em relação à Ásia, África e América Latina. Da mesma forma desce a parte dos europeus no produto social global, isto é na criação de riqueza de toda a humanidade. Até 2050 descerá até aos 10%; em 1950 ainda representava 30%.
Cada uma das nações europeias, em 2050, representará já só uma parte de um 1% da população mundial. Quer dizer: se queremos ter a esperança de nós europeus termos importância no mundo, então só a teremos em conjunto. Porque enquanto Estados separados – seja a França, Itália ou Alemanha ou Polónia, Holanda ou Dinamarca ou Grécia – só nos poderão contar em milésimos e não mais em números percentuais.
Daqui resulta o interesse estratégico a longo prazo dos estados europeus na sua cooperação integradora. Este interesse estratégico na integração europeia aumentará em importância cada vez mais. Até agora ainda não está amplamente consciencializado pelas nações. Também os respetivos governos não as consciencializam.
No caso, porém de a União Europeia no decorrer do próximo decénio não conseguir – mesmo que limitada – uma capacidade conjunta de atuação, não é de excluir uma marginalização auto-provocada dos estados e da civilização europeia. Do mesmo modo não se pode excluir, num caso destes, o ressuscitar de lutas concorrenciais e de prestígio entre os estados europeus. Numa situação destas a integração da Alemanha não poderia funcionar. O velho jogo entre centro e periferia podia de novo tornar-se realidade.
O processo mundial de esclarecimento, de propagação dos direitos das pessoas e da sua dignidade, o direito constitucional e a democratização não receberia mais nenhum impulso eficaz da Europa. Nesta perspetiva, a comunidade europeia torna-se uma necessidade vital para os estados nacionais do nosso velho continente. Esta necessidade ultrapassa as motivações de Churchill e de Gaulle. Também ultrapassa as motivações de Monnet e os de Adenauer. E hoje também engloba as motivações de Ernst Reuter, Fitz Ehler, Willy Brandt e também Helmut Kohl.
Acrescento: certamente que também se trata ainda e sempre da integração da Alemanha. Por isso, nós alemães temos de ganhar clareza sobre a nossa tarefa, o nosso papel no contexto da integração europeia.

A Alemanha necessita de constância e fiabilidade


Se no final de 2011 olharmos para a Alemanha com os olhos dos nossos vizinhos mais próximos e mais distantes, desde há um decénio que a Alemanha provoca inquietação – recentemente também preocupação política. Nos últimos anos surgiram dúvidas consideráveis sobre a constância da política alemã. A confiança na garantia da política alemã está abalada.
Estas dúvidas e preocupações assentam também nos erros de política externa dos nossos políticos e governos. Por outro lado baseiam-se no, para o mundo inesperado, poder económico da República Federal unificada. A nossa economia tornou-se – iniciando nos anos 70, nessa época ainda dividida – na maior da Europa. Tecnológica, financeira e socialmente é hoje uma das economias mais eficientes do mundo. O nosso poder económico e a nossa, em comparação muito estável, paz social desde há decénios também provocaram inveja – tanto mais que a nossa taxa de desemprego e a nossa dívida se encontram dentro da normalidade internacional.
No entanto, não nos é suficientemente claro que a nossa economia está, quer profundamente integrada no mercado comum europeu, quer em grande medida globalizada e assim dependente da conjuntura mundial. Iremos assim assistir como, no próximo ano, as nossas exportações não aumentarão significativamente.
Mas simultaneamente desenvolveu-se um grave erro, nomeadamente os enormes excedentes da nossa balança comercial. Desde há anos que os excedentes representam 5% do nosso PIB. São comparáveis aos excedentes da China. Isto não nos é completamente claro porque os excedentes não se contabilizam em marcos, mas em euros. Mas é necessário que os nossos políticos consciencializem esta circunstância.
Porque todos os nossos excedentes são, na realidade, os défices dos outros. As exigências que temos aos outros, são as suas dívidas. Trata-se de uma violação irritante do por nós elevado a ideal legal do «equilíbrio da economia externa». Esta violação tem de inquietar os nossos parceiros. E quando ultimamente aparecem vozes estrangeiras, na maioria dos casos vozes americanas – entretanto vêm de muitos lados – que exigem da Alemanha um papel de condução europeia, então isso desperta nos nossos vizinhos mais desconfiança. E acorda más recordações.
Esta evolução económica e a simultânea crise da capacidade de ação dos órgãos da união europeia empurraram de novo a Alemanha para um papel central. A chanceler aceitou solícita este papel juntamente com o presidente francês. Mas há, de novo, em muitas capitais europeias e também em muitos media uma crescente
preocupação com o domínio alemão. Desta vez não se trata de uma potência militar e política central, mas sim de um potente centro económico!
Aqui é necessário uma séria, cuidadosamente equilibrada advertência aos políticos alemães, aos media e à nossa opinião pública.
Se nós alemães nos deixássemos seduzir, baseados no nosso poder económico, por reivindicar um papel político dirigente na Europa ou pelo menos desempenhar o papel de primus inter pares, então um número cada vez maior dos nossos vizinhos resistiria eficazmente. A preocupação da periferia europeia com um centro da Europa demasiado forte regressaria rapidamente. As consequências prováveis de uma tal evolução seriam atrofiadoras para a UE. E a Alemanha cairia no isolamento.
A República Federal da Alemanha, muito grande e muito eficaz, precisa – também para se defender de si própria! – de se encaixar na integração europeia. Por isso desde os tempos de Helmut Kohl, desde 1992 que o artº 23º da Constituição nos obriga a colaborar «... no desenvolvimento da União Europeia». Este artº 23º obriga-nos a esta cooperação também no «princípio da subsidiariedade...». A crise atual da capacidade de ação dos órgãos da UE não muda em nada estes princípios.
A nossa posição geopolítica central, mais o papel infeliz no decorrer da história europeia até meados do século XX, mais a nossa capacidade produtiva atual, tudo isto exige de todos os governos alemães uma grande dose de compreensão dos interesses dos nossos parceiros na EU. E a nossa prestabilidade é indispensável.
Nós, alemães, também não conseguimos sozinhos a grande reconstrução e capacidade de produção nos últimos 6 decénios. Elas não teriam sido possíveis sem a ajuda das potências vencedoras ocidentais, sem a nossa inclusão na comunidade europeia e na aliança atlântica, sem a ajuda dos nossos vizinhos, sem a mudança política na Europa de leste e sem o fim da ditadura comunista. Nós, alemães, temos razões para estarmos gratos. E simultaneamente temos a obrigação de nos mostramos dignos da solidariedade através da solidariedade com os nossos vizinhos!
Pelo contrário, ambicionar um papel próprio na política mundial e ambicionar prestígio político mundial seria bastante inútil, provavelmente até prejudicial. Em todo o caso, mantém-se indispensável a estreita cooperação com a França e a Polónia, com todos os nossos vizinhos e parceiros na Europa.
É minha convicção que reside no interesse estratégico cardinal da Alemanha a longo prazo, não se isolar e não se deixar isolar. Um isolamento no espaço do ocidente seria perigoso. Um isolamento no espaço da EU ou da zona euro seria ainda mais perigoso. Para mim, este interesse da Alemanha ocupa um lugar inequivocamente mais importante do que qualquer interesse tático de todos os partidos políticos.
Os políticos e os media alemães têm, com mil demónios, a obrigação e o dever de defender este conhecimento de forma duradoura na opinião pública.
Mas quando alguém dá a entender que hoje e no futuro falar-se-á alemão na Europa; quando um ministro alemão dos negócios estrangeiros pensa que aparições adequadas às televisões em Tripoli, Cairo ou Cabul são mais importantes do que contactos políticos com Lisboa, Madrid, Varsóvia ou Praga, Dublin, Haia Copenhaga ou Helsínquia; quando um outro acha ter de se defender de uma «União de transferência» - então tudo isto é mera fanfarronice prejudicial.
Na verdade, a Alemanha foi durante longos decénios pagador líquido! Podíamos fazê-lo e fizemo-lo desde Adenauer. E naturalmente que Grécia, Portugal ou Irlanda forma sempre recebedores líquidos.
Esta solidariedade talvez não seja hoje suficientemente clara para a classe política alemã. Mas até agora foi evidente. Também evidente – e para além disso desde Lisboa incluído no tratado – o princípio da subsidiariedade: aquilo que um estado não pode ou não consegue resolver, tem de ser assumido pela UE.
Desde o plano Schuman que Konrad Adenauer aceitou, por instinto político acertado, a oferta francesa contra a resistência quer de Kurt Schumacher, quer de Ludwig Erhard. Adenauer avaliou corretamente o interesse estratégico de longo prazo da Alemanha – apesar da divisão da Alemanha! Todos os sucessores – assim também Brandt, Schmidt, Kohl e Schröder – prosseguiram a política de integração de Adenauer.
Todas as táticas da ordem do dia, da política interna ou da política externa nunca questionaram o interesse estratégico alemão de longo prazo. Por isso todos os nossos vizinhos e parceiros puderam confiar, durante decénios, na constância da política europeia alemã – e na verdade independentemente de todas as mudanças de governo. Esta continuidade mantém-se conveniente também no futuro.

