terça-feira, dezembro 04, 2012

por isso, morro no exílio

 
Há textos que dispensam qualquer comentário. Este é um deles. Vale por si. Não serei eu que lhe retirarei a atenção devida. Parabéns, Eugénio Lisboa.
 
 
CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL Exmo. Senhor Primeiro Ministro Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe. Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal. Mas tenho, como disse, 82 anos, e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia. A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a faltadela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso. Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página. Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá. Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo. De V. Exa., atentamente, Eugénio Lisboa Ex-Director da Total, em Moçambique Ex-Director da SONAP MOC Ex-Administrador da SONAPMOC e da SONAREP Ex-Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres Prof. Catedrático Especial de Estudos Portugueses (Univ. Nottingham) Ex-Presidente da Comissão Nacional da UNESCO Prof. Catedrático Visitante da Univ. de Aveiro Doutor Honoris Causa pela Univ. de Nottingham Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro Medalha de Mérito Cultural (Câmara de Cascais)

quarta-feira, novembro 28, 2012

o menino que gaspar não conhece


 
No passado dia 21 de Novembro, Nicolau Santos publicou no Expresso um curto artigo que intitulou «O menino que Gaspar não conhece», que não posso deixar de aqui postar, dada a triste realidade que que descreve e a triste e desumana insensibilidade de que o governo dá provas irrefutáveis em cada um dos nossos tristes dias. Leiam. É bem escrito, como sempre, claro, real e demolidor.


«Supermercado do centro comercial das Amoreiras, fim da tarde de terça-feira. Uma jovem mãe, acompa-nhada do filho com seis anos, está a pagar algumas compras que fez: leite, manteiga, fiambre, detergentes e mais alguns produtos.

Quando chega ao fim, a empregada da caixa revela: são 84 euros. A mãe tem um sobressalto, olha para o dinheiro que traz na mão e diz: vou ter de deixar algumas coisas. Só tenho 70 euros.

Começa a pôr de lado vários produtos e vai perguntando à empregada da caixa se já chega. Não, ainda não. Ainda falta. Mais uma coisa. Outra. Ainda é preciso mais? É. Então este pacote de bolachas também fica.

Aí o menino agarra na manga do casaco da mãe e fala: Mamã, as bolachas não, as bolachas não. São as que eu levo para a escola. A mãe, meio envergonhada até porque a fila por trás dela começava a engrossar, responde: tem de ser, meu filho. E o menino de

lágrima no canto do olho a insistir: mamã, as bolachas não. As bolachas não.

O momento embaraçoso é quebrado pela senhora atrás da jovem mãe. Quanto são as bolachas, pergunta à empregada da caixa. Ponha na minha conta. O menino sorriu. Mas foi um sorriso muito envergonhado. A mãe agradeceu ainda mais envergonhada. A pobreza de quem nunca pensou que um dia ia ser pobre enche de vergonha e pudor os que a sofrem.

Tenho a certeza que o ministro Vítor Gaspar não conhece este menino, o que seria obviamente muito improvável. Mas desconfio que o ministro Vítor Gaspar não conhece nenhuns meninos que estejam a passar pela mesma situação. Ou se conhece considera que esse é o preço a pagar pela famoso ajustamento. É isso que é muito preocupante».


sobre números e pessoas


 
 
Chegou-me recentemente às mãos um artigo que o psiquiatra Pedro Afonso publicou  no Público, que merece maior difusão que pode ser feita nos imensos blogs que se publicam. Entendo que o tema merece reflexão profunda de todos nós e à qual os dirigentes (governantes?) não podem nem devem esquivar-se. Aqui o deixo à vossa consideração.
 
 
 
«Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença
psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência,urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos
dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade
de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas
sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.
Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e
produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual,
tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar
que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público.
Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando  já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente».

Pedro Afonso
Médico psiquiatra
 
 
 
 
 
 

sábado, novembro 24, 2012

quando nós falávamos alto

Há já longo tempo que não temos possibilidade de escrever sobre coisas positivas e boas, merecedoras de admiração e respeito. Não porque seja isso que nos apetece, mas simplesmente porque 'vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar', como bem escreveu Sophia.
Mas hoje quero deixar aqui um vídeo que nos traz um bafo de alma e nos dá alguma força para continuarmos. Só nos faz bem e nos ajuda a relembrar o nosso grandioso passado. Pena que quem nos julga hoje pequenos não se lembre do tamanho da alma portuguesa.


sobre finanças (e chimpanzés)

 
 
Na Visão de 22 de Novembro de 2012, Ricardo Araújo Pereira publicou na sua coluna Boca do Inferno, esta magnífica crónica que, como todas, merece divulgação.
Será que esta gente que nos desgoverna não para um segundo para pensar?
 
