quinta-feira, janeiro 31, 2013

o regresso aos mercados!!!

 
 
No Diário de Notícias de há seis dias, José Manuel Pureza publicou este esclarecedor artigo que todos devem conhecer. Porque muitos de v+os não o terão lido, aqui o deixo à vossa consideração.
 
Adeus até ao meu regresso (aos mercados)

por JOSÉ MANUEL PUREZA, Hoje

Em 7 de Fevereiro de 2011, o Governo presidido por José Sócrates procedeu à última colocação sindicada de dívida pública portuguesa no mercado com maturidade de cinco anos. 3500 milhões de euros foram então colocados a um juro de 6,4%. Dois meses depois, o mesmo Governo estava a solicitar a intervenção da troika.

Esta lembrança pode ser útil para os que vinham exibindo um olhar sombrio e que subitamente passaram a entoar hossanas a Gaspar.

Tanta exultação faz lembrar o suicida que se atira de um prédio de vinte andares e que, a meio da sua queda vertiginosa, diz para si próprio: "Até aqui tudo bem!"

Fosse fundada a versão épica do louvado regresso aos mercados e a exultação seria adequada. Não é, infelizmente para todos nós. Por X motivos.

Primeiro, o regresso aos mercados não é resultado do sucesso da política de austeridade e da execução orçamental.

Os juros das dívidas soberanas na UE têm estado a descer fortemente desde Setembro, isto é, desde que o Banco Central Europeu, contrariando a opinião reiterada do Governo português, decidiu assumir a função de garante dos créditos aos Estados membros.

Na Grécia- tão criticada por alegadamente não cumprir as mínimas medidas de austeridade - os juros caíram para metade.

Ora, Portugal não é a Grécia, ou afinal é?...O regresso aos mercados não é a prova de que a austeridade está certa, mas sim a desculpa certa para impor mais austeridade.

Não só não vão retroceder os aumentos de impostos ou os cortes brutais nos salários e nas pensões como o Governo acertará com a troika, com entusiasmo redobrado, a próxima vaga de cortes avassaladores na educação, na saúde ou na Segurança Social, isto é, nos lugares da democracia social em Portugal. Como é bom regressar aos mercados, oh gente espoliada de sustento e de direitos!

Segundo, o regresso aos mercados não é o resultado da lucidez e sagacidade do Governo português. A lucidez, neste caso, tem perna curta: aceder aos mercados é uma das condições fixadas pelo BCE em Setembro para a dívida de um Estado ser susceptível de compra pelo banco.

O que o Governo agora anuncia com pompa como sendo uma vitória sua não é afinal mais do que um requisito de uma política europeia que o mesmo Governo sempre combateu.

O fundamentalismo ideológico do Governo é, na verdade, o grande derrotado de um regresso aos mercados como este, de que o Banco Central Europeu é avalista seguro.

Terceiro, o regresso aos mercados não é o sinal da retoma da soberania financeira de Portugal. Antes fosse.

Portugal regressou aos mercados no mesmo dia em que o Eurostat tornou público que a dívida pública portuguesa atingiu o seu valor mais alto de sempre.

Do segundo para o terceiro trimestre de 2012, a dívida passou de 117,4% para 120,3% do PIB, sendo a terceira mais elevada da UE, a seguir à Grécia e à Itália. Comparativamente com o terceiro trimestre de 2011, o aumento estimado da dívida foi de 10%. Mais 25 mil milhões de euros de dívida desde que este Governo iniciou o seu mandato, mais 11 mil milhões do que aquilo que estava previsto no memorando com a troika.

Uma dívida assim é insustentável. Bem podemos regressar aos mercados. Será para lhes pedir mais, não para lhes pagar o que lhes pedimos.

Podem até dar-nos mais tempo para pagarmos os empréstimos e os juros. Tempo teremos, dinheiro é que não. Como pode um país que decresce 2% pagar aos mercados um juro de 5% (o que os amicíssimos mercados fixaram esta semana para o empréstimo a 5 anos)?

Regressámos aos mercados. Mudou, pois, a identidade dos credores. O que não mudou foi a nossa prisão a uma receita recessiva que nos atolará em dívida até ao infinito e mais além. Só a ruptura com essa receita nos merecerá exultação a sério.

