sábado, agosto 05, 2006

e, se eu vos contasse? – 21º programa – a aula de anatomia e cirurgia de chaves

No princípio do século XIX a situação médica em Portugal era ainda de grande primitivismo e amadorismo, apesar de haver Universidade há mais de 500 anos e a medicina ter evoluído alguma coisa durante esse longo tempo. No entanto, e apesar disso, os médicos em geral continuavam a estar mal preparados, e principalmente os cirurgiões, que continuavam a ser apenas uns curiosos com aptidões manuais para a arte da cirurgia. Havia quem dissesse que durante as guerras que Portugal foi travando ao longo dos tempos, a acção dos médicos e dos cirurgiões causavam tantos ou mais estragos nas tropas que as próprias armas e balas do inimigo. Exagero e má língua, evidentemente. A classe médica sempre foi uma classe caluniada e só é elogiada quando não pode mesmo deixar de ser...
Não se pense que a situação médica em Portugal era muito diferente da que havia nos outros países da Europa e que os médicos militares eram mais mal preparados do que os civis. Nada disso. Eram todos iguais. Mas os militares sentiam a necessidade de ter bons cirurgiões para poderem tratar os seus feridos. Daí que tenha surgido a ideia de criar Aulas de Anatomia e Cirurgia onde se ensinassem cirurgiões de modo a que, futuramente, se pudesse contar com a colaboração de melhores cirurgiões.
A primeira Aula que se criou foi em Almeida, zona do país onde havia um grande esforço de guerra na data em que foi criada, 1773. Passados dez anos foi criada a Aula de Elvas e três anos depois coube a vez a Tavira de ter a sua Aula de Anatomia e Cirurgia. Só 6 anos depois, em 1789 foi criada aquela que viria a ser a mais importante Aula de Anatomia e Cirurgia, entre todas as que foram criadas incluindo a do Porto, e que foi a Aula de Anatomia e Cirurgia de Chaves, praça de guerra fronteiriça com Espanha e através desta com a Europa. Há que ter em conta que estas terras onde foram criadas as Aulas eram terras onde se fazia um grande esforço de guerra, e que, por outro lado, eram pouco fornecidas de assistência médica civil; para isso contava a distância a que se encontravam da capital e das cidades mais importantes, estando completamente entregues ao abandono e aos cuidados de médicos pouco sabedores que só ali se fixavam porque não conseguiam vingar profissionalmente em terras mais prósperas e com concorrência de outros colegas. Claro que havia excepções e alguns bons médicos se fixaram nessas terras por razões de amor à sua terra e familiares.
Embora pudesse referir aqui as razões directas que levaram à formação das outras Aulas, vou contar-vos apenas as razões que levaram à formação da Aula de Chaves, cidade onde me encontro neste momento. Quis o acaso que a viúva de D. José, a Rainha Mariana Vitória, partisse a 9 de Outubro de 1777, para uma visita a Madrid e que o percurso escolhido incluísse nesse trajecto a passagem por Chaves.

Como era hábito em todas as deslocações reais, a Rainha e sua comitiva fizeram-se acompanhar dos seus médicos privativos. Era então médico da Casa Real, recém nomeado, Manuel José Leitão, homem inteiro, de carácter, bom profissional e zeloso da saúde dos doentes. Ao passar por Chaves ficou espantado com o que viu e decidiu imediatamente que tinha que fazer o que lhe fosse o possível para inverter aquela situação e dotar a cidade de bons cirurgiões. No seu regresso a Lisboa faz um requerimento em que dava conta do estado deplorável do hospital militar de Chaves, «solicitando a sua nomeação como cirurgião mor para a praça de Chaves com as funções de inspecção da cirurgia do banco tal como se passava no hospital de S. João de Deus desta Corte». Este requerimento não foi deferido e Manuel José Leitão insiste, oferecendo-se então para ensinar Cirurgia aos cirurgiões ajudantes dos Regimentos e a «todos mais que quiserem aprendê-la». Manuel José Leitão conseguiu apenas ser nomeado como cirurgião mor do Regimento de Cavalaria de Chaves e apenas em Março de 1786. Mas ele não era homem para desistir dos seus propósitos e há documentos que comprovam que em 1788 se perguntava a opinião do Governador das Armas sobre a pretensão de Manuel José Leitão de «formar uma Aula de Cirurgia». A sua persistência conseguiu os seus frutos e em Abril de 1789, o ministro Sousa Coutinho escrevia ao Governador das Armas, Gomes de Sepúlveda, dizendo que «a Rainha Nossa Senhora manda que se façam na Casa da Guarda da Madalena, os consertos e reparos necessários para que ali se instale a Aula de Cirurgia e Anatomia, para se dar princípio à leitura e operações com toda a brevidade possível e manda que aprove interinamente os estatutos que lhe serão apresentados pelo professor, devendo enviar uma cópia à Secretaria de Estado».

Manuel José Leitão tinha ganho esta batalha, mas não tinha ganho a guerra em que se tinha metido e que a partir dessa data se manteve sempre acesa entre ele e o administrador Frei José da Natividade, religioso da Ordem de São João de Deus e inglês de nação, por divergências permanentes quanto à forma de melhor se instalar a Aula. Com discussões ou sem elas, Manuel José Leitão, pôs rapidamente em marcha a instalação da Aula e requisitou o material necessário para as dissecções anatómicas e para as operações e partos. A relação dos instrumentos é muito curiosa, mas impossível de aqui referir na íntegra, mas obriga a que, pelo menos, se refiram duas coisas que ele pede, por serem particularmente curiosas – «uma parturiente artificial de camurça para nela aprenderem os praticantes as manobras dos partos. Um boneco de pau «vernizado» que represente um rapaz de 12 ou 14 anos, com gonzos nas pernas e braços para nele se ensinarem as ligaduras». E acrescenta – «este cá se pode mandar fazer». Não vou alongar-me a falar das guerras entre o professor e o administrador, mas sempre digo que foi de sempre a luta entre os médicos e as finanças. Não vou sequer deter-me nos pormenores das enfermarias. Dir-vos-ei apenas que elas se situavam neste edifício que ainda agora aqui se vê e em dependências por trás da capela do altar mor desta belíssima igreja. Mas não posso deixar de vos contar, porque isso se prende com as famosas Caldas ou Termas de Chaves, hoje mais procuradas que nunca (possuindo o balneário mais moderno da Europa e funcionando quase todo o ano), porque já naquele tempo, constava no plano de Manuel José Leitão a construção de um compartimento para nele se darem banhos das Caldas, «vindo a água em cargas desde o nascimento dela» e entrando directamente pela ponte romana pelo que «esta dependência deve ter uma porta para aquela ponte, evitando-se assim a carga ter de dar uma grande volta e subir muitas escadas».

Outra coisa a referir é a forma como Leitão entende que a enfermaria dos feridos deve ter uma comunicação fácil com a Aula de anatomia, para por ali passarem os cadáveres para as dissecções anatómicas sem serem vistos de fora e para que os seus fragmentos, depois de anatomizados, possam passar para o cemitério por uma escada de pau que para ela se pode fazer por estar muito próximo destas obras.
O curso que Leitão ministrava durava 4 anos e nele se ensinava anatomia, fisiologia, patologia externa, higiene, medicina operatória, arte obstétrica e prática e clínica cirúrgica que era a única cadeira do 4º ano.

Manuel José Leitão faleceu em 1797 e foi substituído por Manuel José Sampaio, interinamente mas «na esperança de o vir a ser de propriedade», o que não veio a suceder. Em 23 de Março de 1802 foi nomeado, por decreto real, Frei António de S. Frutuoso, homem de vários nomes e várias fés. De seu nome de baptismo, António José Rodrigues, entra ainda estudante para a Ordem de S. João de Deus com o nome de frei António de S. Frutuoso e por volta de 1815 resolve abandonar a ordem e secularizar-se adoptando o nome de António do Rego, nome com que embarca para o Brasil como 1º médico da Divisão de Voluntários do Príncipe. Antes de se ter formado em medicina em Coimbra aprendeu na universidade, matemática, filosofia e química. Frei António de S. Frutuoso não era cirurgião, mas sim médico, mas mesmo assim foi nomeado lente de cirurgia. Resolveu logo alterar o curso, passando este a durar cinco anos em vez dos quatro que até aí durava. No 1º ano dava anatomia, no 2º fisiologia e patologia cirúrgica, no 3º partos, matéria médica, preceitos de formular e vírus venéreo, no 4º princípios de cirurgia e operações e no 5º ano cirurgia prática. Só no 5º ano é que os alunos tinham autorização para frequentarem o hospital, para «tirar a história aos doentes e explicarem os sintomas».
Chame-se a atenção para o facto que Manuel José Leitão já tinha exigido que os alunos soubessem ler, escrever e contar, saber latim ou francês. Frei António de S. Frutuoso continuou a fazer esta exigência e acrescentou a Filosofia racional, mas tal não foi permitido porque «na província de Trás-os-Montes tal se não pode exigir».
Embora existam documentos que dizem que esta Aula de Anatomia e Cirurgia terminou em 1811, isso parece-me totalmente falso, pois existem outros documentos que se referem ao seu funcionamento ainda em 1814.

quinta-feira, agosto 03, 2006

e, se eu vos contasse? – 20º programa – o hospital militar de d. pedro v

Já várias vezes abordei o tema e insisti na tónica de que durante muitos séculos se chamava hospital a simples casa ou abrigos, umas e outros simples depósitos de doentes, onde estes ficavam protegidos das intempéries, quando protegiam, e aonde os médicos lhes podiam prestar assistência. Verdadeiros hospitais, feitos propositadamente para esse fim e de acordo com as necessidades próprias de instituições deste tipo, eram raros os que ao longo dos tempos se foram fazendo e todos eles eram hospitais civis. Recordo como mais importante e mais representativo o Hospital Real de Todos os Santos e de uma forma aproximada alguns dos que foram instalados em conventos transformados para esse novo fim.
No que aos hospitais militares respeitava, sabe-se que eles sempre foram aproveitando instalações já construídas para outros fins e que depois eram adaptados a hospitais. Foi preciso chegar a 1862 para se dar início à construção do primeiro hospital militar construído de raiz e exclusivamente destinado a esse fim. Estou a referir-me ao Hospital Militar de D. Pedro V, hospital militar do Porto e hoje Hospital Militar Regional nº. 1.
Antes de ser decidida a sua construção, os doentes militares do Porto e do norte do País, eram tratados em hospitais militares adaptados, de que recordo o hospital de S. Bento da Vitória, instalado no Convento de S. Bento dos Frades, às Taipas, que prestou assistência desde 1808 e durante toda a guerra peninsular, estando ainda em funcionamento em 1832, data em que foi praticamente todo destruído pelas tropas absolutistas, tendo os liberais tido muita dificuldade com a sua reorganização; esta situação obrigou a que os doentes tivessem de ser transferidos para o Convento do Anjo e para a Academia da Marinha e do Comércio, à Graça. Recordo que em 1809 se iniciaram as obras para a construção do Hospital de Santo António.

