sábado, março 29, 2008

dinossáurios

Inaugurada em 13 de Março passado e mantendo-se aberta até ao dia 29 de Junho, encontra-se aberta ao público a exposição sobre modelos mecânicos de dinossáurios pertencentes ao Natural History Museum de Londres, em colaboração com o Museu Nacional de História Natural, de Lisboa.
A exposição está montada no Centro de Exposições Freeport, em Alcochete. Não são muitos os modelos expostos, mas pode dizer-se que são de grande qualidade, no que respeita a escala, movimentação, tempos, sons. Impressiona particularmente o Tyranossáurio rex, traduzido por lagarto tirano, com o seu porte majestoso e transmitindo a ideia do seu peso real (sete toneladas). O ladrão de ovos é também um exemplar muito interessante.
A exposição está muito bem montada, a descrição de cada um dos exemplares é suficiente para quem a visita e apresenta exemplos dos vários tipos de alimentação (carne, peixe, ervas).
Existem também modelos de pegadas, dentes, unhas, olhos. Numa mesa circular com gavetas que dão a ver determinados componentes dos modelos expostos, é lançado ao visitante o repto de descobrir a localização do que se mostra. Os jovens não passam sem abrir todas as gavetas e reparar com muita atenção para a real localização de cada uma das peças mostradas.
A meia hora de Lisboa, pela ponte Vasco da Gama, merece uma visita que não se limita a esta exposição mas a uma zona do país que merece também ser visitada.

quinta-feira, março 27, 2008

o carsoscópio do alviela










Fui ontem com os meus netos Matilde e António, ao Carsoscópio, Centro Ciência Viva do Alviela, espaço interactivo de divulgação científica e tecnológica, integrado na Rede de Centros Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica. Este Centro integra um Geódromo, um Quiroptário e um Climatógrafo.
No geódromo, um simulador de realidade virtual com capacidade para 16 pessoas transporta os visitantes numa viagem incrível de 175 milhões de anos, até ao tempo em que os dinossáurios “desenharam” as suas pegadas na rocha calcária da Serra de Aire.
No quiroptário, explica-se a vida dos morcegos, as suas variedades, os seus hábitos e migrações. Os visitantes podem orientar-se pelo som, evitando os obstáculos, podem ouvir ampliado como eles, ter a sensação de estar dependurado com a cabeça para baixo ou pesar-se e ver a quantidade de alimentos que teriam de ingerir se fossem morcegos com o seu peso.
No climatógrafo, tem-se uma visão a três dimensões da bacia de alimentação do Alviela (180 Km2), o que faz dela um dos maiores reservatórios de agua doce. Neste momento, esta reserva poderia abastecer Lisboa durante dois anos.
Além disso este Centro tem possibilidade de albergar estudantes por pequenos períodos, o que lhes permitirá explorar toda a zona do Carso, fazer percursos terrestres, visitar as inúmeras grutas da região.
Toda a zona envolvente do Centro está cuidada, dispondo ainda dum café restaurante bem situado e aprazível.
Um só reparo para a sinaléptica de estrada, pouco clara e com poucas referências ao carsoscópio.
Este Centro inaugurado em Dezembro de 2007, tem sido visitado por escolas e por famílias e já teve cerca de 2000 visitantes.
Recomendo uma visita, pelo que se aprende e pelas emoções que se têm com a realidade virtual que a plataforma nos oferece. Não recomendado a pessoas com problemas vertiginosos, cardíacos e grávidas.

terça-feira, março 25, 2008

estes são os meus netos






Esta é a apresentação pública e bloguista dos meus netos, Matilde (9 anos), António, o Simão Sabrosa de Campo de Ourique (7 anos) e Sofia (2 meses).


domingo, março 23, 2008

os novos pecados

Fomos surpreendidos há dias com os novos pecados capitais que, duma assentada, passaram para treze. Esta nova decisão papal veio trazer grande incomodidade a muitos portugueses. A bastantes, por serem apanhados nas malhas do enriquecimento rápido, a muitos por serem apanhados pelo ambiente que agora acerta contas com quem o tem maltratado. A muitos outros, por serem apanhados nas malhas dos outros quatro.
Quando hoje inadvertidamente dei de caras com esta imagem do comendador Joe Berardo,
que está na net, veio-me à cabeça a dúvida sobre qual será a razão para o comendador ter as mãos como tem.
Estará a pensar que desta vez foi apanhado na teia agora estendida dos novos pecados?
Será por isso que esboça um por de mãos de quem reza? Será que se pergunta por qual deles foi apanhado?
Será que se pergunta - enriqueci rápida e fulgurantemente sem nunca ter criado qualquer benefício a alguém que fosse, sim, é verdade. Mas a minha inteligência, a capacidade de obter lucros, o meu feeling para o negócio, não merecem ser recompensadas? Será isto um pecado?
Será que se pergunta - a minha colecção de arte moderna é realmente boa como me disseram aqueles que ma fizeram comprar ou será que, como muitos pensam, tem algumas peças boas e muitas que poluem a arte e o gosto?
Não sei. Sei que ele está em meditação, a meio caminho entre o rezar e o fazer cruzes canhoto.
Estou convencido de que tenha pensado uma coisa ou outra, passado algum tempo terá parado de o fazer, dizendo - isto não dá lucro, está visto. Vou investir em coisa que seja rentável. Isto dos pecados, se der lucro é só à Igreja. Nem sei porque pensei nisto ...
E o mundo continua a girar e a notícia passou.

quinta-feira, março 20, 2008

parabéns, pai


Foi ontem o teu dia, pai.
Continuo a dizer o que sempre disse - só tiveste um defeito. Morreste cedo de mais.
Aqui fica o meu obrigado e a minha homenagem.