In DN, 25.01.13
Sublinhados que acompanhavam o texto

quarta-feira, janeiro 30, 2013

as 3 amálias

Vamos rindo, para não chorar. Talvez lutar, para vencer.


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quarta-feira, janeiro 23, 2013

uma forma de arte

Vale a pena ver. Arte e sensibilidade. Juntas. Memórias de guerra, mesmo contadas, deixam marcas. Um nome para recordar - Ksernya Simonova.

terça-feira, janeiro 22, 2013

é só uma coincidência

Não há coincidências, nem almoços grátis...

a rita da minha juventude

Refrescar a memória é também viver.

segunda-feira, janeiro 21, 2013

o banco que dirige o mundo

Nunca é demais lembrar o que já se sabe, mas se vai esquecendo.

sexta-feira, janeiro 18, 2013

bicho homem

Nunca é demais voltar ao tema. Água mole em pedra dura ...
Mas bicho é bicho!

quarta-feira, janeiro 16, 2013

uma jóia do cinema

Acabei de receber esta jóia do cinema, que poderá ser um dos mais antigos fimes americanos conhecidos até hoje. Segundo as informações que o acompanham e transcrevo em seguida, foi filmado em 14 de Abril de 1906 na cidade de S. Francisco, quatro dias antes do terramoto que destruiu a cidade. O filme só se salvou por ter sido enviado para New York para processamento, por combóio, antes do terramoto.
É evidente que não é o filme mais antigo, pois até o filme português «A saída do pessoal operário da Fábrica Confiança» realizado por Aurélio Paz dos Reis lhe é anterior (1896), como mais anterior ainda é o filme «La sortie de l'usine Lumière à Lyon», realizado pelos Irmãos Lumière em 1894. Mas não será isto que lhe tira mérito, nem história. Aqui o deixo para vós, com os comentários anexos. 

«O FILME MAIS ANTIGO DO MUNDO USA-San Francisco -O filme mais antigo do mundo (sobreviveu ao terramoto de 1906) SENSACIONAL! Vale a pena ver. Eis o valor de um acervo cultural. É um túnel do tempo! 4 dias depois boa parte, senão a totalidade dessas pessoas estavam mortas e a cidade em ruínas. Perdemos tempo demais com tolices. A qualquer momento a natureza pode nos "deletar". Para os cinéfilos, segue o que talvez venha a ser o mais antigo filme já produzido (1906)! São cenas filmadas a partir de um "cable car" na Market Street, em San Francisco, California. É surpreendente a quantidade de automóveis que já existiam àquela época. E quantas imprudências se cometiam, nas barbas dos policiais (Provavelmente, nem havia Leis de Trânsito...)! O trânsito era caótico com a convivência, não tanto harmoniosa, entre pedestres, bicicletas, charretes, automóveis, cable car, bondes, etc. Observe que os bondes que cruzam a rua já possuem tração elétrica!• No final da rua, existe um prédio que está lá até hoje, pois trata-se do terminal de passageiros da Baía de San Francisco. O filme, após muita polêmica, teve identificada a sua origem, bem como a data de sua produção: É um filme produzido em 14 de abril de 1906, 4 dias antes do grande terremoto que acabou com a cidade de San Francisco. O filme foi embarcado para New York, num trem, para ser processado, daí ter sido poupado daquela tragédia».


segunda-feira, janeiro 14, 2013

benefícios indirectos

Tenho de evitar ler durante algum tempo as crónicas de Ricardo Araújo Pereira na Visºão..Não tenho outra alternativa para nºao me arriscar a que todas as semanas porte aqui outra das suas crónicas. Que diabo! O blog é meu e não dele! Por isso, de duas uma - ou começo a escrever crónicas minhas de que goste ou tenho que me reduzir à missão de divulgador do trabalho dos outros. Será que os cortes de 2013 me vão beneficiar indirectamente? Serei esfolado, mas vai haver quem se arrependa de o fazer. Podem acreditar. Eu não tenho humor nem a subtileza do RAP... 
 
Andava um burlão em Portugal mas identificaram-no

«O leitor acompanhou a his­tória daquele burlão que apareceu na comunicação social a dar falsas espe­ranças aos portugueses?