A situação atual da EU exige energia


Contribuições conceptuais alemãs foram sempre naturais. Também se deve manter assim no futuro. No entanto não devíamos antecipar o futuro longínquo. Mudanças no tratado, mesmo assim, só poderiam corrigir em parte erros e omissões na realidade criada há vinte anos em Maastricht. As propostas atuais para as mudanças no Tratado de Lisboa em vigor não me parecem muito úteis para um futuro próximo, se nos lembrarmos das dificuldades até agora com todas as diversas ratificações nacionais, ou nos referendos com resultados negativos.
Concordo por isso com Napolitano, o Presidente italiano, quando, num notável discurso em Outubro exigiu que nós hoje nos temos de concentrar no que é necessário hoje fazer. E que para isso temos de esgotar as possibilidades que os tratados em vigor nos proporcionam – especialmente o reforço das regras orçamentais e da política económica na zona Euro.
A atual crise da capacidade de ação dos órgãos da EU criados em Lisboa, não pode continuar! Com a exceção do BCE, todos os órgãos – Parlamento Europeu, Conselho Europeu, Comissão Europeia e Conselho de Ministros – todos eles, desde a superação da aguda crise dos bancos de 2008 e especialmente da consequente crise da dívida soberana, contribuíram pouco para uma ajuda eficaz.
Não há nenhuma receita para a superação da atual crise de liderança na EU. Serão necessários vários passos, alguns simultâneos, outros consecutivos. Não serão só necessárias, capacidade de análise e energia, mas também paciência! Nisso as contribuições concepcionais alemãs não se podem reduzir a chavões. Não devem ser apresentadas na praça televisiva, mas em vez disso confidencialmente nos grémios dos órgãos da EU. Os alemães não devem apresentar como exemplo ou medida de toda as coisas aos nossos parceiros europeus, nem a nossa ordem económica ou social, nem o nosso sistema federal, nem a nossa política constitucional orçamental ou financeira, mas sim simplesmente enquanto exemplo entre várias outras possibilidades.
Todos nós em conjunto somos responsáveis pelos efeitos futuros na Europa por tudo o que hoje a Alemanha faz ou deixa de fazer. Precisamos de razoabilidade europeia. Mas não precisamos só de razoabilidade, mas também de um coração compreensivo com os nossos vizinhos e parceiros.
Concordo num ponto importante com Jürgen Habermas, que recentemente referiu que – e cito - «...na realidade assistimos agora pela primeira vez na história da EU a uma desmontagem da Democracia!!» (fim da citação). De facto: não só o Conselho Europeu, incluindo o seu Presidente, também a Comissão Europeia, incluindo o seu Presidente e os diversos Conselhos de Ministros e toda a burocracia de Bruxelas marginalizaram em conjunto o princípio democrático! Eu caí no erro, na época em que introduzimos a eleição para o Parlamento europeu, de pensar que o Parlamento conseguiria o seu peso próprio. Na verdade até agora não teve nenhuma influência reconhecível na superação da crise, já que as suas discussões e resoluções não têm até agora nenhum resultado público.
Por isso quero apelar a Martin Schulz: é tempo de o senhor e os seus colegas democratas-cristãos, socialistas, liberais e verdes, em conjunto mas de forma drástica, conseguirem ser ouvidos publicamente. Provavelmente o campo da totalmente insuficiente fiscalização sobre os bancos, bolsas e os seus instrumentos financeiros, desde o G20 em 2008, adequa-se na perfeição para um tal levantamento do Parlamento Europeu.
Realmente alguns milhares de brookers nos EUA e na Europa, mais algumas agências de notação tornaram reféns os governos politicamente responsáveis na Europa. Não é de esperar que Barack Obama possa vir fazer muito contra isso. O mesmo é válido para o governo britânico. Realmente, os governos do mundo inteiro salvaram, na verdade, os bancos em 2008/09 com as garantias e o dinheiro dos impostos dos cidadãos. Mas já em 2010, esta manada de executivos financeiros, altamente inteligentes e simultaneamente propensos à psicose, jogava, de novo, o seu velho jogo do lucro e das bonificações. Um jogo de azar e em prejuízo dos que não são jogadores, que eu e Marion Dönhoff já nos anos 90 criticámos como muito perigoso.
Já que ninguém quer agir, então os participantes da zona Euro têm de o fazer. Para isso o caminho pode ser o do artº 20º do Tratado de Lisboa em vigor. Aí prevê-se expressamente, que Estados-membros sós ou em conjunto «estabeleçam entre eles uma cooperação reforçada». Em todo o caso, os Estados membros da zona euro deveriam impor uma regulação enérgica do seu mercado financeiro comum. Desde a separação entre por um lado os normais bancos de negócios e por outro, os bancos de investimento e bancos sombra até à proibição da venda de derivados, desde que não autorizados pela fiscalização oficial da Bolsa - até à restrição eficaz dos negócios das, por enquanto, não fiscalizadas agências de notação no espaço da zona euro. Não quero, minhas senhoras e meus senhores, aborrecê-los com mais detalhes.
Naturalmente que o globalizado lobby dos banqueiros iria empregar todos os meios contra. Já conseguiu até agora impedir toda a regulamentação eficaz. Possibilitou para si mesmo que a manada dos seus brookers tenha colocado os governos europeus na situação difícil de ter de inventar sempre novos «fundos de estabilização» e alargá-los através de «alavancas». É tempo de se resistir. Se os europeus conseguirem ter a coragem e a força para uma regulação eficaz dos mercados financeiros, então podemos no médio prazo tornarmo-nos numa zona de estabilidade. Mas se falharmos, então o peso da Europa continuará a diminuir – e o mundo evolui na direção de um Duovirato entre Washington e Pequim.
Seguramente que para o futuro próximo da zona euro todos os passos anunciados e pensados até agora são necessários. Deles fazem parte os fundos de estabilização, o limite máximo de endividamento e o seu controlo, uma política económica e fiscal comum, deles fazem parte uma série de reformas nacionais na política fiscal, de despesa, na política social e na política laboral. Mas forçosamente, também uma dívida comum será inevitável. Nós, alemães, não nos devemos recusar por razões nacionais e egoístas.
Mas de forma nenhuma devemos propagar para toda a Europa uma política extrema de deflação. Mais razão tem Jacques Delors quando exige, em conjunto com o saneamento do orçamento, a introdução e financiamento de projetos que fomentem o crescimento. Sem crescimento, sem novos postos de trabalho, nenhum Estado pode sanear o seu orçamento. Quem acredita que a Europa pode, só através
de poupanças orçamentais, recompor-se faça o favor de estudar o resultado fatal da política de deflação de Heinrich Brüning em 1930/32. Provocou uma depressão e um desemprego de uma tal dimensão que deu início à queda da primeira democracia alemã.