quinta-feira, março 13, 2008

o regresso a quinhentos



Numa das últimas "Única" do Expresso (23 de Fevereiro de 2008), vinha um interessante artigo, de onde obtive a fotografia que ilustra este post, sobre a primeira utilização de uma vela gigante num moderno cargueiro, com a finalidade de poupar combustível e, à boleia desta, com propósitos ecologistas. É claro como água que a razão é fundamentalmente económica e que se não se vier a provar que o sistema resulta de forma satisfatória, logo se esquecerá a fundamentação ecologista.
Segundo o artigo escrito por Nelson Marques, o cargueiro «MS Beluga Skysails» foi o primeiro a utilizar um sistema de propulsão híbrido que em condições atmosféricas óptimas poderá ajudar a poupar 50% do combustível. A viagem inicial e experimental teve início no porto alemão de Bremerhaven no dia 22 de Janeiro e terminou no porto de Guanta, Venezuela, na semana de 11 de Fevereiro.
Quem olha para a fotografia não imagina que a vela, confeccionada com um tecido ultraleve e equipada com sensores que medem a direcção e a velocidade do vento, tem 160 m2 de superfície e se situa a uma altura entre os 100 e os 300 metros. As experiências vão continuar, agora em cargueiros de maior tonelagem e avaliada a poupança nesta viagem pioneira.
Se a economia falar mais alto, poderemos ter a certeza que o ambiente será poupado à contaminação actual pelos dióxidos de carbono e de enxofre, provocada pela navegação comercial, que actualmente representam 4% de todas as emissões.
É curiosa esta tentativa de regresso às velhas técnicas de navegação. Este retrocesso aparente é consequência directa da forma como a humanidade se tem marimbado no ambiente, apesar dos avisos cada vez mais frequentes e cada vez mais intensos que vamos recebendo.
Não sei porquê, mas esta notícia trouxe-me à lembrança aquilo que Einstein disse na década da energia nuclear - «não sei com que armas se fará a 3.ª guerra mundial, mas sei que a 4.º será feita com paus e pedras».

domingo, março 09, 2008

contra a violência

Têm sido vários os debates sobre a violência e a insegurança nas cidades. Penso que este vídeo tem mais força que todas as conversas havidas. Neste caso a imagem impõe-se às palavras. As palavras logo se esquecem, a imagem fica dentro de nós a inquietar, a questionar, a pedir acção de todos nós contra esta praga da violência, filha de outras pragas.


sábado, março 08, 2008

8 de março - parabéns mulheres

Dia Internacional da Mulher. Parabéns a todas e especialmente à minha.



a confirmação, com margot fonteyn e rudolf nurejev

Compreende-se bem que depois de ter conseguido colocar o meu primeiro video neste blog, quisesse ter a certeza de que já o sabia fazer e nada tinha sido por acaso. Por isso, aqui está a prova.


sexta-feira, março 07, 2008

atrevimento conseguido

Só hoje me atrevi a tentar colocar vídeos. Parece que consegui. Se assim for, espero que quem me leia goste do vídeo que escolhi.


quinta-feira, março 06, 2008

o prazer de revisitar videos guardados

Hoje dei comigo a rever alguns dos vídeos, comentários, power points e quejandos que os amigos me vão enviando diariamente e que, por vezes, de tantos serem me deixam quase sem tempo de os abrir. Por isso, quando posso, revejo alguns e dou-me conta de ter recebido algumas pérolas e muitas jóias de fancaria.
Hoje visitei sobretudo sites que me permitem acesso a música de todos os tempos, ligeira e clássica, que ali se encontra à minha disposição e que responde a um simples clic do rato.
Três vídeos me impressionaram mais do que hoje esperava - primeiro a actuação de dois artistas de circo, polacos, exibindo-se em Montecarlo, que ultrapassaram tudo que me foi dado ver até hoje em espectáculo circense no que respeita a coreografia, força, equilíbrio, domínio, coordenação, beleza. A representação viva do que nos parece impossível e impensável. Depois o relembrar de uma grande senhora da canção brasileira, Maysa Matarazzo, cantando em 1975 «último desejo», acompanhada em harmónica vocal por Rildo Hora. Foi um salto de mais de 30 anos nas minhas recordações, rever a Maysa que vi e ouvi cantar no Casino Estoril. Por último, voltar a ouvir o discurso feito por aquela jovem canadiana de 13 anos, na Conferência Mundial sobre o ambiente realizada no Rio de Janeiro, escutar as palavras sensatas e justas por ela proferidas e ver aquela assembleia de representantes do poder mundial, em silêncio total, a deixarem perfurar as suas crostas de indiferença por aquelas palavras arma que uma jovem lhes atirava directamente. Quem a ouvisse e os visse com aquele ar compungido e atento, quase se convencia que por fim eles iriam ser tocados e tomar atitudes.Mas todos sabemos que não foi isso que sucedeu. Eles foram tocados, sim. Naquele momento, talvez durante dias ou meses, enquanto falaram a uns e a outros do que tinham escutado. Mas, tudo ficou por aí. Da jovem ficou em todos uma boa recordação. O ambiente, esse, de tão bem nos conhecer, nem sequer ficou crédulo por instantes. De tanto sofrer os nossos ataques, de tão bem conhecer a nossa indiferença, sabe bem que nós só perceberemos quando tudo tiver chegado ao fim e não houver retorno possível.
De qualquer modo, sabe bem ouvir as palavras justas, a análise correcta sobre a indiferença, mesmo que saibamos que nada acontecerá para além disso - um discurso mais e que venham os croquetes do coffee break...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

a sinagoga de tomar

Pensa-se que já havia uma comunidade judaica em Tomar nos primeiros anos do século XIV. Contudo, a sua Sinagoga só foi construída entre os anos 1430 e 1460. Estavam longe de pensar todos aqueles que a planearam e mandaram construir que ela iria estar breves anos ao serviço do seu culto.

Nada fazia prever que o Rei D. Manuel I, em Dezembro de 1496, mandasse publicar um édito em que dava um prazo aos judeus para se converterem ao Cristianismo ou seriam expulsos de Portugal. Esse prazo foi fixado até Outubro de 1497.

Tudo indica que o rei teria sido pressionado pela sua noiva ou, não o tendo sido, tenha querido mostrar agrado às ideias que ela e seus pais tinham em relação aos judeus. Falo de D. Isabel, filha dos Reis Católicos e viúva do príncipe herdeiro do trono de Portugal, D. Afonso, com quem casara em Novembro de 1490. Em Julho de 1491, D. Afonso teve um acidente a cavalo e morreu em Almeirim.