Foi realmente incrível, a mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho. Quando o primeiro-minis­tro prometeu que, para o ano, todos iríamos beneficiar de novas oportunidades, fiquei com a sensação de que, em 2013, o País ia ser um lugar de sonho, em que toda a gente conse­guiria usufruir de condições excepcionais para subir na vida. No fundo, que o Portugal do ano que vem seria para os portugueses o que o BPN da última década foi para aqueles amigos do Presidente da República. Por isso mes­mo, a promessa não me entusiasmou. Gozar daquele tipo de benefício pode ser agradável, no início, e até render milhões, mas depois sabemos como tudo acaba: olhe-se para as dezenas e dezenas de implicados no escândalo do BPN, para as fortunas que tiveram que devolver, para as duras penas de prisão que estão a cumprir. A esse preço, ninguém deseja ser bem-sucedido na vida.

Falou-se ainda noutro burlão, mas confesso que não consegui perce­ber a história. Primeiro, a comunicação social disse que se tratava de um pres­tigiado professor de economia social e observador das Nações Unidas. Depois, a mesma comunicação social disse que era um charlatão. Eu, que não acredito em nada do que vem na comunicação social, fiquei satisfeito com a minha posição de princípio, mas sem saber o que pensar acerca deste caso concreto. Limitei-me a registar, com alguma surpresa, o entusias­mo dos que se gabaram de ter encontrado um burlão em Portugal. Olha que façanha. É por isto que o País não avança: as pessoas contentam-se com pouco. Muito menos compreendi a galhofa de quem assinalou que o burlão tivesse tido tempo de antena. Toda a gente sabe como funciona o mundo: um charlatão crítico da austeridade pode conseguir uma tribu­na na televisão; um charlatão partidário da austeridade pode chegar a secretário de Estado. Ou até um pouco mais acima.

Não quero fazer a rábula do cínico, mas a verdade é que o País já não me surpreen­de com estes truques antigos. Portu­gal terá de se esforçar muito mais se quiser impressionar-me - e acredito que queira. Sonho, por exemplo, com o dia em que não leremos considerações sobre o Natal no fa­cebookde Pedro Passos Coelho, mas considera­ções sobre Pedro Passos Coelho no facebook do Natal. Bem sei que as quadras festivas não têm (por enquan­to) facebook, mas seria tão estimulante para o povo português que os desabafos de Passos Coelho sobre o Natal fossem substituídos por desabafos do Natal sobre Passos Coelho. Exemplifico: «Amigos, este não era o primeiro-ministro que merecíamos. Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos a que se habituaram porque ele aumentou os impostos e cortou os subsídios, apesar de ter garantido que não o faria. A todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com vergonha por terem votado neste homem, mas com a esperança de quem sabe que a legislatura só dura até 2015 - ou mais cedo, se Paulo Portas entender que isso é benéfico para o CDS-PP. A Páscoa e eu desejamos a todos umas Festas Felizes. Um abraço, Nata!.» Isso seria suficientemente bizarro para conseguir ser surpreendente em Portugal. Ao menos, durante dez minutos».
 
Ricardo Araújo Pereira, Boca do Inferno - Visão de 3 de janeiro de 2013 

quinta-feira, janeiro 03, 2013

há vida para além deste pântano

Apercebi-me hoje que tinha este vídeo guardado no blog, provavelmente à espera de melhores dias para o postar aqui. A razão para o ter guardado não me aparece como muito clara - para além da sua beleza natural e da técnica e qualidade das câmaras de filmar sub-aquáticas, não me parece encontrar nada de novo que os leitores deste blog não conheçam já. Porque o terei guardado, então? Só me ocorre que terei pensado dá-lo a conhecer em época de grande depressão, de vidas forçadamente estagnadas, de ódios e revoltas crescentes, desta vida lamentável em que estamos forçados a viver, envolvidos nesta política pantanosa que nos faz ter cuidado com cada passo que nos pode afundar ainda mais. Talvez tenha sido esta a razão e mais me convenço disso quando reparo que já nessa altura o intitulei - há vida para além deste pântano. Fica aqui, de qualquer modo. Serena.
 