Neste período foi também utilizado como hospital militar o Convento de São João o Novo, dos eremitas de Santo Agostinho, então desocupado após a extinção das ordens religiosas. Em 25 de Agosto de 1861 foi visitado por D. Pedro V. O Rei ficou impressionado pelo asseio e cuidados prestados, embora o hospital não tivesse condições. Tendo solicitado o livro de honra do hospital para nele escrever as suas impressões, teve de o fazer num simples papel, porque o hospital nem isso tinha. Deve ter sido durante essa visita que D. Pedro V resolveu mandar construir um hospital militar de raiz. Em Novembro de 1861 o hospital militar muda do convento de São João o Novo para a Quinta do Melo ou quinta das Águas Férreas, que pertencia à Viscondessa de Vieiros, onde hoje se encontra a Tutoria, que o governo arrenda para ali instalar o hospital que vai permanecer ali até 1869, data em que os doentes foram transferidos para o novo hospital em construção, então só com uma terça parte construída.
D. Pedro V resolveu então mandar construir um hospital militar no Porto que fosse funcional e capaz de assegurar uma boa assistência aos militares do norte de Portugal. Encarregou o Visconde de Sá da Bandeira, o ministro da Guerra de então, para proceder às medidas necessárias à sua construção. Foi escolhido o local, o chamado Campo das Pardelhas ou sítio das Valas e a compra efectuou-se em Fevereiro de 1862 por 1.800$00 reis.
Logo a 22 de Abril foi assente a primeira pedra, tendo sido realizada essa inauguração com grande solenidade. O Visconde de Sá da Bandeira, mandou comparecer no Porto o cirurgião de brigada José António Marques, o fundador da Cruz Vermelha portuguesa, acompanhado do cirurgião ajudante Silva Cardeira. Foram feitos discursos de grande elevação e a pedra fundadora tinha inscrita numa das faces uma legenda que dizia em latim «hospital militar, debaixo do título do rei D. Pedro V, governando Portugal, D. Luiz I. Edificado no ano de 1862» e na outra face, lia-se «este hospital por decreto de 22 de Março de 1862 tomou o nome nos faustos hospícios de D. Pedro V, príncipe óptimo pela sua exímia solicitude à memória dos vindouros».
O edifício foi construído inicialmente com uma capacidade de 280 doentes, podendo esta ser alargada e oferecendo ainda boas condições a 400 doentes.

Quando foram transferidos os primeiros doentes o edifício construído correspondia apenas a uma terça parte do projecto inicial e resumia-se ao corpo central e frontaria e a dois pavilhões laterais do lado poente, encontrando-se todo o edifício restante apenas nos alicerces, já todos visíveis. Apesar disso, a obra quase parou e só após a implantação da República foram inaugurados outros pavilhões em 1912 e posteriormente, em 1914, mais dois pavilhões, a nascente.
Em 27 de Julho de 1918, ocorreu um grande incêndio que atingiu toda a frontaria e as dependências anexas. Estavam internados 300 doentes que foram rapidamente evacuados para os jardins circundantes do hospital e depois levados pela Cruz Vermelha para o seu hospital que ficava não muito distante daquele. As obras de reconstrução foram rápidas, tendo terminado em 1920 e permitiram que se fizessem melhoramentos. Mas, as obras continuaram e em princípio de 1927 foram inaugurados pavilhões separados do edifício principal e ligados a ele por uma passerelle, onde foram instalados os serviços de infecto contagiosas, tendo sido construídas também algumas casernas para o pessoal e uma lavandaria a vapor.
A memória e a gratidão dos homens nem sempre acompanha a justiça que se deve àqueles que, de uma forma ou de outra, fizeram alguma coisa pelo bem de todos ou de grupos e sectores.
No início da construção deste magnífico hospital, primeiro no sector da saúde militar, construído de raiz, houve o gesto de gratidão de colocar na chamada primeira pedra, a legenda que indicava que o nome do hospital era o de D. Pedro V. Depois do hospital construído, já este rei era morto, depressa os militares se esqueceram de quem tinha sido a decisão de dotar a comunidade militar do norte de um hospital tão bom, que podia competir sem vergonha com os melhores que havia por essa Europa fora, no dizer de muitos responsáveis daquele tempo. Os militares preocuparam-se mais em dar-lhe nome militar e rapidamente esqueceram quem tão generoso tinha sido para eles. Passou a ser apenas hospital militar do Porto, hospital militar permanente do Porto e depois hospital regional, hoje hospital militar regional nº1.
A actual direcção deste hospital teve o gesto louvável de há muito poucos anos atrás, homenagear o rei que tão sensatamente tinha percebido as necessidades da saúde militar do norte de Portugal. E em sessão pública, oficial e muito concorrida, inaugurou no átrio de entrada do hospital este magnífico busto de D. Pedro V, assente em pedestal, com a legenda muito regionalista – «A D. Pedro V, os homens do norte».

quarta-feira, agosto 02, 2006

e, se eu vos contasse? – 19.º programa – a fundação da universidade portuguesa

Tal como em Portugal funcionou a Escola Médica de Santa Cruz, também pela Europa foram funcionando várias, de que se destacaram pela sua importância na época, as de Monte Cassino e de Salerno, muito especialmente esta última. Mas os vários poderes sentiam que aquelas escolas não correspondiam inteiramente ao que delas se pretendia e houve um movimento generalizado de tentativas de melhoria, que acabaram por levar à fundação das universidades ou estudos gerais como grande parte delas se chamava.
Foram abrindo várias – Montpellier, Paris, Bolonha, Nápoles, Palermo, Salamanca – esta última criada em 1215, por Afonso IX. Naturalmente que em Portugal também se sentia essa vontade de melhorar o ensino, embora os sinais tenham sido um pouco tardios em relação à Espanha, França e Itália. A primeira notícia que se conhece relativa à fundação da universidade portuguesa, data de 1288 e consta de uma carta escrita em latim e dirigida ao papa, em que vários dignitários da Igreja, como o Abade de Alcobaça, os Priores de Santa Cruz de Coimbra, São Vicente de Lisboa, Santa Maria de Guimarães e Santa Maria de Alcáçova de Santarém, juntamente com mais 22 Reitores de diversas igrejas, solicitam «autorização para aplicarem as rendas eclesiásticas provenientes dos seus mosteiros e igrejas, no pagamento de um estabelecimento de Estudo Geral e dos mestres para ele necessários, uma vez que por falta dele, muitos desejosos de estudar e entrar no estado clerical, atalhados com a falta de despesas e descomodos dos caminhos largos e ainda dos perigos de vida, não ousam e temem ir estudar a outras partes remotas, receando estas incomodidades, de que resulta apartar-se de seu bom propósito e ficar no estado secular contra vontade». Esta carta deveria ter sido assinada pelos Bispos e preferencialmente pelo Rei, mas havia divergências várias entre os subscritores da carta e o Rei, por estes andarem a litigar com D. Dinis sobre jurisdições. Dois anos demorou o Papa Nicolau IV a responder a esta carta e a comunicar o seu acordo aos Estudos Gerais, o que fez através de Bula papal, publicada em Orvieto, em 9 de Agosto de 1290. Mas D. Dinis tinha-se antecipado ao Papa e tinha ordenado a criação do Estudo Geral, em Carta Régia dada em Leiria, em 1 de Março de 1290, para funcionar em Lisboa e onde se ensinaria Direito Civil, Direito Canónico, Medicina e Artes, estabelecendo-se que o grau de licenciado (o que tem licença) seria obtido perante o Bispo ou o Vigário Capitular de Lisboa e a sua obtenção permitiria, com a dispensa de qualquer outro exame, o exercício da profissão e o direito de ensinar. O que parece ter sido uma falta de respeito para com o Papa, por parte de D. Dinis, pode não o ter sido e este ter dado autorização oral, antes de dar a Bula. De facto, nela se lê, em determinada altura «Nicolaus Episcopus...Dilectis Filiis Universitati Magistrorum, et Scholarium Ulixbon, salutem et Apostolicum benedictionem...», o que faz supor que o Papa já tinha conhecimento do Estudo Geral, quando de uma forma tão clara e tão descriminada se refere a professores e alunos da Universidade de Lisboa. Instalada desde 1290 em Lisboa a Universidade portuguesa, sofreu durante séculos mudanças constantes, ao sabor das vontades e conveniências do poder, dos professores e penso que nunca dos alunos, nem do ensino, ele próprio, embora a maioria das vezes a justificação primeira para fundamentar a mudança, fosse em nome de um melhor ensino, ora para afastar os estudantes da cidade grande e da perdição que oferecia, com consequente afastamento das aulas, ora por razões de facilidade de contratar mestres estrangeiros que só se queriam ver na cidade grande, onde podiam ganhar mais. Diziam. Mas, seria assim? A verdade é que logo dezassete anos depois, em 1307, a Universidade foi transferida para Coimbra e instalada no edifício que mais tarde viria a ser o Colégio de S. Paulo e aonde hoje se encontra a Faculdade de Letras. A cidade dispunha nessa data do Hospital de São Marcos e do Hospital de Santa Isabel da Hungria situado junto do Convento Velho de Santa Clara e fundado pela Rainha Santa Isabel, em 1290, ano em que a universidade foi criada em Lisboa.
Em 1338, a Universidade vai novamente para Lisboa e em 1354, regressa novamente a Coimbra.
Em 1377, Lisboa recebe-a novamente, continuando aí até ao ano de 1537, data em que D. João III a transfere definitivamente para Coimbra.Desde 1290 até 1493, o curso de medicina tinha apenas uma cadeira. Foi D. João II quem ordenou que o curso passasse a ter duas cadeiras – a de Prima e a de Véspera.
Não foi pelo simples facto de se chamar universidade que o curso de medicina era bom. Tempos houve em que o ensino era muito mau, com professores mal habilitados, tendo-se chegado ao estado degradado de os alunos não precisarem de fazer exames ou actos, como se dizia, e bastava a simples função de estudante ou apenas o facto de estar inscrito como estudante, para garantir acesso a determinados cargos e funções, uma das quais era o ensino. Imagine-se o despautério. Havia alunos que queriam mesmo aprender e tinham necessidade de ter lições fora da universidade, que pagavam bem, de tal modo que começaram a aparecer verdadeiras escolas privadas. A situação era tão escandalosa que o Mestre de Aviz sentiu a necessidade de determinar que todos aqueles que «lessem» fora da universidade, sofreriam penalidades que consistiam na multa de 10 libras se o estivessem a fazer pela primeira vez, 20 libras na segunda vez e à terceira seriam expulsos.
Os professores nem sempre eram bem escolhidos. Há conhecimento de um caso que é bem exemplo disso. Tendo o lente João do Rego transitado da cadeira de Véspera para a de Prima, reuniram o Reitor, Lentes e Conselheiros para procederem à eleição do substituto de João do Rego, quando comparece perante eles Mestre Afonso, físico do Rei, que lhes apresentou uma Carta Real em que este lhes pedia que «por aquela vez apenas» lhe fizessem mercê da cadeira de Véspera para o apresentante da carta que «para isso é mui douto, como sabeis». A cunha é realmente uma instituição portuguesa!No tempo em que só havia uma cadeira o grau de licenciado era obtido ao fim do tempo que o Lente determinasse e que era variável de aluno para aluno e dependia do grau de interesse e aplicação que este demonstrasse ou da menor ou maior simpatia que o Lente tivesse por ele.
No tempo de D. Fernando, foram criados os graus de Bacharel e de Doutor, sendo precisos 3 anos lectivos, com oito meses de aulas cada um, para a obtenção do grau de Bacharel e de 4 anos para o de Doutor. No fim deste tempo, os mestres e doutores tinham que se pronunciar, sob juramento, que o candidato era suficiente por ciência e costumes para o grau pretendido.Após os Estatutos Manuelinos, passou a ser necessário à obtenção do grau de Bacharel uma frequência de 5 anos e previamente obter o grau de Bacharel em Artes. Para obter a Licenciatura havia teses e defesa de argumentos, em pontos tirados de Avicena e Galeno. Para a obtenção do grau de Doutor era necessária uma lição e uma rápida discussão.
Era natural que os professores não fossem os melhores ou não se interessassem tanto quanto deviam pelas aulas que davam e pelo que ensinavam. Eram discriminados e sentiam-se por isso. Na mesma Universidade, enquanto o Lente de Leis ganhava 600 libras e o de Cânones 500 libras, o de Medicina ganhava apenas 200 libras. Custa a entender, mas era assim. O estado da Universidade portuguesa não era o melhor, o que explica que uma grande quantidade de portugueses fosse fazer o curso de Medicina em universidades estrangeiras, especialmente em Salamanca. E eram tantos os que iam, que o Rei resolveu penalizá-los. Não só obrigando-os a pagar 20 coroas à Universidade portuguesa, como obrigando-os a prestar provas perante o Físico-Mor do Reino, o que colocava as outras universidades em desigualdade e subalternidade com a portuguesa, embora fosse verdade que a maioria delas administrava um ensino de melhor qualidade.