D. Isabel, casou mais tarde, em segundas núpcias com D. Manuel I, em Outubro de 1497 e viria a morrer poucos meses depois (Agosto de 1498), durante o parto de seu filho D. Miguel da Paz, herdeiro jurado das coroas de Portugal, Castela e Aragão, que, ao morrer dois anos depois, viria acabar com a possibilidade da união dinástica ibérica sob a hegemonia de um rei português.

D. Manuel I viria a casar mais duas vezes – com D. Maria, irmã de Isabel, que lhe deu nove filhos e viria a morrer também de parto, e D. Leonor, filha de Joana a Louca e irmã de Carlos V.

Por força do édito de 1496, foi encerrada ao culto a Sinagoga. Foi então comprada por um particular desconhecendo-se quem a vendeu (a comunidade judaica? o Rei?). Voltou a ser vendida em 1516 para nela ser instalada a Cadeia Municipal, que deixava de estar no Castelo.

Fico a pensar no que se terá passado na cabeça do Rei quando informado da nova localização da cadeia se viu obrigado a publicar uma interessante Carta de excepcionais privilégios que determinava que os cristãos novos não podiam ser presos naquela cadeia. Depois da argúcia e manobra política de inventar os cristãos novos, para impedir que todas as fortunas na mão dos judeus saíssem do país, teve então de fazer nova manobra com esta Carta de privilégios, pois seria afronta demasiada prender judeus no seu local de culto, a Sinagoga.

Em 1542, a Sinagoga foi ocupada pela Câmara e ali permaneceu até 1550. Há registos posteriores de ali ter funcionado uma ‘Ermida de São Bartolomeu’ na qual se celebravam casamentos em 1613.

Segundo o Prof. Santos Simões, a profanação da Sinagoga teria sucedido no século XIX. Em 1 de Junho de 1885 era apenas uma casa térrea, servindo de palheiro. A 10 de Junho de 1920, segundo dados da própria Sinagoga, aquando da visita de um grupo de Arqueólogos Portugueses, havia ali uma adega e armazém de mercearias.

Por decreto de 29 de Junho de 1921 foi o edifício classificado como Monumento Nacional. Apesar desta classificação, o abandono e degradação em que se encontrava, levou Samuel Schwarz a comprar o edifício em 5 de Maio de 1923, que acabou por doar ao Estado em 29 de Março de 1939, com a condição expressa de ali ser instalado um Museu Luso-Hebraico, nome que foi homologado pelo Despacho ministerial de 27 de Julho.

Hoje em dia o Museu Luso-Hebraico Abrahan Zacuto pode ser visitado no n.º 73 da Rua da Judearia, antiga Rua Nova.

É uma visita que se recomenda a quem visite Tomar. Embora exteriormente o edifício não se encontre nas melhores condições, interiormente está bem conservado e as suas colunas e abóbadas merecem e despertam olhar atento e demorado.

Olhando as suas paredes e vendo as suas janelas tapadas, entende-se logo que elas foram fechadas porque da antiga Sinagoga resulta apenas esta sala de culto, tendo desaparecido grande parte do edifício inicial, hoje habitações particulares.

Quase de uma forma constante há uma pergunta que se ouve entre os visitantes – para que serve ou porque está ali na parede aquele vaso de barro voltado para baixo? A explicação não demora – se repararem, em todas as paredes e à mesma altura encontram-se buracos circulares e dentro da parede encontra-se em cada um deles um destes vasos de barro. Eles serviam como amplificadores dos sons e assim os transmitiam para galerias de outros espaços, onde se encontravam as mulheres e que, ouvindo através daquele sistema acústico, podiam acompanhar o culto a que só os homens podiam assistir.

A beleza do espaço não é acompanhada pela dos objectos ali expostos, com raras excepções. Mas vale a visita, mesmo que seja só uma parte da Sinagoga que ali está desde 1460.


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

revisitando os monty python

Confesso que não tinha posto grande esperança neste espectáculo de revisitação de alguns sketches dos Monty Phython, embora tivesse confiança na equipa que se propusera fazê-lo. A tradução e adaptação de Nuno Markl dava alguma garantia e a interpretação de António Feio (também encenador), Bruno Nogueira, Jorge Mourato, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme, sossegavam-me bastante quanto ao sucesso desta aventura.

Estava, contudo, longe de imaginar de que iria gostar tanto e, sobretudo, de que iria rir-me tanto. Por mais que se possa pensar que o riso é contagiante e que ninguém pode ficar indiferente ou imune a uma plateia que ri, o certo é que eu sei que ri, não por isso, mas porque o texto e a representação me proporcionaram essa boa e insuperável receita profilática de acidentes cardíacos, depressões e vida breve, que é o riso.
O espectáculo tem ritmo, está equilibrado, nunca cai em zona negativa e tem momentos ou picos de grande gargalhada (é quase impensável que se possa rir à gargalhada com um humor tão fino, tão marcado culturalmente, com tantas referências).
Parece sempre deselegante destacar-se um ou outro momento, um ou outro actor, em espectáculo tão homogéneo e perfeito. Mas, seja deselegante ou não, não posso deixar de salientar dois sketches particularmente - aquele em que o Papa (José Pedro Gomes) conversa e repreende o pintor Miguel Ângelo (Miguel Guilherme) por não ter pintado «A Última Ceia» de forma correcta e como lha tinha encomendado e aquele outro em que um humorista resolve escrever uma piada mortal, a que ninguém possa resistir, tal o riso que despertará. As mortes em série de todos aqueles que a liam levam à sua utilização como arma de guerra ....
Espectáculo conseguido, com inteira adesão do público que enchia totalmente o teatro.
Dá gosto ver estas duas coisas - um espectáculo conseguido e uma sala de teatro cheia.

sábado, fevereiro 09, 2008

no quarto centenário do nascimento do padre antónio vieira

Com um atraso de três dias, o que nada significa em 400 anos, associo-me às comemorações do nascimento do Padre António Vieira. E faço-o de forma diferente de todos os meus posts.

Não me sinto capaz de sobre ele escrever na medida em que a minha escrita nada é ao pé da sua. A melhor forma que encontrei para lhe prestar homenagem é transcrever uma parte do Sermão aos Peixes que ele fez em São Luíz do Maranhão em 1654. Quase quatrocentos anos depois, reparem na actualidade deste texto.