 

um terço é para morrer

 
Há sonhos do diabo. Não lembram a ninguém senão mesmo ao Diabo. No Público do passado dia 2 de Dezembro, José Vitor Malheiros publicou um texto que intitulou «O sonho de Pedro Passos Coelho», que mostra que este infatigável governante pensa em tudo, mesmo nas mais extravagantes soluções políticas para salvar o país a quem tanto quer
 
 
 
 
O sonho de Pedro Passos Coelho
por

José Vítor Malheiros



«"Um terço é para morrer. Não é que tenhamos gosto em matá-los, mas a verdade é que não há alternativa. se não damos cabo deles, acabam por nos arrastar com eles para o fundo. E de facto não os vamos matar-matar, aquilo que se chama matar, como faziam os nazis. Se quiséssemos matá-los mesmo era por aí um clamor que Deus me livre. Há gente muito piegas, que não percebe que as decisões duras são para tomar, custe o que custar e que, se nos livrarmos de um terço, os outros vão ficar melhor. É por isso que nós não os vamos matar. Eles é que vão morrendo. Basta que a mortalidade aumente um bocadinho mais que nos outros grupos. E as estatísticas já mostram isso. O Mota Soares está a fazer bem o seu trabalho. Sempre com aquela cara de anjo, sem nunca se desmanchar. Não são os tipos da saúde pública que costumam dizer que a pobreza é a coisa que mais mal faz à saúde? Eles lá sabem. Por isso, joga tudo a nosso favor. A tendência já mostra isso e o que é importante é a tendência. Como eles adoecem mais, é só ir dificultando cada vez mais o acesso aos tratamentos. A natureza faz o resto. O Paulo Macedo também faz o que pode. Não é genocídio, é estatística. Um dia lá chegaremos, o que é importante é que estamos no caminho certo. Não há dinheiro para tratar toda a gente e é preciso fazer escolhas. E as escolhas implicam sempre sacrifícios. Só podemos salvar alguns e devemos salvar aqueles que são mais úteis à sociedade, os que geram riqueza. Não pode haver uns tipos que só têm direitos e não contribuem com nada, que não têm deveres.

Estas tretas da democracia e da educação e da saúde para todos foram inventadas quando a sociedade precisava de milhões e milhões de pobres para espalhar estrume e coisas assim. Agora já não precisamos e há cretinos que ainda não perceberam que, para nós vivermos bem, é preciso podar estes sub-humanos.

Que há um terço que tem de ir à vida não tem dúvida nenhuma. Tem é de ser o terço certo, os que gastam os nossos recursos todos e que não contribuem. Tem de haver equidade. Se gastam e não contribuem, tenho muita pena... os recursos são escassos. Ainda no outro dia os jornais diziam que estamos com um milhão de analfabetos. O que é que os analfabetos podem contribuir para a sociedade do conhecimento? Só vão engrossar a massa dos parasitas, a viver à conta. Portanto, são: os analfabetos, os desempregados de longa duração, os doentes crónicos, os pensionistas pobres (não vamos meter os velhos todos porque nós não somos animais e temos os nossos pais e os nossos avós), os sem-abrigo, os pedintes e os ciganos, claro. E os deficientes. Não são todos. Mas se não tiverem uma família que possa suportar o custo da assistência não se pode atirar esse fardo para cima da sociedade. Não era justo. E temos de promover a justiça social.

O outro terço temos de os pôr com dono. É chato ainda precisarmos de alguns operários e assim, mas esta pouca-vergonha de pensarem que mandam no país só porque votam tem de acabar. Para começar, o país não é competitivo com as pessoas a viverem todas decentemente. Não digo voltar à escravatura - é outro papão de que não se pode falar -, mas a verdade é que as sociedades evoluíram muito graças à escravatura. Libertam-se recursos para fazer investimentos e inovação para garantir o progresso e permite-se o ócio das classes abastadas, que também precisam. A chatice de não podermos eliminar os operários como aos sub-humanos é que precisamos destes gajos para fazerem algumas coisas chatas e, para mais (por enquanto), votam - ainda que a maioria deles ou não vote ou vote em nós. O que é preciso é acabar com esses direitos garantidos que fazem com que eles trabalhem o mínimo e vivam à sombra da bananeira. Eles têm de ser aquilo que os comunistas dizem que eles são: proletários. Acabar com os direitos laborais, a estabilidade do emprego, reduzir-lhes o nível de vida de maneira que percebam quem manda. Estes têm de andar sempre borrados de medo: medo de ficar sem trabalho e passar a ser sub-humanos, de morrer de fome no meio da rua. E enchê-los de futebol e telenovelas e reality shows para os anestesiar e para pensarem que os filhos deles vão ser estrelas de hip-hop e assim.