terça-feira, agosto 01, 2006

e, se eu vos contasse? – 18.º programa – a escola médica de santa cruz de coimbra

E, em 1143, houve nome Portugal. Antes, por terras de lusitanos, tinham andado bárbaros, uns mais do que outros, romanos e árabes e castelhanos, claro. A medicina na terra de lusitanos era aquela que os povos invasores praticavam. Unia-as a diferença e unia-as a falta de qualidade. Os homens que fundam a nossa nacionalidade herdam as práticas e o conhecimento que os invasores por aqui deixaram. Naquele tempo a medicina era muito pouco diferenciada e era transmitida de pais a filhos ou de emissores a receptores, que é como quem diz de quem quer ensinar a quem quer aprender. Um boca a boca permanente de transmissão de conhecimentos, mesmo que profundamente errados, como vieram a mostrar ser, a quase totalidade desse conhecimento. Havia já, embora em menor escala, um conhecimento, errado ou não, que não passava por transmissão oral, mas pela leitura atenta e prolongada dos textos que já havia, guardados em bibliotecas à guarda das ordens religiosas, na maioria dos casos. Por isso, cabia aos frades a aprendizagem e o ensino desses conhecimentos. Foi natural que sendo a acção médica apoiada no emprego mais ou menos empírico de plantas, chamadas medicinais, os frades tenham começado a encarregar-se, nas suas tarefas monásticas, de plantar, semear e cuidar dessas plantas mais conhecidas ou tidas por mais úteis. E assim nas cercas dos conventos começaram a aparecer os primeiros hortos botânicos. De entre as várias ordens religiosas existentes parece ter sido a dos beneditinos aquela que mais se distinguiu na prática e estudo da medicina.
Teriam sido, contudo, os frades do mosteiro do Lorvão os primeiros representantes da medicina monástica portuguesa.

As ordens religiosas tiveram, desde sempre, uma grande mobilidade que tem a ver com a acção missionária que sempre as caracterizou. Não é de estranhar, portanto, que nos conventos portugueses houvesse frades de outras nacionalidades, que com eles traziam os conhecimentos e as práticas dos países de onde vinham ou eram naturais. Por outro lado, os frades sempre foram dados à leitura, meditação e conservação das informações recebidas ou por eles produzidas. Os conventos tinham as suas próprias bibliotecas e durante muitos séculos nelas se depositava o que de melhor, e nalguns casos de pior, se tinha produzido pela mente humana.
Não se pode dizer, porque isso seria totalmente falso, que os frades do Lorvão e de conventos e ordens semelhantes, fossem grandes profissionais da medicina. Se nessa altura pouco se sabia, porque razão haviam eles de saber? Mas soubessem muito ou pouco, sabiam o suficiente para serem os melhores. De tal modo assim era que muitos frades dados à prática da medicina teriam sido bispos, não porque fossem os mais piedosos, caridosos e cumpridores da profissão de fé, mas por serem os mais hábeis a tratar e cuidar de nobres e de reis e que depois eram recompensados dos seus serviços com a atribuição de bispados, uma vez que lhes estava vedado o recebimento de dinheiro ou outros bens materiais. Mas, evidentemente, já naquele tempo e mesmo com frades, alguns houve que se esqueciam dessas recomendações e tinham um bolso grande que gostavam de ver bem cheio com moedas de ouro. Isso era tão escandaloso que foram publicados éditos vários desaconselhando a prática da medicina por parte dos frades.
No que respeitava à cirurgia, a sua prática era completamente desaconselhada aos frades, de tal modo que o Papa, durante o Concílio de Tours, em 1163, publicou uma encíclica chamada «Eclesia abhorret a sanguine» que oficialmente proibia a prática cirúrgica aos clérigos. Esta proibição foi promulgada pelo Papa Inocêncio III em 1215. O édito baseava-se no direito canónico – a culpa da morte de um homem anulava para sempre o exercício sacerdotal. A Igreja, enquanto instituição, viveu durante os séculos XI e XII muito preocupada com a prática da medicina por parte dos religiosos, de tal modo que esse assunto e preocupação foi tratado, que se saiba, não apenas no Concílio de Tours já referido, mas em vários outros, nomeadamente nos de Reims, Latrão, Montpellier, Paris e Le Mans.
Foi necessário chegar ao reinado de D. Sancho I para ser criado o primeiro embrião de uma verdadeira Escola Médica, que viria a ser instalada no Convento de Santa Cruz, em Coimbra, que estava a cargo e era casa dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho.Este convento tinha sido construído pelos monges procedentes de um antigo Instituto de Coimbra, chamado de D. Paterno e que desde sempre mostraram grande aptidão para o exercício da medicina. Foi fundado nos finais do século XI, com licença concedida pelo Bispo. Esta aptidão para a acção médica era também uma realidade no Instituto de D. Jardo, Bispo de Évora e Lisboa e que resultara da transformação em 1266 do chamado Hospital de São Paulo em Colégio de São Paulo, São Elói e São Clemente, onde foram admitidos dez capelães, vinte merceeiros e seis estudantes para fazerem estudos de latim, grego, teologia e cânones, e também no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, nos Conventos de São Domingos e de São Francisco. Citei este número para mais podermos admirar a acção dos 3 únicos frades que saíram do Instituto de D. Paterno para se atirarem à obra de edificarem o Convento de Santa Cruz de Coimbra. Já o convento de Santa Cruz estava edificado e com frades bastantes, foi decidido pelo Prior enviar um dos frades a Paris para naquela avançada cidade se instruir em matéria médica e na acção médica de então, para que, depois, se pudesse dar início a uma escola médica naquele convento. Uma atitude inteligente e de aplaudir, tanto então como hoje. O que talvez seja de lamentar, então e hoje, é que o frade escolhido para ir para Paris tenha sido Mendo Dias, que era nem mais nem menos que sobrinho do Prior. Não está em causa se ele era a pessoa indicada. Talvez fosse. O que está em causa, então e hoje, é que à mulher de César não basta ser séria e é preciso que também o pareça. Então como hoje, um certo proteccionismo, uma certa forma de nos sentarmos à mesa do poder... Afirme-se também que depois de Mendo Dias, outros frades houve que também passaram por Paris...
Terá sido Mendo Dias a fundar a Escola de Santa Cruz, primeira escola médica de Portugal. Não temos que sobre ela emitir juízo de valor, pois ninguém hoje o poderá fazer com certezas e isenção. Só tem que se afirmar, e para que conste, que a Escola de Santa Cruz foi a primeira do país. Sobre isso parece não haver dúvidas. Já há dúvidas, contudo, sobre o nome daqueles que, durante o seu funcionamento, por lá passaram. Entre os habitualmente citados, destaco Pedro Amarelo, vindo expressamente da Colegiada de Nossa Senhora de Guimarães, pensa-se que para ensinar, uma vez que se sabe que ele teria sido médico de D. Afonso Henriques, depois de o ter sido do Conde D. Henrique. Também por lá teriam passado, quer a ensinar quer a aprender, Frei Gil de Santarém, figura extremamente controversa de homem devasso e dissoluto, cidadão do mundo, que acabou como frade, Julião Rebelo, pai de Pedro Julião, futuro Papa João XXI, Mestre Rodrigo, médico de D. Afonso II, Mestre Bartolomeu que teria sido médico de D. Afonso III, e, entre outros, Alle, médico mouro que terá sido médico de D. Afonso IV, e nomes sonantes da época, como Valesco de Taranta, licenciado por Montpellier depois de ter sido estudante em Santa Cruz, médico de Carlos VI de França e autor de várias tratados médicos de que se destaca pela importância que teve o «Philonium pharmaceuticum et chirurgicum», publicado pela primeira vez em Veneza, em 1490.