(…) A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. (…) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.
Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa, come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. (…) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.
(…) A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem… Parece-vos bem isto, peixes? Representa -se -me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens. Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos. Assim foi; mas se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviriam estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos, quando lá chegam, acham outros maiores que os comam também a eles. (…)

Extracto do Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, pregado em S. Luís do Maranhão em 1654.

Imagem superior copiada do livro Padre António Vieira, O Imperador da Língua Portuguesa, editado pelo Correio da Manhã, com capa de Virgílio Beatriz

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

scope


E que território de mal-entendido mais universal existirá que o do amor? Assim pergunta Rui Horta quando explica a sua nova criação «Scope», viagem entre o «como és» e o «quem és», o «como» e o «quem», o «vai-vem» entre a razão e a emoção, entre o «que vemos» e o «que queremos ver».

Magnificamente interpretado por Romeu Runa e Elisabeth Lambeck, com conceito, espaço cénico, textos, cenografia, desenho de luz e multimédia de Rui Horta.

Espectáculo diferente, com envolvimento de bailarinos e espectadores. Todo o desenvolvimento de Scope se faz no palco para onde os espectadores são conduzidos no início do espectáculo. Pulseiras de cor são colocadas, à entrada, nos pulsos de cada espectador, com cor diferente para cada sexo.

O espectáculo começa com os bailarinos, cada um em seu palco elevado, dançando em ambiente de discoteca e a pouco e pouco transfigurando os seus corpos, colocando músculos onde os não havia, nádegas e mamas onde fariam falta. Começando a mentira.

Só bastante depois as pulseiras se explicam – quando os espectadores são convidados a colocarem-se num quadrado de chão com a sua cor e a segui-lo para onde ele o levar. Começa a participação do público no espectáculo e a sua integração. Com o jogo dos quadrados duas plateias se formam, no palco. E começa o bailado, o jogo do amor e da verdade. Aprofundar o olhar sobre a comunicação e as inevitáveis fronteiras que entre nós colocamos.

E como diz Rui Horta - E que território de mal-entendido mais universal existirá que o do amor?

É bom ver-se uma nova dimensão do bailarino, dançando, representando, falando. Gostei muito e aconselho.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

das marchen

No dia 25 de Janeiro de 2008, sentei-me na plateia do Teatro Virgínia, em Torres Novas, para assistir em directo, via satélite, à estreia absoluta da ópera em um prólogo e dois actos «Das Marchen», de Emmanuel Nunes. Obra encomendada pelo Teatro Nacional de São Carlos, Casa da Música e Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian. Direcção musical de Peter Rundel e encenação de Karoline Gruber. Orquestra Sinfónica Portuguesa, Coro do Teatro Nacional de São Carlos e Remix Ensemble. Esta ópera é baseada no conto «Conversas de Exilados Alemães» de Johann Wolfgang von Goethe.

A história remete-nos para um universo maravilhoso assente numa teia de alegorias e símbolos esotéricos. Uma serpente que se reveste de diversos significados, encontra a sua sublimação na forma de uma ponte que liga as margens do rio e todos os pontos antagónicos, proporcionando um estado de serenidade, sabedoria e felicidade, segundo o catálogo

Emmanuel Nunes (e cito do catálogo) iniciou os seus estudos em Harmonia, Contraponto e Fuga em 1959 com Francine Benoit na Academia de Música de Lisboa. Daí em diante foi todo um percurso recheado de grandes mestres, como Lopes Graça, Henri Pousseur, Stockhausen, Boulez e mais uma dezena deles.

Ensinou e ensina em várias Universidades e Escolas Superiores de Música e é Doutor Honoris Causae pela Universidade de Paris VIII. Prémio CIM-UNESCO em 1999 e Prémio Pessoa em 2000.

Que dizer de Das Marchen? Gostei, mas achei-a muito longa. O que, partindo do princípio que este tipo de música ainda não se impregnou na nossa pele e nos nossos sentidos, pode ser perigoso para uma total adesão e para a conquista de mais público.

Aplaudo a ideia da transmissão directa para 14 teatros de Portugal. Uma boa forma de difundir a cultura e ajudar à educação musical de um povo.

gravuras de dali na fundação eugénio de almeida


Aproveitei a estadia em Évora para visitar a exposição de gravuras de Salvador Dali que está patente na Fundação Eugénio de Almeida.

Estas gravuras foram feitas em 1951, especialmente para ilustrarem a edição da Divina Comédia, comemorativa dos 700 anos do nascimento de Dante Alighieri, a pedido do Governo de Itália.

Conheço bem a obra de Dali e visito-a com alguma frequência no seu Teatro-Museu em Figueres, perto de Barcelona. Ainda há cerca de um ano visitei outra exposição de gravuras na Casa do Brasil, em Santarém. Tenho a sorte de poder olhar e manusear «Os 10 mandamentos» e «Os sete dias da Criação», duas colecções de medalhas em boa hora editadas pela ourivesaria Soller Cabot de Barcelona, vão lá mais de 25 anos.

Pode não se gostar de Dali Homem, mas não se pode ignorar o artista, um pouco de génio, um pouco de louco, muito de provocador, que trabalhou incansavelmente e nos deixou um legado enorme da sua arte única e pessoal.

A exposição apresenta 100 gravuras, de estilo e beleza desigual. Destaco Centauro, o tentador de donzelas e Cérbero, o guardião do reino dos mortos.

Muita gente a visitar a exposição, de todas as idades.

o teatro garcia de resende

Tinha lido na Agenda Cultural que hoje havia teatro no Garcia de Resende. A peça dava pelo nome de «Cabaré de Ofélia», da autoria de Armando Nascimento Rosa, anunciada como, e sirvo-me da Agenda, obra inédita, cómica e dramática, poética e musical, que revisita teatralmente o universo do modernismo português, da geração de «Orpheu».

Com tempo, dirigi-me à bilheteira do Teatro Garcia de Resende para comprar, com antecedência, bilhete para essa noite. Com tristeza recebi a notícia de que não haveria espectáculo por um dos artistas ter sofrido um acidente. Tristeza tripla – porque a causa tinha sido um acidente, por não ver o espectáculo e por não revisitar o Garcia de Resende depois das obras havidas.