 
Notas sobre finanças (e chimpanzés)
 
Após alguma reflexão sobre o assunto, ocor­reu-me que talvez fosse importante que alguém apresentasse Vítor Gas­par a um ser humano. Podia ser um encontro discreto, a dois, só com um terceiro elemento que come­çasse por fazer as honras: «Vítor, é o ser humano. Ser humano, é o Vítor.» E depois ficavam a sós, a conviver um bocadinho.
Perspicaz como é, o ministro haveria de reparar que, entre o ser humano e um algarismo, há duas ou três diferenças. O ser humano comparece com pouca frequên­cia nas folhas de excel, ao contrário do algarismo. E o algarismo não passa fome nem morre, ao contrário do ser humano. É raro encontrarmos uma lápide, no cemitério, com a inscrição: «Aqui jaz o algarismo 7. Faleceu na sequência de um engano numa multiplicação. Paz à sua alma.» Mal o ministro tivesse percebido bem a diferença entre o ser humano e os números, poderia voltar às suas folhas de cálculo. Admito que se trata de uma experiência inédita, mas gostaria muito de a ver posta em prática.
Houve um tempo em que quem não soubesse de economia estava excluído da discussão política. Felizmente, esse tempo acabou. Os que percebem de eco­nomia são os primeiros a errar todos os cálculos, falhar todas as previsões, agravar os problemas que pretendiam resolver. As propostas de um leigo talvez sejam absurdas, irrealistas e inexequíveis. Não faz mal: as do ministro também são. Estamos todos em pé de igualdade.
A realidade não aprecia economistas. Se um chimpanzé fosse ministro das Finan­ças, talvez a dívida aumentasse, o desem­prego subisse e a recessão se agravasse. Ou seja, ninguém notava.
Como toda a gente, também tenho uma sugestão para reduzir a despesa. Propo­nho que Portugal venda uma auto-estrada para o Porto. Temos três, e não precisamos de todas. Há-de haver um país que esteja interessado numa auto-estrada para o Porto. Não há nenhuma auto-estrada para o Porto no Canadá, por exemplo. Nem na Noruega. (Eu confirmei estes dados.) São países ricos, aos quais uma auto-estrada para o Porto pode dar jeito. Fica a proposta. Não é a mais absurda que já vi. (...)
Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

