quinta-feira, maio 01, 2008

cirque du soleil


Tenho seguido com alguma regularidade a actividade do Cirque du Soleil desde o dia em que tive a sorte de ver um dos seus espectáculos na televisão. Fiquei de tal modo fascinado, que nunca mais deixei de ver os seus novos espectáculos, sempre que a televisão os apresentou. Mas sempre me ficou o travo amargo de não os ter ali a meu lado, por inteiro, e não confinados ao espaço visual da «caixinha». Perdi a oportunidade de os ver no Rio de Janeiro em Novembro de 2006, como perdi a oportunidade de assistir a Delirium (espectáculo de 2006) no Pavilhão Atlântico. Devo ter sido dos primeiros a comprar bilhetes para Quidam, o espectáculo que agora apresentam em Lisboa e que foi estreado em 1996. Chegou ontem o dia de os sentir a meu lado e me deixar envolver por toda a magia, beleza plástica e musical e pelo espanto, de me encontrar tão vivo, tão atento, tão deslumbrado, tão pronto para o sonho. Nunca em toda a minha vida me senti tão envolvido pela magia do circo. Ontem voltei a ser criança ou talvez a criança que nunca fui.


sábado, abril 26, 2008

as vozes de abril


Ontem a RTP portou-se bem. Prestou mesmo serviço público. Transmitiu integralmente o espectáculo do Coliseu - As Vozes de Abril. Pena foi que já não estivessem connosco alguns daqueles que neste grupo ocuparam lugar cimeiro. Mas esteve o seu espírito e pode dizer-se que foram bem representados, lembrados e homenageados. Creio que nunca estive tanto tempo sentado diante de um televisor. Mas valeu a pena. Nem Patxi Andion faltou à chamada e, ainda por cima, cantou duas das minhas canções preferidas.
Parabéns à Associação 25 de Abril pelo seu 25.º aniversário e pela feliz ideia de promover este espectáculo.


sexta-feira, abril 25, 2008

25 de abril de 1974



Tinta e quatro anos depois - obrigado Capitães de Abril pelo vosso acto libertador. Viva o 25 de Abril. Viva Portugal.

maya plisetskaya

Obrigado 25 de Abril que nos abriste as portas para a liberdade e nos permitiste termos acesso a tanto acto de cultura até aí impossível. Recordemos Maya Plitsetskaya e a sua inigualável interpretação da Morte do Cisne de Saint Saens.

quinta-feira, abril 24, 2008

prefiro o de lisboa

Eu sei que Tóquio é uma grande cidade, capital da tecnologia e do desenvolvimento. Sei também que é das mais caras cidades para se viver, sei dos hotéis em gavetas, sei de misérias escondidas. Sei de tudo isso e prefiro Lisboa. E prefiro sobretudo o metro de Lisboa, mesmo em horas de ponta. Algum de vós gostaria de andar neste metro de Tóquio? Eu direi - que estranha forma de vida! E, no entanto, o fado é nosso...

terça-feira, abril 22, 2008

sabedoria e coordenação

Mais uma vez, palavras para quê. A ver e rever.

sexta-feira, abril 18, 2008

a paciência, a ternura e o amor em estado puro

Há imagens que valem mais do que as palavras - é frase que se ouve com grande frequência e que poucas vezes se discute, por parecer a todos que corresponde à verdade. Não estou tão seguro assim dessa verdade que pense não valer a pena uma boa discussão à volta do tema, mas, quando hoje me enviaram este vídeo, dei comigo a pensar - não vale a pena escrever nada, basta-nos ver e sentir o que está para além de cada fotograma.

quinta-feira, abril 17, 2008

a história jamais contada 2

Ainda não tive qualquer opinião sobre o post anterior. Publico já a segunda parte na esperança que isso possa ajudar a espicaçar um pouco mais o interesse dos leitores.


quarta-feira, abril 16, 2008

a história jamais contada 1

Um amigo enviou-me hoje o link para um vídeo no youtube, intitulado "the greatest story even told". Nele se procura provar que Jesus não passa de mais um mito, usando uma sucessão de coincidências históricas que não deixam de impressionar mesmo quem não esteja disposto para isso. Hesitei em colocá-lo aqui porque não me parece que esteja aqui a verdade. Porque me impressionou e não me sinto a pessoa indicada para contrapor argumentos aos factos e explicações avançadas, resolvi trazê-lo até vós para que com a vossa intervenção se possa fazer luz. A história é contada em 3 vídeos. Irei publicando um de cada vez para que quem queira vá fazendo comentários. A tradução não será a melhor e as legendas não foram revistas. Veremos o que têm a dizer.