e, se eu vos contasse? – 17.º programa – o hospital de Rilhafoles

O tratamento dos doentes mentais, dos alienados, dos loucos ou dos malucos ou maluquinhos como outros lhe chamam, pensando que o estão a fazer de forma mais suave, foi ao longo dos tempos altamente criticável e feito das formas mais abjectas e desumanas que imaginar se pode. Em geral e porque algumas destas doenças têm fases ou manifestações de agressividade, a tendência mais comum e mais evidente era a exclusão destes doentes do resto da sociedade em casas isoladas e em espaços confinados, chegando mesmo a ser o mais corrente o encarceramento em diminutas celas, com condições sub humanas de vida. E muitas vezes para que o quadro ficasse completo, acrescentando-lhe violentos castigos corporais, supostamente terapêuticos, talvez dos agressores, direi eu. Durante séculos e séculos os doentes mentais não eram realmente tratados, mas antes maltratados. Coube a um português devasso e depois santo, São João de Deus, tentar modificar este panorama e passar a dar respeito e humanidade a estes doentes, começando por lhes arranjar instalações dignas e não degradantes. É evidente que no que respeitava ao tratamento nada conseguiu alterar, mas o que fez foi o suficiente para que nós, hoje, a esta distância de séculos, o recordemos e possamos dizer dele que foi um precursor na forma de olhar a demência ou a loucura e sobretudo na forma de com ela lidar. Mas, hoje o que vos quero contar é a história do primeiro hospital psiquiátrico português, fundado em 1848, por iniciativa do Duque de Saldanha, então primeiro ministro. Foi instalado num antigo Convento que se erguia numa das colinas de Lisboa, junto ao Campo de Santana, numa zona conhecida como Rilhafoles porque ali existiu uma grande quinta chamada de Rilha Folles nome que acabou por ser associado ao hospital que, durante muito tempo, foi conhecido como o Hospital de Rilhafoles e, só algum tempo passado, começou a ser conhecido pelo nome que ainda hoje mantém de Hospital Miguel Bombarda.O Convento de Rilhafoles, também conhecido por Hospital de Rilhafoles, foi o Convento de São Francisco de Paula, em Rilhafoles, da Congregação do Oratório de São Filipe Nery, fundado em 1717. Os oratorianos dedicavam-se à pregação e à educação católica, sendo comum o internamento compulsivo no convento, por períodos por vezes alargados, para reeducação, de jovens condenados pelo Santo Ofício por heterodoxia religiosa ou por ofensas menores à moral e aos bons costumes. Após a extinção das ordens religiosas em Portugal, o edifício do ex-convento de Rilhafoles albergou, a partir de 1 de Setembro de 1835, o Real Colégio Militar, hoje Colégio Militar, instituição que ocupou as instalações até que, por decreto de 14 de Novembro de 1848, referendado pelo duque de Saldanha e barão de Franco, foi transferido para o edifício do Convento de Mafra, por ocasião das reformas legislativas do ensino e do exército realizadas na época. Para esse edifício foram então transferidos os «loucos» que estavam no Hospital de São José, em péssimas condições e degradante tratamento humano. Três anos depois, em 1851, e apesar de o edifício do Convento ser grande, tornou-se necessário proceder à construção de um novo edifício exclusivamente destinado a balneário e que viria a ser inaugurado em 1853 pela rainha D. Maria II, no dia de aniversário do Príncipe consorte D. Fernando, 29 de Outubro. O que justificava a sua construção, segundo os médicos daquele hospital que em 1851 tinham solicitado o Plano da Casa dos Banhos, era não só a necessidade de balneário para a higiene dos doentes, mas, fundamentalmente, para a concretização de uma nova técnica terapêutica psiquiátrica que assentava no princípio que os banhos beneficiavam a cura desses doentes. E consoante o tipo de doença assim era a indicação do tipo de banho, pelo que havia a hipótese de banhos de tina ou de imersão como hoje dizemos, de irrigação, de chuva, de duches ascendentes ou laterais, de vapor ou fumigações de várias espécies. O estudo prévio para a construção desse edifício, em 1851, o chamado Plano da Casa dos Banhos, já previa a construção da casa das caldeiras, anexa e que através de tubagens levava a água aquecida para o balneário. A água aquecida e o vapor produzido nestas caldeiras e caldeirões era também aproveitado para o serviço da cozinha que ficava próxima. O balneário, como se pode ver, tem uma forma em U, abraçando com os seus três braços um páteo de forma rectangular para onde abrem os dezassete gabinetes. Entre estes e o páteo uma galeria a que podemos chamar loggia sustentada por quinze arcos de volta completa. As paredes são revestidas a azulejos azuis e brancos que dão esta imagem de beleza muito portuguesa que se pode apreciar. O páteo é fechado com um gradeamento de ferro fundido. O corpo central deste U, correspondia, pensa-se, aos banhos ascendentes laterais e de irrigação e possuía e possui uma piscina central de pequena dimensão e à sua volta as tinas de mármore, talvez das fumigações, e duas cabines tipo guarita, cilíndricas verticais, todas em mármore e com depósito de água no topo e tubagens concêntricas em cobre. Na retaguarda do balneário situam-se dois pequenos jardins, murados e de formato triangular. Num deles, o maior, existe uma escada com arco que dá acesso a um terraço onde se encontram depósitos de água e o acesso à caixa do telhado onde ainda existem várias canalizações com ligação ao sector das caldeiras. Na empena direita do edifício existe uma fonte de três bicas, muito curiosa. Este magnífico conjunto de balneoterapia foi em Julho de 1999 proposto para classificação patrimonial ao Instituto do Património, por iniciativa da direcção deste hospital e acompanhado de uma Memória Descritiva elaborada pelo Dr. Vitor Albuquerque Freire. Em 1892, foi nomeado director do hospital o Professor Miguel Bombarda que já nessa altura era uma figura reputada de psiquiatra e político. Porque o número de doentes tinha crescido muito e ultrapassava já muito a dotação de 300 doentes para que fora criado e que então era já de meio milhar, entendeu Miguel Bombarda que era necessário construir novos edifícios para internamento dos doentes excedentes e um pavilhão especial para os chamados alienados criminosos ou perigosos, o chamado pavilhão de segurança, mais tarde chamado de oitava enfermaria. Miguel Bombarda mandou fazer, para além destes edifícios, percursos pedonais entre os jardins, rapidamente baptizados de «passeios dos alegres». O pavilhão de segurança começou a funcionar em 1896 e pretendia dar cumprimento a uma Lei de 1889 que mandava que os alienados criminosos fossem internados e tratados em enfermarias anexas às penitenciárias e nas que lhes fossem reservadas no hospital de Rilhafoles. Miguel Bombarda deu nova interpretação a esta Lei e entendeu que o Pavilhão de Segurança não seria apenas para os alienados criminosos, mas também para aqueles que se mostrassem perigosos ou com uma maior tendência para a fuga, obrigando a maiores cautelas na sua guarda. Para ele os alienados perigosos num hospital são doentes como os outros e por outro lado, doentes há que não sendo criminosos são ainda mais perigosos que esses. Este Pavilhão, como podem ver, dispunha-se de uma forma circular, dentro do conceito arquitectónico da época, o chamado sistema panóptico, de que era grande defensor o arquitecto Jeremy Bentham e muito usado nas novas cadeias em que as celas se desenvolviam em círculo, com dois pisos e à volta de um páteo coberto. Este sistema permitia uma vigilância constante e fácil de todos os presos, uma vez que as celas tinham portas de grades e deixavam ver o que se passava no seu interior. Mas, Miguel Bombarda e quem fez o desenho da obra, sabiam bem que aquilo não era uma cadeia, mas sim um hospital. Por isso o pavilhão de segurança tem a forma circular, mas não se encerra sobre si próprio, mas antes se abre para um jardim, por onde os doentes circulam quando se deslocam ao refeitório ou sanitários. Também não tem portas de grades, mas portas de madeira, defendendo a privacidade dos doentes. Reparem nestes bancos corridos entre as portas dos quartos, cuidadosamente boleados, para não terem arestas vivas que podiam ser perigosas em doentes muitas vezes agitados, do mesmo modo que a transição das paredes para as portas era também arredondada. As portas possuem um óculo para vigilância.

quinta-feira, julho 27, 2006

e, se eu vos contasse? – 16.º programa – o hospital da estrela ou estrelinha

O Hospital da Estrela ou da Estrelinha, como também lhe chamavam, antes de se instalar no edifício onde ainda hoje se encontra, esteve sediado em vários locais de que não vos vou falar, pois para isso não chegariam dois programas. Resolvi, contudo, contar-vos antes a história do Hospital de São Bento da Saúde ou São Bento o Novo, porque este, de uma forma indirecta, se prende ao hospital da Estrela e eu já vos explico como. Este convento iniciou a sua construção em 1598 e só veio a ser terminada em 1615, para instalar parte dos frades beneditinos que viviam até aí no Convento Beneditino da Estrela, da Estrelinha, ou São Bento o Velho, e de onde precisavam de sair, por este passar a servir apenas para o noviciado. Por isso, os frades beneditinos mandaram construir este novo convento na Quinta da Saúde ou da Bem Ganhada, ou melhor dizendo, o construíram eles próprios, pois era obrigação desta ordem que os seus frades dedicassem sete horas por dia ao trabalho braçal e duas horas ao estudo. O tempo restante era para as missas, as orações, a alimentação e a dormida. No mês de Maio do ano de 1808, vários engenheiros e médicos militares visitaram o Convento de São Bento da Saúde, com vista a instalarem nele um hospital militar. Quando foram visitados pelos engenheiros e médicos militares, os frades não gostaram da graça e consideraram isso um abuso, uma vez que já tinham cedido parte do convento da Estrela. E diziam eles que, uma vez ainda vá, agora duas ...! Requereram, por isso, a Junot, no sentido de não serem ocupados e pediram a protecção do Conde da Ega. Como o convento não foi ocupados nessa altura, concluíram que isso se ficara a dever à à protecção do dito conde da Ega, facto que este não só nunca negou como logo aproveitou para pedir emprestadas 40 moedas de ouro ao Prior. Este deve ter-se arrependido mil vezes de as ter emprestado, pois logo no dia 22 de Agosto desse mesmo ano, o Intendente Geral da Polícia Francesa expediu um Aviso em que obrigava os frades a franquearem o convento, para ali se instalar um hospital, para receber os soldados franceses feridos na batalha do Vimeiro, que chegaram logo nos dias 23 e 24 de Agosto e passavam de setecentos. Depois disso, o convento serviu para instalar outros hospitais, nomeadamente o dos soldados ingleses, único que tinha a especial característica de dispor de enfermeiras inglesas, e que se supõe serem familiares das tropas estacionadas em Portugal. E, no que respeita à saúde acabou por ser Depósito de Convalescentes, o chamado Hospital dos Soldados Portugueses Convalescentes. Depois disso, este convento serviu para instalar as Cortes, em 1834, depois a Câmara dos Pares e dos Deputados, a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e hoje a Assembleia da República. O Convento em que actualmente está instalado o Hospital da Estrela, foi construído pelos frades da Ordem de São Bento de Tibães, em 1572 ou 73 e é considerado pelos historiadores, o primeiro convento beneditino de Lisboa. Foi construído na chamada Quinta de Campolide, que pertencia ao Governador da Guiné, Luís Henriques que, por desmandos vários, seus e do seu genro Duarte Peixoto da Silva, a hipotecara a um negociante do Algarve, António Nunes, a quem estava devedor de uma grande soma de dinheiro e com quem andava em litígio. Teria sido o Cardeal D. Henrique a resolver o diferendo, mandando pagar a dívida e dando ainda uma indemnização ao capitalista algarvio, para que os frades construíssem ali o seu convento. Esta é uma versão, apenas uma versão, como sucede muitas vezes nestas coisas da História. Há quem diga que o que verdadeiramente se passou, foi que os frades beneditinos tinham ocupado a quinta do Governador da Guiné, sem permissão, e que quando este regressou e verificou tal facto, ficou furioso e explodindo de raiva. Mas quando viu a igreja que os frades tinham arranjado, a sua beleza e religiosidade, terá acalmado, felicitado os frades e deixando-os ficar. Tenha sido assim ou assado, há uma coisa em que a História concorda – é sabido que Luís Henriques ficou viúvo e logo de seguida se fez frade naquele convento e naquela Ordem. Quando morreu, os frades fizeram uma lápide em que escreveram «aqui jaz Paulo Henriques(ou Luís?), religioso de São Bento, o qual fez estas casas antes de monge, que depois foi neste mosteiro. Faleceu a 9 de Junho de 1575».
Há uma história que eu gostava de vos contar e que se prende com a razão do convento se situar aqui. História ou lenda, quem saberá? Diz-se, e vamos ficar por esta forma, que Frei Plácido de Vila Lobos, juntamente com Frei Pedro Chaves, teria vindo a Lisboa ver o que se passava com os frades da sua ordem, porque constava que algo de anormal se passava. Terá concluído que se tornava necessário encontrar instalações condignas e que seria útil para os frades trabalharem na construção do seu convento, pelo que se pôs à procura de um local que fosse indicado para o convento. E um dia, após o sermão que acabara de fazer na igreja do convento das Religiosas na Esperança, quando descia as escadas do púlpito, apareceu-lhe ao fundo delas, um homem idoso e de ar nobre, todo vestido de preto, que lhe terá dito que sabendo que ele procurava um local indicado para construir o convento dos beneditinos, ele sabia desse local ideal para o construir e estava disposto a mostrar-lho. E, logo de seguida, o terá levado à chamada Quinta de Campolide, que Frei Plácido Vila Lobos adorou. E quando se virou para lhe agradecer e manifestar o seu interesse naquele local, o homem tinha desaparecido, como por encanto, o que terá levado Frei Plácido a pensar que tinha sido o seu Santo Patriarca que, daquela forma, o viera ajudar.
Por Aviso de 21 de Novembro de 1817, da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, foi decidida a ocupação e utilização de parte deste Convento, então com o nome de Colégio de Nossa Senhora da Estrela, desde que passara a ser exclusivo do noviciado, para ali se instalar a Repartição dos Hospitais Militares, ou 6ª. Repartição e no ano seguinte a Botica Geral do Exército, tendo esta ocupado o refeitório e servindo-lhe de armazéns, os corredores superior e inferior que correm ao lado da Igreja, do lado da porta do Evangelho.
No ano de 1834, foi transferido para este Convento, o Hospital Real Militar da Corte, que até então funcionara nas Janelas Verdes (Hospital de São João de Deus e que entretanto tomara a designação de Hospital Militar de Lisboa) e posteriormente em Xabregas.
Só em 1851, por Decreto de 6 de Outubro, se pode considerar como definitiva a sua instalação. Um Decreto de 2 de Dezembro desse mesmo ano, dá-lhe o nome de Hospital Militar Permanente de Lisboa. Já no século XX, passou a chamar-se Hospital Militar Principal, nome que ainda mantém.