O outro terço são profissionais e técnicos, que produzem serviços essenciais, médicos e engenheiros, mas estes estão no papo. Já os convencemos de que combater a desigualdade não é sust entável (tenho de mandar uma caixa de charutos ao Lobo Xavier), que para eles poderem viver com conforto não há outra alternativa que não seja liquidar os ciganos e os desempregados e acabar com o RSI e que para pagar a saúde deles não podemos pagar a saúde dos pobres.

Com um terço da população exterminada, um terço anestesiado e um terço comprado, o país pode voltar a ser estável e viável. A verdade é que a pegada ecológica da sociedade actual não é sustentável. E se não fosse assim não poderíamos garantir o nível de luxo crescente da classe dirigente, onde eu espero estar um dia. Não vou ficar em Massamá a vida toda. O Ângelo diz que, se continuarmos a portarmo-nos bem, um dia nós também vamos poder pertencer à elite."»

 José Vítor Malheiros

(no Público de 02Dez2012)




segunda-feira, dezembro 24, 2012

sábado, dezembro 22, 2012

professores

Aproveito o magnífico texto publicado no Jornal de Letras de 19 de Setembro de 2012, pelo escritor e músico de igual qualidade Valter Hugo Mãe, para desejar a todos os professores um Bom e Feliz Natal. Já não posso ser tão afirmativo no meu desejo de um feliz ano de 2013, pois nada aponta nesse sentido e o Gaspar seguramente não vai deixar. A menos que, como escreveu José Gil, seja tempo de tomarmos em mãos o nosso destino e a nossa felicidade.


Os professores



«Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade. A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito.
Ver mais de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe. Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto. As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se».
 

 

sexta-feira, dezembro 21, 2012

espantalhos


Peço especial atenção para o texto que o prestigiado filósofo português José Gil publicou na Visão, na sua coluna Radar e que intitulou «O roubo do presente».
E uma análise muito importante e muito pensada e amadurecida da triste situação em que nos encontramos e da única forma que temos para dela sair. A ler e pensar. Reproduzo o texto completo, com sublinhados e destaques finais meus.
 
O roubo do presente

«Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.


O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.

O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias border-/ine enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).

O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.

Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.

 Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.

Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria­-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país».

 

In Radar, Visão de 20 de Dezembro de 2012, José Gil

 

quinta-feira, dezembro 20, 2012

semicavaco


Acabei de ler esta nova crónica de Ricardo Araújo Pereira, intitulada «O semicavaco, um conceito ignorado pela ciência política», publicada na sua coluna Boca do Inferno da Revista Visão de hoje, dia 20 de Dezembro de 2012 e entendi, dada a coincidência da decisão esperada para hoje sobre o OE 2013,deixá-la aqui para que aqueles que não tenham a referida revista a possam ler.

 
O semicavaco, um conceito ignorado pela ciência política
 

«Quando se diz , que o sistema político português é semi­presidencialista, o aspecto fundamental a reter é aque­le «semi». Neste momento, o nosso semipresiden­cialismo deve-se ao facto de termos um semipresidente - particularidade teórica que Maurice Duverger não teve imagina­ção para antecipar. O actual Presidente da República transformaria qualquer sistema presidencialista num semipre­sidencialismo, dada a sua semitendência para ser constantemente semi. Cavaco sempre foi um semipolítico. Por um lado, sempre disse que não era político, dando a entender uma certa repugnância por essa actividade; por outro, rodeou-se de Oli­veira e Costa, Dias Loureiro, Duarte Lima e de todos aqueles senhores que foram aparecendo semanalmente na primeira página d' O Independente. Neste momento, é um semirreformado: por um lado, traba­lha; por outro, optou por recusar o salário e recebe uma reforma.

Quanto ao orçamento de Estado, Cavaco é semicontra. De acordo com o Expresso, o Presidente tem muitas dúvidas relativamente à constitucionalidade do documento. Porisso, vai promulgá-lo.