segunda-feira, novembro 19, 2012

uma verdadeira praga bíblica

 
Sem comentários
 
Os fantasmas
Esta coisa de escrever crónicas “é um jogo permanente entre o estilo e a substância”. Uma luta entre “o deboche estilístico” do gozo da escrita e “a frieza analítica” do pensamento do cronista. Por isso, enquanto cidadão, só posso ver este governo como uma verdadeira praga bíblica que caiu sobre um povo que o não merecia. Mas, enquanto cronista, encaro-o como uma dádiva dos céus, um maná dos deuses, “um harém de metáforas”, uma verdadeira girândola de piruetas estilísticas. Tomemos como exemplo o ministro Gaspar. Licenciado e doutorado em Economia, fez parte da carreira em Bruxelas onde foi director do Departamento de Estudos do BCE. Por cá, passou pelo Banco de Portugal, foi chefe de gabinete de Miguel Beleza e colaborador de Braga de Macedo. É o actual ministro das Finanças. Pois bem. O cronista olha para este “talento” e que vê nele? Um retardado mental? Uma rábula com olheiras? Um pantomineiro idiota? Não me compete, enquanto cidadão, dar a resposta. Mas não posso deixar de referir a reacção ministerial à manifestação de 15 de Setembro que, repito, adjectivava os governantes onde se inclui o soporífero Gaspar, como “gatunos, mafiosos, carteiristas, chulos, chupistas, vigaristas, filhos da puta”. Pois bem. Gaspar afirmou na Assembleia da República que o povo português, este mesmo povo português que assim se referia ao seu governo, “revelou-se o melhor povo do mundo e o melhor activo de Portugal”! Assumpção autocrítica de alguém que também é capaz de, lucidamente, se entender, por exemplo, como um “chulo” do país? Incapacidade congénita de interpretar o designativo metafórico de “filhos da puta”? Não me parece. Parece-me sim um exercício de cinismo, sarcástico e obsceno, de quem se está simplesmente “a cagar” para o povo que protesta. A ser assim, julgo como perfeitamente adequado repetir aqui uma passagem de um texto em forma de requerimento “poético” de 1934. Assim: “A Nação confiou-lhe os seus destinos?... / Então, comprima, aperte os intestinos. / Se lhe escapar um traque, não se importe… / Quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte? / Quantos porão as suas esperanças / Num traque do ministro das Finanças?... / E quem viver aflito, sem recursos / Já não distingue os traques dos discursos.” Provavelmente o sr. ministro desconhecerá a história daquele gajo que era tão feio, tão feio, que os gases andavam sempre num vaivém constante para cima e para baixo, sem saber se sair pela boca se pelo ânus, dado que os dois orifícios esteticamente se confundiam. Pois bem. O sr. ministro é o primeiro, honra lhe seja concedida, que já confunde os traques com os discursos. Os seus. Desta vez, o traque saiu-­‐lhe pelo local de onde deveria ter saído o discurso! Ou seja e desculpar-me-ão a grosseria linguística, em vez de falar, “cagou-se”. Para o povo português. Lamentavelmente.
Outro exemplar destes políticos que fazem as delícias de um cronista é Cavaco Silva. Cavaco está politicamente senil. Soletra umas solenidades de circunstância, meia-dúzia de banalidades e, limitado intelectualmente como é, permanece “amarrado à âncora da sua ignorância”. Só neste contexto se compreende o espanto expresso publicamente com “o sorriso das vacas”, as lamúrias por uma reforma insuficiente de 10 mil euros mensais, a constante repetição do “estou muito preocupado” e outros lugares-­comuns que fazem deste parolo de Boliqueime uma fotocópia histórica de Américo Tomás, o almirante de Salazar. Já o escrevi aqui várias vezes. Na cabeça de Cavaco reina um vácuo absoluto. Pelo que, quando fala, balbucia algumas baboseiras lapalicianas reveladoras de quem não pode falar do mundo complexo em que vivemos com a inteligência de um homem de Estado. Simplesmente porque não a tem. Cavaco é uma irrelevância de quem nada há a esperar, a não ser afirmações como a recentemente proferida aquando das comemorações do 5 de Outubro de que “o futuro são os jovens deste país”! Pudera! Cavaco não surpreenderia ninguém se subscrevesse por exemplo a afirmação do Tomás ao referir-se à promulgação de um qualquer despacho número cem dizendo que lhe fora dado esse número “não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores…” Tal e qual. Termino esta crónica socorrendo-me da adaptação feliz de um aforismo do comendador Marques de Correia e que diz assim: “Faz de Gaspar um novo Salazar, faz de Cavaco um novo Tomás e canta ó tempo volta para trás”. É que só falta mesmo isso. Que o tempo volte para trás. Porque Salazar e Tomás já os temos por cá. P.S.: Permitam-me a assumpção da mea culpa. Critiquei aqui violentamente José Sócrates. Mantenho o que disse. Mas hoje, comparando-o com esse garotelho sem qualquer arcaboiço para governar chamado Passos Coelho, reconheço que é como comparar merda com pudim. Para Sócrates, obviamente, a metáfora do pudim. Sinceramente, nunca pensei ter de escrever isto.
 
Luís Manuel Cunha, Professor, In “Jornal de Barcelos” de 10.10.2012

se a evolução for esta


segunda-feira, outubro 29, 2012

a análise do filósofo

 
Na Visão desta semana, José Gil, publicou na sua habitual coluna este magnífico texto que intituçou «Os anos que aí vêm». Filósofo esclarecido e respeitado que é, sempre nos habituou a análises correctas da matéria em discussão. Sei que todos os leitores da Visão o lerão seguramente, mas acreditão que ao colocar aqui esse texto outros poderão usufruir da sia esclarecida análise, aqui o deixo para aqueles que por aqui passem.