Quando manifestei esta tripla tristeza, prontamente uma das integrantes do CENDREV se prontificou a acompanhar-me numa visita ao teatro. Foi uma visita guiada magnífica, em que tive oportunidade de rever os primitivos Bonecos de S. Aleixo que ainda ali se encontram em bom estado de conservação. No palco vi várias pessoas que faziam parte de um grupo de teatro que proximamente ali quer apresentar uma peça e previamente verificavam as condições cénicas do teatro. Confirmei que havia colaboração e disponibilidade. No salão nobre havia uma reunião de trabalho sobre programação e calendário de trabalho. Confirmei que havia trabalho e planeamento.

Soube também da parceria existente com outros teatros, nomeadamente com o Teatro da Trindade, o que me vai permitir assistir em Lisboa à peça que hoje me foi impossível ver em Évora.

E, brevemente, fins de Fevereiro, princípio de Março, a Companhia de Évora apresentará Goldoni no Teatro Nacional D. Maria II.

Apesar das escassas verbas da Cultura e do apoio ao Teatro, podemos ver que algo mexe e que, para que isso suceda, mais do que as verbas e os apoios, conta a vontade, dedicação e amor de quem ama o Teatro e o dá a ver.


terça-feira, fevereiro 05, 2008

o museu de arte contemporânea de elvas e a colecção antónio cachola

Hoje resolvi dedicar a manhã a visitar o novíssimo Museu de Arte Contemporânea de Elvas.

Estacionado o carro no parque subterrâneo do centro histórico daquela cidade, facilmente localizei o museu que ali me levava. Instalado no edifício do antigo Hospital, apresenta-se este bem recuperado, conservando a beleza da sua traça inicial.

A Colecção António Cachola é constituída por obras de 72 autores portugueses, dispostas em várias e amplas salas de dois pisos, com uma circulação fácil e bem definida, dispondo de sinalética apropriada e apoio permanente de gentis, bonitas e agradáveis funcionárias.

Não vou aqui falar de todas as peças ali expostas, mas apenas de 3 ou 4 que mais me impressionaram, por uma ou outras razões, minhas, que poderão ou não ser coincidentes com as de outros visitantes.

Falar aqui desta Colecção e deste Museu tem por finalidade dar-vos a minha opinião, pese embora não ma terem pedido, e tentar aliciar-vos para uma visita a este novo museu.

Quase logo à entrada encontra-se uma peça interessantíssima da autoria de Miguel Ângelo Rocha, intitulada «Maqueta para Paisagem», de 1997.

Logo a seguir e quase bloqueando a porta que dá acesso à sala seguinte, propositadamente, está uma peça muito representativa do estilo pessoal da artista Joana Vasconcelos, intitulada «Wash and Go», que parte da ideia de aproveitar dois rolos de lavagem automática de carros e transfigurá-los substituindo as escovas por centenas de meias de senhora de várias cores. Não sabia na altura em que a vi que ela me iria compensar da ausência temporária (por se encontrar exposta em Londres) de «A Noiva», da mesma autora, que era a peça que eu mais gostaria de ter visto nesta visita.

Um destaque para uma peça monumental, ocupando a quase totalidade de uma das amplas salas do museu, da autoria de João Pedro Vale, intitulada «A Culpa não é Minha», de 2003, tronco gigante de árvore derrubada, feita em arame e corda.

Um acrílico sem título, de 1999, de Ilda David, brilha numa das paredes de outra sala.

De repente, a um canto de uma das salas maiores, vejo uma porta entreaberta que dá acesso a uma pequena sala, transformada em auditório intimista, onde corre um vídeo de João Onofre que é um dos documentos mais fortes, violentos e vivos que me tem sido dado ver, sobre a indiferença e a solidão humana. Não é possível traduzir em palavras todo o impacto que provoca. Há que ver e ouvir. De qualquer modo, imaginem até o poder ver, um homem alto, elegante, de grande vitalidade, com a cabeça envolvida numa máscara gigantesca e horrível, arrepiante, quase gigantone, e cuja visão não pode passar desapercebida a quem a veja, mesmo de soslaio. Agora, continuem a imaginar e a juntar a essa imagem uns sapatos de sapateado e o som metálico que produzem. Coloquem o homem dentro de autocarro da Carris, saindo no Rossio, caminhando pela rua do Ouro, subindo depois a do Crucifixo, entrando na estação do Metro Baixa-Chiado, descendo as escadas rolantes até à plataforma onde vai esperar a próxima composição do Metro, onde entrará. Imaginem agora a caminhada deste homem, sempre sapateando, algumas vezes dançando, tendo sempre por fundo a música metálica do sapateado e na outra extremidade a cabeça arrepiante já descrita.

Pois é. Uma ou duas mãos chegariam para contar as pessoas que olharam para ele e o viram. À volta dele, caminhando e esperando com ele, um deserto humano, passando por ele, em passo acelerado ou lento, todos mergulhados nos seus pensamentos, preocupações, tragédias, maquinações, alheios a todo o resto. Ninguém verdadeiramente parou, ninguém lhe dirigiu a palavra, ninguém questionou coisa alguma, mesmo aqueles que iam acompanhados.

Impressionante.

O museu dispõe de uma magnífica cafetaria no último piso (o 5.º), com um amplo terraço com vista privilegiada sobre Elvas. Bom atendimento, boa qualidade da oferta e bons preços. Tem também uma loja de vendas.

Um senão que me custa registar, mas já registando (como dizem os brasileiros) – ao longo deste percurso fui perguntando a várias funcionárias quem era o homem que dá nome à Colecção que ali se mostra. António Cachola. Por incrível que pareça nenhuma delas me soube dizer quem ele era, se novo, se velho, o que fazia, onde nascera, … Apenas uma me adiantou, mas com duvidosa certeza, a terra onde vivia!

Como é possível trabalhar numa instituição que tem um nome e não se saber de quem é esse nome? Culpa das funcionárias ou de quem as devia ensinar? Falta de curiosidade, apenas?