Aos meus amigos

Terminemos, queridos amigos! No fundo, não é preciso pregar solidariedade internacional aos sociais-democratas. A social-democracia é desde há século e meio internacionalista – em muito maior medida do que gerações de liberais, de conservadores ou de nacionalistas alemães. Nós, sociais-democratas, não abdicámos da liberdade e da dignidade de cada ser humano. Simultaneamente não abdicámos da democracia representativa, da democracia parlamentar. Estes princípios obrigam-nos hoje à solidariedade europeia.
De certo que a Europa, também no século XXI, será constituída por estados nacionais, cada um com a sua língua e a sua própria história. Por isso a Europa não se tornará de certeza num Estado Federal. Mas a UE também não pode degenerar numa mera aliança de estados. A UE tem de se manter uma aliança dinâmica, em evolução. Não há em toda a história da humanidade nenhum exemplo. Nós, social-democratas, temos de contribuir para a evolução passo a passo desta aliança.
Quanto mais envelhecemos, mais pensamos em períodos longos. Também enquanto homem velho me mantenho fiel aos três princípios do Programa de Godesberg: liberdade, justiça, solidariedade. Penso, a propósito, que hoje a justiça exige antes de mais igualdade de oportunidades para as crianças, para estudantes e jovens.
Quando olho para trás, para 1945 ou posso olhar para 1933 – tinha acabado de fazer 14 anos – o progresso que fizemos até hoje parece-me quase inacreditável. O progresso que os europeus alcançaram desde o Plano Marshall, 1948, desde o Plano Schuman, 1950, graças a Lech Walesa e ao Solidarnosz, graças a Vaclav Havel e à Charta 77, que agradecemos àqueles alemães em Leipzig e Berlim Oriental desde a grande mudança em 1989/91.
Não podíamos imaginar nem em 1918, nem em 1933, nem em 1945 que hoje uma grande parte da Europa se regozija pelos Direitos Humanos e pela paz. Por isso mesmo trabalhemos e lutemos para que a UE, historicamente única, saia firme e autoconfiante da sua presente fraqueza.
© SPD 2011

um deslumbramento

Tenho quase a certeza de que há já muitos meses deixei aqui este magnífico vídeo que produziu em mim um encantamento especial. É difícil de superar tal grau de perfeição neste tipo de arte e, ao mesmo tempo, servir essa arte envolvida em tal carga emotiva e sensual. Se já estou a repetir a divulgação do vídeo, peço-vos imensa desculpa pela minha preguiça de verificar nas centenas de posts que aqui tenho deixado se sim ou não já o tinha aqui deixado anteriormente. Creio, contudo, que não terá sido apenas a preguiça a comandar esta decisão mas antes e sobretudo, o saber que nenhum de vós se importará de o tornar a ver, em caso de estar repetido.
Para todos um Bom Natal.
Como informação que recolhi os intérpretes são Nicolas Besnard (artista convidado do Cirque du Soleil para o espectáculo "Zumanity", em 2005-2009) e Shenea Booth (que pertencia ao Duo Realis e foi duas vezes campeã do Mundo em Desporto Acrobático). Esta dupla actua com o nome de Duo Main TenanT, a lembrar que 'maintenant' é assim que se chamam, digo eu ...

segunda-feira, dezembro 12, 2011

a palavra e a imagem

Vejam esta magnífica ligação entre palavra e a imagem que representa uma justa homenagem ao poder da palavra e à importância da arte. Para ver com atenção e deleite. Uma prenda para o Natal.

domingo, dezembro 11, 2011

golpes do cifrão?


Não sei de todo como o texto que aqui vou deixar, me chegou às mãos, nem qual a origem ou autoria.
De qualquer modo surpreendeu-me e confesso que nesta hipótese não tinha pensado. Pode ser pura coincidência, mas a demissão referida deixa-me a pensar. Como se diz no texto - a ver vamos ...