Os anos que aí vêm

Sistema político, o Governo, a democracia saem com muitas feridas deste mês caótico que acabámos de viver. O discurso dos responsáveis políticos, sobretudo, atingiu o grau zero do descrédito. Diz-se tudo e o seu contrário, anuncia-se, desmente-se, volta-se a anunciar, recua-se, promete-se e descompromete-se. Ninguém acredita já em Passos Coelho, em Vítor Gaspar, em Paulo Portas - e já pouco no Presidente da República. Tudo se quebra, se fende, se esboroa: a confiança nos nossos líderes, a esperança no futuro, a fé numa qualquer solução para a crise. Só acreditamos no abismo e na «explosão nuclear» prestes a rebentar no meio das nossas vidas. A população inteira está contra o Orçamento de Estado (OE). Mas os nossos governantes clamam com uma tal convicção «que só há esta solução ou o País entra em falência», que este género de chantagem acaba por se impor. Adotamos então - desde os economistas ao cidadão comum - uma dupla crença contraditória: que a extrema austeridade é a única saída para a crise, e que o Orçamento que a instaura nos levará à catástrofe. É o cúmulo do caos mental das breves semanas que acabamos de atravessar. Mas alimentamo-nos assim com um resto ínfimo de confiança suicidária. Apesar de o português saltar de um para outro acontecimento que o absorve por inteiro, esquecendo rapidamente o primeiro - veja-se: bastou aquele incrível comunicado do presidente do CDS, afirmando a fidelidade à coligação, para que o tumulto da vida política parecesse desaparecer como por encanto -, o desgaste provocado por todo este «barulho» Tudo se quebra, se fende, se esboroa: a confiança nos nossos líderes, a esperança no futuro, a fé numa qualquer solução para a crise à volta do OE não se vai apagar tão cedo. A crise de confiança é total. E o pior, é que não se vê uma possibilidade consistente de resistência ao que nos é proposto e imposto. Viver-se-á, então, nos limbos de um impasse: entre a desconfiança e a resignação. Não haverá oposição da população - as manifestações, mesmo regulares, não congregam vontades de uma população a que falta o povo -, porque o alvo não tem contornos bem traçados: o primei¬ro-ministro?; o ministro das Finanças?; o Governo? a troika? Aonde está o poder, na Europa ou ainda na nossa soberania mutilada e alienada? Quem «manda» em Portugal: Passos Coelho ou a sr.a Merkel? À falta de um adversário bem definido, as forças de luta dispersam-se ou voltam-se contra elas próprias. E, AFINAL, se não se vê saída e se a chantagem à «solução sem margem de manobra do OE» vai resultar, é porque o Governo não teve coragem, nem vontade política, de atacar a estrutura socioeconómica do nosso sistema estadual e político. Por isso o OE é iníquo e profundamente injusto. Quem manda em Portugal? Internamente, os «poderes instalados» (como se diz), quer dizer, a rede de cumplicidades e promiscuidade entre o poder político e o poder económico, a conivência dos que se alimentam dos compadrios, clientelismo partidário, parentesco, amizades, e que reservam para o seu clã os lugares e benefícios que oferecem o Estado, as instituições e as empresas, nos múltiplos focos, camadas e sub-redes de que o poder é feito. A crise pôs a nu este esquema sumário que divide a sociedade em dois grandes grupos (em traços muito largos): os privilegiados, e os pobres e «remediados». O Estado tornou-se, assim, um grande reservatório de mais-valias exorbitantes, milionárias, graças ao clientelismo e à corrupção - situação que começou a ser corrigida depois do 25 de Abril (por isso se quer agora desmantelar o Estado social). A crise e o O E vão-nos fazer regressar à situação anterior, própria de certos Estados autoritários e subdesenvolvidos. Com todos os perigos que se instalam já e se anunciam para a democracia. E se, porventura, se atingirem as metas orçamentais fixadas, teremos um país exangue, exausto, em involução regressiva. Uma espécie de barbárie decadente substituirá o que um dia ter-se-á chamado cultura. Eis o que para aí vem, com este OE. (José Gil)

sexta-feira, outubro 26, 2012

tudo que quis saber sobre contas públicas





No Jornal de Negócios, on line, de 23 de Outubro de 2012, João Pinto e Castro, docente universitário, publicou um magnífico texto que intitulou «Tudo o que sempre quis saber sobre as contas públicas mas teve vergonha de perguntar».
Porque textos desta qualidade e oportunidade não são frequentes e nem sempre merecem o crédito devido, entendi que não podia deixar de aqui deixar esta lição esclarecida e esclarecedora para a maioria dos que não dominam esta área do saber. Aqui fica à vossa consideração.