quarta-feira, abril 09, 2008

os parabéns da cp ecologista

Encontrei hoje um papel em que tinha escrito, com receio da minha memória me atraiçoar, o que lera a bordo de um comboio regional em que ando com frequência e algum ritmo. Como penso que saberão, hoje em dia até os comboios regionais têm algum conforto e alguns requintes que rapidamente nos fizeram esquecer os de há poucos anos. Já têm ar condicionado, um painel luminoso dando-nos indicações úteis e, antes de qualquer estação, uma voz agradável avisa-nos da próxima paragem. Também os lavabos são amplos, limpos e higienizados. Havia ainda música ambiente que ao fim de alguns meses foi suspensa, creio que consequência de muitos protestos dos clientes. Quem leia isto assim, de uma forma seca, não pode deixar de tecer considerações menos agradáveis em relação ao gosto dos passageiros. Mas, em minha opinião, o que sucedeu foi o tiro ter saído pela culatra. A belíssima ideia de dar música durante a viagem seria uma coisa óptima para os melómanos e ajudaria a criar educação musical àqueles que têm ouvidos empedernidos para tal arte. Só que aqueles que foram encarregados de fazer a selecção musical não eram eruditos ou seriam de mais e não souberam avaliar a música que deveriam passar. Não sei porque decidiram que música de câmara seria a ideal, mas não foi. O resultado foi um desastre e não se criaram adeptos. E ninguém, entre aqueles que o poderiam ter feito, arranjou nova programação com música mais aliciante. Foi pena ter-se perdido essa oportunidade de cultivar o gosto dos passageiros. Mas as melhorias introduzidas nos comboios não se ficaram por aqui. E, cereja sobre o bolo, os comboios passaram a cumprir horários. Parabéns à CP.
Mas aquilo de que eu vinha falar não tinha nada a ver com aquilo que até agora escrevi. Passo a explicar - nesse dia em que tomei o apontamento que hoje encontrei, ao contrário do habitual, esperei cerca de uma hora pelo meu comboio. Só já muito perto de ele chegar, finalmente, soubemos que algo se passava perto de Lisboa, o que condicionava aquele atraso.
E, se a espera foi longa a viagem processava-se de forma muito lenta, com paragens sucessivas e velocidade reduzida.
Foi então que no painel luminoso passou a seguinte frase - A CP Comboios de Portugal dá-lhe os parabéns pela escolha de um modo de transporte amigo do ambiente.
Reparei depois que esta frase passou a acompanhar todas as outras informações, repetidamente.
Devo dizer que chegado a Alverca saí do comboio, sem esperança de chegar a Lisboa a horas de fazer aquilo porque viajara e regressei a casa noutro comboio.
Sem querer olhar devo ter lido dezenas de vezes esta frase no regresso.
Achei óptima a ideia, mas lê-la naquele dia especial em que o comboio não ia a lado nenhum, era pelo menos, surrealista.
Evidentemente era aquele dia fatídico de chuva intensa que provocou enchentes e estragos vários, inclusive mortes. Mas, mesmo sabendo isso, era impossível não achar a frase surrealista. Não tanto que me tivesse obrigado a colocar este post nessa altura.
Mas, quando já a ia esquecendo, o acaso trouxe-a hoje até mim e eu senti obrigação de a levar até vós.


domingo, abril 06, 2008

começar a acabar

Ontem fui passar a noite com Samuel Beckett e João Lagarto e valeu a pena, sinceramente. Foi bom que as palavras de Beckett tivessem tido a sorte de encontrar a voz e a interioridade de João Lagarto para as trazerem até nós.
Magnífico monólogo e magnífica interpretação teatral.
Não deixem de ver (vai estar de 10 de Abril a 1 de Junho na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II.
Ouçam o que vale a pena escutar e batam palmas a quem as merece.

quinta-feira, abril 03, 2008

pra não dizer que não falei das flores


Há exactamente 40 anos o mundo vivia momentos únicos e históricos quer na Europa (o Maio de 68) quer na América do Sul, nomeadamente no Brasil, onde um país amordaçado pela ditadura militar, procurava libertar-se desse jugo e ser feliz. Por essa altura todos os da minha geração, especialmente os mais esclarecidos, andavam a par do que por ali se passava e procuravam de uma forma ou doutra ajudar no que pudessem, o que era pouco já que por cá, outra ditadura embora menos armada parecia ter acabado, mas se mantinha uma primavera a que dificilmente se viam folhas e flores.
Uma das canções que alguns tinham eleito como sua, na medida em que aliava a combatividade, o protesto e a harmonia, numa linguagem fácil, era aquela a que chamávamos "Caminhando". Era seu autor e cantor Geraldo Vandré, nome artístico de Geraldo Pedrosa de Araújo Dias,
cantor e compositor brasileiro nascido em João Pessoa, em 12 de setembro de 1935. Em 1968, participou do III Festival Internacional da Canção com "Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores" ou "Caminhando", composição que era um hino de resistência contra o governo militar. O refrão "Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer" foi interpretado como uma chamada à luta armada contra os ditadores.
Ainda em 1968, com o AI-5(Acto Institucional n.º 5), Vandré foi obrigado a exilar-se. Depois de passar dias escondido na fazenda da viúva de Guimarães Rosa, morto no ano anterior, o compositor partiu para o Chile e, de lá, para a França.
Voltou ao Brasil em 1973. Até hoje, vive em São Paulo e compõe. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Geraldo_...
Como tinha saudades de ouvir a canção que tenho numa péssima gravação em fita, pedi a colegas brasileiros que me arranjassem uma cópia em bom estado. Prontamente me chegou às mãos e já a tenho gravada no IPod para as minhas viagens de comboio ou bicicleta.
Por feliz coincidência chegou-me agora às mãos uma pérola rara desses tempos que é um vídeo que nos mostra logo no início um caixão levado em ombros, com o corpo de um estudante morto pelas tropas do exército, defronte ao aeroporto Santos Dumont, e depois imagens várias da famosa manifestação dos cem mil, no centro do Rio. Muitos artistas, intelectuais, políticos participaram da famosa marcha dos cem mil, creio que em 1968. Impressiona ver tal manifestação popular em que se incorporam freiras e padres, o que no nosso país me parece improvável que alguma vez sucedesse.
Ouçam a canção com atenção e vejam as imagens da luta contra a ditadura militar.
Faz sempre bem recordar estes casos para estarmos sempre atentos e não baixarmos a guarda.



