terça-feira, setembro 18, 2012

baaaaaasta

 
Na página Cartas Abertas da Revista do Expresso de 15 de Setembro de 2012, o Comendador Marques de Correia publicava mais uma das suas viperinas cartas, embrulhada como sempre no melhor humor negro que se pratica em Portugal. Em complemento da inesquecível, desejada e esperada manifestação colectiva deste Portugal abusado e desrespeitado por quem se julga poder, publico esta última carta do Comendador em que ele próprio assume que -

«numa comovedora peça,apoia a política do primeiro-mi­nistro, sem corar nem nada»
 
«A MINHA PRIMEIRA RAZÃO para apoiar o dr. Passos Coelho é que as coisas podiam ser piores. Por exemplo: - Ele podia ser agente da peste bubóni­ca ou doutra praga qualquer; - Ele podia ter decretado a morte de todas as pessoas com 55 anos ou mais; - Ele podia ter decidido que os funcioná­rios públicos tinham de se chamar Ar­mindo ou Epifânia para poderem conti­nuar a receber, pelo menos, um salário por ano; - Ele podia ter obrigado os homens com rendimentos superiores a 1000 euros a casarem com a Dona Teresa Guilherme; - Ele podia ter decretado que as senho­ras solteiras, viúvas ou divorciadas não tinham direito à Segurança Social, a menos que casassem com um homem indicado pelo dr. Relvas, ou por alguém com equivalência a dr. Relvas; - Ele podia ter estatuído que apenas o Real Massamá podia ganhar jogos de futebol e que as telenovelas da SIC e da 1VI acabavam sem se conhecer o final; Enfim, ele podia muita coisa e, compara­do com o que acabo de descrever, a única coisa que fez foi cortar-nos 7% do rendimento. Ora isto, comparado com a peste negra, com o extermínio, com o fim das telenovelas, com a impossibilida­de de Benfica, Porto, Sporting ou mesmo o Braga ganharem o campeonato e outras malvadezas assim, nem parece muito. É, basicamente, por estes motivos que eu digo que podia ser pior e que devemos apoiar o dr. Passos Coelho. Há, ainda, outro motivo para não o contrariar e que todos conhecemos. Tem a ver com o tipo de pessoas que nunca se devem contrariar. porque isso é - digamos - contraprodu­cente. A propósito de contrapro- ducente: apesar de estar convencido de que a medida que o Governo tomou é contraproducente, penso que será ainda mais contraprodu­cente argumentar com o facto de ela ser contraprodu­cente. A gente deve é, pelo contrário, incentivar o dr. Passos Coelho a ir mais longe. Tipo como se fazia dantes em Alcântara: - É só isto? Ganda maricas! Vê lá se consegues cortar, assim tipo 12%? Ou outras coisas, como: - Na Segurança Social, minha ganda menina No lRS é que era de homem e nas grandes fortunas dar-lhe uns 400 por cento de imposto que é para eles terem de pagar se quiserem ser ricos! Ao contrário, os nossos políticos, como lhes falta imaginação vêm todos dizer a mesma coisa: que isto é uma tragédia e que o país assim acaba, como se o país não acabasse de qualquer maneira, sendo apenas uma questão de mais ou menos mil anos, o que não é nada na escala cósmica. Na verdade, ser apaga­do do mapa por Passos Coelho ou por mn meteortto não faz.grande diferen .. ça Talvez com o meteorito doa me- nos, mas tirando isso o resultado é igual. É também com base neste pensamento elevado (até porque é de cima que vêm os meteoritos e os impostos), acho que devíamos incentivar o dr. Passos Coelho a ir mais longe. -A Espanha? - Não, mais longe! -A França? - Ainda mais longe! -À Rússia? - Mais longe, mais longe! -À China? - Não estás a perceber, é mais longe! -A Marte! - Ora aí está! O dr. Passos Coelho devía ir a Marte porque além de poder haver marcianos dispostos a pagar taxas sub­venções e impostos, o que ajuda, as viagens educam a juventude e nós acha­mos que ele merecia ir, digamos, arejar as ideias, para que quando voltasse não levasse o país tão a sério e desistisse, por fim, de salvá-lo. Porque nós, os tugas, não queremos ser salvos! Acreditamos que a intenção do primeiro-ministro seja endireitar o país e pô-lo nos eixos. Apoiamo-lo nisso e desejamos o melhor para ele, queremos que ele vá mais longe e isso tudo. Mas, mal agradecidos, como de costume, preferíamos que o Governo nos deixasse com os 7% no bolso. Pode ser?» 

domingo, setembro 16, 2012

o funeral de portugal

Sem palavras. Em Guimarães, Capital da Cultura e Berço de Portugal. Representação ou realidade? A realidade é que ontem o povo voltou finalmente à rua, para dizer BASTA.
 
 

terça-feira, setembro 11, 2012

em nome da equidade


Acabou de me chegar às mãos esta magnífica Carta Aberta ao Primeiro Ministro, escrita e endereçada ontem por uma figura notável da cultura portuguesa. Deixo uma pequena nota biográfica para aqueles menos ligados à cultura. Mas o que interessa, realmente, é a leitura da carta, especialmente pelo leitor a quem vai dirigida. Espero que saiba ler.
 

Eugénio Lisboa
O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural.

Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.


CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito  —  todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar“as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot):“Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intituladoThe Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos.Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados.Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes  termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio.Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.


De V. Exa., atentamente,

Eugénio Lisboa
Etiquetas: Austeridade, Carta-aberta ao PM

terça-feira, setembro 04, 2012

um grito que se quer ecooooo...