«Uma opinião pública inquinada por falsidades ou meias verdades não está em condições de formar um juízo válido sobre as alternativas políticas que lhe são propostas. 1. Para começar, 47% da chamada despesa pública de 2011 consistiu em transferências, ou seja, redistribuição de recursos que o estado opera de uns cidadãos para outros, incluindo pensões e outras prestações sociais. Não é pois verdade que o estado se aproprie de metade da riqueza do país, visto que metade dessa metade é devolvida às famílias. 2. As despesas de funcionamento das administrações públicas (salários mais consumos intermediários) representam 39% dos gastos totais. Porém, como abrangem a produção de serviços como a saúde, a educação ou a segurança, a verdade é que o custo da máquina burocrática do estado central se fica pelos 12 mil milhões (15,5% da despesa pública ou 7,2% do PIB). As gorduras do estado são afinal diminutas. 3. Os juros da dívida pública deverão absorver no próximo ano 5% do PIB. É imenso, mas em 1991 chegaram aos 8,5%. 4. O estado português foi recentemente obrigado a corrigir as suas contas incluindo nelas défices ocultos em anos anteriores, o que teve como consequência um aumento brusco da estimativa da dívida pública acumulada. O curioso é que essa dívida escondida foi praticamente toda contraída até 1989. Logo, as revisões recentes emendam falhas cometidas há muitíssimos anos. 5. A despesa pública em proporção do PIB atingiu um máximo em 1993 (46%), depois desceu ligeiramente e só voltou a esse nível, superando-o inclusive, na sequência da crise financeira mundial declarada em 2008. O país sabe conter eficazmente despesa pública, tanto mais que já o fez no passado. 6. O défice das contas públicas atingiu o seu máximo absoluto, segundo o Banco de Portugal, em 1981 – um legado de Cavaco Silva ao segundo governo da Aliança Democrática. Nunca mais se viu nada assim. 7. Em 1986, o sector público absorvia 71,7% do crédito total à economia. Em pouco mais de uma década a situação inverteu-se totalmente, de modo que, em 1999, as empresas e as famílias já absorviam 98% do crédito disponível. A economia não está hoje abafada pelo estado. 8. À data da entrada na CEE, o financiamento externo da economia representava apenas 14% do total. Em resultado da privatização da banca, a captação de recursos financeiros no exterior decuplicou entre 1989 e 1999 e a dívida pública passou a ser financiada esmagadoramente pelo estrangeiro. As instituições financeiras contribuíram para uma entrada líquida de fundos externos equivalente a 6,8% do PIB nesses anos. As responsabilidades dos bancos face ao estrangeiro passaram de 49% do PIB em 1999 para um máximo de 96% em 2007. 9. A baixa das taxas de juro decorrente da integração no euro propiciou a rápida expansão do crédito. Mas o investimento baixou em sete dos onze anos que terminaram em 2010 (variação acumulada de -20%), ao passo que o consumo privado só desceu num ano (variação acumulada de 19%). Quando havia dinheiro a rodos, o sector privado não investiu. Convém investigar porquê. 10. Também o investimento público foi baixando progressivamente até aos 3% do PIB em 2008. Em 2009 subiu um pouco, ficando ainda assim abaixo dos máximos do início da década. Como é possível continuar-se a invocar o excesso de investimento público para explicar as presentes dificuldades financeiras do estado? 11. As despesas do estado com pessoal caíram consistentemente em proporção do PIB a partir de 2002. O tão polémico aumento dos salários dos funcionários públicos em 2009 teve um impacto insignificante nas contas públicas. Em contrapartida, as prestações sociais passaram de 14% para 22% do PIB entre 2003 e 2010, sendo responsáveis por 95% do aumento da despesa corrente primária do estado entre 1999 e 2010. 12. Desmentindo a ideia de que as metas acordadas com a União Europeia nunca se cumpriram, os objectivos dos PECs entre 2006 e 2008 foram sempre confortavelmente atingidos, sem recurso a receitas extraordinárias, no que respeita a receitas, despesas, défice e dívida pública. 13. As medidas selectivas de combate à recessão em 2009 ascenderam a apenas 1,3% do PIB (quase metade pagos com fundos comunitários). O grande aumento do défice nesse ano deveu-se no essencial à quebra em 14% das receitas fiscais e ao crescimento das prestações em decorrência do agravamento da situação social. Acresce que esse aumento não se desviou significativamente do observado no resto da UE. 14. Cada um dos pontos anteriores contraria directa e taxativamente uma ou mais alegações quotidianamente escutadas nas televisões, nas rádios, nos jornais e, por decorrência, nos cafés e nos transportes públicos. Uma opinião pública inquinada por falsidades ou meias verdades não está em condições de formar um juízo válido sobre as alternativas políticas que lhe são propostas. Nestas condições, não admira que cresça descontroladamente o populismo e se degrade a qualidade da democracia. Nota: (Os factos e números citado neste artigo foram extraídos do recentemente editado "Sem Crescimento Não Há Consolidação Orçamental: Finanças Públicas, Crise e Programa de Ajustamento", de Emanuel Santos, leitura indispensável para quem deseje documentar-se sobre o tema das contas públicas».
Director Geral da Ology e docente universitário

sexta-feira, outubro 19, 2012

para entender melhor os bancos

Sem comentários. Está tudo explicado no vídeo.

austeridade, um erro

Poderão mostrar este vídeo ao homem da tradução simultânea da Merckel para Portugal? Surdo, sabemos que é, pois não ouve ninguém. Mas o vídeo tem legendas. Fica a dúvida se poderá lê-las à velocidade que passam. Água mole em ... Também não. Tinha que se gastar muita água. Será que o povo é quem mais ordena? Veremos.

quarta-feira, outubro 17, 2012

o que é o neo liberalismo

 
 
A pessoa que escreve, a qualidade do texto e o que lá se diz, dispensam-me de tecer qualquer comentário. Basta ler.
 
 
 
O que é o neo liberalismo?