São estes apenas que fazem de nós o povo que somos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

a minha inesperada ida a évora


A verdade é que não podemos dizer - vou fazer isto ou aquilo - com o grau de certeza com que normalmente o fazemos. Cada dia me parece mais evidente que cada vez há menos certezas, apesar da ciência e a investigação todos os dias nos dizerem e mostrarem, o contrário do que agora acabei de afirmar.

Vem isto a propósito dum facto recente, aparentemente sem importância, mas que para mim teve pelo menos a de me levar a escrever este post.

Não tinham passado vinte e quatro horas de eu ter feito a reserva do hotel em Madrid para cinco noites e de ter anulado vários compromissos que tinha assumido anteriormente e eis que me encontrei inesperadamente a cancelar a reserva do hotel, a colocar o saco de viagem no carro, mas não para seguir para Madrid como supunha, mas para Évora, em que até aí nem pensara.

As razões para esta súbita e inesperada mudança não são para aqui chamadas, nem trariam qualquer ajuda à defesa da proposição atrás enunciada. O que aqui verdadeiramente interessa, é a realidade sucedida que nada teve a ver com planeamento ou necessidade. Das cidades pequenas de que gosto, Évora é um must. Estou sempre pronto a ir até lá, independentemente de razões, épocas ou estações. Mas nunca me tinha sucedido meter-me a caminho desta forma inesperada e sem motivo.

Não sei se por isso, se por qualquer outra coisa, também a estadia teve algumas coisas inesperadas.

Dei comigo a entrar no Turismo e a pedir a Agenda Cultural. Logo três sugestões me chamaram a atenção e imediatamente decidi que iriam fazer parte da minha estadia. Logo nessa noite desloquei-me à Sociedade Harmonia Eborense para assistir a uma peça teatral chamada «Vou a Marte para sempre», uma criação do PIM Teatro, interpretada pelos actores Diogo Duro, João Sérgio Palma e Sandra Horta.

Este grupo de teatro sediado naquela cidade fazia teatro para crianças, tendo feito agora esta peça para adultos, não sei se apenas como experiência, ou apenas porque sim, se por mudança de rumo. Seja pelo que tenha sido, conseguiu vencer esta aposta. Com uma estrutura e carpintaria cénicas extremamente simplificadas, com diálogos de autoria dos actores, conseguem dar uma imagem bastante real do desacerto da maioria dos casais de hoje.

Extremamente divertido, mas ao mesmo tempo sério, é um espectáculo cheio de ritmo e eficácia no envio da mensagem.

O título da peça assenta num facto que trespassa toda a peça que é a impossibilidade do diálogo, o significado dúbio das palavras, a instabilidade emocional. O «Vou a Marte para sempre» que ele diz é completamente diferente do «Vou amar-te para sempre» que ela pensa ouvir.

Uma palavra de tristeza pelo grau de degradação das instalações da Sociedade Harmonia Eborense que bem merecia ajuda autárquica ou de um qualquer mecenas disponível e a precisar de benefícios fiscais.

Uma palavra de satisfação por ver um público jovem, interessado e participativo.

Fui-me deitar satisfeito e um pouco menos céptico.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

uma certa forma de ser português

Estes seis últimos meses foram fortemente positivos para um pequeno restauro da auto-estima dos portugueses.

Pela última vez, Portugal ocupou a presidência da União Europeia e desempenhou os seus cargo e encargo com exemplar eficácia, dando mostra de um planeamento correcto, sem falhas ou quase sem elas. Para além disso a sua agenda incluía alguns acontecimentos de grande dificuldade, possíveis geradores de grande sucesso se bem concretizados ou de um grave prejuízo para os organizadores, se o resultado fosse o insucesso. Uma presidência que pelas suas características e importância, excedia as que se têm passado em outras presidências da União.

Se se tivesse tratado de um jogo, poderíamos dizer que Portugal quando se apanhou com o baralho de cartas nas mãos, baralhou, partiu, e deu cartas, sem nunca as mostrar e conservando sempre os trunfos, ases e manilhas que lhe permitiram ganhar exemplarmente esse jogo.

O jogo diplomático foi excelente, baseado em trabalho árduo e difícil, beneficiando duma experiência diplomática de séculos. Pode dizer-se que a diplomacia portuguesa conseguiu levar a bom porto o navio de encargos que a muitos parecia fadado para naufragar.

A organização dos eventos foi impecável e regida ao segundo e se alguma vez houve discretos atrasos, estes foram sempre de responsabilidade dos próprios. Tudo certo no tempo e nos lugares. Desde o logótipo à cor escolhida, às salas de trabalho ou de convívio, tudo transpirava um sentido estético apurado, cereja no topo do bolo da eficácia.

A segurança, sobretudo se tivermos em conta o número de altas entidades, nunca visto em Portugal, e a pequena disponibilidade dos efectivos de segurança portugueses (o caso dos batedores, por exemplo), foi exemplar e eficaz.

As refeições de trabalho e os banquetes, foram sóbrias, de bom gosto, de sabores portugueses e mereceram o aplauso de todos os comensais. Até o Vinho do Porto de 1957 não faltou e o champanhe foi português.

Então, se tudo foi assim, porque razão ou falta dela, houve vozes discordantes, vozes de oposição que, mesmo quando não podiam deixar de dizer bem, fosse do que fosse, logo encontravam ocasião para dizer que, no entanto, poderia ter sido melhor. E quando se encontravam perante factos tão evidentemente positivos que seria difícil ignorar, mesmo assim, arranjavam uma qualquer forma de dizer, desvalorizando, roubando prestígio a Portugal, só porque este, neste momento, estava representado por um clube de cor diferente. O eterno problema português – cada um a querer ter a sua própria quinta, o seu próprio apito para se fazer ouvir e respeitar.

Somos uma manta de retalhos de paixões clubistas e partidárias, mostrando-nos quase sempre incapazes de, mesmo quando é preciso, o bom senso e o patriotismo impõem, vestirmos a camisola nacional.

Quando seremos capazes de ver com clareza quando devemos aplaudir ou criticar? Quando seremos capazes de aplaudir livremente os adversários, sempre que estes mereçam os aplausos de todos? Quantos de nós, assistindo a um desafio de futebol, serão capazes de aplaudir o golo magistral que a equipa adversária acabou de meter na nossa baliza? Será que não somos capazes de ver, já não digo apreciar, o desenho primoroso da jogada, o entendimento da equipa, o pontapé certeiro, o golo de levantar estádios? Porquê, em vez de aplaudirmos, assobiamos?