quarta-feira, julho 26, 2006

requiem por um amigo, elogio de um pintor

Quiseram os deuses marcar-te com a força da natureza. Nasceste selvagem e livre, como livre morreste. Indomável e louco. Saudavelmente louco, como todos deveríamos ser.
Nasceste, segundo me disseste, em família rude, mas honrada. Em que o trabalho era divisa e necessidade. Trabalho duro, regado a suor, mas nunca a lágrimas, porque havia orgulho e honra naquilo que faziam. Cara levantada, olhar directo, falar claro e certo. E cada pancada no ferro, domava este e a personalidade de quem o moldava.
Foi nesse meio que nasceste, cresceste e aprendeste a lei da casa, a lei das ruas, o trabalho duro, mas honrado. Os mesmos deuses que te fizeram nascer selvagem e livre, tinham-te destinado outro futuro, tinham determinado que tivesses asas e as soubesses usar e com elas ousasses chegar aonde a tua vontade, o teu destino, te levassem.

Os teus braços fortes que todos pensavam ser destinados a malhar o ferro, a serem peças fundamentais da engrenagem para a fabricação do que te exigiam, eram, quem diria, os transmissores da tua forte sensibilidade, segurando pincéis de fina marta, em vez do martelo e da tenaz. Esses braços fortes não tinham, afinal, sido feitos para malhar o ferro e metê-lo na caldeira, mas para empunhar suave e delicadamente as armas que os deuses te destinaram, os pincéis e a paleta. E que de uns e de outra fizesses a base onde prepararias aquilo que a tua mente passava desordenadamente, (ou seria organizadamente?) aos terminais últimos de teus neurónios, aquela trama de finos nervos que te faziam colocar o pincel na tela, não de qualquer modo, não com qualquer cor, mas como teu coração e sensibilidade mandavam.
E sentiste claramente que tinhas asas, que te tinham sido dadas para delas te servires. Não sei em que idade começaste a borrar a tela, o papel, ou a madeira, porque não deverias ter dinheiro para comprar o material devido, que nessa altura ainda devias considerar luxo de pintores. E o que tu precisavas era de pintar, de fabricar as cores e dares-lhe arrumo no espaço que para elas criaras. Imagino que a pouco e pouco, terás começado a usar melhor papel do que o dos blocos escolares e te tenhas aventurado um dia a comprar um caderno de bom papel para desenho, aguarela e óleo. Do que te terás privado nesse dia em que te deste a alegria de comprar tal bloco? Não saciaste a fome esse e outro dia, não mudaste os sapatos que ameaçavam ruína e te molhavam os pés como se estivesses descalço? Não sei do que te privaste, mas tenho a certeza que fizeste um sorriso lindo, deste uma das tuas gargalhadas inconfundíveis e pensaste, mais uma vez, que o teu destino estava traçado e seria feito de traços, de riscos, de manchas, de borrões, de jogos e subtilezas, de amor e de sarcasmo. E porque não de sofrimento?


Foi com esse destino assim traçado, que partiste, bolsos vazios, para Paris. Não conhecias a língua, não tinhas aquilo com que se compra o pão. Mas tinhas um tesouro enorme, do tamanho de um sonho que acreditavas poder realizar. Sabias, sem ninguém to ensinar, que tudo que tem a ver com o sonho, com os sentimentos, com a arte, tem a sua própria língua, o seu próprio entendimento. E sabias que só através da arte que sentias morar dentro de ti, havias de te realizar, de ser.
E um dia regressaste, com os mesmos bolsos vazios e a alma cheia, não do que te ensinaram, mas do que tu soubeste ler nas obras dos mestres. Aprendeste, sem mestre, onde ficava a barreira entre o génio e a banalidade. Aprendeste o que fazia a distinção entre umas cores e outras, aparentemente iguais, a diferença que havia na força imprimida aos pincéis, como aprendeste os claros e os escuros, o mapa da alma e dos sentimentos, vertido em cores e pinceladas. Percebeste que aprendias mais olhando demoradamente, horas a fio, dias incontáveis, para a tela de um mestre em um qualquer museu, do que no continuado Iinguajar daqueles que se intitulam professores e o são apenas da banalidade, nunca do génio. Aprendeste, sem saberes que o apreendias, aquilo que Picasso diria, e hoje qualquer um repete, que nada se procura e tudo se encontra, porque já lá está, na forma própria de ver, na luz irrepetível daquele fim de tarde, no sorriso ou na máscara com que se cruza na rua, no caos e na desordem, na beleza e no prazer.

Nasceste cedo de mais neste País que só acordou para a Arte tarde de mais. No sentido, e apenas nesse, que a Arte, tal como a Poesia, é também para se comer. Por isso a vida não te foi fácil. Por isso, tiveste que viver muito abaixo do que merecias. E muito acima de quase todos, porque nasceste selvagem e livre. Indomável. Com sentimentos. Sempre te recusaste a pactuar com esquemas e arranjinhos comerciais, com beija mãos àqueles que constroem mitos e por vezes destroem génios. Sempre foste um marginal, por inteiro. E ao longo da tua vida a pintura foi nascendo, foi crescendo, sempre livre de correntes e de modas. Tu pintavas apenas o que vias, como vias, como sentias. E sempre expressaste em voz bem alta, sem qualquer receio de seres ouvido, aquilo que pensavas, da arte, dos artistas, da vida, dos amigos, das mulheres, da política. E sempre assim fizeste, mesmo quando dizias autênticas barbaridades, e te referias ao que não era verdadeiramente teu e não correspondia ao teu sentir, mas àquilo que tu tinhas aprendido apressadamente em leituras oblíquas, mal digeridas. Mas, mesmo nessas ocasiões todos te ouvíamos, porque sabias emprestar à tua fala uma vivacidade e uma sonoridade únicas. O teu riso era contagiante, sadio quase sempre, outras vezes sarcástico, muitas vezes destrutivo. Mas era sempre teu, com marca de origem. Quando tu rias ou falavas todos sabiam que era o Júlio Pereira quem tinha falado ou rido. E tu tinhas tanto de que rir ...
A tua presença impunha-se e ninguém ficava indiferente, mesmo que discordassem de ti, mesmo que dissessem que não eras um pintor a sério e eras apenas um marginal. Sentado numa das mesas da Brasileira, entre tantas cabeças pensantes, tantos artistas consagrados, a tua presença notava-se, mesmo que fossem os outros os detentores da fama, os auferidores das benesses e dos proventos. Quando gargalhavas, nessas alturas, aquilo que se ouvia nada era comparado com aquilo que calavas. E tu tinhas tanto de que te rir ...
Se os teus braços eram fortes, era maior ainda o teu coração e a tua generosidade. Se com os braços abraçavas sincera e fortemente os amigos, com o teu coração amava-los realmente. Para as mulheres tinhas um compartimento muito especial nesse teu coração grande e conseguias amar várias ao mesmo tempo, sem atraiçoar nenhuma. Nasceste selvagem e livre.
Talvez por isso, só agora os teus amigos tenham resolvido ou conseguido, fazer-te a justiça e a homenagem que sempre mereceste em vida. Não sei, nem sou habilitado para o saber e muito menos para o dizer, em que lugar do ranking dos pintores te situavas ou até se te encontravas fora ou dentro dele. Mas sei, isso eu sei, que eras um grande pintor, autêntico, palpável.