E tempo de voltar a analisar as ideologias - que, para o bem ou para o mal, não morreram. Até 1980¬90,osconservadores eram de direita (moderada), os liberais reformistas e os democratas¬cristãos autênticos eram do centro, e os socialistas ou sociais-democratas (propriamente ditos) eram de esquerda. Com as doutrinas de Hayek e de Friedman, postas em prática pela dupla Reagan-Thatcher, bem como em consequência da globalização, do comércio livre, dos hedge funds em paraísos fiscais - e também da extinção da URSS - o mundo virou à direita: os neoconservadores tornaram-se mais radicais, os liberais e os democratas¬cristãos passaram a conservadores, e os socialistas democráticos procuraram uma «terceira via» que, pelas mãos de Blair/ Brown e de Bill Clinton, se afirmou capitalista e pro-rich, abandonando a sua tradição socialista e pro-poor. Tudo isto, porém, ocorreu no quadro da democracia pluralista, sem nunca ultrapassar «pelo menos na Europa, EUA e Japão» - a fronteira que separa a direita democrática do fascismo (Marine Le Pen não é neoliberal). Aconteceu, entretanto, que a ala mais à direita do Partido Republicano dos EUA (com Bush filho, Romney, Tea Party, etc.) se transformou muito rapidamente num movimento radical, quase-revolucionário, que se tem afirmado como politicamente «neoconservador» e economicamente «neoliberal». Tal transformação transmitiu-se à Europa: Merkel e Sarkozy, Berlusconi, Aznar e Rajoy, Passos Coelho/Paulo Portas (com os respetivos ministros, como Victor Gaspar, e principais assessores, como António Borges). Deixando por hoje de lado o que diz respeito ao neoconservadorismo (na pol+itica externa e interna), procuremos caracterizar a corrente neoliberal, profundamente elitista, que manda na Europa atual: a) Crença absoluta no mercado e desconfiança total em relação ao Estado (bit e-government); b) Protecção legal aos mais ricos, sobretudo através da redução dos respetivos impostos, na convicção de que só eles investem, criam empregos e, assim, impulsionam o crescimento económico; c) Prática constante, e progressiva, de cortes substanciais nas despesas sociais, por se entender que o Separe Skate é uma ilusão perigosa; e que os mais pobres,tornando-se subsídio-dependentes, prejudicam o interesse nacional e não merecem proteção (ou não merecem senão uma proteção mínima). O ódio de classe - que Marx considerava ser a ira justa dos pobres contra os ricos - mantém-se, mas de pernas para o ar: י agora a raiva profunda dos ricos contra os pobres, os inúteis, os incapazes que só sabem viver à mesa do Orçamento, à custa dos impostos dos ricos, sendo estes os únicos que dão emprego a quem verdadeiramente quer trabalhar. Não há, por estas razões, nenhum governo neoliberal que não baixe significativamente a carga fiscal e parafiscal (T.S.U) dos empresários e que não suba, tanto quanto possível, a dos trabalhadores, apesar de nunca conseguirem diminuir o défice e a dívida. Todos os filósofos gregos - Platão, Xenofonte, Aristóteles - chamavam a isto uma forma de governo «oligárquico», cuja degeneração externa era a «plutocracia» (o governo do dinheiro). Comparemos agora esta tão atual doutrina neoliberal com o pensamento arcaico (?) do «fascista» Oliveira Salazar, em 13 de abril de 1929. Escreveu ele: a reforma tributária (então publicada) guia-se, entre outros, pelo principio da quase uniformidade das taxas dos vários impostos,«com as exceções que favorecem, em todos os países civilizados, os rendimentos provenientes do trabalho do contribuinte» (A reorganização financeira, Coimbra Editora, 1930, p. 102). Problema insolúvel da ciência polםtica: como pode um democrata neoliberal de hoje situar-se mais à direita do que um ditador «fascista» de há 80anos?!. ..
Diogo Freitas do Amaral, em Opinião, Visão n.º 1022 

sábado, outubro 13, 2012

philosophers' world cup

A cultura contra o cifrão. O humor ao serviço da razão.

a cultura não se troika

Ouça e divulgue. É preciso lutar até à vitória.

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domingo, outubro 07, 2012

os may be men


Mia Couto escreveu no País on line em Novembro de 2010, um magnífico texto, de fina e aguda análise sociológica que intitulou 'O May Be Man', que agora resolvi ressuscitar pela sua persistente actualidade. Os destinatários directos estavam/estão em África e os indirectos estavam/estão por todo lado, muito especialmente neste país à beira mar plantado, com um povo longo tempo adormecido, mas que agora parece estar a acordar. «Acordai ó...». Merece uma leitura atenta.
 