Cada vez o mundo está pior, desgraçadamente virado do avesso. São muitos - os seus habitantes, os seus políticos - que sabem ou parecem saber qual o caminho para sairmos deste buraco distorcido em que vivemos as nossas vidas. No entanto, são poucos os gritos que se ouvem e apelam ao bom senso e à luta certa, no local certo, contra o verdadeiro inimigo e não contra o seu virtual espantalho. Este pequeno discurso proferido na conferência Rio mais 20 pelo Presidente do Uruguai é de uma enorme sensatez e seriedade. Merece ser escutado. É um grito bom, salvador.

 

sábado, setembro 01, 2012

um tiro global


Publicado recentemente no prestigiado diário espanhol El Pais, este texto intitulado «Um canhão pelo cu», da autoria de Juan José Millas, tem-se tornado adoptado por inteiro por todos aqueles que percebendo o que aqui se escreve não eram capazes de o verbalizar ou escrever. Merece a vossa leitura e meditação.
Um canhão pelo cú

Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

Juan José Millas

quinta-feira, agosto 02, 2012

uma pérola dos anos 50 em beat

Encontrei hoje esta pérola do Bucha e do Estica acrescida de efeitos 'caleidoscópicos' dos musicais da época, magnificamente transformada em 'beat electro house music', pelo DJ OGB. Reparem quando ele aproveita um antigo His Master Voice à boa técnica dos DJ. Fica aqui por ser uma outra forma de ver o passado.

sábado, julho 21, 2012

ó relvas, ó relvas...

Ao contrário de Espanha nós reagimos de maneira mais suave, desvalorizando a verdadeira importância da má governação, da subserviência perante a troika de quem devia governar e limitamo-nos a converter a nossa raiva em factos vividos por quem não tem importância nenhuma, a quem se não reconhece qualquer valor ou mérito e fazendo com que alguns fait divers de que é protagonista nos façam rir em vez de chorar de raiva por existirem tipos assim. Mas este riso é também desprezo.

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a fúria espanhola

Cada povo tem a sua própria alma, o seu temperamento próprio, mesmo quando a nação se compõe de várias regiões diferentes em si, mas com um cimento agregador que as leva a reagir em comum quando o conjunto está em perigo, como é exemplo a nossa vizinha Espanha. Quando a picam, reage. Deixo-vos aqui um vídeo e uma canção da autoria de Diego Escusol que no curto espaço de 2 ou 3 dias já tinha sido visto e ouvido por mais de 250.000 pessoas no Youtube e que é o sentir dos desempregados espanhóis e de todos os funcionários públicos a quem o governo de Mariano Rajoy resolveu cortar os 13.º e 14.º meses. Como mote para a canção a infeliz frase da deputada Andrea Fabra - que se jodan... Em resposta a canção diz - «Que se jodan los ministros, que no dicen ni palabra, y si soy parado digo que se joda Andrea Fabra».

 

quarta-feira, julho 04, 2012

a importâcia do hífen

Está longe de ser das melhores conversas TED. Mas, a ideia é interessante, o discurso inteligente e divertido, bem interiorizado e apresentado e ajudará muitos a pensarem sobre a importância do hífen. Penso que gostarão que eu aqui deixe o registo.

terça-feira, julho 03, 2012

para os incrédulos do ballet moderno

Apesar de há já muito tempo o ballet moderno ter ocupado o lugar do clássico na maioria das academias de ballet e dos grandes palcos onde se pode ver, não deixa de ser verdade que uma grande fatia dos apreciadores se mantém fiel ao clássico. Pessoalmente, penso que há lugar para os dois, desde que haja grande exigência na sua execução. Penso que não há mais razão para se dizer, como um amigo meu que recusa o moderno, que este não é mais do que ginástica sueca aplicada à música ... Falso, absolutamente falso. A beleza está sempre onde existe, seja num ou noutro lugar. Vejam este magnífico vídeo e decidam, de vez.


 

magnífico planeta, o nosso

Aqui não há lugar para as palavras, porque estas são mesmo escusadas. Está tudo à vista e com alta qualidade. Vejam e aproveitem. E poupem no tranquilizante ...

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quarta-feira, junho 20, 2012

um desafio único

Só os Monty Python se lembravam disto. Humor do melhor, sobretudo a descoberta da palavra Eureka... É fantástica a composição das duas equipas, onde só alinham os melhoes. Felizes estas duas equipas que tiveram filósofos destes. Como seria a do nosso país onde até as bases da filosofia desapareceram do ensino?

terça-feira, junho 19, 2012

quando a dança é um colírio

Rever Maya Plitseskaya é mais do que um colírio para os nossos olhos turvados e deprimidos pelas imagens tristes de nossas actuais vidas, em que a beleza, a verdade e o bem perderam o seu lugar, ocupado que foi pelas imagens deprimentes e agressivas da actualidade nacional e estrangeira. Experimentem e verifiquem como estes poucos minutos deste Prelude de Bach tão magistralmente dançado nos reconforta e deixa em paz e bem estar. Por quanto tempo? Não sei.

terça-feira, junho 12, 2012

um aviso alemão

Em Março passado o Dr. Matthias Rath, médico alemão, investigador nas áreas da oncologia e da cardiologia  e presidente da Fundação Rath (sem fins lucrativos), proferiu em Berlim a magnífica palestra que aqui vos deixo e que necessariamente nos põe a pensar sobre aquilo que uns já sabem e outros calculam e o Dr. Rath aqui denuncia claramente e como um alerta a todos aqueles que nos encontramos apanhados nas teias de interesses que comandam o mundo e que se estão marimbando para todos nós salvo no que respeita à nossa pretendida exploração.