Sei que o que fazias não o fazias de qualquer modo. Sempre o fazias como achavas que tinha de ser, com a mesma verdade e entrega que punhas em tudo. Sei, isso eu sei, que poucas vezes ficaste satisfeito com aquilo que fizeste e que poucas vezes – nenhuma vez – consideraste a obra acabada. Sei, isso sei, que só te saía das mãos aquilo que sentias, e nunca um rodriguinho encomendado, por um qualquer comprador. Mas apreciavas os mecenas, porque sabias que os que o são verdadeiramente, amam a arte pela arte e respeitam o artista e o seu trabalho. Apreciava-los, mas nunca tiveste nenhum. Terá sido porque não havia nenhum ou porque lhes constava que tinhas mau feitio e eras um rebelde? Dos amigos, penso que não te podias queixar. Não sei quantos tinhas, nem isso me importa. Basta-me saber que tinhas amigos que nunca te faltaram.

Eras selvagem, sim. Selvagem e indomável. E algumas coisas não fizeste por seres assim. Lembras-te de um sonho comum que tiveste com o Alexandre O'Neill? Fazerem um livro, que chegou a ter forma, e que intitularam de «Capricórnio e o Amor»? Lembras-te de ambos terem destruído esse sonho à mesa da Brasileira e de assim nos terem privado do que teria sido uma boa obra? Lembras-te de teres chegado ao atelier, e com a raiva, teres destruído quase todas as telas que tinhas pintado para esse livro? Sabes que uma das que se salvaram, talvez mesmo a única, ma ofereceste um dia por pensares que ficava em boas mãos? E sabes Júlio, que ficou mesmo? Quando olho para ela é a nossa amizade que está ali, a memória daquelas vezes que telefonavas a dizer que ias jantar a nossa casa, ou tocavas à campainha, simplesmente, como se fosses o irmão que tinha chegado da província. Sempre disseste que a comida estava boa, o que significa que realmente sempre esteve, pois se assim não fosse, terias dito que não prestava. Bom vinho este, dizias ainda. E era quase certo que logo depois de jantar – normalmente só chegavas na altura de caíres no prato da sopa – ­entravas na sala, olhavas para as paredes e com um ar de amigo que aconselha e quer ajudar, dizias «Ainda aqui tens estas merdas? Desfaz-te delas, porque os teus netos nunca as verão porque tudo isto vai desaparecer, o que não deixa de ser uma sorte para eles. Isto não é pintura, é moda, é merda, e vocês como perfeitos ignorantes, vão atrás das modas e dos nomes, do canto de sereia dos marchands e depois é isto que se vê. Uma merda». Bom, é isto. Pintura, é isto. Dizias tu quando olhavas para um Escada, para um Sá Nogueira. Quantas vezes me terás dito isto, Júlio? E, sabes que só agora começo a acreditar em ti e a perceber que estavas certo?
Eram grandes os teus sonhos como eram grandes tuas fantasias.
Quantas coisas deixaste por fazer e que sempre sonhaste ou prometeste
fazer. Mas a realidade nem sempre acompanhava teus sonhos. Os ritmos eram diferentes, como diferentes eram teus hábitos de trabalho, teu ritmo circadiano.
Lembro-me bem de quando e onde nos conhecemos. Foi numa festa em casa de amiga rica, ali ao Campo Pequeno. Lembro-me de quando entrei e te vi, ter pensado que estavas ali deslocado, fora do teu habitat, do teu conceito de vida. Pensei que devias ser o marginal, o intelectual, o artista de estimação, que o dono da casa exibia como animal raro que se conhece. Não tinhas nada a ver com a maioria dos que ali se encontravam e percebi que talvez só te fosse possível falar comigo ou com a nossa comum amiga e dona da casa, da festa e centro das atenções de todos, pelo seu andar de tigre, a profundidade do olhar, a voz sussurrada e dolente, a promessa adivinhada (ou apenas desejada?). Rapidamente percebi que em vez de um já éramos dois os que estavam ali deslocados. E passado pouco tempo chegámos à fala. Lembro-me de me teres dito, sem o teres perguntado a alguém, « você é médico e quase de certeza cirurgião». Pouco tempo mais usaste o você. Conversámos longamente, tuteando, afinámos padrões, que nem tu ou eu queríamos, e encontrámos a dizer-nos «E se nos puséssemos a cavar? Gosto muito da Maria, mas não vale tal sacrifício». Foi pouco depois que disseste que querias fazer o meu retrato, não propriamente o meu, mas o do médico que eu simbolizava. E morreste sem o fazer, apesar de para ti eu ser o amigo e o médico. Mais o amigo que o médico.

Lembras-te do retrato do Camilo que eu encontrei inacabado num vão do teu atelier e que para ali tinhas atirado, pensando que definitivamente? E de te ter pedido que o acabasses porque o achava um quadro espantoso? Tu discordaste e deves ter dito que já era altura de perceber alguma coisa sobre o que era a arte. Eu insisti. Acaba-o, por favor. Passado muito tempo telefonaste-me uma noite, era já madrugada alta, a dizer que ias, nesse momento, levar-me o Camilo que tinhas acabado de pintar. Quando tocaste à porta acompanhado pela tua paixão do momento e o mostraste, ainda fora de casa, esse Camilo que acabaras, eu ia morrendo com o choque. Aquele Camilo não tinha nada a ver com o outro que te pedira para acabares. Era um quadro completamente diferente. Chocou-me sobretudo a cor verde batráquio com que lhe pintaras a cara, contrastando fortemente com um azul berrante e um castanho forte com que o vestiras. Do quadro anterior, por quem me tinha apaixonado, apenas restava, com uma imagem bastante próxima da que eu considerava original, uma Fanny Owen lindíssima e um perfil de um outro Camilo, como que saído de uma nota de Banco. Por cima da Fanny tinhas escrito – Fany. O sinal que distinguia aquilo que realmente sabias, daquilo que pensavas que sabias. Reagi mal e penso que te disse que tinhas estragado o meu Camilo. Logo me disseste que aquele não era o meu Camilo, mas o do Júlio Pereira, pintor. Num daqueles teus gestos teatrais disseste-me ainda que finalmente eu tinha em casa, uma autêntica obra de arte. Nem sei se dormi bem essa noite. O teu Camilo ficou no chão, encostado à parede. Por lá se manteve algum tempo e eu fui-o aceitando e admirando cada vez mais, até que resolvi dar-lhe destaque na parede. Tinhas mais uma vez razão, Júlio. Hoje, eu sei que o teu Camilo é uma grande pintura.
Que sempre foste um grande pintor nunca duvidei. Que sempre fomos amigos, nunca duvidámos. Que devias estar vivo, tenho a certeza.

Agradeço teres-me ensinado a pôr o tabaco no cachimbo. Como um pescador holandês te tinha ensinado a ti, dizias tu. A sabedoria das pressões, do calcar do tabaco. Como uma criança, como um adolescente, como um homem. Não sei se algum dia te perguntei quando tinhas estado na Holanda. Acrescentava alguma coisa à técnica que me ensinaste, saber se o Hans existiu?
Mas nunca conseguiste convencer-me a jogar xadrez contigo. Terá sido porque eras um grande jogador e eu não sei perder?
Por isso, para mim, tu não morreste, mesmo que todos digam que sim e que até fui ao teu funeral, onde não querias nem flores, nem chocolates, nem guarda-chuvas, nem espanhóis ... Mas, ninguém consegue fazer-me acreditar que morreste ..
Decididamente não sei perder, muito menos um amigo. Até breve, Júlio.
O teu amigo incondicional
Carlos Vieira Reis

E, se eu vos contasse? – 15.º programa – a fundação da cruz vermelha portuguesa

Nos tempos antigos, era regra que o vencedor matasse os inimigos feridos e, se alguma vez os poupava, era apenas para os exibir como trofeus e prisioneiros de guerra e depois utilizá-los como escravos. Mas, mesmo nesses tempos, havia excepções e sabe-se, por exemplo, que Cirus, rei dos persas, que dispunha de bons médicos no seu exército, ordenava-lhes que tratassem os caldeus feridos e feitos prisioneiros, de igual modo que tratavam os seus soldados. Os hindus tinham uma lei, chamada Manou, que já alguns séculos antes de Cristo, proibia a condenação à morte dos inimigos desarmados, adormecidos ou feridos.
Mas a primeira grande tentativa de modificar o que até aí era norma, veio da parte do sultão Saladino que, nos fins do século XII, tentou conseguir que os feridos de guerra fossem considerados neutrais; durante a guerra que nesse tempo mantinha contra os Cavaleiros da Ordem de São João Hospitaleiro, o inimigo da altura, acordou com eles a permissão de virem cuidar dos seus feridos no campo do inimigo.
Ao longo dos tempos foram aparecendo tentativas várias de resolver o problema. Jean-Jacques Rousseau, no seu «Contracto Social», escrevia em 1762 que a «guerra não é um conflito entre pessoas, mas entre estados; os combatentes só são inimigos na sua qualidade de soldados e não na de homens, pelo que desde que deponham as armas deixam de ser inimigos».
Mas, o grande passo iniciou-se apenas no século XIX, pela mão de Jean Henry Dunant, que nasceu em Genebra no dia 8 de Maio de 1828, nascido no seio de uma família próspera, respeitada e preocupada com os problemas sociais e o bem estar da comunidade.

Dunant, desde tenra idade, foi imbuído pelo espírito caritativo dos seus progenitores. Iniciou, em 1853, a sua carreira profissional como banqueiro. Posteriormente, investe todos os seus bens na Argélia, colónia francesa, em moinhos de milho. Uma viagem de negócios, com vista a obter de Napoleão III, Imperador de França, autorização para a sua empresa explorar as quedas de água necessárias ao movimento dos seus moinhos, torna-o testemunha de uma sangrenta batalha entre os exércitos austríaco, francês e italiano.
A visão deste campo de batalha, conhecido por Batalha de Solferino, juncado de milhares de mortos sem sepultura e feridos padecendo de atrozes sofrimentos e entregues ao mais completo abandono, sensibilizou Dunant. Tocado por uma imensa piedade, organiza, de imediato, numa das Igrejas de Castiglione, um hospital prestando socorros voluntários com o apoio dos habitantes. «Como irmãos», dizia ele, é que se deviam tratar uns e outros.


Tão impressionado ficou que resolveu escrever um livro sobre essa experiência, que intitulou «Souvenir de Solferino». A divulgação deste livro foi importante pois deu a conhecer a muita gente a crueldade da guerra que até aí a desconhecia, levando assim essa gente a pensar nos pobres soldados feridos na guerra. Dunant nunca mais descansou até que em Fevereiro de 1863, quatro cidadãos se juntaram a Dunant para levar a cabo um projecto de constituição do "Comité Internacional de Socorro a Feridos", que, mais tarde, viria a ser designado "Comité Internacional da Cruz Vermelha". Em resposta ao convite do Comité, especialistas de 16 países reuniram-se em Genebra, em Outubro de 1863, para adoptar as 10 Resoluções que formaram a Carta da Cruz Vermelha. Estavam, pois, definidas as funções e os métodos de trabalho para socorro a feridos. A partir desse momento, a Cruz Vermelha tornou-se uma realidade.
A Conferência Diplomática de 1864, celebrada em Genebra, contando com a presença de 36 delegados de 16 países e a representação oficial de 14 governos, dá lugar ao nascimento do Direito Internacional Humanitário, com a assinatura da I Convenção de Genebra.