 
O May be man
 
Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar. O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim-plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio. A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior. Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên¬cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo¬gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na¬ção muito gaseificada. Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua¬dra-se no combate contra a pobreza. Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup¬tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi¬nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém. O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu¬guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem. O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen¬te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup¬to: em nome da lei, assalta o cidadão. Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau¬tela, os do chefe do chefe. O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen¬te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no¬meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir. Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for¬tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio. O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.

um novo hino

Um novo hino apresentado em Guimarães pelo grupo +-. Porque é um hino e actual não precisa de nota explicativa.
 
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sábado, outubro 06, 2012

falar claro

Falar claro é uma obrigação cada vez mais necessária- Infelizmente tem sido uma raridade. Por isso, penso ser importante que a fala de Paulo Morais, antigo Vereador da Câmara Municipal do Porto, professor universitário e Vice-presidente da ONG 'Transparência e Integridade' seja escutada por todos, resolvi deixá-la aqui para que aproveite a alguns. Ele fala claro e tem coragem.
 

quarta-feira, outubro 03, 2012

a universidade de novo

É com alegria e satisfação que verifico que a Universidade portuguesa encontrou um dos caminho que sempre teve a obrigação de percorrer mas que, infelizmente, parecia ignorar. A sua palavra esclarecida devia ser uma das mais ouvidas e respeitadas. Tudo parece indicar que, finalmente, vai assumir o seu lugar de farol cultural, moral e científico. Depois da passada oração de sapiência do Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, coube a vez de João Gabriel Silva, Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra erguer a sua voz na respeitada Sala dos Capelos e dizer claramente o que pensa da actual situação do país e indicar um dos caminhos para a nossa salvação. E mais do que indicar o caminho colocou a Universidade ao serviço dessa missão patriótica. Para quem o nâo escutou deixo aqui a sua oração para que todos a possam escutar, especialmente os treze primeiros mnutos, como logo vereis. Como antigo estudante de Coimbra, deixo aqui sinal da alegria de ter tal Reitor na minha Universidade.
 

segunda-feira, setembro 24, 2012

domingo, setembro 23, 2012

terça-feira, setembro 18, 2012

baaaaaasta

 
Na página Cartas Abertas da Revista do Expresso de 15 de Setembro de 2012, o Comendador Marques de Correia publicava mais uma das suas viperinas cartas, embrulhada como sempre no melhor humor negro que se pratica em Portugal. Em complemento da inesquecível, desejada e esperada manifestação colectiva deste Portugal abusado e desrespeitado por quem se julga poder, publico esta última carta do Comendador em que ele próprio assume que -

«numa comovedora peça,apoia a política do primeiro-mi­nistro, sem corar nem nada»
 
«A MINHA PRIMEIRA RAZÃO para apoiar o dr. Passos Coelho é que as coisas podiam ser piores. Por exemplo: - Ele podia ser agente da peste bubóni­ca ou doutra praga qualquer; - Ele podia ter decretado a morte de todas as pessoas com 55 anos ou mais; - Ele podia ter decidido que os funcioná­rios públicos tinham de se chamar Ar­mindo ou Epifânia para poderem conti­nuar a receber, pelo menos, um salário por ano; - Ele podia ter obrigado os homens com rendimentos superiores a 1000 euros a casarem com a Dona Teresa Guilherme; - Ele podia ter decretado que as senho­ras solteiras, viúvas ou divorciadas não tinham direito à Segurança Social, a menos que casassem com um homem indicado pelo dr. Relvas, ou por alguém com equivalência a dr. Relvas; - Ele podia ter estatuído que apenas o Real Massamá podia ganhar jogos de futebol e que as telenovelas da SIC e da 1VI acabavam sem se conhecer o final; Enfim, ele podia muita coisa e, compara­do com o que acabo de descrever, a única coisa que fez foi cortar-nos 7% do rendimento. Ora isto, comparado com a peste negra, com o extermínio, com o fim das telenovelas, com a impossibilida­de de Benfica, Porto, Sporting ou mesmo o Braga ganharem o campeonato e outras malvadezas assim, nem parece muito. É, basicamente, por estes motivos que eu digo que podia ser pior e que devemos apoiar o dr. Passos Coelho. Há, ainda, outro motivo para não o contrariar e que todos conhecemos. Tem a ver com o tipo de pessoas que nunca se devem contrariar. porque isso é - digamos - contraprodu­cente. A propósito de contrapro- ducente: apesar de estar convencido de que a medida que o Governo tomou é contraproducente, penso que será ainda mais contraprodu­cente argumentar com o facto de ela ser contraprodu­cente. A gente deve é, pelo contrário, incentivar o dr. Passos Coelho a ir mais longe. Tipo como se fazia dantes em Alcântara: - É só isto? Ganda maricas! Vê lá se consegues cortar, assim tipo 12%? Ou outras coisas, como: - Na Segurança Social, minha ganda menina No lRS é que era de homem e nas grandes fortunas dar-lhe uns 400 por cento de imposto que é para eles terem de pagar se quiserem ser ricos! Ao contrário, os nossos políticos, como lhes falta imaginação vêm todos dizer a mesma coisa: que isto é uma tragédia e que o país assim acaba, como se o país não acabasse de qualquer maneira, sendo apenas uma questão de mais ou menos mil anos, o que não é nada na escala cósmica. Na verdade, ser apaga­do do mapa por Passos Coelho ou por mn meteortto não faz.grande diferen .. ça Talvez com o meteorito doa me- nos, mas tirando isso o resultado é igual. É também com base neste pensamento elevado (até porque é de cima que vêm os meteoritos e os impostos), acho que devíamos incentivar o dr. Passos Coelho a ir mais longe. -A Espanha? - Não, mais longe! -A França? - Ainda mais longe! -À Rússia? - Mais longe, mais longe! -À China? - Não estás a perceber, é mais longe! -A Marte! - Ora aí está! O dr. Passos Coelho devía ir a Marte porque além de poder haver marcianos dispostos a pagar taxas sub­venções e impostos, o que ajuda, as viagens educam a juventude e nós acha­mos que ele merecia ir, digamos, arejar as ideias, para que quando voltasse não levasse o país tão a sério e desistisse, por fim, de salvá-lo. Porque nós, os tugas, não queremos ser salvos! Acreditamos que a intenção do primeiro-ministro seja endireitar o país e pô-lo nos eixos. Apoiamo-lo nisso e desejamos o melhor para ele, queremos que ele vá mais longe e isso tudo. Mas, mal agradecidos, como de costume, preferíamos que o Governo nos deixasse com os 7% no bolso. Pode ser?» 