O País precisa de um orçamento, sob pena de se gerar um impasse. Por isso, Cavaco vai enviar o orçamento para o Tribunal Constitucional, para fiscalização sucessi­va, o que gerará vários impasses. Vetar um orçamento que a generalidade dos consti­tucionalistas dizem ser inconstitucional seria a forma de o Presidente da Repú­blica exercer uma das suas funções mais importantes: assegurar o cumprimento da Constituição. Promulgar o orçamento seria uma forma de o Presidente sugerir que tempos especiais requerem medidas especiais, e alguma flexibilidade. Cavaco terá ponderado tomar uma destas duas atitudes, e optou por tomar uma semiati­tude: promulga o orçamento mas envia-o para o Tribunal Constitucional. Trata-se de uma espécie de passa-a-outro-e-não­-ao-mesmo político. Talvez fosse interes­sante trocar o Presidente da República por uma estação dos CTT. O orçamento chegava do Parlamento, colava-se um selo e enviava-se para o Tribunal Constitucio­nal. Poupava-se algum dinheiro, porque a casa civil dos CTT tem muito pouco pessoal, e a casa militar ainda menos.

Em princípio, o Tribunal Constitucio­nal fará o mesmo que este ano: estudará o orçamento e, em meados de 2013, concluirá que ele contém, de facto, vários aspectos que violam a lei fundamental do País. Isso fará com que Portugal continue a ser o semipaís que conhe­cemos: de Janeiro a Junho, vivemos na ilegalidade; nos seis meses que restam, continuamos a viver na ilegalidade, mas com uma consciência mais clara disso. Que um semipaís possa ser chefiado por um semipresidente acaba por ser uma sorte. A estabilidade política também se faz desta semihomogeneidade».

Boca do Inferno de 20 de Dezembro de 2012-12-20 Ricardo Araújo Pereira

terça-feira, dezembro 11, 2012

in medio virtus


Penso ser um bom texto de reflexão para a época que atravessamos. Agradeço a Oscar Wilde o ter escrito estas palavras que com agrado e concordância subscrevo.
 
 
Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico
com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

sábado, dezembro 08, 2012

ficção ou talvez não

 
O próprio título justifica que não faça comentários ao texto. Aqui fica para ser lido e cada um que resolva qual o título adequado.