Esta Convenção supõe a materialização de um marco jurídico, dentro do qual se podia desenvolver uma acção efectiva de socorro aos feridos. As instalações médicas militares, os veículos e o pessoal sanitário, deviam ser considerados neutros e, deste modo, protegidos, embora com a relutância dos chefes militares que não viam com bons olhos, o importante papel desempenhado pelos civis na organização do serviço de saúde militar. Na primeira página da Convenção de Genebra de 22 de Agosto de 1864, entre outros reis de países europeus, figura o de Sua Majestade o Rei de Portugal e dos Algarves, como um dos fundadores da Convenção, para melhorar a sorte dos militares feridos em campanha. Foi criado o símbolo da Cruz Vermelha, invertendo a bandeira da Suíça, como homenagem ao país onde ela se fundou. Por outro lado e, de certo modo, era a representação do símbolo da caridade usado pelos Pais da Boa Cruz, de Santo Camilo de Lellis. Este símbolo passou também a significar, quando usado como braçadeira, que o portador era enfermeiro voluntário.
A Convenção tinha 10 artigos, que se podem resumir assim – neutralidade das enfermarias, hospitais, ambulâncias e seu pessoal, cuidados e protecção dos feridos de ambas as partes, a dar pelos habitantes da região onde a guerra se desenrolasse, reenvio para casa dos soldados feridos que ficassem inválidos após a sua cura, protecção dos hospitais, enfermarias, depósitos de material e pessoal de saúde, tudo sob a insígnia da Cruz Vermelha. O artigo 9º, destinava-se aos países que não tinham estado presentes, exortando-os a aderirem e a assinarem a Convenção.
A dedicação ao trabalho humanitário em que se envolvera fê-lo descuidar os seus negócios. Abre falência e perde a sua respeitável posição de cidadão de Genebra. Caído em desgraça na sua cidade natal, exila-se em Paris, onde, conservando a fé nos seus ideais, luta, com todas as suas forças, por causas nobres, muitas das quais vingarão anos após a sua morte.
Esquecido, pobre e enfermo é internado num hospital em Heiden, Suiça, onde permanece nos restantes dezoito anos da sua vida. A sua solidão só é quebrada, em 1895, com a visita, ocasional, de um jornalista – Baumberger que, emocionado com a sua história, publica um artigo que altera a atitude do mundo para com Dunant e lhe dá um novo alento, ajudando-o a esquecer a humilhação que sofrera.
Em 1901, reconhecendo-se o seu valor, é agraciado com o primeiro Prémio Nobel da Paz. À data da sua morte, 30 de Outubro de 1910, então com oitenta e dois anos de idade, o prémio estava intacto e destinado, por testamento, ao pagamento das suas dívidas e a obras filantrópicas.
A sangrenta batalha ocorrida, em 1859, em Solferino e o manuscrito de Jean Henry Dunant originaram o nascimento de um movimento humanitário que se estendeu a todos os cantos da terra - A Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho.
Em sua homenagem, o dia do seu nascimento é comemorado em todo o mundo como o Dia Mundial da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.


Ao congresso de 22 de Agosto de 1864, esteve presente, como representante de Portugal, o cirurgião militar José António Marques, que no seu regresso a Portugal, iniciou todas os contactos necessários à constituição em Portugal, da Comissão Portuguesa de Socorro a Feridos e Doentes Militares em Tempo de Guerra.

Formou uma comissão organizadora, que reuniu logo em 11 de Fevereiro de 1865, para discussão dos estatutos. Estes só viriam a ser aprovados, por decreto, em 26 de Maio de 1868. Para além de José António Marques, constituíam essa comissão, mais dois médicos militares, João José de Simas e Bernardino António Gomes e vários civis como o Barão de Wiederhold, Augusto Xavier Palmeirim, António Maria Barbosa e Carlos Cyrilo Machado.
Em 1877, esta comissão foi reformulada, dando lugar à Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, com estatutos aprovados em 4 de Maio desse ano. Entraram mais sete médicos militares, de que destaco Guilherme José Enes e António da Cunha Belém, dois prestigiados médicos daquele tempo. Foi seu primeiro secretário geral, José António Marques, sendo presidente o General Augusto Xavier Palmeirim. Como protectores o rei D. Luís I, a rainha D. Maria Pia e o rei D. Fernando e vários presidentes honorários, quase todos fidalgos da melhor estirpe.
Para além da sua acção na guerra, a Cruz Vermelha alargou a sua actividade ao tempo de paz, nomeadamente nas reformas higiénicas, na acção social e nas catástrofes naturais, correio, serviço de desaparecidos, campos de prisioneiros, etc...
Nos estatutos da Cruz Vermelha portuguesa, pode ler-se que é sua missão «vulgarizar por meio do ensino e do exercício, o conhecimento dos socorros ministrantes a prestar no caso de todos os desastres, de maneira que esse ensino aproveite, não só ao pessoal de enfermeiros para o serviço de campanha, como também aos agentes de polícia, bombeiros, marítimos, etc...»
Hoje, a Cruz Vermelha está em todo o mundo. Para além do seu símbolo inicial, adoptou outros em função dos credos religiosos e das etnias, como o crescente vermelho, a estrela de David ou o novo cristal Cristal Vermelho.
São regras básicas da Cruz Vermelha:

Os ataques têm de ser limitados aos combatentes
e aos objectivos militares.
Os
civis não podem ser alvo de ataques;
As estruturas civis não podem ser atacadas (casas, escolas, hospitais, igrejas, monumentos históricos);
É proibido utilizar civis para proteger
objectivos militares;
É proibido aos
combatentes disfarçarem-se de civis;
É proibido utilizar a fome nos civis como método de combate;
É proibido atacar os objectos indispensáveis à sobrevivência da população civil (alimentos, terrenos para cultivo, água potável);
É proibido atacar barragens, centrais nucleares e diques se tais ataques causarem baixas entre a população civil.
São proibidos ataques ou armas que atinjam indiscriminadamente pessoas e
objectos civis e militares causando sofrimento excessivo.
São proibidas armas específicas - químicas, biológicas, laser e anti-pessoais que causem cegueira, feridas por fragmentos não detectáveis a raios X, envenenamentos, etc;
É proibido ameaçar a sobrevivência das populações.
Civis, combatentes, feridos e presos têm de ser poupados e tratados humanamente.
Ninguém pode ser sujeito a tortura física ou mental, punição corporal ou tratamento cruel ou degradante;
É proibida a violência sexual;
As partes do conflito têm que assistir e tratar os inimigos feridos e doentes que estão em seu poder;
É proibido matar ou ferir um inimigo que se esteja a render ou
fora de combate;
Os presos têm direito ao respeito e têm que ser tratados de maneira humana;
É proibido fazer reféns;
É proibido obrigar a população civil a deslocar-se;
A chamada "limpeza étnica" está proibida;
As pessoas nas mãos do inimigo têm a possibilidade de trocar mensagens com as suas famílias e de receber assistência humanitária (alimentos, cuidados médicos, assistência psicológica, etc.);
Grupos vulneráveis, como mulheres grávidas e mães que amamentam, crianças não acompanhadas, velhos, etc., têm que receber uma protecção especial;
As crianças com menos de 15 anos não podem ser recrutadas como
combatentes;
Todos têm direito a um processo justo (tribunal imparcial, procedimento regular, etc.). A punição colectiva está proibida.
O pessoal médico e as estruturas sanitárias (hospitais, clínicas, ambulâncias, etc.) têm que ser respeitadas e protegidas, recebendo toda a ajuda possível para a realização das suas missões.
O emblema da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho simboliza a protecção do pessoal médico e das instalações. Ataques a pessoas ou objectos mostrando o emblema são proibidos.
É também proibido utilizar o emblema indevidamente; unidades médicas e transportes não podem ser utilizados para perpetrar actos ofensivos contra o inimigo.
A prioridade no tratamento do ferido ou do doente obedece unicamente a regras médicas.