sábado, março 29, 2008

dinossáurios

Inaugurada em 13 de Março passado e mantendo-se aberta até ao dia 29 de Junho, encontra-se aberta ao público a exposição sobre modelos mecânicos de dinossáurios pertencentes ao Natural History Museum de Londres, em colaboração com o Museu Nacional de História Natural, de Lisboa.
A exposição está montada no Centro de Exposições Freeport, em Alcochete. Não são muitos os modelos expostos, mas pode dizer-se que são de grande qualidade, no que respeita a escala, movimentação, tempos, sons. Impressiona particularmente o Tyranossáurio rex, traduzido por lagarto tirano, com o seu porte majestoso e transmitindo a ideia do seu peso real (sete toneladas). O ladrão de ovos é também um exemplar muito interessante.
A exposição está muito bem montada, a descrição de cada um dos exemplares é suficiente para quem a visita e apresenta exemplos dos vários tipos de alimentação (carne, peixe, ervas).
Existem também modelos de pegadas, dentes, unhas, olhos. Numa mesa circular com gavetas que dão a ver determinados componentes dos modelos expostos, é lançado ao visitante o repto de descobrir a localização do que se mostra. Os jovens não passam sem abrir todas as gavetas e reparar com muita atenção para a real localização de cada uma das peças mostradas.
A meia hora de Lisboa, pela ponte Vasco da Gama, merece uma visita que não se limita a esta exposição mas a uma zona do país que merece também ser visitada.

quinta-feira, março 27, 2008

o carsoscópio do alviela










Fui ontem com os meus netos Matilde e António, ao Carsoscópio, Centro Ciência Viva do Alviela, espaço interactivo de divulgação científica e tecnológica, integrado na Rede de Centros Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica. Este Centro integra um Geódromo, um Quiroptário e um Climatógrafo.
No geódromo, um simulador de realidade virtual com capacidade para 16 pessoas transporta os visitantes numa viagem incrível de 175 milhões de anos, até ao tempo em que os dinossáurios “desenharam” as suas pegadas na rocha calcária da Serra de Aire.
No quiroptário, explica-se a vida dos morcegos, as suas variedades, os seus hábitos e migrações. Os visitantes podem orientar-se pelo som, evitando os obstáculos, podem ouvir ampliado como eles, ter a sensação de estar dependurado com a cabeça para baixo ou pesar-se e ver a quantidade de alimentos que teriam de ingerir se fossem morcegos com o seu peso.
No climatógrafo, tem-se uma visão a três dimensões da bacia de alimentação do Alviela (180 Km2), o que faz dela um dos maiores reservatórios de agua doce. Neste momento, esta reserva poderia abastecer Lisboa durante dois anos.
Além disso este Centro tem possibilidade de albergar estudantes por pequenos períodos, o que lhes permitirá explorar toda a zona do Carso, fazer percursos terrestres, visitar as inúmeras grutas da região.
Toda a zona envolvente do Centro está cuidada, dispondo ainda dum café restaurante bem situado e aprazível.
Um só reparo para a sinaléptica de estrada, pouco clara e com poucas referências ao carsoscópio.
Este Centro inaugurado em Dezembro de 2007, tem sido visitado por escolas e por famílias e já teve cerca de 2000 visitantes.
Recomendo uma visita, pelo que se aprende e pelas emoções que se têm com a realidade virtual que a plataforma nos oferece. Não recomendado a pessoas com problemas vertiginosos, cardíacos e grávidas.

terça-feira, março 25, 2008

estes são os meus netos






Esta é a apresentação pública e bloguista dos meus netos, Matilde (9 anos), António, o Simão Sabrosa de Campo de Ourique (7 anos) e Sofia (2 meses).


domingo, março 23, 2008

os novos pecados

Fomos surpreendidos há dias com os novos pecados capitais que, duma assentada, passaram para treze. Esta nova decisão papal veio trazer grande incomodidade a muitos portugueses. A bastantes, por serem apanhados nas malhas do enriquecimento rápido, a muitos por serem apanhados pelo ambiente que agora acerta contas com quem o tem maltratado. A muitos outros, por serem apanhados nas malhas dos outros quatro.
Quando hoje inadvertidamente dei de caras com esta imagem do comendador Joe Berardo,
que está na net, veio-me à cabeça a dúvida sobre qual será a razão para o comendador ter as mãos como tem.
Estará a pensar que desta vez foi apanhado na teia agora estendida dos novos pecados?
Será por isso que esboça um por de mãos de quem reza? Será que se pergunta por qual deles foi apanhado?
Será que se pergunta - enriqueci rápida e fulgurantemente sem nunca ter criado qualquer benefício a alguém que fosse, sim, é verdade. Mas a minha inteligência, a capacidade de obter lucros, o meu feeling para o negócio, não merecem ser recompensadas? Será isto um pecado?
Será que se pergunta - a minha colecção de arte moderna é realmente boa como me disseram aqueles que ma fizeram comprar ou será que, como muitos pensam, tem algumas peças boas e muitas que poluem a arte e o gosto?
Não sei. Sei que ele está em meditação, a meio caminho entre o rezar e o fazer cruzes canhoto.
Estou convencido de que tenha pensado uma coisa ou outra, passado algum tempo terá parado de o fazer, dizendo - isto não dá lucro, está visto. Vou investir em coisa que seja rentável. Isto dos pecados, se der lucro é só à Igreja. Nem sei porque pensei nisto ...
E o mundo continua a girar e a notícia passou.

quinta-feira, março 20, 2008

parabéns, pai


Foi ontem o teu dia, pai.
Continuo a dizer o que sempre disse - só tiveste um defeito. Morreste cedo de mais.
Aqui fica o meu obrigado e a minha homenagem.