 

segunda-feira, junho 11, 2012

um discurso notável e sábio

Um discurso notável de Sampaio da Nóvoa que merece toda a divulgação e toda a atenção. Talvez o melhor discurso proferido na celebração de um 10 de Junho. A Universidade sai honrada e todos nós mais ricos.
Para que esta bela peça surta efeito é preciso que todos nós não esqueçamos estas sábias palavra e procedamos de acordo com elas. Também aqui as palavras e a voz de José Afonso nos podem ser referência. Depois de lerem este discurso, escutem mais uma vez - Vampiros, Eunucos e Epígrafe para a arte de furtar.

«Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa Lisboa, 10 de junho de 2012 As palavras não mudam a realidade. Mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência. E a consciência, essa sim, pode mudar a realidade. As minhas primeiras palavras são, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem. É neles que penso neste 10 de Junho. A regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos. Penso nos outros, logo existo (José Gomes Ferreira). É o compromisso com os outros, com o bem de todos, que nos torna humanos. Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, agora, sem as redes das sociedades tradicionais. Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. Façamos um armistício connosco, e com o país. Mas não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também. Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade. E nestes estranhos dias, duros e difíceis, podemos prescindir de tudo, mas não podemos prescindir nem da Liberdade nem do Futuro. O futuro, Minhas Senhoras e Meus Senhores, está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento. Há a liberdade de falar e há a liberdade de viver, mas esta só existe quando se dá às pessoas a sua irreversível dignidade social (Miguel Torga). Gostaria de recordar o célebre discurso de Franklin D. Roosevelt, proferido num tempo ainda mais difícil do que o nosso, em 1941. A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. Numa situação de guerra, Roosevelt sabia que os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. Em mar de águas revoltas, é preciso manter o rumo, ter a sabedoria de separar o acessório do fundamental. A Europa não é uma opção, é a nossa condição. Uma Europa com uma nova divisa: liberdade, diversidade, solidariedade. A Europa é o nosso futuro, mas não nos iludamos. Ou nos salvamos a nós, ou ninguém nos salva (Manuel Laranjeira). Falemos, pois, de Portugal e dos portugueses. Pelo Tejo fomos para o mundo… mas quantas vezes estivemos ausentes dentro de nós? Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos (Teixeira de Pascoaes). A Terra ou o Mar? Portugal ou o Mundo? A pergunta foi feita por todos aqueles que pensaram Portugal. No final do século XIX, um homem da Geração de 70, Alberto Sampaio, explica que as nossas faculdades se atrofiaram para tudo que não fosse viajar e mercadejar. Nunca nos preocupámos com a agricultura, nem com a indústria, nem com a ciência, nem com as belas-artes. As riquezas que fomos tendo “mal aportavam, escoavam-se rapidamente, porque faltava uma indústria que as fixasse”, e o património da comunidade, esse, “em vez de enriquecer, empobrecia”. Nos momentos de prosperidade não tratámos das duas questões fundamentais: o trabalho e o ensino. Nos momentos de crise é tarde: fundas economias na administração aumentariam os desempregados, e para a reorganização do trabalho falta o capital; falta o tempo, porque a fome bate à porta do pobre. Então a emigração é o único expediente: silenciosa e resignadamente cada um vai partindo, sem talvez uma palavra de amargura. Este texto foi escrito há 120 anos. O meu discurso poderia acabar aqui. Em silêncio. Senhor Presidente da República, Minhas Senhoras e Meus Senhores, É esta fragilidade endémica que devemos superar. O heroísmo a que somos chamados é, hoje, o heroísmo das coisas básicas e simples – oportunidades, emprego, segurança, liberdade. O heroísmo de um país normal, assente no trabalho e no ensino. Parece pouco, mas é muito, o muito que nos tem faltado ao longo da história. Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. Estão a surgir, é certo, sinais de uma capacidade de adaptação e de resposta, de baixo para cima. Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história. Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si. Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo, se formos ninguém em nós. Não é por sermos um país pequeno que devem ser pequenas as nossas ambições. O tamanho não conta; o que conta, e muito, é o conhecimento e a ciência. Senhor Presidente de República, O convite de V. Ex.ª, que muito agradeço, é um gesto de reconhecimento das universidades e do seu papel no futuro de Portugal. Em Lisboa, na célebre Conferência do Casino (1871), Antero disse o essencial: A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos. Antero tinha razão e o século XX ainda mais razão lhe veio dar. O drama de Portugal, do nosso atraso e da nossa dependência, tem sido sempre o afastamento de sociedades que evoluíram graças ao conhecimento e à ciência. Nas últimas décadas, realizámos um esforço notável no campo da educação (da escola pública), das universidades e da ciência. Pela primeira vez na nossa história, começamos a ter a base necessária para um novo modelo de desenvolvimento, para um novo modelo de organização da sociedade. É uma base necessária, mas não é ainda uma base suficiente. Existe conhecimento. Existe ciência. Existe tecnologia. Mas não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego. É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento. Insisto. Apesar de todos os contratempos, Portugal tem hoje uma capacidade instalada, nas universidades e na ciência, que nos permite sair de uma posição menor, periférica, e superar o fosso tecnológico que se cavou entre nós e a Europa. Não temos tempo para hesitações. As universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede. É por aqui que passa o nosso futuro, pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas. É por aqui que passa o nosso futuro, um outro futuro para Portugal. Minhas Senhoras e Meus Senhores, Também Lisboa se está a transformar graças à criação, à energia da cultura e da ciência, graças aos estudantes que aqui chegam de todas as partes do mundo. Lisboa é dos poetas. Em abril, a poesia esteve na rua e fez-nos emergir da noite e do silêncio. A poesia volta sempre à rua, através desta língua que é a nossa mátria, desta língua que nos permite estar connosco e com os outros, nas comunidades que nos multiplicaram pelo mundo e nos países que são parte de nós. 25 anos depois, não esqueço José Afonso: Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém, cantai também. Cantemos todos. Por um país solidário. Por um país que assegura o direito às coisas básicas e simples. Por um país que se transforma a partir do conhecimento. Não podemos ser ingénuos. Mas denunciar as ingenuidades não significa pôr de lado as ilusões, não significa renunciar à busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo (Sophia). Foi esta busca que me trouxe ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas».