«Nota prévia:- Este retrato do que poderá ser o nosso país daqui a dois anos é uma crónica de ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou factos será mera coincidência... Ou talvez não?
Está quase a expirar o ano de 2014 e não há classe média em Portugal. Dos três escalões de IRS existentes em 2013, passaram a haver apenas dois desde o início deste ano. Inventado não se sabe por quem, está em voga usarem-se expressões anglo saxónicas para definir as duas classes existentes: a top class e a pop class. À top class pertencem cerca de 5% da população, constituída por banqueiros e funcionários do Banco de Portugal, empresários e gestores de topo, membros dos conselhos de administração de hospitais e clínicas privadas de saúde, sócios de grandes gabinetes de advocacia, a avenças do Estado, engenheiros de telecomunicações, juízes, alguns jornalistas e políticos. Vivem bem e gostam de ostentar a sua riqueza e poder.
Os restantes 95% de portugueses pertencem à pop class, na qual se incluem cerca de 40% que migraram daquela que era conhecida por classe média. São os migrantes e grande parte recorrem aos subsídios de pobreza disponibilizados pelo Estado. Abarca pensionistas, funcionários públicos, professores, polícias, militares e operários da construção civil entre outros.
Em relação a 2010, a população diminuiu 12%, equivalente ao número de portugueses que emigraram. Resolveu-se assim o problema do desemprego que baixou para os níveis de 2005. O Governo respira de alívio, dorme descansado e canta vitória.
Até final de Outubro, registaram-se 40 000 nascimentos. Um decréscimo a acompanhar a tendência para o despovoamento iniciada em 2011. Quanto menos formos melhor, parece ser o sentido da governança.
De forma a dar resposta aos "novos hábitos de compras dos portugueses", os supermercados criaram áreas distintas de vendas: o golden gate, destinado a quem pode adquirir produtos de marca, com direito a champanhe e bombons à entrada, e o portão popular que dá acesso às marcas brancas, de qualidade aceitável e a preços razoáveis. Evitam-se assim conflitos e atropelos à ordem e cada cliente faz as suas compras na área que lhe é destinada em paz e sossego.
O Aeroporto de Beja, desde que foi adquirido por um grupo árabe, revitalizou e é agora um centro comercial de qualidade internacional com casino, hotel e spa de luxo. Há vôos regulares de Luanda com clientes.
Desde a refundação do Estado anunciada pelo Primeiro Ministro em 2012 e à qual o PS se opusera com veemência inicialmente, mas que ratificou após ter obtido uma "grande vitória" ao obrigar o Governo a fazer cair uma alínea da proposta inicial, o chamado estado social deixou de ser obrigação do Estado. Em seu lugar criou-se o PIGS - Plano Individual de Gestão Social e o SNS foi banido passando a designar-se por SIS - Serviço Individual de Saúde. Em ambos os casos, compete aos interessados prover a sustentabilidade dos seus sistemas de saúde e segurança social.
Às hortas urbanas, sucedem-se as hortas de varanda mas há já quem comente que a Autoridade Tributária as traz debaixo de olho com vista ao agravamento do IMI.
Aqui e ali começam a aparecer os primeiros pré-fabricados e os bancos não sabem o que fazer a tanta casa devolvida! Alguns restaurantes e cafés continuam a resistir à crise, porém grande parte deles tiveram que encerrar as portas e os proprietários reformularam o negócio: rulotes e quiosques com comida de rua é a nova opção. A ASAE, sempre atenta, levanta multas mas o negócio sempre vai compensando. Certas zonas de Lisboa lembram já Manila e Bangkok.
Após vários desmandos provocados por populares contra os membros do Governo, que já atingiam também os deputados do maior partido da oposição, foi aprovada em 2013 no Parlamento uma alteração à lei penal que pune os atos preparatórios de ações de desagravo contra as decisões dos "altos representantes a Nação". Comparando-os a atos de terrorismo contra o Estado, a Polícia viu os seus poderes reforçados e pode reter, como medida cautelar, os presumíveis cabecilhas de manifestações anunciadas e reconhecidos agitadores, "mas pelo tempo estritamente necessário para o efeito" como houve o cuidado de se salvaguardar em abono dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Afinal, Portugal é um Estado de Direito!
Com as eleições presidenciais à porta e o PR a fazer um retiro espiritual em final de mandato na ilha de São Jorge, Açores, onde anunciou que o futuro de Portugal passa pela indústria leiteira, conhecem-se já dois candidatos: Durão Barroso pelo PSD e José Sócrates pelo PS.
Os comentadores da televisão habituais exaltam as qualidades pessoais e o capital de experiência europeia e a visão europeísta dos candidatos "neste momento importante para o país". Desde a imposição do voto obrigatório, uma pequena alteração introduzida na Constituição para fazer face ao constante abstencionismo que se verificava, espera-se grande afluência às urnas numa clara manifestação do interesse que os cidadãos têm nos destinos e no futuro de Portugal».
Ass.) Vítor Catulo

quinta-feira, dezembro 06, 2012

vá avante, portugueses

Deixei passar alguns dias antes de reproduzir aqui a ùltima carta do Comendador Marques de Correia publicada no Expresso, na esperança de assistir entretanto à adesão de um verdadeiro patriota que respondesse ao apelo ali deixado pelo ilustre Comendador.
Verifico, entretanto, que ou o Expresso tem menos leitores ou o patriotismo está em crise. Na dupla esperança que a crise não tenha afectado por completo o espírito patriótico e que este blog tenha algum leitor de marcado sentido patriótico, reproduzo a carta ainda esperançado que alguém possa ainda pensar que o 1.º de Dezembro é amanhã e que a tradição deve ser mantida.
Janelas há muitas. Venha o patriota.
 