quinta-feira, março 13, 2008

o regresso a quinhentos



Numa das últimas "Única" do Expresso (23 de Fevereiro de 2008), vinha um interessante artigo, de onde obtive a fotografia que ilustra este post, sobre a primeira utilização de uma vela gigante num moderno cargueiro, com a finalidade de poupar combustível e, à boleia desta, com propósitos ecologistas. É claro como água que a razão é fundamentalmente económica e que se não se vier a provar que o sistema resulta de forma satisfatória, logo se esquecerá a fundamentação ecologista.
Segundo o artigo escrito por Nelson Marques, o cargueiro «MS Beluga Skysails» foi o primeiro a utilizar um sistema de propulsão híbrido que em condições atmosféricas óptimas poderá ajudar a poupar 50% do combustível. A viagem inicial e experimental teve início no porto alemão de Bremerhaven no dia 22 de Janeiro e terminou no porto de Guanta, Venezuela, na semana de 11 de Fevereiro.
Quem olha para a fotografia não imagina que a vela, confeccionada com um tecido ultraleve e equipada com sensores que medem a direcção e a velocidade do vento, tem 160 m2 de superfície e se situa a uma altura entre os 100 e os 300 metros. As experiências vão continuar, agora em cargueiros de maior tonelagem e avaliada a poupança nesta viagem pioneira.
Se a economia falar mais alto, poderemos ter a certeza que o ambiente será poupado à contaminação actual pelos dióxidos de carbono e de enxofre, provocada pela navegação comercial, que actualmente representam 4% de todas as emissões.
É curiosa esta tentativa de regresso às velhas técnicas de navegação. Este retrocesso aparente é consequência directa da forma como a humanidade se tem marimbado no ambiente, apesar dos avisos cada vez mais frequentes e cada vez mais intensos que vamos recebendo.
Não sei porquê, mas esta notícia trouxe-me à lembrança aquilo que Einstein disse na década da energia nuclear - «não sei com que armas se fará a 3.ª guerra mundial, mas sei que a 4.º será feita com paus e pedras».

domingo, março 09, 2008

contra a violência

Têm sido vários os debates sobre a violência e a insegurança nas cidades. Penso que este vídeo tem mais força que todas as conversas havidas. Neste caso a imagem impõe-se às palavras. As palavras logo se esquecem, a imagem fica dentro de nós a inquietar, a questionar, a pedir acção de todos nós contra esta praga da violência, filha de outras pragas.


sábado, março 08, 2008

8 de março - parabéns mulheres

Dia Internacional da Mulher. Parabéns a todas e especialmente à minha.



a confirmação, com margot fonteyn e rudolf nurejev

Compreende-se bem que depois de ter conseguido colocar o meu primeiro video neste blog, quisesse ter a certeza de que já o sabia fazer e nada tinha sido por acaso. Por isso, aqui está a prova.


sexta-feira, março 07, 2008

atrevimento conseguido

Só hoje me atrevi a tentar colocar vídeos. Parece que consegui. Se assim for, espero que quem me leia goste do vídeo que escolhi.


quinta-feira, março 06, 2008

o prazer de revisitar videos guardados

Hoje dei comigo a rever alguns dos vídeos, comentários, power points e quejandos que os amigos me vão enviando diariamente e que, por vezes, de tantos serem me deixam quase sem tempo de os abrir. Por isso, quando posso, revejo alguns e dou-me conta de ter recebido algumas pérolas e muitas jóias de fancaria.
Hoje visitei sobretudo sites que me permitem acesso a música de todos os tempos, ligeira e clássica, que ali se encontra à minha disposição e que responde a um simples clic do rato.
Três vídeos me impressionaram mais do que hoje esperava - primeiro a actuação de dois artistas de circo, polacos, exibindo-se em Montecarlo, que ultrapassaram tudo que me foi dado ver até hoje em espectáculo circense no que respeita a coreografia, força, equilíbrio, domínio, coordenação, beleza. A representação viva do que nos parece impossível e impensável. Depois o relembrar de uma grande senhora da canção brasileira, Maysa Matarazzo, cantando em 1975 «último desejo», acompanhada em harmónica vocal por Rildo Hora. Foi um salto de mais de 30 anos nas minhas recordações, rever a Maysa que vi e ouvi cantar no Casino Estoril. Por último, voltar a ouvir o discurso feito por aquela jovem canadiana de 13 anos, na Conferência Mundial sobre o ambiente realizada no Rio de Janeiro, escutar as palavras sensatas e justas por ela proferidas e ver aquela assembleia de representantes do poder mundial, em silêncio total, a deixarem perfurar as suas crostas de indiferença por aquelas palavras arma que uma jovem lhes atirava directamente. Quem a ouvisse e os visse com aquele ar compungido e atento, quase se convencia que por fim eles iriam ser tocados e tomar atitudes.Mas todos sabemos que não foi isso que sucedeu. Eles foram tocados, sim. Naquele momento, talvez durante dias ou meses, enquanto falaram a uns e a outros do que tinham escutado. Mas, tudo ficou por aí. Da jovem ficou em todos uma boa recordação. O ambiente, esse, de tão bem nos conhecer, nem sequer ficou crédulo por instantes. De tanto sofrer os nossos ataques, de tão bem conhecer a nossa indiferença, sabe bem que nós só perceberemos quando tudo tiver chegado ao fim e não houver retorno possível.
De qualquer modo, sabe bem ouvir as palavras justas, a análise correcta sobre a indiferença, mesmo que saibamos que nada acontecerá para além disso - um discurso mais e que venham os croquetes do coffee break...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

a sinagoga de tomar

Pensa-se que já havia uma comunidade judaica em Tomar nos primeiros anos do século XIV. Contudo, a sua Sinagoga só foi construída entre os anos 1430 e 1460. Estavam longe de pensar todos aqueles que a planearam e mandaram construir que ela iria estar breves anos ao serviço do seu culto.