sexta-feira, junho 08, 2012

mozart group

O Mozart Group iniciou-se em 1995 quando quatro prestigiados músicos polacos com formação superior nos Conservatórios de  música de Varsóvia e Lódz, resolveram dessacralizar a música erudita e transformar a sua execução clássica num misto de prazer melódico e de humor, provando com mestria que a inteligência e imaginação criativa se podem associar bem ao génio criativo musical. Desde aí têm conquistado o mundo com a sua alta qualidade musical e inteligência criativa e são já muitos os prémios conquistados. Actuando normalmente como quarteto, já se associaram por vezes a outros artistas como Bobby McFerrin.
Portugal vai ter a oportunidade de os ver actuar no Centro Cultural de Belém no final deste mês, podendo então aplaudir com entusiasmo Filip Jaślar (primeiro violino), Michał Sikorski (segundo violino), Paweł Kowaluk (viola) e Bolek Błaszczyk (violoncelo). Que não vos doam as mãos de aplaudir quem merece.


quinta-feira, maio 31, 2012

a precisão no seu limite

A exibição pode ser antiga (2008), mas a excepcional qualidade não é afectada pela data. Aquilo que é feito de forma perfeita e quase impossível é intemporal. Por isso vos deixo aqui a exibição da ginasta russa Boyanka Angelova, no Campeonato Europeu de ginástica em Turim.

terça-feira, maio 29, 2012

uma sucursal do mestre andré

Uma outra loja do Mestre André. Que possa despertar-vos um sorriso.



porque não em supositórios?

Tristezas não pagam dívidas, diz o povo. Ou dizia. Agora cada vez é mais difícil ver-se um sorriso na cara dos portugueses, mas continuam a ver-se aqueles arremedos de sorrisos de escárnio na cara dos pouco contentinhos que continuam a engordar à nossa custa. Nunca é de mais ouvir-se o popular Quim Barreiros fazer a crítica dos impopulares barões do dinheiro e da política. Se já ouviram, repitam.

sábado, maio 26, 2012

chicha, eu quero chicha

O estado a que se chegou. Já nem a Playboy é o que era e aparece agora com informação enganosa. Mantém o título, mas depois não publica o que promete. Eu não sou leitor, nem nunca o fui, mas acredito em quem o diz e vocês podem ouvir, de imediato. Deixo-vos com Ricardo Araújo Pereira, com selo de garantia. Riam à vontade.


quinta-feira, maio 10, 2012

o mar português



Nada como o humor inteligente e mordaz para fazer uma boa crítica e envergonhar quem a recebe. Uma só frase desfaz uma política errada e criminosa. Leiam e reflitam.

Da crónica de João Quadros no Negócio On-Line: "Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses." Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco. Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico. Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti? Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc. Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano. Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras? fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar. Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl. Eu, às vezes penso: o que não poupávamos se Portugal tivesse mar...

há histórias e histórias

Não percam esta joia da cultura nordestina brasileira. Vê-se a imagem e ouve-se a música e as palavras e parece que ambas nos atravessam a pele e a alma.

quarta-feira, maio 02, 2012

os donos de portugal

Vejam com atenção este belíssimo ensaio da responsabilidade do departamento de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. É um vídeo longo que merece a atenção de todos e nos dá um retrato fidedigno do último século português

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terça-feira, maio 01, 2012

recordação de um português

Lembrá-lo assim, é uma homenagem de que ele gostaria. Perdemos um português bom, honesto e patriota.


sexta-feira, abril 27, 2012

os políticos são pessoas como os outros...

Os políticos são uns senhores, mesmo uns senhores. Respeitáveis, bem comportados e exemplarmente cumpridores. Em todo o lado onde existem, sem excepções. Dá gosto, sabê-los assim. Podemos confiar neles?

terça-feira, abril 24, 2012

paisagem de interior

Um colega brasileiro e amigo enviou-me hoje um vídeo que não posso deixar de levar até vós como amostra da cultura nordestina. Admiro imenso os poetas repentistas e os romances de cordel que, felizmente, já são objecto de magníficas teses de doutoramento. As imagens a voz, a música, as palavras, levam-nos ao interior nordeste do Brasil e daquelas gentes que se orgulham da sua cultura e sabem mais da História de Portugal que muitos portugueses.

segunda-feira, abril 23, 2012

um bailinho que dói

Quando se ouve este bailinho somos tão fortemente tomados pela emoção que quase nos pomos em sentido como se escutássemos o novo hino nacional do actual governo. Como dói este humor, de tão negro que se tornou. Mas, tenhamos esperança. Isto vai mudar. O povo sempre encontrou em toda a nossa história uma forma de sobreviver.

sábado, abril 21, 2012

voa, voa, mas não morde

Em todas as profissões o desenvolvimento técnico é absolutamente necessário, mas na maioria delas não deixa de ser essencial e muitas vezes fundamental, a emoção e o sentimento que se põe no desempenho dessa actividade. No caso da música, nem sempre a técnica é mais importante que o sentimento, embora haja peças musicais que, de tão difícil técnica, se tornam quase impossíveis de tocar por quem não tenha um domínio técnico imbatível. Entre essas peças encontra-se «O voo do moscardo» que muitos violinistas conseguem tocar, mas poucos pianistas conseguem. O vídeo que vos deixo é um exemplo de uma técnica excepcional acrescida de uma emoção sentida.

quinta-feira, abril 19, 2012

não estudem...