«A ver vamos!
Visões?!
Golpes de Estado na Grécia e na Itália

Golpe de Estado: tomada inesperada do poder governamental pela força e sem a participação do povo. (Dicionário Houaiss)
A banca no poder, ou o poder da banca.
As substituições de Georges Papandreou por Lucas Papademos e de Berlusconi por Mario Monti foram na realidade dois golpes de estado de um um novo género, sem tiros, sem sangue, orquestrados pelos mercados financeiros.
O método é simples: criar uma enorme pressão sobre as taxas de juros das dívidas dos países visados, o que desencadeia uma enorme instabilidade política e por fim, apresentar um tecnocrata para tomar conta dos destinos do país.
Estes golpes de estado não são perpetrados por um grupo político ou pelas forças armadas. As mudanças de chefias políticas são apresentadas como uma necessidade em consequência da engrenagem da desconfiança dos mercados sobre a capacidade de certos países em pagas as dívidas.
Ultrapassando as instâncias democráticas dos respectivos países, são então instalados no poder pessoas ligadas aos grandes grupos financeiros mundiais. Mario Monti está ligado ao Goldman Sachs, assim como Mario Draghi recentemente eleito presidente do Banco Central Europeu. Lucas Papademos foi governador do Banco da Grécia durante a falsificação da dívida grega pelo Golman Sachs. Todos são membros da Comissão Trilateral ou do clube de Bilderberg.
Actualmente, os lugares-chave do poder na Europa estão nas mãos do Goldman Sachs. Como chegaram a esses cargos? Com que meios e com que fim? Salvar os Estados Unidos à custa dos europeus?
Portugal?
Em Portugal, daqui por umas semanas ou meses, pode muito bem vir a acontecer o mesmo. Perante a fraca liderança de Passos Coelho e a fraca alternativa política de António José Seguro, e com o crescente agravamento da crise financeira portuguesa, pode vir a ser imposto a Portugal um homem de confiança da banca.
Esse homem poderá ser António Borges. Tem todos os requisitos: para além de ter sido vice-governador do Banco de Portugal, foi director do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional e sobretudo foi vice-presidente do Conselho de Administração do Banco Goldman Sachs International em Londres, entre 2000 e 2008.
António Borges é membro do clube de Bilderberg, tendo participado nas reuniões de 1997 e de 2002. Também é membro da Comissão Trilateral.
Curiosamente, ou não, decorre neste momento, de 11 a 13 de novembro, a reunião anual da Trilateral para Zona Europeia, em Haia na Holanda.
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Reparem que o artigo é de 15 de Novembro.
Já hoje, 16 de Novembro, foi laconicamente noticiada a demissão de António Borges, "por razões pessoais", do cargo que ocupava no FMI para as questões europeias. Foi de imediato substituído no cargo por uma iraniana, por certo não recrutada à pressa...

...a ver vamos...»

sexta-feira, dezembro 09, 2011

a cidade de roma em 320 AD

Natural de Chaves sou especialmente sensível à cultura romana e à expansão desse gigantesco império. Sendo que o monumento mais emblemático da minha terra natal é a sua ponte romana, a ponte de Trajano (que com os seus 16 arcos será a maior existente na Europa), sendo ainda que a casa de meus pais se situava sobre essa ponte (sobre dois dos seus arcos), conhecendo desde que me conheço as virtudes das suas águas termais que levaram à origem do nome desta magnífica cidade de Chaves (Aquae Flaviae, águas de Flávio, imperador romano), não pude deixar de me sentir obrigado a deixar-vos aqui este magnífico vídeo que mostra a reconstrução em modelo digital do que terá sido a cidade de Roma na sua época áurea, por volta de 320 AD. Espero que gostem de fazer esta visita a tão importante cidade da antiguidade.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

será que o euro colapsa mesmo?

À medida que o tempo passa a situação agrava-se em toda a Europa e no mundo. Por mais cimeiras que se façam, por mais acordos inter-governamentais que se façam, não se visºumbra solução para esta crise global.
A par disto o euro está com problemas e parece desenhar-se como provável o seu desaparecimento ou a saída de alguns países do seu clube restrito. Por estas razões pareceu-me interessante transcrever o artigo assinado por Ana Rita Faria, que aqui vos deixo à vossa consideração.


Planos de contingência
«Nos bastidores, empresas e bancos já se preparam para eventual colapso do euro.

Na segunda-feira, um dos maiores brokers do mundo, o ICAP, revelou estar a testar os seus sistemas de negociação face à possibilidade de um novo evento: o colapso da zona euro e a reintrodução de várias moedas nacionais. Nos palcos do poder, a ideia de uma desintegração do euro é firmemente rejeitada, mas, nos bastidores dos bancos, das corretoras, das firmas de advogados e das grandes empresas, o inimaginável colapso da moeda única já é suficientemente provável para dar início aos preparativos da prevenção.

Os inquéritos mais recentes aos investidores e economistas lançaram o alerta. Uma sondagem apresentada esta semana pelo Barclays Capital mostra que metade dos investidores inquiridos espera que pelo menos um país saia da zona euro em 2012. Destes, a maioria confia que seja só a Grécia a abandonar a moeda única, mas um em cada 20 acredita que os cinco países periféricos – Grécia Portugal, Irlanda, Itália e Espanha saiam do euro em 2012.

A agência Reuters conduziu uma série de entrevistas a presidentes de empresas, banqueiros e advogados, quer na Europa, quer nos EUA e na Ásia, e escrevia ontem numa reportagem que o mundo em geral está a preparar-se para um cenário de desintegração da moeda única. O exemplo mais recente é o da maior corretora mundial de divisas e dívida soberana, a ICAP, que anunciou ter testado o EBS – a principal taforma de divisas do mundo – assegurar que conseguia negociar a dracma grega ou outra moeda que seja reinstituída.

Pisani-Ferry, director da Bruegel (um think tank de Bruxelas), escrevia esta semana num relatório que "ainda é difícil imaginar o inimaginável", mas que "qualquer pessoa racional tem de pensar nesta possibilidade". E deixou um aviso: "Se as expectativas do desastre ganharem força e um crescente número de entidades se tentarem proteger disso, as consequências podem ser destrutivas". Segundo a Reuters, os principais planos de contingência estão a ser preparados em países fora da zona euro, mas com grande exposição à moeda única, como a Dinamarca ou o Reino Unido. Vários grupos britânicos, como o Compass Group (o maior grupo mundial de catering), admitem estar a discutir ou a pôr em prática planos de prevenção. Recentemente, o regulador bancário britânico (Financial Services Authority) recomendou aos bancos do país que preparem planos de contingência para a possível saída de alguns países do euro. Nos EUA, vários relatórios e contas já colocaram a crise da dívida como um dos riscos à sua actividade, como os do Bank of America, da farmacêutica Merck ou da fabricante aeronáutica Boeing. Na segunda-feira, a própria OCDE reconheceu que a crise soberana é, neste momento, "o maior risco" à economia mundial.

A possibilidade de colapso da zona euro está já a trazer muitas dores de cabeça aos advogados e aos tribunais. Praticamente todos os contratos financeiros em vigor não contemplam aquela hipótese, criando problemas de jurisdição e de redenominação dos empréstimos, que podem vir a gerar perdas financeiras. Mas a principal consequência de um colapso do euro para empresas e bancos seria a própria crise económica gerada. A gestora de activos britânica Schroders diz que uma desintegração da zona euro iria levar à fuga de depósitos dos países periféricos, a uma crise do crédito e à recessão, não só na Europa mas nos EUA. Com base na análise de crises anteriores (como a da Argentina), a Schroders diz que o PIB da zona euro poderia cair 10%, 20% ou mesmo mais».

bob hope e james cagney

Eram outros tempos os do espectáculo daqueles tempos. As pessoas eram mais maduras, experimentadas, exigentes. E as portas não se abriam como hoje. A arte era a arte e não a quantidade de botox usado, os peelings e lifts já feitos, as medidas e o peso, mais as camas por onde passavam. Claro que havia, como sempre há, excepções. Mas a arte era necessária e o resto era a cereja do bolo. Estranho falar disto quando o vídeo que hoje vos deixo nada tem a ver com standards femininos. Hoje o vídeo fala apenas de arte. Tudo bem. Mas era mesmo de arte que eu queria falar...