Nada fazia prever que o Rei D. Manuel I, em Dezembro de 1496, mandasse publicar um édito em que dava um prazo aos judeus para se converterem ao Cristianismo ou seriam expulsos de Portugal. Esse prazo foi fixado até Outubro de 1497.

Tudo indica que o rei teria sido pressionado pela sua noiva ou, não o tendo sido, tenha querido mostrar agrado às ideias que ela e seus pais tinham em relação aos judeus. Falo de D. Isabel, filha dos Reis Católicos e viúva do príncipe herdeiro do trono de Portugal, D. Afonso, com quem casara em Novembro de 1490. Em Julho de 1491, D. Afonso teve um acidente a cavalo e morreu em Almeirim.

D. Isabel, casou mais tarde, em segundas núpcias com D. Manuel I, em Outubro de 1497 e viria a morrer poucos meses depois (Agosto de 1498), durante o parto de seu filho D. Miguel da Paz, herdeiro jurado das coroas de Portugal, Castela e Aragão, que, ao morrer dois anos depois, viria acabar com a possibilidade da união dinástica ibérica sob a hegemonia de um rei português.

D. Manuel I viria a casar mais duas vezes – com D. Maria, irmã de Isabel, que lhe deu nove filhos e viria a morrer também de parto, e D. Leonor, filha de Joana a Louca e irmã de Carlos V.

Por força do édito de 1496, foi encerrada ao culto a Sinagoga. Foi então comprada por um particular desconhecendo-se quem a vendeu (a comunidade judaica? o Rei?). Voltou a ser vendida em 1516 para nela ser instalada a Cadeia Municipal, que deixava de estar no Castelo.

Fico a pensar no que se terá passado na cabeça do Rei quando informado da nova localização da cadeia se viu obrigado a publicar uma interessante Carta de excepcionais privilégios que determinava que os cristãos novos não podiam ser presos naquela cadeia. Depois da argúcia e manobra política de inventar os cristãos novos, para impedir que todas as fortunas na mão dos judeus saíssem do país, teve então de fazer nova manobra com esta Carta de privilégios, pois seria afronta demasiada prender judeus no seu local de culto, a Sinagoga.

Em 1542, a Sinagoga foi ocupada pela Câmara e ali permaneceu até 1550. Há registos posteriores de ali ter funcionado uma ‘Ermida de São Bartolomeu’ na qual se celebravam casamentos em 1613.

Segundo o Prof. Santos Simões, a profanação da Sinagoga teria sucedido no século XIX. Em 1 de Junho de 1885 era apenas uma casa térrea, servindo de palheiro. A 10 de Junho de 1920, segundo dados da própria Sinagoga, aquando da visita de um grupo de Arqueólogos Portugueses, havia ali uma adega e armazém de mercearias.

Por decreto de 29 de Junho de 1921 foi o edifício classificado como Monumento Nacional. Apesar desta classificação, o abandono e degradação em que se encontrava, levou Samuel Schwarz a comprar o edifício em 5 de Maio de 1923, que acabou por doar ao Estado em 29 de Março de 1939, com a condição expressa de ali ser instalado um Museu Luso-Hebraico, nome que foi homologado pelo Despacho ministerial de 27 de Julho.

Hoje em dia o Museu Luso-Hebraico Abrahan Zacuto pode ser visitado no n.º 73 da Rua da Judearia, antiga Rua Nova.

É uma visita que se recomenda a quem visite Tomar. Embora exteriormente o edifício não se encontre nas melhores condições, interiormente está bem conservado e as suas colunas e abóbadas merecem e despertam olhar atento e demorado.

Olhando as suas paredes e vendo as suas janelas tapadas, entende-se logo que elas foram fechadas porque da antiga Sinagoga resulta apenas esta sala de culto, tendo desaparecido grande parte do edifício inicial, hoje habitações particulares.

Quase de uma forma constante há uma pergunta que se ouve entre os visitantes – para que serve ou porque está ali na parede aquele vaso de barro voltado para baixo? A explicação não demora – se repararem, em todas as paredes e à mesma altura encontram-se buracos circulares e dentro da parede encontra-se em cada um deles um destes vasos de barro. Eles serviam como amplificadores dos sons e assim os transmitiam para galerias de outros espaços, onde se encontravam as mulheres e que, ouvindo através daquele sistema acústico, podiam acompanhar o culto a que só os homens podiam assistir.

A beleza do espaço não é acompanhada pela dos objectos ali expostos, com raras excepções. Mas vale a visita, mesmo que seja só uma parte da Sinagoga que ali está desde 1460.


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

revisitando os monty python

Confesso que não tinha posto grande esperança neste espectáculo de revisitação de alguns sketches dos Monty Phython, embora tivesse confiança na equipa que se propusera fazê-lo. A tradução e adaptação de Nuno Markl dava alguma garantia e a interpretação de António Feio (também encenador), Bruno Nogueira, Jorge Mourato, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme, sossegavam-me bastante quanto ao sucesso desta aventura.