domingo, setembro 16, 2012

o funeral de portugal

Sem palavras. Em Guimarães, Capital da Cultura e Berço de Portugal. Representação ou realidade? A realidade é que ontem o povo voltou finalmente à rua, para dizer BASTA.
 
 

terça-feira, setembro 11, 2012

em nome da equidade


Acabou de me chegar às mãos esta magnífica Carta Aberta ao Primeiro Ministro, escrita e endereçada ontem por uma figura notável da cultura portuguesa. Deixo uma pequena nota biográfica para aqueles menos ligados à cultura. Mas o que interessa, realmente, é a leitura da carta, especialmente pelo leitor a quem vai dirigida. Espero que saiba ler.
 

Eugénio Lisboa
O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural.

Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.


CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito  —  todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar“as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.

Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot):“Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intituladoThe Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos.Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.

Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados.Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes  termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio.Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.


De V. Exa., atentamente,

Eugénio Lisboa
Etiquetas: Austeridade, Carta-aberta ao PM

terça-feira, setembro 04, 2012

um grito que se quer ecooooo...

Cada vez o mundo está pior, desgraçadamente virado do avesso. São muitos - os seus habitantes, os seus políticos - que sabem ou parecem saber qual o caminho para sairmos deste buraco distorcido em que vivemos as nossas vidas. No entanto, são poucos os gritos que se ouvem e apelam ao bom senso e à luta certa, no local certo, contra o verdadeiro inimigo e não contra o seu virtual espantalho. Este pequeno discurso proferido na conferência Rio mais 20 pelo Presidente do Uruguai é de uma enorme sensatez e seriedade. Merece ser escutado. É um grito bom, salvador.

 

sábado, setembro 01, 2012

um tiro global


Publicado recentemente no prestigiado diário espanhol El Pais, este texto intitulado «Um canhão pelo cu», da autoria de Juan José Millas, tem-se tornado adoptado por inteiro por todos aqueles que percebendo o que aqui se escreve não eram capazes de o verbalizar ou escrever. Merece a vossa leitura e meditação.
Um canhão pelo cú

Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

Juan José Millas

quinta-feira, agosto 02, 2012

uma pérola dos anos 50 em beat

Encontrei hoje esta pérola do Bucha e do Estica acrescida de efeitos 'caleidoscópicos' dos musicais da época, magnificamente transformada em 'beat electro house music', pelo DJ OGB. Reparem quando ele aproveita um antigo His Master Voice à boa técnica dos DJ. Fica aqui por ser uma outra forma de ver o passado.

sábado, julho 21, 2012

ó relvas, ó relvas...

Ao contrário de Espanha nós reagimos de maneira mais suave, desvalorizando a verdadeira importância da má governação, da subserviência perante a troika de quem devia governar e limitamo-nos a converter a nossa raiva em factos vividos por quem não tem importância nenhuma, a quem se não reconhece qualquer valor ou mérito e fazendo com que alguns fait divers de que é protagonista nos façam rir em vez de chorar de raiva por existirem tipos assim. Mas este riso é também desprezo.

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