a suite 605

Tenho para mim que o descontrolo e desacerto em que o mundo vai vivendo nestes conturbados e fabricados tempos só se recomporá com várias medidas drásticas entre as quais se incluirá o fim dos paraísos fiscais, esses off shores espalhados pelo mundo à espera permanente do dinheiro para lavagem ou já lavado, mas sempre sujo e ilegal, assim legalizado.
Sobre isto existirão milhóes de pessoas que contestam a existência de tais lugares mal frequentados e uns milhares de milhafres cifrónicos que os defenderão com unhas e dentes, o mesmo será dizer, com leis à medida, favores, negócio e uso de armas e guerras inventadas à la carte.
Por isso me parece ser bom difundir esta entrevista feita ao autor do livro Suyite 605 sobre o off shore da Madeira, a tal ilha que é um jardim, do Jardim. Vejam o vídeo e ouçam e pensem sobre o que se diz nesta entrevista.

quarta-feira, novembro 30, 2011

relembrar o passado

Mais do que nunca temos que relembrar o passado, sobretudo quando adormecemos um pouco (ou nos querem adormecer) na vigilância constante do nosso presente. Chegou-me às mãos um belo texto de Isabel do Carmo que nos fala exactamente dum passado que se quer longe e irrepetível e que o faz com a sabedoria de quem o sabe porque o viveu intensamente e de forma esclarecida. Leiam e relembrem.

Um texto de Isabel do Carmo no Público:

«O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar “verdade”, que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que… Não interessa.

Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os “remediados” só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia “mais tenrinho” para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse “a fénico”. Não, não era a “alimentação mediterrânica”, nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.

Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de “longa” duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos “balões” (“Olha, hoje houve um ‘balão’ na Cuf, coitados!”). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver “como é que elas iam vestidas”.

Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a “obra das Mães” e fazia-se anualmente “o berço” nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).

Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos (“Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho”). As pessoas iam à “Caixa”, que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma “boa zurrapa”.

E todos por todo o lado pediam “um jeitinho”, “um empenhozinho”, “um padrinho”, “depois dou-lhe qualquer coisinha”, “olhe que no Natal não me esqueço de si” e procuravam “conhecer lá alguém”.

Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.

Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e… supremo desígnio – Madame.

Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por “mangas-de-alpaca” porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.

Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal».

o bce no seu melhor



Não vele a pena tecer considerações ou fazer comentários. As coisas são o que são e daí não há que fugir. Leiam, digiram bem e façam o possível por esquecer que engoliram mais este sapo.

O BCE (Banco Central Europeu), explicado de FORMA INFANTIL.

O Que é o BCE?

- O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

E donde veio o dinheiro do BCE?
- O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuiram com 30%.

E é muito, esse dinheiro?
- O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

Então, se o BCE é o banco destes Estados pode emprestar dinheiro a Portugal, ou não? Como qualquer banco pode emprestar dinheiro a um ou outro dos seus accionistas.
- Não, não pode.

Porquê?!
- Porquê? Porque... porque, bem... são as regras.


Então, a quem pode o BCE emprestar dinheiro?
- A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses (mercado secundário).

Ah percebo, então Portugal, ou a Alemanha, quando precisa de dinheiro emprestado não vai ao BCE, vai aos outros bancos que por sua vez vão ao BCE.
- Pois.

Mas para quê complicar? Não era melhor Portugal ou a Grécia ou a Alemanha irem directamente ao BCE?
- Bom... sim.... quer dizer... em certo sentido... mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

Agora não percebi!!..
- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

Mas isso assim é um "negócio da China"! Só para irem a Bruxelas buscar o dinheiro!
- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.


Isso é um verdadeiro roubo... com esse dinheiro escusava-se até de cortar nas pensões, no subsídio de desemprego ou de nos tirarem parte do 13º mês.
As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos accionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.

Mas quem é que manda no BCE e permite um escândalo destes?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.

Então, os Governos dão o nosso dinheiro ao BCE para eles emprestarem aos bancos a 1%, para depois estes emprestarem a 5 e a 7% aos Governos que são donos do BCE?
- Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6%, a 7 ou mais.

Então nós somos os donos do dinheiro e não podemos pedir ao nosso próprio banco!...
- Nós, qual nós?! O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.

Mas, e os nossos Governos aceitam uma coisa dessas?
- Os nossos Governos... Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos.


Mas então eles não estão lá eleitos por nós?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois.... quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta actual crise mundial, a maior de há um século para cá.
Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como os casinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

E onde o foram buscar?
- Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?...

Mas meteram os responsáveis na cadeia?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody's, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram... passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.

E então como é? Comemos e calamos?
- Isso já não é comigo. Eu só estou a explicar ...

(Não consegui obter a autoria do texto)

o palácio da pena

Hoje estou dispensado de escrever seja o que for. A finalidade do post é apenas aquela que o título contempla. Vejam.

segunda-feira, novembro 28, 2011

até na bola, senhores ...

Mete-me impressão estarmos em crise e sermos tratados como um dos PIGS (ou PIIGS ou ainda PIIGGS) da Europa. Se ainda reconhecesse mérito nos outros e aceitasse que eles são melhores do que nós, eu ainda entendia. Mas, não. Eles são fracos, incapazes, medianamente dotados de inteligência, de cultura, de habilidade. Nem sequer são mais trabalhadores do que nós. São mais pontuais, mais madrugadores, mais cumpridores da lei, mas muito menos das regras de educação e zeros absolutos em emoções, sensibilidade, paixão, amor, solidariedade. Quer queiramos ou não são umas nódoas. São também pouco cuidadosos com a higiene e a apresentação. E, vejam lá, nós é que somos os PIGS. Eu sei do que falo. Fui eleito há uns largos anos presidente de uma pequena organização mundial. Fui reeleito, passados cinco anos e não aceitei, dizendo na cara de todos, que só não aceitava porque me recusava a presidir àquela organização, porque não lhes reconhecia a mínima qualidade para a ela pertencerem. Não serviu de nada, como de nada serve que haja portugueses ilustríssimos por esse mundo fora dando cartas nos seus campos profissionais (especialmente na investigação), nem que os milhões de portugueses emigrados sejam os melhores em qualquer lado, ou os nossos futebolistas arrastem multidões e os nossos treinadores se espalhem pelo mundo e tenham nas suas mãos o encargo de os fazer melhores. De nada serve. Muito menos serve, sermos o país com as mais antigas fronteiras da Europa, termos uma língua falada por centenas de milhões de pessoas, termos descoberto meio mundo. De nada serve. Somos uns tesos, não temos petróleo, não temos armas nem soldados bastantes para sermos polícias do mundo. Eles bem nos chamam e tratam como se fossemos realmente um dos PIGS, mas realmente quem os olha de cima para baixo somos nós, porque como bem disse Pessoa, nós não somos da nossa altura, mas sim da altura do que vemos.