Estava, contudo, longe de imaginar de que iria gostar tanto e, sobretudo, de que iria rir-me tanto. Por mais que se possa pensar que o riso é contagiante e que ninguém pode ficar indiferente ou imune a uma plateia que ri, o certo é que eu sei que ri, não por isso, mas porque o texto e a representação me proporcionaram essa boa e insuperável receita profilática de acidentes cardíacos, depressões e vida breve, que é o riso.
O espectáculo tem ritmo, está equilibrado, nunca cai em zona negativa e tem momentos ou picos de grande gargalhada (é quase impensável que se possa rir à gargalhada com um humor tão fino, tão marcado culturalmente, com tantas referências).
Parece sempre deselegante destacar-se um ou outro momento, um ou outro actor, em espectáculo tão homogéneo e perfeito. Mas, seja deselegante ou não, não posso deixar de salientar dois sketches particularmente - aquele em que o Papa (José Pedro Gomes) conversa e repreende o pintor Miguel Ângelo (Miguel Guilherme) por não ter pintado «A Última Ceia» de forma correcta e como lha tinha encomendado e aquele outro em que um humorista resolve escrever uma piada mortal, a que ninguém possa resistir, tal o riso que despertará. As mortes em série de todos aqueles que a liam levam à sua utilização como arma de guerra ....
Espectáculo conseguido, com inteira adesão do público que enchia totalmente o teatro.
Dá gosto ver estas duas coisas - um espectáculo conseguido e uma sala de teatro cheia.

sábado, fevereiro 09, 2008

no quarto centenário do nascimento do padre antónio vieira

Com um atraso de três dias, o que nada significa em 400 anos, associo-me às comemorações do nascimento do Padre António Vieira. E faço-o de forma diferente de todos os meus posts.

Não me sinto capaz de sobre ele escrever na medida em que a minha escrita nada é ao pé da sua. A melhor forma que encontrei para lhe prestar homenagem é transcrever uma parte do Sermão aos Peixes que ele fez em São Luíz do Maranhão em 1654. Quase quatrocentos anos depois, reparem na actualidade deste texto.

(…) A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. (…) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.
Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa, come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. (…) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.
(…) A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem… Parece-vos bem isto, peixes? Representa -se -me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens. Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos. Assim foi; mas se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviriam estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos, quando lá chegam, acham outros maiores que os comam também a eles. (…)

Extracto do Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, pregado em S. Luís do Maranhão em 1654.

Imagem superior copiada do livro Padre António Vieira, O Imperador da Língua Portuguesa, editado pelo Correio da Manhã, com capa de Virgílio Beatriz

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

scope


E que território de mal-entendido mais universal existirá que o do amor? Assim pergunta Rui Horta quando explica a sua nova criação «Scope», viagem entre o «como és» e o «quem és», o «como» e o «quem», o «vai-vem» entre a razão e a emoção, entre o «que vemos» e o «que queremos ver».

Magnificamente interpretado por Romeu Runa e Elisabeth Lambeck, com conceito, espaço cénico, textos, cenografia, desenho de luz e multimédia de Rui Horta.

Espectáculo diferente, com envolvimento de bailarinos e espectadores. Todo o desenvolvimento de Scope se faz no palco para onde os espectadores são conduzidos no início do espectáculo. Pulseiras de cor são colocadas, à entrada, nos pulsos de cada espectador, com cor diferente para cada sexo.

O espectáculo começa com os bailarinos, cada um em seu palco elevado, dançando em ambiente de discoteca e a pouco e pouco transfigurando os seus corpos, colocando músculos onde os não havia, nádegas e mamas onde fariam falta. Começando a mentira.

Só bastante depois as pulseiras se explicam – quando os espectadores são convidados a colocarem-se num quadrado de chão com a sua cor e a segui-lo para onde ele o levar. Começa a participação do público no espectáculo e a sua integração. Com o jogo dos quadrados duas plateias se formam, no palco. E começa o bailado, o jogo do amor e da verdade. Aprofundar o olhar sobre a comunicação e as inevitáveis fronteiras que entre nós colocamos.

E como diz Rui Horta - E que território de mal-entendido mais universal existirá que o do amor?

É bom ver-se uma nova dimensão do bailarino, dançando, representando, falando. Gostei muito e aconselho.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

das marchen

No dia 25 de Janeiro de 2008, sentei-me na plateia do Teatro Virgínia, em Torres Novas, para assistir em directo, via satélite, à estreia absoluta da ópera em um prólogo e dois actos «Das Marchen», de Emmanuel Nunes. Obra encomendada pelo Teatro Nacional de São Carlos, Casa da Música e Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian. Direcção musical de Peter Rundel e encenação de Karoline Gruber. Orquestra Sinfónica Portuguesa, Coro do Teatro Nacional de São Carlos e Remix Ensemble. Esta ópera é baseada no conto «Conversas de Exilados Alemães» de Johann Wolfgang von Goethe.

A história remete-nos para um universo maravilhoso assente numa teia de alegorias e símbolos esotéricos. Uma serpente que se reveste de diversos significados, encontra a sua sublimação na forma de uma ponte que liga as margens do rio e todos os pontos antagónicos, proporcionando um estado de serenidade, sabedoria e felicidade, segundo o catálogo

Emmanuel Nunes (e cito do catálogo) iniciou os seus estudos em Harmonia, Contraponto e Fuga em 1959 com Francine Benoit na Academia de Música de Lisboa. Daí em diante foi todo um percurso recheado de grandes mestres, como Lopes Graça, Henri Pousseur, Stockhausen, Boulez e mais uma dezena deles.

Ensinou e ensina em várias Universidades e Escolas Superiores de Música e é Doutor Honoris Causae pela Universidade de Paris VIII. Prémio CIM-UNESCO em 1999 e Prémio Pessoa em 2000.

Que dizer de Das Marchen? Gostei, mas achei-a muito longa. O que, partindo do princípio que este tipo de música ainda não se impregnou na nossa pele e nos nossos sentidos, pode ser perigoso para uma total adesão e para a conquista de mais público.