O acaso determinou que hoje seja dia de vos deixar aqui mais um drama. Mas, desta vez, um outro drama que, de tão triste, seguramente vos fará rir. A política no seu melhor.

já teve o seu drama hoje?

Habituados que estamos às desgraças com que a comunicação social nos invade todos os dias ou a cada instante, não vos espantará que eu aqui vos deixe mais uma, sendo certo que dificilmente ela vos terá chegado por outra via que não esta. É mais um drama, mas garanto que é diferente. E apesar de drama, quase aposto que vão gostar de ver.

sábado, abril 14, 2012

quatro vozes para escutar

Cada vez mais nos sentimos incapazes de formular as verdades que todos precisamos e devemos ouvir; depois meditar e não deixar de reagir. Algumas verdades vão sendo ditas, mas é tal o descrédito em que os responsáveis actuais caíram, que se torna necessário contrapôr algumas vozes antigas, que fazem parte integrante da nossa história. Não demoram muito a ler, demoram ainda menos a aceitar. Deixemos que sedimentem. E não nos calemos, nunca.




sexta-feira, abril 13, 2012

um momento de beleza

É fundamental que no meio de toda esta crise, de toda esta loucura político económica que avassala o mundo, tenhamos de vez em quando momentos de beleza e emoção que nos prendam e emocionem. A verdade, a beleza e o bem. Tudo aquilo porque se devia lutar e manter; infelizmente cada vez são mais raras e defíceis de encontrar. Vejam em ecrã total este curto momento de beleza, perfeição e sensualidade.

terça-feira, abril 10, 2012

pelo menos, humildade


No jornal Expresso do passado dia 6 e na sua página, Miguel Sousa Tavares escreveu o texto que intitulou «À espera do milagre», onde no seu estilo habitual, fez uma análise certeira da governação que tem conduzido estes tristes e preocupantes dias que vivemos e aconselhava claramente a estes iluminados e esclarecidos célebres que tinha chegado a hora de terem, ou pelo menos mostrarem, alguma humildade, por pouca que seja, já que tal qualidade será atributo difícil de entender e, muito menos, assumir por parte de tão esclarecida gente. O texto tem qualidade, as verdades são como punhos, e ninguém pode ficar isento de pensar quanto mais tempo irá aguentar este retrocesso de qualidade de vida, de liberdade, de direitos e desigualdades. E milagres não há, pelo que não vale a pena esperar que cheguem. Como em tudo, o caminho faz-se caminhando...
«À espera do milagre»