 

                    
cartas abertas  
HOJE É DIA DE ATIRAR UM MIGUEL PELA JANELA E DEVEMOS HONRAR O DIA!
COMENDADOR MARQUES DE CORREIA

Onde o nosso Comendador nos recorda o valor simbólico do dia 1° de dezembro e nos exorta a que o comemoremos

PORTUGUESES CELEBREMOS o dia da reden­ção, em que valentes guerreiros nos deram livre a Nação. A fé nos campos de Ourique coragem deu e valor aos famo­sos de Quarenta que lutaram com ardor. Avante! Avante! É a voz que soará triun­fal. Vá avante mocidade de Portugal!
O espírito do dia, portanto, é este. Estou convencido de que este hino é tão conhe­cido como a canção 'Apita o Comboio', porque tem, também, um alto valor patriótico. No dia 1 de dezembro, o povo que vivia miseravelmente explorado pelos castelhanos levantou-se atrás dos 40 conjurados (no sentido em que os 40 conjurados se levantaram mais cedo) e correu com os espanhóis. Depois disso passou a ser miseravelmente explorado por castelhanos, mas também por ingleses, franceses e portugueses. A movimentação mereceu, portanto, a pena. Perguntarão os mais céticos: ganhámos alguma coisa em nos libertar da Espanha? E eu respondo sem pestanejar: claro que sim. Acaso a madru­gada redentora e restaurado­ra não chegasse, estávamos agora a braços com um refe­rendo como catalães, bascos e galegos hão de ter. Além disso, em Lisboa, o Rossio ligaria à Avenida da Liberdade, pois nunca teríamos a Praça dos Restauradores - a menos que dessem o nome de uma praça ao produto que o dr. Fernando Ruas usa no cabelo, o que seria pouco provável, não tanto pelo produto, mas pelo facto de o dr. Ruas ser de Viseu.
Os mais jovens não se lembram já do que se passou nesse dia, mas eu explico. Valentes guerreiros comandados por um senhor que era casado com a Dona Luísa de Gusmão vieram para a rua e restabele­ceram o domínio português. A coisa, basicamente, aconteceu porque a Dona Luísa disse ao marido: “Ouça, mais vale ser rainha um dia do que duquesa toda a vida, tá a ver?” A frase é importante na celebração da independência de Espanha, uma vez que sendo Dona Luísa a instigar a independência nos esquecemos que ela própria era da casa de Medina-Sidónia, a casa ducal mais importante de um país que tem a capital em Madrid. Assim sendo, Portugal deixou de ser comandado por um lacaio de Espanha e passou a ser comandado por um homem que fazia as vontades a uma espanhola. Há aqui - e fala a experiência de muitos anos ­toda uma diferença que não vou expli­car agora, por ser demasiado fastidiosa. Perguntarão os incautos: nesse caso, se isso foi assim tão simples, por que razão tanta gente ilustre, nomeadamente o dr. Ribeiro e Castro, se indigna e irrita com o facto de terem terminado com o feriado do 1º de dezembro (que calhan­do este ano a um sábado e para o ano a um domingo, só mesmo em 2014 nos fará falta)? Porquê tanta conversa à volta de uma espanhola substituir um lacaio de Espanha?
Ah! Meus caros! Quanta ignorância! É que no dia 1º de dezembro defenestrou­-se (no sentido em que se atirou pela janela) Miguel de Vasconcelos. E eu penso que a verdadeira tradição do dia está em defenestrar um tipo poderoso, com influência no governo do país e que se chame Miguel.
Durante anos, esperámos pacientemente o D. Sebastião do nevoeiro e um traidor de nome Miguel para voltarmos à tradição de o atirar janela abaixo. E a mim ninguém me convence que foi, por agora o termos à mão, que termina­ram com este feriado. Mas eu daqui exorto: Mantenhamos a tradição, defenestremos o Miguel! Vá avante, portugueses!
 
PS.: Miguel Relvas é alvo de uma campanha infame na qual colaboro, com gosto, na medida das minhas possibilidades.

terça-feira, dezembro 04, 2012

há gente que não quer ver

Há gente que não quer ver. Exactamente aquela que foi mandatada para o fazer. Tão tristemente cega que não vê, por si, nem através dos outros. Mas a sua grande cegueira é orientada e selectiva. Não querem ver apenas o que todos os outros vêem. Só vêem e ouvem a voz dos tubarões e poderosos. Uns zeros absolutos, servis e incapazes. O contrário deste magnífico conjunto que aqui vos deixo em vídeo que merece um vinte, mas prefere chamr-se um zero azul. Não esqueçam este nome e não os esqueçam.

 

o valor do dinheiro

Depois de uma série de postes tristes e dolorosos, deixo aqui um vídeo que, de uma forma rápida e divertida, nos moastra o valor real do dinheiro. Dá para rir, mas sobretudo, para pensar.