Aplaudo a ideia da transmissão directa para 14 teatros de Portugal. Uma boa forma de difundir a cultura e ajudar à educação musical de um povo.

gravuras de dali na fundação eugénio de almeida


Aproveitei a estadia em Évora para visitar a exposição de gravuras de Salvador Dali que está patente na Fundação Eugénio de Almeida.

Estas gravuras foram feitas em 1951, especialmente para ilustrarem a edição da Divina Comédia, comemorativa dos 700 anos do nascimento de Dante Alighieri, a pedido do Governo de Itália.

Conheço bem a obra de Dali e visito-a com alguma frequência no seu Teatro-Museu em Figueres, perto de Barcelona. Ainda há cerca de um ano visitei outra exposição de gravuras na Casa do Brasil, em Santarém. Tenho a sorte de poder olhar e manusear «Os 10 mandamentos» e «Os sete dias da Criação», duas colecções de medalhas em boa hora editadas pela ourivesaria Soller Cabot de Barcelona, vão lá mais de 25 anos.

Pode não se gostar de Dali Homem, mas não se pode ignorar o artista, um pouco de génio, um pouco de louco, muito de provocador, que trabalhou incansavelmente e nos deixou um legado enorme da sua arte única e pessoal.

A exposição apresenta 100 gravuras, de estilo e beleza desigual. Destaco Centauro, o tentador de donzelas e Cérbero, o guardião do reino dos mortos.

Muita gente a visitar a exposição, de todas as idades.

o teatro garcia de resende

Tinha lido na Agenda Cultural que hoje havia teatro no Garcia de Resende. A peça dava pelo nome de «Cabaré de Ofélia», da autoria de Armando Nascimento Rosa, anunciada como, e sirvo-me da Agenda, obra inédita, cómica e dramática, poética e musical, que revisita teatralmente o universo do modernismo português, da geração de «Orpheu».

Com tempo, dirigi-me à bilheteira do Teatro Garcia de Resende para comprar, com antecedência, bilhete para essa noite. Com tristeza recebi a notícia de que não haveria espectáculo por um dos artistas ter sofrido um acidente. Tristeza tripla – porque a causa tinha sido um acidente, por não ver o espectáculo e por não revisitar o Garcia de Resende depois das obras havidas.

Quando manifestei esta tripla tristeza, prontamente uma das integrantes do CENDREV se prontificou a acompanhar-me numa visita ao teatro. Foi uma visita guiada magnífica, em que tive oportunidade de rever os primitivos Bonecos de S. Aleixo que ainda ali se encontram em bom estado de conservação. No palco vi várias pessoas que faziam parte de um grupo de teatro que proximamente ali quer apresentar uma peça e previamente verificavam as condições cénicas do teatro. Confirmei que havia colaboração e disponibilidade. No salão nobre havia uma reunião de trabalho sobre programação e calendário de trabalho. Confirmei que havia trabalho e planeamento.

Soube também da parceria existente com outros teatros, nomeadamente com o Teatro da Trindade, o que me vai permitir assistir em Lisboa à peça que hoje me foi impossível ver em Évora.

E, brevemente, fins de Fevereiro, princípio de Março, a Companhia de Évora apresentará Goldoni no Teatro Nacional D. Maria II.

Apesar das escassas verbas da Cultura e do apoio ao Teatro, podemos ver que algo mexe e que, para que isso suceda, mais do que as verbas e os apoios, conta a vontade, dedicação e amor de quem ama o Teatro e o dá a ver.


terça-feira, fevereiro 05, 2008

o museu de arte contemporânea de elvas e a colecção antónio cachola

Hoje resolvi dedicar a manhã a visitar o novíssimo Museu de Arte Contemporânea de Elvas.

Estacionado o carro no parque subterrâneo do centro histórico daquela cidade, facilmente localizei o museu que ali me levava. Instalado no edifício do antigo Hospital, apresenta-se este bem recuperado, conservando a beleza da sua traça inicial.

A Colecção António Cachola é constituída por obras de 72 autores portugueses, dispostas em várias e amplas salas de dois pisos, com uma circulação fácil e bem definida, dispondo de sinalética apropriada e apoio permanente de gentis, bonitas e agradáveis funcionárias.

Não vou aqui falar de todas as peças ali expostas, mas apenas de 3 ou 4 que mais me impressionaram, por uma ou outras razões, minhas, que poderão ou não ser coincidentes com as de outros visitantes.

Falar aqui desta Colecção e deste Museu tem por finalidade dar-vos a minha opinião, pese embora não ma terem pedido, e tentar aliciar-vos para uma visita a este novo museu.

Quase logo à entrada encontra-se uma peça interessantíssima da autoria de Miguel Ângelo Rocha, intitulada «Maqueta para Paisagem», de 1997.

Logo a seguir e quase bloqueando a porta que dá acesso à sala seguinte, propositadamente, está uma peça muito representativa do estilo pessoal da artista Joana Vasconcelos, intitulada «Wash and Go», que parte da ideia de aproveitar dois rolos de lavagem automática de carros e transfigurá-los substituindo as escovas por centenas de meias de senhora de várias cores. Não sabia na altura em que a vi que ela me iria compensar da ausência temporária (por se encontrar exposta em Londres) de «A Noiva», da mesma autora, que era a peça que eu mais gostaria de ter visto nesta visita.

Um destaque para uma peça monumental, ocupando a quase totalidade de uma das amplas salas do museu, da autoria de João Pedro Vale, intitulada «A Culpa não é Minha», de 2003, tronco gigante de árvore derrubada, feita em arame e corda.

Um acrílico sem título, de 1999, de Ilda David, brilha numa das paredes de outra sala.