«Parece ser chegado o momento de o Governo começar a dar alguns sinais de humildade e reconhecer que a sua receita para sair da crise não está a correr conforme previsto. Dialogar sem preconceitos com a oposição (e dialogar não é apenas ouvir e fazer orelhas moucas), explicar o que ninguém entende e corrigir o que está mal, tudo isso é bem mais inlportante do que a teimosia de tentar demonstrar a justeza de uma agenda ideológica com que alguns teóricos da economia e da política sonharam anos a fio.
O Governo louva-se de três boas notícias: a descida dos juros nos mercados da dívida, a descida acentuada do défice da balança de transacções e os sucessivos aplausos da troika à execução do programa. Tudo argumentos reversíveis. A descida dos juros é impossível não a ligar directamente à maciça disponibilidade de dinheiro fornecido aos bancos a 1% de juros, promovida pelo BCE. O saldo positivo da balança de transacções (que em si é uma boa notícia) dá-se, todavia, pelas piores razões: uma baixa indiscriminada das importações, quer as desnecessárias ou sumptuárias quer as necessárias para estimular o consumo interno, essencial à recuperação ou para manter a importação de bens e equipamento para as empresas funcionarem. E as boas avaliações da troika sobre o cumprimento do programa de ajustamento não escondem duas ordens de preocupações: o atraso de algumas medidas estruturais (as mais difíceis), como o peso excessivo dos lucros do sector eléctrico sobre a economia ou a renegociação das PPP, e os números assustadores do desemprego e da recessão, muito para lá daquilo que o Governo e a troika tinham estimado.
Mas, no outro prato da balança, há sinais cada vez mais evidentes de que a cura ameaça matar o doente. Isso toma-se evidente quando se constata (e é confirmado pelo novo orçamento rectificativo), que em 2012, tal como em 2011, o grosso do combate ao défice é feito por via do aumento de receitas e não pela diminuição da despesa. Encerrado o combate eleitoral, passado o tempo da retórica fácil e das soluções milagrosas, a nova maioria, uma vez chegada ao poder e na hora de fazer aquilo que tanto apregoou, dá-se conta de uma incómoda realidade: a estrutura da despesa pública portuguesa é dificilmente movível. A verdade é que, tirando excessos evidentes (como o despesismo das autarquias, que o Governo não se atreverá a enfrentar, como já se percebeu), não há muito mais por onde cortar - a menos que o objectivo final seja a liquidação, pura e simples, do Estado, liquidando as suas principais funções. Chega a ser arrepiante recuperar o discurso do PSD e CDS há apenas um ano, na oposição, e confrontá-lo com o que tem sido agora o seu desempenho governativo. Medidas extraordinárias para maquilhar o défice, por exemplo, nunca mais; orçamentos rectificativos eram sinal de absoluta incompetência no controlo das contas públicas; confusão entre dinheiros públicos e negócios privados jamais. Agora, compare-se isto com a nacionalização do fundo de pensões da banca que serviu para 'cumprir' o défice de 2011, acrescentando €6000 milhões ao activo; com o novo orçamento rectificativo, que, entre outras coisas, serve para acrescentar os €500 milhões que custa anualmente (e durante uma boa dúzia de anos), pagar as pensões dos novos reformados da banca e de que, pelos vistos, se tinham esquecido; e compare-se com o negócio de reprivatização do BPN ou com a recente notícia do financiamento da OPA do grupo Mello sobre a Brisa, assumido pela CGD (que também assume o empréstimo de €600 milhões ao BPN 'privátizado' e depois vai pedir ao 'accionista' - isto é, aos contribuintes que lhe 'empreste' por sua vez €1500 milhões para aumentar o capital, desfalcado por tanta genetosidade com estas pequenas e médias empresas).
Manifestamente, as convicções ideológicas do Governo não coincidem com a realidade encontrada. E o Governo reage como os corónéis das ditaduras sul-americanas: "mude-se a realidade!" Se o défice não se consegue baixar ao ritmo que se acreditava possível por via dos cortes na despesa pública, vai-se sangrando a economia. Com certeza, repito, que há muitos excessos por onde cortar, muito despesismo público injustificável, muitos e muitos abusos a que tem de se pôr termo. Infelizmente, porém, tudo somado não chega para compensar sequer aquilo que verdadeiramente é ruinoso para o Estado: a expropriação do 13º e 14º mês dos funcionários públicos, por exemplo, traduz-se numa receita equivalente ao custo de 'privatizar' o BPN a favor de Américo Amorim e Isabel dos Santos - e ninguém consegue explicar porque não encerraram o banco, simplesmente (sim, eu li a entrevista da secretária de Estado do Tesouro, aqui no Expresso: fiquei exactamente na mesma). Depois, há cortes na despesa pública que são intoleráveis do ponto de vista social, como pagar subsídio de desemprego apenas a metade dos desempregados e tratá-los como se fossem todos culpados ou suspeitos de viverem, por vontade própria, na tal "zona de conforto" de que falava aquele infeliz membro do Governo.
A tentativa de fazer coincidir a realidade com a utopia, através de uma cega aritmética, está a ser feita à custa da destruição do tecido económico decisivo do país, que são as pequenas e médias empresas, os trabalhadores por conta própria, a economia de proximidade. As grandes empresas e os grandes grupos económicos, quando já não tiveram mais contratos públicos para disputar nem mais favores a esperar, vão-se embora e, de qualquer maneira, pagam impostos onde mais lhes convém. Mas o resto, não. A diminuição da receita fiscal, que já se verifica, não é, ao contrário do que pretende acreditar o Governo, apenas um fenómeno conjuntural: a receita vai continuar a cair, na justa medida em que a economia vai continuar a retrair-se e a fuga fiscal se irá acentuar, quando, depois de tão esticada a corda, só restar a escolha entre pagar ou sobreviver.
Porém, sentindo o bafo gelado do fiasco, o Governo vai fugir em frente, num caminho já sem qualquer racionalidade nem sentido útil. Resulta do orçamento rectificativo, que restam ao Governo €18 milhões (!) de folga orçamental para este ano. Mesmo que o petróleo não suba mais, que a recessão na Europa e em Espanha não se acentue, que as exportações não continuem em queda, não há milagre que nos salve. As contas foram mal feitas, os dossiês mal estudados, a estratégia mal escolhida. Mas o Governo vai prosseguir no mesmo caminho, porque, antes de mais, o que eles nunca reconhecerão é que as suas ideias estão erradas: só funcionam em laboratórios onde se cozinham os MBA.
Presumivelmente, o Governo irá assim tornar definitivo o que era excepcional (como os cortes no 13.º e 14.º mês); irá aumentar a receita fiscal, subindo ainda mais os impostos; irá continuar todos os dias, ministro a ministro, nessa penosa e deprimente tarefa de anunciar novos cortes, com o entusiasmo de quem anuncia missão cumprida. Vai consumar o crime antipatriótico de privatizar a TAP (e, para mais, a preço de saldo), vai vender a água, os aeroportos, tudo o que mexer. E vai privatizar um canal da RTP, apenas porque o ministro Relvas quer e não tem de dar satisfações a ninguém, embora já toda a gente lhe tenha explicado que vai ser um desastre para todos.
VoIto ao princípio: começa a faltar um exercício de humildade, de que não se vêem sinais alguns no horizonte. No limite, até poderíamos acreditar que o Governo tivesse razão, ou parte da razão, em teoria. Mas nós não vivemos de teorias. Todos os dias há empresas que fecham, famílias que são mandadas para o desemprego, novos pobres encostados à parede. Os portugueses têm sido absolutamente estóicos a aguentar tudo. Mas só uma cegueira irresponsável permite imaginar que se pode levar as coisas até ao fundo do fundo e depois renascer, em paz e alegria».
 
 

domingo, abril 08, 2012

morrer de pé


No passado dia 4 de Abril, uma quarta-feira, Dimitris Christoulas, até aí conhecido de poucas pessoas e já aposentado, resolveu morrer de pé e fazendo o estrondo que a sua morte merecia - o grito de protesto, o disparar da bala e a carta deixada de despedida e testamento de uma vida em fim de vida que merecia mais do que os tempos que surpreenderam a sua reforma. É muito mau habituarmo-nos ao hábito: há que reagir e lutar até ao fim, nem que em alguns casos esse fim coincida com a morte. Mas, felizmente, há sempre alguém que diz não e, espera-se, que muitos reajam e não sejam insensíveis a estas mensagens. Fiquem com o poema que José Jorge Letria lhe dedicou.