domingo, julho 23, 2006

E, se eu vos contasse? – 14.º programa – as misericórdias

A saúde em Portugal esteve sempre condicionada por dois factores crónicos – a falta de dinheiro e a má organização ou, melhor dizendo, o mau planeamento. Contudo, ao longo dos tempos, sempre houve gestos correctivos e inovadores que, pelo menos durante algum tempo, ajudaram a uma melhor assistência e a maiores benefícios para a população doente. No fundo, isso sucedeu sempre que alguém parou para pensar ou sempre que se colocou a inteligência ao serviço da saúde. Todo este intróito para lembrar que até ao século XVI, melhor dizendo até aos últimos anos do século XV, continuava a ter-se a noção de que tudo servia para hospital desde que houvesse onde deitar os doentes e eles estivessem protegidos das intempéries. Chamava-se hospital a qualquer local que recolhesse doentes e nunca se cuidava de procurar que esses hospitais tivessem as características próprias dos verdadeiros hospitais desse tempo. Como é bom de ver, estes hospitais desenvolviam-se como cogumelos e bons ou maus tinham sempre uma característica comum que era terem despesas constantes e pesarem no orçamento de quem os sustentava. Foi preciso que alguém fizesse o raciocínio simples, e repleto de senso económico, de concluir que se se juntassem os doentes em verdadeiros e poucos hospitais, se podiam prestar melhores serviços e gastar menos dinheiro. Num outro programa falei-vos disto por alto, quando vos expliquei as razões que levaram à fundação do Hospital Real de Todos os Santos. Como então expliquei, esta concentração de hospitais ridículos num verdadeiro hospital, mostrou-se a medida indicada mas levantou imediatamente um novo problema que era saber quem e como se administravam. Estamos agora a aproximar-nos do tema do programa de hoje, em que tenciono contar-vos como foram criadas as misericórdias, para que serviam e quem teve a boa ideia da sua criação. Costuma afirmar-se e ter-se como certo que a criação das Misericórdias se deve à rainha D. Leonor, viúva de D. João II e irmã de D. Manuel I.E, se é verdade que foi ela a criá-las com o seu poder e despacho régio, não é menos certo que a ideia, e esta é que conta, se deve não a ela, mas a alguém mais versado na arte de pensar e mais virtuoso de sentimentos, por profissão. Não por nacionalismo irracional, mas porque lamento que assim tenha sucedido e não tenha aparecido um português com essa ideia, tenho que confessar que se deve a um espanhol a ideia e o empenho da criação das misericórdias. Chamava-se esse espanhol de nação, como então se dizia, Frei Miguel de Contreiras, nascido em Valência ou em Segóvia, não se sabe ao certo, religioso trinitário, quer dizer da Ordem da Santíssima Trindade, que em 1481 veio viver para Portugal, onde começou a pregar o socorro à pobreza e o alívio e tratamento dos doentes, como as manifestações mais «levantadas» da piedade. A sua palavra e a sua acção depressa se fizeram notar. Corria a cidade de Lisboa sempre acompanhado de um anão que conduzia um burro, com grandes alforges para recolher as dádivas em géneros que a população lhe oferecia por ele ser para eles o pai dos pobres, como lhe chamavam. Depois quando chegava ao largo da Sé, procedia à distribuição dos géneros recebidos por todos os necessitados que ali recorriam. E guardava alguns géneros para, pessoalmente, os ir levar aos presos das cadeias e a doentes acamados nas suas casas. Passado pouco tempo passou a ser o confessor da rainha e, como tal, a ter um acesso fácil à pessoa real e a possibilidade, se bem trabalhada, de influenciar o pensamento da rainha e levá-la a pensar nos problemas que ao frei Miguel Contreiras pareciam inadiáveis. E de tal maneira sensibilizou a rainha para a necessidade de se fazer algo que, em 1498, foi criada com solenidade, no claustro da Sé de Lisboa, mais propriamente na Capela de Nossa Senhora da Piedade, também conhecida por Capela da Terra Solta, porque o pavimento era em terra, a Confraria de Nossa Senhora da Misericórdia. Mas, além do papel da rainha e de Frei Miguel Contreiras há que destacar a acção do Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa que vivia em Roma e era pessoa de grande entendimento e que esteve várias vezes para ser Papa. Quando da eleição de Júlio II este ter-lhe-á dito que só era Papa em nome porque na realidade era ele o verdadeiro Papa. Já tinha sido conselheiro da rainha quando esta quis fazer o Hospital Termal das Caldas da Rainha e mais uma vez foi a pessoa a quem a rainha pediu ajuda e opinião antes de criar a Misericórdia. Terá sido por sua opinião que se seguiria o modelo de Florença no futuro Compromisso da Misericórdia de Lisboa. O Cardeal de Alpedrinha devia ser muito bom homem e na graça de Deus, pois sendo muito baixa a longevidade daquele tempo, ele conseguiu viver até aos 102 anos, devendo ser uma verdadeira excepção só explicável por graça divina. E, desde então, foram os enfermos, até aí, sem amparo recolhidos numas casas provisórias, no Largo de Santo António, concedidas pelo Senado. Esta Confraria teria a sua sede nesta Capela até ao ano de 1534, ano em que foi transferida para um sumptuoso templo mandado construir por D. Manuel I, no local onde hoje se encontra a Igreja da Conceição Velha, na Rua da Alfândega e que já foi inaugurada por D. João III. Era uma igreja em estilo manuelino, sendo seus arquitectos Diogo Boytac e João de Castilho e que rivalizava com o Mosteiro dos Jerónimos e foi completamente destruída no terramoto de 1755. Da sua beleza ainda hoje se pode ajuizar pois a única parte que não foi destruída pelo terramoto, foi uma porta lateral virada a sul e que hoje representa a porta frontal da actual Igreja da Conceição Velha. Ocupava uma grande área e além da grandiosa Igreja da Misericórdia de Lisboa que tinha de largura o actual comprimento da Igreja da Conceição Velha, tinha edifícios destinados a dois recolhimentos, secretaria, cartório e serviços administrativos. Nessa cerimónia foi estabelecido um Compromisso ou um regulamento como hoje dizemos, baseado no existente em Florença numa organização análoga e já existente desde 1350. O compromisso estabelecia que a Misericórdia não se destinava só a ter e gerir hospitais mas a cumprir as 14 obras de misericórdia, as sete do corpo e as sete do espírito. Que tudo se fizesse para tornar iguais os desgraçados aos afortunados. Auxiliavam-se as donzelas pobres a casar, as viúvas pobres com alimentos e dinheiro, os peregrinos com pousada e ajuda, os presos com advogados que os defendessem, os mortos com a possibilidade de enterros dignos e sobretudo os doentes com agasalho e curativo. Quando tudo isto se passou estava D. Manuel em Espanha, mas quando regressou, apoiou a acção da irmã e logo que pôde promoveu todos os meios possíveis para o desenvolvimento da Misericórdia, pelo que em 1516 criou uma dotação especial a que chamou a obra pia e mandou erigir um templo digno para aquela Confraria que acabou por ficar digna como ele pretendia, mas que infelizmente não chegou a ver. Após a destruição pelo terramoto de 1755 da Misericórdia da Rua da Alfândega, foram os seus serviços espalhados por vários edifícios alugados ou cedidos. E só no tempo de D. José e do Marquês de Pombal se resolveu esta situação insustentável, quando por Carta Régia de 6 de Fevereiro de 1768 foi entregue à Irmandade os edifícios que constituíam a Casa Professa dos Jesuítas e a magnífica Igreja de São Roque com os seus tesouros de arte sacra e que se encontravam devolutos havia meses por expulsão da Companhia de Jesus. E, hoje continua a ser a sede da Misericórdia de Lisboa. Com o passar dos anos as Misericórdias foram espalhando-se por todo o país. Logo em 1498, Lagos, Tavira, Montemor-o-Velho, Angra do Heroísmo e Vila Praia da Vitória. No ano seguinte, Porto, Évora e mais umas tantas. Em 1500, Coimbra; Beja, Ponta Delgada e outras. Em 1501 apenas a de Setúbal e em 1502 a de Santarém e Olivença e quase todos os anos se foram fundando outras de que destaco a da minha terra natal, Chaves que data de 1516. No século XV fundaram-se 23 e 139 no século XVI. Todos os séculos se foram fundando Misericórdias e já no século XX ainda se fundaram 107. Com os descobrimentos portugueses as Misericórdias foram sendo criadas pelo mundo fora, existindo já em 1504 a de S. Tomé, a de Ponta Delgada em 1500 e a de Goa em 1511. Passou a ser normal que por cada Misericórdia que se fundasse se constituísse um hospital sob administração daquela Confraria. E a administração mostrou ser eficaz de tal modo que esta situação se manteve por vários séculos e ainda hoje vamos encontrar a vocação hospitalar das nossas Misericórdias, que tendo perdido alguns dos seus hospitais na sequência do 25 de Abril de 1974, têm vindo a recuperar essa função, dando provas de eficácia e qualidade de serviços. Nunca a Igreja e o seu poder estabelecido estiveram ausentes do processo de transformação dos cuidados hospitalares. Quando D. João II pensou em reunir as dezenas de pequenos hospitais de Lisboa num só, o de Todos os Santos pediu a devida autorização papal que lhe foi concedida por Bula papal de Sixto IV, em 13 de Agosto de 1479, mas apenas para ter efeito em Lisboa. Apenas em 21 de Fevereiro de 1485 o Papa Inocêncio VIII, através de Bula estendeu essa autorização a todo o país. O Hospital de Todos os Santos foi um dos que esteve sob administração da Misericórdia por alvará de D. Sebastião em que diz que faz essa entrega porque « por se ter visto, por experiência de muitos anos a fidelidade e zelo, fervor e caridade, com que os irmãos servem os cargos da dita irmandade e aceitam e sofrem os trabalhos dela, pelo que se deve com razão esperar redução de gastos e de muitos ordenados... por isso em todas as cidades e vilas do Reino se entregava às Misericórdias a administração e governança dos seus hospitais».

sábado, julho 22, 2006

e, seu eu vos contasse? – 13.º programa – o hospital real de todos os santos

Este hospital resultou da necessidade sentida de concentrar num só hospital as dezenas que havia em Lisboa dos finais do século XV e princípio do XVI. Havia nesse tempo mais de cinquenta hospitais em Lisboa, todos pequenos e sem condições e destinados a determinadas profissões ou doenças. Havia o dos tanoeiros, o dos sapateiros, o dos carpinteiros da Ribeira, o dos pescadores, dos alfaiates, dos marítimos, dos escolares, dos hortelãos e mais um sem número de profissões e dezenas de outros com nome de santos ou com nomes estranhíssimos, como o de Cata-que-farás ali para Santa Justa. Para acabar com esta situação e por entender que Lisboa necessitava de um grande hospital, moderno e eficaz, D. João II resolveu mandar construir um dos mais modernos e grandes hospitais de toda a Europa, no dizer dos eruditos daquele tempo. Seria chamado de Todos os Santos exactamente porque nele se juntaram todos os doentes vindos daquelas dezenas de hospitais com nome de santos.
Viria a ser concluído no ano de 1501, sendo já rei D. Manuel I. Situava-se entre o Rossio e a Praça da Figueira e junto da igreja de S. Domingos. Era um edifício de grande beleza, de que ressaltavam a escadaria e a porta da igreja toda em jaspe. A construção base do hospital desenvolvia-se em cruz, em que um dos braços era a igreja e os outros três braços correspondiam às três grandes enfermarias, que se chamavam de Santa Clara, para as mulheres, a de São Cosme para os feridos e a de São Vicente para os febricitantes, para os que tinham febre. Esta disposição em cruz permitia que os doentes pudessem assistir à missa das suas próprias camas. No côncavo de cada dois braços havia um claustro com jardim e horta e uma fonte central, que davam bom ar para as enfermarias e os géneros vegetais para a alimentação dos doentes. Havia ainda da parte de trás o criandário ou a chamada casa dos enjeitados e mais duas pequenas salas reservadas para as doenças contagiosas. A capacidade inicial deste hospital era de 98 camas, o que se mostrou rapidamente insuficiente dada a grande procura por parte dos doentes. Começaram a deitar dois doentes por cama, como naquela época sucedia em vários hospitais da Europa e às vezes mesmo três. Por baixo destas enfermarias havia várias salas onde se acolhiam os peregrinos e os pobres que pediam esmola pela cidade. O pessoal médico era constituído inicialmente por um médico e dois cirurgiões, um dos quais dormia no hospital, mas passado pouco tempo eram já dois médicos e três cirurgiões e mais um mestre que curava o morbo serpentino. A arquitectura deste hospital era extremamente moderna e funcional, Para além daquele pormenor já referido de os doentes poderem assistir à missa das suas camas, causava admiração a quem visitava o hospital a forma como as camas estavam construídas, tendo todas um cacifo superior onde se guardava a roupa do doente e havia um sistema de porta falsa que permitia retirar os cadáveres dos doentes quando estes morriam, sem que os outros doentes disso se apercebessem. Havia também enfermeiros e enfermeiras para tratarem exclusivamente doentes do mesmo sexo.
(Copia de azulejo do hospital com o O e o S de Omnie Sanctorum)
Com o tempo foram-se construindo mais enfermarias e a capacidade de internamento do hospital foi aumentando para os 600 doentes e mesmo para os 700 doentes que era quantos tinha internados aquando da sua destruição durante o terramoto de 1755.