De repente, a um canto de uma das salas maiores, vejo uma porta entreaberta que dá acesso a uma pequena sala, transformada em auditório intimista, onde corre um vídeo de João Onofre que é um dos documentos mais fortes, violentos e vivos que me tem sido dado ver, sobre a indiferença e a solidão humana. Não é possível traduzir em palavras todo o impacto que provoca. Há que ver e ouvir. De qualquer modo, imaginem até o poder ver, um homem alto, elegante, de grande vitalidade, com a cabeça envolvida numa máscara gigantesca e horrível, arrepiante, quase gigantone, e cuja visão não pode passar desapercebida a quem a veja, mesmo de soslaio. Agora, continuem a imaginar e a juntar a essa imagem uns sapatos de sapateado e o som metálico que produzem. Coloquem o homem dentro de autocarro da Carris, saindo no Rossio, caminhando pela rua do Ouro, subindo depois a do Crucifixo, entrando na estação do Metro Baixa-Chiado, descendo as escadas rolantes até à plataforma onde vai esperar a próxima composição do Metro, onde entrará. Imaginem agora a caminhada deste homem, sempre sapateando, algumas vezes dançando, tendo sempre por fundo a música metálica do sapateado e na outra extremidade a cabeça arrepiante já descrita.

Pois é. Uma ou duas mãos chegariam para contar as pessoas que olharam para ele e o viram. À volta dele, caminhando e esperando com ele, um deserto humano, passando por ele, em passo acelerado ou lento, todos mergulhados nos seus pensamentos, preocupações, tragédias, maquinações, alheios a todo o resto. Ninguém verdadeiramente parou, ninguém lhe dirigiu a palavra, ninguém questionou coisa alguma, mesmo aqueles que iam acompanhados.

Impressionante.

O museu dispõe de uma magnífica cafetaria no último piso (o 5.º), com um amplo terraço com vista privilegiada sobre Elvas. Bom atendimento, boa qualidade da oferta e bons preços. Tem também uma loja de vendas.

Um senão que me custa registar, mas já registando (como dizem os brasileiros) – ao longo deste percurso fui perguntando a várias funcionárias quem era o homem que dá nome à Colecção que ali se mostra. António Cachola. Por incrível que pareça nenhuma delas me soube dizer quem ele era, se novo, se velho, o que fazia, onde nascera, … Apenas uma me adiantou, mas com duvidosa certeza, a terra onde vivia!

Como é possível trabalhar numa instituição que tem um nome e não se saber de quem é esse nome? Culpa das funcionárias ou de quem as devia ensinar? Falta de curiosidade, apenas?

São estes apenas que fazem de nós o povo que somos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

a minha inesperada ida a évora


A verdade é que não podemos dizer - vou fazer isto ou aquilo - com o grau de certeza com que normalmente o fazemos. Cada dia me parece mais evidente que cada vez há menos certezas, apesar da ciência e a investigação todos os dias nos dizerem e mostrarem, o contrário do que agora acabei de afirmar.

Vem isto a propósito dum facto recente, aparentemente sem importância, mas que para mim teve pelo menos a de me levar a escrever este post.

Não tinham passado vinte e quatro horas de eu ter feito a reserva do hotel em Madrid para cinco noites e de ter anulado vários compromissos que tinha assumido anteriormente e eis que me encontrei inesperadamente a cancelar a reserva do hotel, a colocar o saco de viagem no carro, mas não para seguir para Madrid como supunha, mas para Évora, em que até aí nem pensara.

As razões para esta súbita e inesperada mudança não são para aqui chamadas, nem trariam qualquer ajuda à defesa da proposição atrás enunciada. O que aqui verdadeiramente interessa, é a realidade sucedida que nada teve a ver com planeamento ou necessidade. Das cidades pequenas de que gosto, Évora é um must. Estou sempre pronto a ir até lá, independentemente de razões, épocas ou estações. Mas nunca me tinha sucedido meter-me a caminho desta forma inesperada e sem motivo.

Não sei se por isso, se por qualquer outra coisa, também a estadia teve algumas coisas inesperadas.

Dei comigo a entrar no Turismo e a pedir a Agenda Cultural. Logo três sugestões me chamaram a atenção e imediatamente decidi que iriam fazer parte da minha estadia. Logo nessa noite desloquei-me à Sociedade Harmonia Eborense para assistir a uma peça teatral chamada «Vou a Marte para sempre», uma criação do PIM Teatro, interpretada pelos actores Diogo Duro, João Sérgio Palma e Sandra Horta.

Este grupo de teatro sediado naquela cidade fazia teatro para crianças, tendo feito agora esta peça para adultos, não sei se apenas como experiência, ou apenas porque sim, se por mudança de rumo. Seja pelo que tenha sido, conseguiu vencer esta aposta. Com uma estrutura e carpintaria cénicas extremamente simplificadas, com diálogos de autoria dos actores, conseguem dar uma imagem bastante real do desacerto da maioria dos casais de hoje.

Extremamente divertido, mas ao mesmo tempo sério, é um espectáculo cheio de ritmo e eficácia no envio da mensagem.

O título da peça assenta num facto que trespassa toda a peça que é a impossibilidade do diálogo, o significado dúbio das palavras, a instabilidade emocional. O «Vou a Marte para sempre» que ele diz é completamente diferente do «Vou amar-te para sempre» que ela pensa ouvir.

Uma palavra de tristeza pelo grau de degradação das instalações da Sociedade Harmonia Eborense que bem merecia ajuda autárquica ou de um qualquer mecenas disponível e a precisar de benefícios fiscais.

Uma palavra de satisfação por ver um público jovem, interessado e participativo.

Fui-me deitar satisfeito e um pouco menos céptico.