quinta-feira, março 26, 2015

o desconcerto do mundo



Transcrevo a crónica 'Fraco consolo' da Revista do Expresso desta semana, intitulada «Desconcerto do mundo», da autoria de Pedro Mexia.

PERCEBI QUE NÃO HAVIA OUTRO TEMA E PORVENTURA OUTRO POETA NA NOSSA LÍNGUA, OUTRO QUE CONTASSE TANTO, E CONTASSE TUDO

«Lembro-me de ter estudado Camões, como toda a gente, “o épico e o lírico”, e gostei daquele portuguesismo interrogativo e inquieto, mais do que do esplendor de Portugal, que, confesso, nunca me tocou; mas muito mais vezes citava o poeta “neopetrarquista”, como classificavam os manuais, à época eu entendia sobretudo esse amor idealizante, depois vi claramente o Camões sensual e experimentado, tumultuoso, caótico até, com musas várias, de grandes e pequenos instintos, meninas e mulheres que aparecerem e desaparecem e que é preciso defender como um manuscrito, daqueles que salvamos a nado. Eu sou devedor em tudo ao soneto que começa “um mover de olhos, brando e piedoso”, não naquilo que escrevo, bem entendido, mas na minha vida, facto que tem sido notado, com insistente escárnio. Mais tarde, cheguei aos poemas ditos “do desconcerto do mundo”. Quando os encontrei, era demasiado novo, conhecia alguns desconcertos, mas nunca me lembraria desse termo filosofante, que nem compreendia bem; e não saberia chamar à minha pequena vida ‘o mundo’ ou sequer parte do mundo, antes um istmo ou arquipélago, coisa contígua ao mundo, mas dele nunca fazendo parte por inteiro, maleita da qual nunca me livrei, o que tem sido notado, com escárnio insistente. Quando se me foi chegando a idade de meio caminho, esta de agora, mas à qual aportei antecipadamente, demasiado cedo, percebi que não havia outro tema e porventura outro poeta na nossa língua, outro que contasse tanto, e contasse tudo. Porque todos os nomes que ia dando à minha experiência negativa do mundo eram insuficientes. Havia frustração, desalento, incompreensão, incompletude, desânimo, desconformidade, mas soavam a queixumes, e queixumes meus, respeitantes a um ‘eu’ que era o meu e que, por esse facto, dificilmente interessavam a mais alguém, excepto a quatro ou cinco pessoas que por sangue ou afecto se importam. “Desconcerto”, pelo contrário, não era um termo psicologista nem sentimental. Desconcerto não era uma característica minha, ou de Camões, ou de quem fosse, mas um atributo do mundo. Era um estado em que o próprio mundo se encontrava, e que nós, ao considerá-lo, apenas verificávamos: um mundo confuso, absurdo, sem sentido, desacertado, desordenado, desvairado, dissonante, transtornado. Nem nos momentos mais felizes, fugazes ou não, acreditei que ‘o mundo’ fosse outra coisa que não isso. E isto tem, inevitavelmente, uma dimensão moral. Cito ‘Esparsa ao desconcerto do mundo’: “Os bons vi sempre passar/ no mundo graves tormentos;/ e, para mais m’espantar,/ os maus vi sempre nadar/ em mar de contentamentos”. Talvez nem todos os maus, ou aqueles que por facilidade assim considero, nadem num mar de contentamento; mas todas as pessoas que considerei até hoje verdadeiramente boas passaram graves tormentos, muitos dos quais devido à sua bondade, que eu defino de forma falível e discutível, mas veemente. Quando há dias me perguntaram: “De que vale a pena ser bom?”, não soube responder, ou não quis, porque daria uma resposta ética, desligada do sofrimento. E a ética pode destruir a esperança dos esperançosos. Até porque, mais tarde do que outros talvez, mas não com menos impiedade, também eu fui quebrado pelo desconcerto, por esse choque com o mundo que faz de nós pessoas más, porque ser bom nos deixa desarmados, nos atira aos leões. E aos poucos, e depois de súbito, aconteceu-me o mesmo que ao sujeito poético da ‘Esparsa’: “Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ fui mau, mas fui castigado:/ Assi que, só para mim/ anda o mundo concertado»
pedromexia@gmail.com Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia

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