MORRER DE PÉ NA PRAÇA SYNTAGMA


Quando se ouviu um tiro na Praça Syntagma,
logo houve quem dissesse: “É a polícia que ataca !”.
Mas não, Dimitris Christoulas trazia consigo a arma,
a carta de despedida, a dor sem nome, a bravura,
e vinha só, sem medo, ele que já vivera os tempos
de silêncio e chumbo do terror dos coronéis.
Mas nessa altura era jovem e tinha esperança.
Agora tudo isso findara, mas não a dignidade,
que essa, por não ter preço, não se rende nem desiste.

Dimitris Christoulas podia ser apenas um pai cansado,
um avô sem alento para sorrir, um irmão mais velho,
um vizinho tão cansado de sofrer. Mas era muito mais
do que isso. Era a personagem que faltava
a esta tragédia grega que nem Sófocles ou Édipo
se lembraram de escrever, por ser muito mais próxima
da vida do que da imaginação de quem efabula.
Ouviu-se o tiro, seco e certeiro, e tudo terminou ali
para começar logo no instante seguinte sob a forma
de revolta que não encontra nas bocas
as palavras certas para conquistar a rua.
Quando assim acontece, o silêncio derruba muralhas.
Aos jovens, que podiam ser seus filhos e netos,
o mártir da Praça Syntagma pediu apenas
para não se renderem, para não se limitarem
a ser unidades estatísticas na humilhação de uma pátria.
Não lhes pediu para imitarem o seu gesto,
mas sim que evitassem a sua trágica repetição.
E eles ouviram-no e choraram por ele, e com ele,
sabendo-o já a salvo da humilhação
de deambular pelas lixeiras para não morrer de fome.

Até os deuses, na sua olímpica distância,
se perfilaram de assombro ante a coragem deste gesto.
Até os deuses sentiram desprezo, maior do que é costume,
pela ignomínia de quem se vende
para tornar ainda maior a riqueza de quem manda.
A Dimitris bastou um só disparo, limpo e breve,
para resumir a fogo toda a razão que lhe ia na alma.
Estava livre. Tornara-se herói de tragédia
enquanto a Primavera namorava a bela Atenas,
deusa tantas vezes idolatrada e venerada.
Assim se despedia um homem de bem,
com a coragem moral de quem o destino não vence.

Quando o tiro ecoou na praça de todas as revoltas,
Dimitris Christoulas deixou voar uma pomba,
uma borboleta, uma gaivota triste do Pireu
e disse, com um aceno: “Eu continuo aqui,
de pé firme, porque nada detem a força de um homem
quando chega a hora de mostrar que tem razão”.
Depois vieram nuvens, flores e lágrimas,
súplicas, gritos e preces, e o mártir da Syntagma,
tão terreno e finito como qualquer homem com fome,
ergueu-se nos ares e abraçou a multidão com ternura.

José Jorge Letria

6 de Abril de 2012

quinta-feira, abril 05, 2012

a corrupção e o teatro do faz de conta

Paulo Morais, vice-presidente da Transparência e Integridade, a organização não governamental de luta contra a corrupção, acusa o Parlamento de ser uma das suas origens. Em declarações à SIC Noticias, Paulo Morais desmonta o sistema e mostra como o jogo está viciado. Ver e ouvir bastam para perceberem.

quarta-feira, abril 04, 2012

a contaminação sistémica

Sem palavras. Só imagens. Para os que ainda não perceberam-

sábado, março 31, 2012

fechar março com sibelius



Depois de um longo período afastado deste blog, por avaria técnica, retomo com gosto o ritmo arrítmico com que aqui tenho deixado alguns posts, hoje com um pequeno excerto ( o 3.º andamento) do belíssimo concerto para violino em D menor, opus 47, do filandês Jean Sibelius, escrito em 1903 quando tinha 38 anos. Esta gravação magistral conta com a qualidade do violinista Cho-Liang Lin, que bem conhece e domina a dificuldade técnica deste Alegro ma non tanto, uma das pérolas escritas para violino, em todos os tempos.

sábado, março 10, 2012

eu sei que tinha prometido

Eu sei que tinha prometido não voltar a falar de ou sobre o Senhor Prof. Cavaco Silva, doutorado por York. E sei também que não gosto de não cumprir as promessas que faço. Mas em tudo há exceções, sobretudo quando estas se justificam. É o caso. Algum tempo e alguns factos passados após a minha promessa, justificam que volte a deixar aqui à vossa consideração algumas coisas acontecidas recentemente . Porque são do conhecimento de todos, dispenso-me de as referir em pormenor e apenas enunciá-las, por economia de tempo e por ser sempre desagradável falar-se do que não nos é agradável. Refiro-me aos acontecimentos da António Arroio, ao envio para o TC das medidas sobre enriquecimento ilícito e das queixas de falta de lealdade institucional do ex-primeiro-ministro. Meditem sobre eles.
Como complemento deixo-vos com o texto de Baptista Bastos escrito há já algum tempo e que podem não ter lido.