Porque será que sempre pensamos que somos capazes de fazer melhor do que os outros, mesmo sabendo de nossas fraquezas, menor competência e tarefas falhadas? Somos sempre levados a pensar que o nosso trabalho, a nossa obra, é de extrema dificuldade e alta valia enquanto o trabalho dos outros (portugueses, of course) é fácil, pouco necessário ou dispensável.

Não me parece que tenhamos sido sempre assim, mesmo sabendo que, já há cinco séculos, houve os Velhos do Restelo.

Tudo isto a propósito da presidência portuguesa da União Europeia, do seu sucesso e das invejas havidas. Sem querer, mas ao correr do texto, acabei por escrever a palavra que talvez defina melhor a situação em questão – inveja.

Esta presidência não foi pêra doce. Não foi tarefa fácil levar a cabo pelo menos três pontos da agenda – a Cimeira com o Brasil, a discussão e assinatura do Tratado de Lisboa e a Cimeira Europa-África.

Todas estas tarefas foram cumpridas e da melhor forma. Todas elas tinham barreiras a eliminar, caminhos a definir, pontos de vista aparentemente incompatíveis que a nossa arte de negociar transformou em compatíveis.

Com sageza e diálogo, tudo se conseguiu. Os direitos humanos não foram esquecidos e os recados foram dados aos destinatários. Poderá pensar-se, e dizer-se, que de pouco terá servido enviar esses recados e que tudo irá continuar na mesma. Pode até suceder. Mas um primeiro passo foi dado e daqui para o futuro os contactos serão mais fáceis, as críticas mais fáceis, o entendimento mais constante. Uma árvore demora muito tempo a crescer e a dar frutos, mas nunca haverá árvore sem a semente inicial.

Esta foi uma presidência de esperança e de futuro. Por isso devem ser aplaudidos aqueles que a levaram ao fim, com o sucesso reconhecido por quase todos. Pena que alguns mais clubistas lhe tenham querido tirar o brilho.

terça-feira, novembro 13, 2007

a propósito de culpa


Já percebi que tenho de deixar de fazer promessas neste blog. Continuarei a avisar das minhas ausências forçadas, mas jamais direi quando voltarei, com ar de quem estima a precisão. Já lá vai o tempo em que apesar da vida dinâmica e super atarefada que eu levava, conseguia cumprir horários e raramente cometer a indelicadeza de deixar os doentes ou os amigos à minha espera. Sucedeu, é evidente que sim. Mas, tão raramente, tão forçosamente inevitável, que quase se pode dizer que nunca o fiz. Lembro-me, muitas vezes, de como nessas raras ocasiões em que me atrasava, por força de alguma intervenção cirúrgica que inesperadamente requeria mais tempo do que o esperado, eu mandava avisar os doentes da minha já provável demora e lhes mandava dizer que poderiam ir dar uma volta, fazer qualquer coisa, pois só chegaria por volta da hora X. E o que me faz lembrar disto com alguma frequência, não é o facto de os avisar, mas sim a cara de espanto que eles mostravam, quando após a entrada no gabinete de consulta eu lhes pedia desculpa pelo atraso. Era tal o espanto que eu me sentia um extraterrestre. Era tal o "poder" médico nessa altura que eles nunca esperariam que alguém lhes pedisse desculpa, mesmo que os tivesse feito esperar, porventura desorganizado as suas vidas.
Sempre procedi assim e não será agora que vou mudar. Mas agora, é tal a falta de domínio do meu tempo, que tenho receio de falhar sistematicamente. Com obrigações assumidas jamais falharia ou falharei. Se tenho um artigo para entregar, uma palestra para fazer, uma revisão com prazo limite, poderão estar sempre descansados todos aqueles que tal me solicitaram. O problema pôe-se ou, melhor dizendo, pôe-se-me, em tudo aquilo que não está programado ou é assumido como obrigatório. É o caso deste blog. Não tenho horário de trabalho, não tenho compromissos assumidos e só quando me lembro e, sobretudo, quando me apetece, é que aqui venho escrever sobre tudo ou nada, sobre os outros ou sobre mim. Pode dizer-se que é uma escrita em liberdade, mas não é. Acaba por ser mais livre aquela para a qual tenho prazo. Nessa, se aceito a incumbência e o prazo, não tenho qualquer problema. Nesta, em que aparentemente sou livre de escrever ou não escrever, sinto uma culpa enorme quando o não faço. Culpa, porquê, se não estou amarrado a compromissos e a cumprimento de qualquer palavra? Não me perguntem porquê. Só sei que é assim. Um dia voltarei ao tema, quando o souber explicar. Mas aqui fica o aviso - sem compromisso e sem data marcada.

terça-feira, outubro 02, 2007

a reforma e a falta de tempo

Tenho tido muita dificuldade em adaptar-me a este novo tipo de escrita em blog. Falta-me tempo para assegurar continuidade regular. Dirá quem me conhece - como podes ter dificuldade em escrever todos os dias, se estás reformado e tens todo o tempo do mundo. Penso que só dirá isto quem não está ainda reformado. Não creio que eu seja excepção entre os reformados mas sei que eu (e repito - não acredito que seja só eu), não tenho tempo para nada ou, dizendo melhor, cada vez tenho menos tempo para tudo. Não só em termos absolutos, mas relativos.
Todos os dias me lembro e mais do que uma vez, que tenho de ir escrever qualquer coisa no blog. Só que, logo se mete qualquer coisa que me vai impedir de o fazer. Acresce ainda que quando acima escrevi «qualquer coisa», era apenas uma forma de dizer, porque se fosse para escrever qualquer porcaria o caso era diferente. Penso que só se justifica escrever no blog quando se tem algo para dizer ou comentar ou sugerir aos outros. Algo que os inquiete intelectualmente e desperte neles inquietação ou bem estar.
Relendo este curto texto, verifico a contradição que aqui vai, pois não me parece que, até aqui, tenha inquietado seja quem for, pela simples razão que nada escrevi que o possa fazer. Enfim, contradição ou exercício prático, visando uma melhor e mais rápida habituação.
De 7 a 17 de Outubro estarei em Budapeste e em Génève e não tenho portátil para poder ir escrevendo. E, mesmo que tivesse, continuaria sem tempo.
Vai demorar, mas sei que chegarei lá. Vocês, provavelmente é que não gostarão desta última consideração. Bom, se for caso disso, não me visitem. Só contradições ...