sábado, novembro 26, 2011

supermágico

Já se viu de tudo, desde um porco a andar de bicicleta a alguns políticos honestos. Mas apesar disso a magia continua a ser a magia, acima de todas as ilusões. Também aqui parece ter-se visto tudo, desde o elefante ou um Airbus a desaparecerem. Já não dizemos o ah! espantado no momento mágico, mas continuamos a espantar-nos em silêncio. Cada vez há melhores mágicos e truques quase perfeitos e há ainda aqueles que por tão inacreditáveis arranjamos sempre uma explicação simples que não podemos provar mas apenas suspeitar. O vídeo que hoje vos deixo é um must em sobriedade, em simplicidade de processos e em espanto, se ainda nos espantássemos, realmente

o bailinho da banca

Há dias em que apetece deixar de pensar na crise e damos tudo por uma boa gargalhada. Embora o tema não tenha graça nenhuma, o certo é que acabamos por rir. Quando o remédio não parece fácil, nem depende de asção pessoal imediata, temos mesmo que rir para conseguirmos forças para lutar, já que a raiva é constante.

sexta-feira, novembro 25, 2011

ouçam os que merecem ser ouvidos


O Jornal i de hoje, publica uma notícia sobre a palestra proferida em Espanha pelo Prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz, antigo Vice-presidente do Banco Mundial, em que defende que as políticas de austeridade conduzirão sempre a um «suicídio económico».
Não posso deixar de transcrever aqui esta notícia por ela ser mais uma das vozes que mostram a quem não quer ver, que a política defendida e praticada por este governo nunca nos tirará da crise e apenas nos afundará mais. Aos que já estão em crise, evidentemente ... Não, seguramente, àqueles a quem a política fiscal e económica não pede sacrifícios e continuam a viver como sempre, alguns ainda melhor. Em nome da justiça social, dirão eles...

«O prémio Nobel da Economia em 2001 e antigo vice-presidente do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, afirmou na quinta-feira que as políticas de austeridade constituem uma receita para "menos crescimento e mais desemprego".

Stiglitz considerou que a adoção dessas políticas "correspondem a um suicídio" económico.

"É preciso perceber-se que a austeridade por si só não vai resolver os problemas porque não vai estimular o crescimento", afirmou Stiglitz, num encontro com jornalistas na Corunha, em Espanha, onde proferiu a conferência "Pode o capitalismo salvar-se de si mesmo?", noticia a Efe.

O economista sugeriu ao novo governo espanhol que vá "além da austeridade" e que proceda a uma reestruturação das despesas e da fiscalidade como medida básica para criar emprego.

Recomendou em particular uma fiscalidade progressiva e um apoio ao investimento das empresas.

"Temo que se centrem na austeridade, que é uma receita para um crescimento menor, para uma recessão e para mais desemprego. A austeridade é uma receita para o suicídio", afirmou.

Para o Nobel da Economia de 2001, "a menos que Espanha não cometa nenhum erro, acerte a cem por cento e aplique as medidas para suavizar a política de austeridade, vai levar anos e anos" a sair da crise.

O antigo vice-presidente do Banco Mundial disse que as reformas estruturais europeias "foram desenhadas para melhorar a economia do lado da oferta e não do lado da procura", quando o problema real é a falta de procura.

Por isso, rejeitou as propostas a favor de mais flexibilidade laboral: "Se baixamos os salários, vai piorar a procura e a recessão", alertou Stiglitz, defendendo que "é necessário" que a flexibilidade seja acompanhada por "compensações do lado da segurança" para os trabalhadores.

"Em economia, há um princípio elementar a que se chama efeito multiplicador do orçamento equilibrado: se o governo sobe os impostos mas, ao mesmo tempo, gasta o dinheiro que recebe dos impostos, isto tem um efeito multiplicador sobre a economia", explicou, apresentando a sua receita para sair da crise».

quinta-feira, novembro 24, 2011

já a floresta chegava ...

Só a floresta chegava para nosso prazer. Mas se lhe juntarmos o som inesperado dum xilofone gigante tocando «esus bleibet meine Freude», da cantata nº 147 (Herz und Mund und Tat und Leben) de Johann Sebastian Bach o nosso prazer aumenta para puro encantamento. O esforço e dinheiro gasto na construção deste inesperado xilofone foi a base do marketing para o celular Touch Wood, com caixa de madeira, penso que foi bem gasto e que atingirá os fins pretendidos

terça-feira, novembro 22, 2011

mais uma voz a ter em conta

Cada dia que passa aparecem mais vozes discordantes e demonstrações várias da incapacidade dos senhores europa resolverem o descalabro em que se meteram, fomentaram, admitiram e que parece convir-lhes. A barafunda é tal, o descrédito cresce de tal modo, que se torna assustador imaginarmos o que aí vem. Está tudo tão mal que até o inefável Barroso, recordou a costela maoista e começou a querer mostrar o caminho aos cegos companheiros e a querer afirmar a bondade dos euro bonds. Será que que em terra de cegos quem tem um olho pode mesmo vir a ser rei?

segunda-feira, novembro 21, 2011

enquanto podemos rir

Este título tem dois sentidos possíveis de leitura, qualquer deles triste e não desejável. Um deles aponta no sentido de cada vez termos uma menor capacidade de rir e o outro aponta no sentido de nos ser limitada a capacidade de rir por défice democrático. Só por si, qualquer destas leituras é bastante para nos sentirmos perturbados, pois se uma se refere à situação crítica e desastrada da nossa vida actual a outra refere-se à perda das nossas conquistas democráticas e da nossa liberdade colectiva e individual. Por outro lado o pensarmos nisto aviva em nós o sentido de luta que cada vez mais se impõe. Fiquem com este magnífico sketch cheio de qualidade, inteligência, sentido crítico e humor dos «Estado de graça».

rtp - estado de graça

RTP - ESTADO DE GRAÇA

quarta-feira, novembro 16, 2011

digmidade e nobreza, precisam-se


Recordaram-me hoje um dos gestos exemplares do General Ramalho Eanes que apesar da sua nobreza, dignidade e autenticidade foi esquecido pela comunicação social, especialmente pela televisão que nem sequer o referiu, provavelmente porque ao fazê-lo iria suscitar comparações indesejadas por eles. Houve, contudo, quem elogiasse o seu gesto e escrevesse sobre ele. Um deles foi Fernando Dacosta, sendo exatamente o seu texto que hoje aqui vou recordar e deixar-vos para meditação, em tempo de crise grave, em que os trabalhadores e os funcionários públicos carregam sobre as suas costas os encargos que deveriam ser de todos, mas só eles pagam, salvaguardando desse esforço exatamente aqueles que têm possibilidades económicas para isso e encheram as suas contas bancárias de todas as formas e feitios, mas nem sempre de forma limpa. Aqueles que os vários governos vieram engordando, estão livres deste encargo. Agora o slogan é outro. Hoje o que se diz, melhor o que se faz ou manda fazer é - Os pobres que paguem a crise.
Crise que uma clique de 'cérebros' bem pagos (porque podem emigrar! Mas quem é que os quereria? Porventura salvaram alguma empresa ou antes as afundaram?). Crise que uma clique de assessores, consultores e quejandos enchendo gabinetes não para trabalhar, mas para gastar e ganhar, não souberam evitar, nem prever. No entanto, as despesas com a presidência da República era 140 vezes menores no tempo de Eanes e as Casas militar e civil funcionavam ... Haja decoro, senhores. E, sobretudo não pensem e muito menos admitam que todos nós os pagantes, somos estúpidos.

«Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo governo uma lei especialmente congeminada contra si.O texto impedia que o vencimento do
Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência públicas que viesse a receber. Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo- se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira. O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor. Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze
anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros. Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu,porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados. As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social. Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!» O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta,de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos. “A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável
“preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”.
Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta - acrescentando os outros. “Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela. Reagi como tímido, liderando”. O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que
por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.
Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes. Seres decentes» (Crónica Fernando Dacosta)

domingo, novembro 13, 2011

a arte da ventriloquia

A ventriloquia é a arte de projectar a voz mantendo a boca fechada e sem mexer os lábios. Poucos são capazes de o fazer respeitando completamente estas duas condições e muito menos colocando-a magistralmente na boca do seu parceiro-boneco. Todos temos visto várias vezes ventríloquos portugueses ou estrangeiros, mas raramente, por certo, ficamos inteiramente satisfeitos. Mandaram-me recentemente um vídeo em que Terry Factor, vencedor do"America's Got Talent" de 2007, faz uma apresentação magistral em Las Vegas durante a MDA Telethon de 2008. Há quem o considere o melhor ventríloquo da actualidade. Vejam e digam de vossa justiça.

será bom viver nesse tempo?

Apoiante e entusiasta da ciência, da investigação e das novas tecnologias, não deixo contudo de me interrogar sobre as suas consequências nas nossas vidas. Será tudo bom, aquilo que nos trazem? Se em sua consequência a nossa vida nos fica facilitada, sob o ponto de vista do cumprimento de tarefas e obrigações e, se assim, nos vai restar mais tempo livre para pensar e para o lazer, será que vai ser isso que nós faremos nesses tempos livres? Será que vamos deixar florescer os nossos espíritos em ideias e sentimentos novos e fraternos ou, pelo contrário, nos vamos deixamos envolver por um mundo de devices tecnológicos desenhados para o nosso prazer e lazer mas que, ao mesmo tempo em que pretensamente nos divertem, nos transformarão em seres amorfos e vegetantes? Não sei se irei ter resposta para estas dúvidas na vida que me resta. Por isso, apenas me posso interrogar.

a nova magia

Sempre gostei de magia e ainda hoje ela me causa espanto de criança. Recordo grandes mágicos e alguns dos seus truques, incluindo os portugueses de hoje.
Verifiquei agora que a magia deu um salto tecnológico notável. Não vale a pena explicar em quê. Vejam com os vossos olhos espantados o vídeo que vos deixo.

segunda-feira, novembro 07, 2011

uma voz europeia diferente

No período conturbado que atravessamos devemos estar atentos a todas as opiniões sobre os problemas que nos afectam, sejam eles ou não, da área política em que nos situamos. A Europa é um assunto de todos os europeus e não podemos deixar de ouvir o que pensam uns e outros. Embora Nigel Farage, euro deputado inglês, antigo conservador e actualmente líder do Partido Independentista tenha uma visão adaptada ao seu posicionamento político e focada na sua posição, não deixa de mostrar grande lucidez na entrevista que aqui vos deixo e merece ser ouvida, para reflexão posterior.

sexta-feira, novembro 04, 2011

um novo fmi

A situação política portuguesa está cada vez mais grave. Assiste-se a uma contínua sucessão de decisões de manifesto carácter anti-social, acompanhada de evidentes atitudes de protecção aos ricos, esses pobres desprotegidos .... E isto é de tal forma evidente que os protestos vêm de todos os lados, até daqueles que suporíamos ao lado dos decisores.É o caso de Paco Bandeira que agora editou o vídeo que vos deixo, intitulado «Nem tudo é cantiga - FMI» e que nos traz à memória o antigo FMI de José Mário Branco. Está muito bem feito e merece a nossa atenção.

quinta-feira, novembro 03, 2011

levitação

Os avanços da ciência mostram-se imparáveis. Todos os dias há notícia de novos desenvolvimentos, de novas aplicações. Hoje recebi um magnífico vídeo sobre os novos supercondutores e as perspectivas que abrem em vários campos de aplicações. O que vão ver está em estudo na Universidade de Israel. Vale a pena ver. Depois imaginem-se a andar em futuros comboios com esta tecnologia ...

quarta-feira, novembro 02, 2011

sagrada família

O Natal ainda está longe, mas em tempo de crise como este que vivemos, nada nos assegura que as comunicações funcionem bem, como normalmente, e sejamos surpreendidos com cortes nesse sector. Receando pois problemas nas comunicações e sendo já difícil a comunicação actualmente, pensei ser acertado e prudente antecipar o envio de mensagens necessárias. Por isso, aqui deixo o meu desejo de Feliz Natal para todos vós, com esta belíssima imagem da nova sagrada família.

domingo, outubro 30, 2011

um olhar sobre os filhos


Todos os pais têm uma ideia bem definida sobre o que é ser pai e sobre o amor que têm aos seus filhos. parecerá pois que sobre isso tudo está dito e adquirido. Penso que é em casos como este que há sempre algo a dizer. Penso que todos gostarão de ler o que sobre isso escreveu José Saramago. Aqui fica.

"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo".

sábado, outubro 29, 2011

um verdadeiro serviço público

Junto com o vídeo que vos deixo e para o qual aconselho a vossa melhor atenção, vinha também a informação que a seguir transcrevo - «Entre todos os agentes de trânsito do Espírito Santo, um servidor de Vila Velha está sendo destaque na Semana Nacional de Trânsito, comemorada de 19 a 23 de Setembro. Por indicação dos próprios condutores e pedestres pelo trabalho desenvolvido no município, o agente Jobson Meirelles, da Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito, foi homenageado pelo Departamento Estadual de Trânsito com uma placa de honra ao mérito e um vídeo que mostra seu trabalho como guarda na Praia da Costa».
O polícia de trânsito Jobson Meirelles é um exemplo do que deve ser um agente de trânsito - cordial, pedagogo, eficaz, respeitador e respeitado. Não é um caçador de faltas nem de multas, mas um educador cívico. Merece os nossos parabéns ou como se diria no Brasil - merece que o parabenizemos.

quarta-feira, outubro 26, 2011

honrar a palavra

A palavra, enquanto valor e honra pessoal, perdeu todo o valor e toda a garantia de ser respeitada. Definitivamente. Mais numas classes que noutras, mais nalguns homens que noutros. Mas foi tão grande esta destruição de tão importante valor que, hoje, a palavra deixou de ter valor. Bons tempos aqueles em que se fechavam negócios com um aperto de mão e a palavra dada.

domingo, outubro 23, 2011

uma voz da geração do basta

Foi com agradável surpresa que ouvi com atenção as sensatas e certeiras palavras com que este representante da nova geração do basta, em jeito e ritmo de rap, nos abana e chama a atenção de forma pouco usual para a triste situação dos nossos dias. Escutem-no com a atenção que ele merece e bem mais do que muitos que falam ou arrotam do alto de tribunas onde não merecem estar. E perguntem com ele - onde estão os «descobridores da caravela»?

sábado, outubro 22, 2011

sem comentários



"Antigamente os cartazes nas ruas,
com rostos de criminosos,
ofereciam recompensas;
hoje em dia, pedem votos".

o sorriso das vaquinhas


No Jornal de Barcelos de 5 de Outubro passado, , Luís Manuel Cunha, seu habitual colaborador, publicou um artigo em que mais uma vez faz um triste retrato da classe política portuguesa. Neste caso, não tanto sobre a acção e o pensamento políticos, mas mais sobre a obscuridade da sua expressão verbal, a lembrar outros políticos e outros tempos. Porque atravessamos uma crise grave e tempos de depressão e tristeza que uma vez,, pelo menos, nos possamos rir com gosto ... ou chorar um pouco mais.

«Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas.

Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas.


Primavera e vacas.


De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca.


A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo.


Um dia, o Zeca da Maria “gorda”, farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma.


E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:


“A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda.

A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um.


O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta.


Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. - Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças.


A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó.


A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar “pauzinho”, que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia.


Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho.


O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. - Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi.”


Foi assim.

Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. - Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.


Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria “gorda”, ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum:


“Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante”!


Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu;


Este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos;


Este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele;


Este “cagarola” que foi humilhado por João Jardim e ficou calado;


Este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo “sorriso das vacas”, satisfeitíssi-mas olhando o pasto que começava a ficar verdejante”!


Satisfeitíssimas, as vacas?!


Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de “ir ao boi”, ao menos uma vez cada ano!


Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou “surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha”!

Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!!

Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. - É possível.

Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de “vacas sagradas”, essas sim com direito a atendimento personalizado pelo “boi”, enquanto as outras são inexoravelmente “ordenhadas”! sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.


A este “Américo Tomás do século XXI” chamou um dia João Jardim, o “sr. Silva”.

Depreciativamente, conforme entendimento generalizado.


Creio que não.


Porque este homem deveria ser simplesmente “o Silva”.


O Silva das vacas. - Presidente da República de Portugal.


Desgraçadamente.»


quarta-feira, outubro 19, 2011

quando a raiva se faz sentir


Encontramos-nos, todos nós, numa situação limite, de esforço e tolerância. Não se estranhe pois que de vários lados, os mais improváveis, se comecem a ouvir vozes totalmente discordantes da política do governo. Não se estranhe igualmente que essas vozes e esses protestos nos remetam para outros tempos de contestação e protesto em que a canção era uma arma. Hoje mesmo, avoz improvável do presidente da República se fez ouvir em tons dissonantes doo seu habitual leit motiv. Noúltimo Expresso, o jornalista Nicolau Santos publicou um artigo que vos aconselho e merece leitura, razão porque aqui o transcrevo. Aconselho a sua leitura seguida da audição da cantiga de Sérgio Godinho

«Sr. primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes, como diria o Sérgio Godinho. V.Exa. dirá que está a fazer o que é preciso. Eu direi que V.Exa. faz o que disse que não faria, faz mais do que deveria e faz sempre contra os mesmos. V.Exa. disse que era um disparate a ideia de cativar o subsídio de Natal. Quando o fez por metade disse que iria vigorar apenas em 2011. Agora cativa a 100% os subsídios de férias e de Natal, como o fará até 2013. Lançou o imposto de solidariedade. Nada disto está no acordo com a troika. A lista de malfeitorias contra os trabalhadores por conta de outrem é extensa, mas V.Exa. diz que as medidas são suas, mas o défice não. É verdade que o défice não é seu, embora já leve quatro meses de manifesta dificuldade em o controlar. Mas as medidas são suas e do seu ministro das Finanças, um holograma do sr. Otmar Issing, que o incita a lançar uma terrível punição sobre este povo ignaro e gastador, obrigando-o a sorver até à última gota a cicuta que o há de conduzir à redenção.

Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo com uma pistola encostada à cabeça. E o que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse, de forma incondicional, ao lado do povo que o elegeu e não dos credores que nos querem extrair até à última gota de sangue. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse a lutar ferozmente nas instâncias internacionais para minimizar os sacrifícios que teremos inevitavelmente de suportar. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele explicasse aos Césares que no conforto dos seus gabinetes decretam o sacrifício de povos centenários que Portugal cumprirá integralmente os seus compromissos - mas que precisa de mais tempo, melhores condições e mais algum dinheiro.

Mas V.Exa. e o seu ministro das Finanças comportam-se como diligentes diretores-gerais da troika; não têm a menor noção de como estão a destruir a delicada teia de relações que sustenta a nossa coesão social; não se preocupam com a emigração de milhares de quadros e estudantes altamente qualificados; e acreditam cegamente que a receita que tão mal está a provar na Grécia terá excelentes resultados por aqui. Não terá. Milhares de pessoas serão lançadas no desemprego e no desespero, o consumo recuará aos anos 70, o rendimento cairá 40%, o investimento vai evaporar-se e dentro de dois anos dir-nos-ão que não atingimos os resultados porque não aplicámos a receita na íntegra.

Senhor primeiro-ministro, talvez ainda possa arrepiar caminho. Até lá, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes.»

terça-feira, outubro 18, 2011

um novo mundo a vir

Eduardo Galeano é um jornalista e escritor nascido em Montevideu com extensa obra publicada em várias áreas do pensamento. Figura respeitada em todo o mundo foi entrevistado pela televisão espanhola, recentemente, durante as manifestações da Porta do Sol, em Madrid. As suas palavras são sábias e muito pensadas e vividas. Merecem ser escutadas, com posterior reflexão. Hoje, mais do que ontem.

terça-feira, outubro 11, 2011

mergulhar em bali

Para quem seja grande apreciador do mergulho e da fauna marítima, aconselho uma versão completa deste vídeo que poderá consultar no Youtube. Para aqueles que gostam mas consideram 51 minutos tempo a mais, consolem-se com esta versão mais pequena, mas de grande beleza.

segunda-feira, outubro 10, 2011

o medo

Penso que Mia Couto não necessita de qualquer apresentação, muito menos por quem não está devidamente credenciado para o fazer. Atrevo-me, contudo, a chamar-vos a atenção para a importância das palavras que proferiu nas Conferências do Estoril 2011. Necessita e merece atenção, especialmente hoje em que forças várias tentam de vários modos levar-nos ao medo e posterior subjugação.

sábado, outubro 08, 2011

um clarinete inesquecível

Não é dos instrumentos musicais que mais me agradem, nem o seu som se pode considerar uma maravilha. Contudo, nesta interpretação das Czardas de Monti, o coreano Han Kim transforma-o numa delícia para os ouvidos e para os sentidos. Ouçam-no neste concerto numa capela da catedral Myoungdong, acompanhado pela pianista Younsil Kim, em Maio de 2010.