«A pátria, estarrecida, assistiu, nos últimos dias, à declaração de pobreza do dr. Cavaco, e aos ecos dessa amarga e pungente confissão. O gáudio e o apoucamento, a crítica e a repulsa foram as tónicas dominantes das emoções.
Os blogues, aos milhares, encheram-se de inauditos gozos, e a Imprensa, grave e incomodada, não deixou de zurzir no pobre homem. Programas de entretenimento matinal, nas têvês, transformaram o coitado num lázaro irremissível. Até houve um peditório, para atenuar as suas preocupações de subsistência, com donativos entregues no Palácio de Belém.
Porém, se nos detivermos, por pouco que seja, no dr. Cavaco e na sua circunstância notaremos que ele sempre assim foi: um portuguesinho no Portugalinho.

Lembremo-nos desse cartaz hilariante, aposto em tudo o que era muro ou parede, e no qual ele aparecia, junto de um grupo de enérgicos colaboradores, sob o extraordinário estribilho: "Deixem-nos trabalhar!" Cavaco governava pela primeira vez e os publicitários colocaram-no e aos outros em mangas de camisa arregaçadas. Os humoristas de serviço rilharam os dentes, de gozo, mas a época não era propícia à ironia.
O País tornou-se numa espécie de imagem devolvida do primeiro-ministro: hirto, um espeque rígido, liso, um carreirinho de gente cabisbaixa. O respeitinho é muito lindo: essa marca d'água do salazarismo regressava para um país que perdera a noção do riso, se é que alguma vez o tivera.

Cavaco resulta desse anacronismo que fede a mofo e a servidão. É um sujeito de meia-tijela, inculto, ignorante das coisas mais rudimentares, iletrado e, como todos os iletrados, arrojado nas afirmações momentâneas. As suas "gaffes" fazem história no anedotário nacional. É um Américo Tomás tão despropositado, mas tão perigoso como o original.

Manhoso, soube aproveitar o momento vazio, no rescaldo de uma revolução que também acabou no vazio. Os rios de dinheiro provindos de Bruxelas, e perdulariamente gastos, durante
os infaustos anos dos seus mandatos, garantiram-lhe um lugar de aplauso nas consciências desprotegidas dos portugueses. Este apagamento da verdade está inscrito, infelizmente, numa Imprensa servida por estipendiados, cuja virtude era terem o cartão do partido. Ainda hoje essa endemia não foi extirpada. Repare-se que, fora alguns escassos casos isolados, ainda não foi feita a crítica aos anos de Cavaco e das suas trágicas consequências políticas, ideológicas, morais e sociais.

Há uma falta de coragem quase generalizada, creio que explicada pela teia reticular de cumplicidades, envolvendo poderes claros e ocultos. A mediocridade da personagem é cada vez mais evidente. E se, no desempenho das funções de primeiro-ministro, foi sustentado pela falsa aparência de el dourado, devido aos dinheiros da Europa, generosamente distribuídos por amigos e prosélitos, como Presidente da República é uma calamidade afrontosa.

Tornou o lugar desacreditante e desacreditado. Logo no primeiro dia da sua entrada no palácio de Belém, o ridículo até teve música. Um país espavorido assistiu, pelas televisões, sempre zelosas e apressuradas, àquela cena do dr. Cavaco, mãos dadas com toda a família, a subir a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, e ao interior do edifício.

Um palácio que não merecia recolher tal inquilino.
Mas ele é mesmo assim: um portuguesinho no Portugalinho, um inesperadamente afortunado algarvio, sem história nem grandeza, impelido para o seu peculiar paraíso. A imagem da subida da ladeira possui algo de ascensão ao Olimpo, com aquelas figuras muito felizes, impantes, formais, intermináveis. Mas há nisto um panteísmo marcadamente ingénuo e tolo, muito colado a certa maneira de ser portuguesinho e pobrezinho: tudo em inho, pequenininho, redondinho.
Cavaco nunca deixou de ser o que era. Até no sotaque que não perdeu e o leva a falar num idioma desajeitado; no inábil que é; no piroso corte de cabelo à Cary Grant; no embaraço que sente quando colocado junto de multidões ou de pessoas que ele entende serem-lhe "superiores."

Repito: ele não dispõe de um estofo de estadista, e muito menos da condição exigida a um Presidente da República. O discurso da sua pobreza resulta de todas essas anomalias de espírito.
Ele tem sido um malefício para o País. É ressentido, rancoroso, vingativo, possidónio e brunido de mente. Mas não posso deixar de sentir, por este pobre homem, uma profunda compaixão e uma excruciante piedade».

quinta-feira, março 08, 2012

parabéns, mulheres















Nem sempre tenho prestado homenagem às mulheres no seu dia comemorativo, não porque não concorde com o justo merecimento mas porque nem sempre se tem proporcionado a ocasião de aqui deixar o meu registo. Mas, sempre que pude aqui deixei a minha homenagem.
Hoje volto a fazê-lo e escolhi duas imagens da mulher - a lutadora e a feminina, sendo que não são inconciliáveis e cada vez mais incorporam a mulher comum. A todas, os meus parabéns e o meu obrigado por existirem.

sexta-feira, março 02, 2012

o louco do mergulho

Chegou hoje às minhas mãos um documento histórico filmado em 1951, com pouca qualidade técnica (a possível naquela época, a anos luz da actual), mas que mesmo sendo pior justificaria sempre que aqui o deixasse para vosso prazer e alegria, dada a qualidade do artista. Trata-se de uma representação de Larry Griswold de quem Charlie Chaplin dizia ser um grande artista e melhor do que ele. O filme foi registado num "Frank Sinatra Show", em Novembro de 1951. Laurens V. Griswold era conhecido pelo «louco do mergulho», fingindo estar alcoolizado e sem coordenação e executar alta e perfeita acrobacia. Vale a pena ver e rever.