quarta-feira, setembro 19, 2007

só para retomar a conversa

Já regressei há dois dias, mas ainda não tive um minuto que fosse, para poder tentar escrever algo neste blog. Hoje, que a situação melhorou e me encontro com algum tempo para o fazer, não sei sobre que escrever, pois nenhum dos temas que prontamente se perfilam, para que eu sobre eles omita opinião, não me conseguem despertar resposta imediata. Refiro-me às três «novelas» de momento - o caso Maddie e o envolvimento directo e empenhado de Gordon Brown, o novo Código Penal e o frente a frente de ontem, dos dois cromos do PSD na SIC Notícias.
De qualquer modo e só para criar apetite para novos posts, sempre digo que me parece espantosa a posição de Gordon Brown que, após uma aparente retirada (à imagem do que o Vaticano fez no seu site), parece agora ter dado um passo em frente dispensando do seu gabinete o jornalista da BBC, agora transformado em assumido porta voz dos MacCann (e diz o irmão de Gerry, na entrevista ao Expresso, que «o caso não é político, mas apenas policial!...».
Sobre o novo Código Penal quero apenas referir que estou completamente de acordo com todos aqueles que dizem que a sua entrada em vigor foi desastrosa, com um prazo de 15 dias que já mostrou ter sido ou um erro ou uma desatenção graves. Sobre o Código em si, não tenho capacidade para ter opinião segura, pois não sou jurista, não o li, nem penso ler. Mas das muitas opiniões que tenho escutado e lido, parece haver coisas positivas, bem mais do que as negativas. Não tivesse sido o alarmismo que a comunicação social criou e tudo teria sido mais sereno. Mas, pergunto - será verdade que esta pressa e a forma como está redigido, interessa sobretudo aos advogados e aos interesses económicos? Gostava muito de o saber, explicado por quem sabe. Não gostava nada de o saber, pela verificação de factos consumados.
Quanto à entrevista de ontem ainda não ouvi os habituais comentadores tecerem aquelas suas decisivas e indiscutíveis opiniões, sobre o real valor do frente a frente e sobretudo sobre quem foi o vencedor. Por mim, tenho a minha opinião. Não sou parte interessada, não tenho nada a ver, nem quero, com tais senhores ou a organização a que pretendem presidir, mas pareceu-me evidente que a cassete de mm está completamente gasta, repetitiva, sem interesse ou conteúdo, não mostrando um lider, mas alguém que nunca o será. Não me pareceu que tenha respondido uma vez que fosse a LFM e vi-o muitas vezes encostado às cordas. E no que respeita a sentido de Estado, pareceu-me ser mais visível no adversário que soube compor bem essa figura, mesmo que todos saibamos que não é o seu forte. Se valeu a pena? Creio que não. Provavelmente uma vitória de secretaria, tudo em volta do número dos que estão autorizados a votar. Uma questão de prazo para pagar as quotas. Também aqui, tal como no Código Penal o prazo parece ter sido curto.
Será o nosso problema? Continuamos a ser um país a prazo?

sexta-feira, setembro 07, 2007

até breve

Vou estar ausente uma semana. Não é que faça falta a alguém esta informação, pois embora visitem o blog, é pouco frequente manifestarem-se, concordando ou discordando, aplaudindo ou assobiando. Por isso, é informar por informar. O certo é que não me sentiria bem se o não fizesse, pois bastaria que um leitor aqui viesse em vão para me sentir culpado. Culpa não será a melhor palavra a usar, mas serve. Hoje, estou por tudo. É como se já tivesse partido.
O que não serve e eu não posso ignorar é que no último post cometi um erro informativo quando escrevi que os Cann «deram à sola», uma vez que o correcto seria ter escrito «preparam-se para dar à sola». Tanto quanto sei, neste momento, posso talvez dizer que já nem isso poderão fazer, pois ela já é arguida e ele, logo se saberá.
Talvez no meu regresso eu escreva sobre este caso, colocando todos os problemas que tal caso levanta.
Até breve. Fiquem bem que eu vou por gosto. Não vou para a guerra.

quinta-feira, setembro 06, 2007

a novela continua

Continua a novela Maddie. Dizem-nos que chegaram hoje os resultados das análises feitas em Inglaterra. Resultados? Não era só um? Saber a quem pertencia o sangue encontrado no apartamento do Ocean Club? Não revelaram os resultados, mas anunciaram novos desenvolvimentos. O que virá aí? Entretanto o amável casal (não amavam eles Maddie?), os cautelosos e superprotectores pais de Maddie, cansaram-se de Portugal - de onde garantiam não sair enquanto tudo não fosse esclarecido - e deram à sola, com direito a fotografias e páginas de texto de cordel nas revistas cor de rosa. Não fosse um drama, tudo pareceria rosa. Choque, claro.

domingo, setembro 02, 2007

considerações de pré-férias

Estranha esta sensação de me lembrar que dentro de dias estarei em férias oficiais e isso não me traz alegria, mas antes um incómodo velado como se em vez de ir para o paraíso vá para uma qualquer condenação. Penso no muito que tenho para fazer, nas tarefas com que me comprometi, que têm datas que tenho de respeitar, não vejo os trabalhos feitos ou escritos e sinto um desconforto que não me agrada. Sei que normalmente é isso que sinto antes de ter feito o que tenho para fazer e sei também do prazer imenso de o fazer e de chegar ao seu fim. Sei ainda que gosto, sobretudo, quando eu próprio gosto do que fiz e sinto que os outros gostaram.
Por mais incómodo ou desconforto que esteja a sentir, nada posso fazer. Porque sei que quando estiver de férias novas coisas absorverão a minha atenção e me irão enriquecendo e fazendo bem.
Porque é que escrevi isto? Não bastava senti-lo?